Greve ou locaute não importa. O problema não está nas estradas, mas nos palácios.

E até as pedras sabem disso. Mas, ao que parece, os generais (ainda) não.

Até as pedras. Mas ao que parece os generais não. Em geral o brasileiro pensa sua vida de posições fixas de credos políticos e ideológicos e se divide em times segundo essas camisas que veste. Os que são a favor e contra o armamento. Contra e a favor os direitos humanos. Contra e a favor à intervenção armada. E por aí… vai. Até que a realidade simplesmente caiu na cabeça… como agora.

O desfecho mais previsível, e ao mesmo tempo mais absurdamente ignorado pela cegueira coletiva e anestesia de todo um país, bate a nossa porta, na sua forma mais clara, quer gostemos ou não. O emprego das forças de fato não é uma opção ideológica, mas um imperativo. E não estou falando contra o sintoma, com a reação dos caminhoneiros por sinal justa e legítima. Mas contra um governo não só ilegitimo mas pública e notoriamente criminoso, que conduziu e levou o país a e este estado não só por sua completa falta de competência ou noção para estar onde está, mas com sua pilhagem e omissão criminosas.

A Venezuela agora é aqui. O nosso Maduro, chama-se Temer. Chegou a um ponto sem saída, onde só o emprego da força é capaz de tirar o país do estado de emergência que se encontra, mas o emprego dessa força armada não é contra a população que não causou, não causa, nem causaria, nem causará problema algum, mas sim contra os parasitas que são a doença e não estão parados na estradas, mas nunca pararam de se mover nos porões do palácios. A propaganda governamental não cola. Não adianta tentar vender esse pessoal como marginais ou baderneiros profissionais, quando nem sindicalistas pelegos eles são. São trabalhadores que estariam fazendo o que fizeram por toda sua vida, o que faziam ano passado, semana passada, se não houvesse uma única pecinha, uma horda de canalhas que deveria ter sido removida e enterrada junto com a sua predecessora. Mas que foi mantida para fazer um serviço sujo. Serviço sujo que nem esse, conseguiu executar.

Sim. Não há como negar. Não há como deixar as coisas como estão. Porém, não é sobre quem, com legitimidade protesta contra essa condição insuportável que a força de fato deve se voltar, mas contra quem colocou eles e a todos nós nela. Estamos fugindo do óbvio, do inevitável. A republica e democracia que nunca passaram de um circo para os privilegiados acabou, ora de enterrar os mortos vivos que fazem a vida do brasileiro um filme de terror. Mas aí que está o problema e o perigo. E quem disse que os salvadores da pátria estão do nosso lado? E quem disse que se eles se remorem esses canalhas, não plantarão toda uma nova geração de tecnocratas corruptos? E quem disse que se eles derrubarem o trono, não vão se sentar nele, por mais 20 anos? Quem disse que como os políticos eles não servem nem pertencem às mesmas oligarquias nacional e internacionais que colocaram o país na condição de emergência que estamos, e de vulnerabilidade que nunca conseguimos sair?

Não ha solução, não passa pelo emprego de forças de fato, porque a força de fato só serve para uma coisa, remediar a falta de inteligencia e entendimento até que um dia surja um, isto supondo que é claro que ele vá emergir. O ideal seria que esgotadas as oportunidades que perdemos, frente ao dilema de empregar a força armada contra uma categoria de trabalhadores ou empregadores para restituir o reabastecimento da população ou não fazer nada para não cometer injustiça nem derramar sangue, que tomasse a única saída digna a um instituição que, por suposto serve a um povo e nação, e não um governo e seus ocupantes: que dessem voz de prisão para o seu criminoso em chefe, por querer empregar a força como substituto à sua falta de capacidade, credibilidade, legitimidade para negociar um caos criado por eles e seus crimes. Crimes que o cargo não só protege de ser julgado, mas lhe confere o poder para continuar praticando impunemente.

Entre descer o porrete em caminhoneiros, sejam patrões ou empregados, ou assistir a população que ou muito me engano apoia o movimento, que desçam o porrete e eliminem o problema na causa, os donos das canetadas e propinadas. Cortem o problema pela raiz. Temer. Antes tarde do que nunca. Porém, isto é algo que evidentemente deve ser feito sem tomar o poder ou adiar as eleições, mas pelo contrário visando garanti-las, algo que pelo andar da carruagem não vai se dar, ou se vier a se dar, se dará como típica farsa latino-americana. Mas isso não parece estar sendo encarado como um problema, mas como uma solução.

Aliás, o Brasil é patético, está preocupado com um possível presidente presidiário, e se esquece, ou talvez se preocupa justamente para esquecer, que tem um bandido decrépito a continuar a jogar o país no caos no poder, agora. O que os caminhoneiros estão fazendo é só nos lembrando, que fora um pouco de coragem e dignidade, não faz mal a ninguém, que para ter ou não ter um governo em 2019, é preciso ter um país pelo menos até 2018, algo que essa gangue parece decida a dar cabo, mesmo neste curto espaço de tempo.

Se é patronal, sindical, autônoma ou tudo junto e misturado como parece ser, isso é só mais um indicativo do tamanho do isolamento da ilha da fantasia palaciana. Mas nenhum indicativo que chegamos no ponto em que não podemos mais fugir dessa realidade do que há necessidade do emprego da força por incapacidade governamental. Deponha-se ou não o governo, por definição ele não existe mais, nem por direito que já não tinha, nem de fato. Quem governa de fato, assuma ou não, é força armada, o que restou é o espantalho de uma nova república que morreu sem nunca ter plenamente sido.

Mas o que vai acontecer? No que depender, do generalato evidentemente. O Brasil não é um país, é um grande amontoado de classes e categorias, cada qual defendendo seu osso, um grande balde de caranguejos. De modo que enquanto a caserna estiver feliz ganhando o seu, obedece. E se os caminhoneiros estão lutando por uma causa maior que a deles, temo que em breve, se estão lutando por algo chamado Brasil descobrirão que isto como sentimento de solidariedade é um mito, simplesmente não existe. Embora, ainda sonhe em estar errado sobre isto como poucas coisas. E como gostaria de estar errado.

Mas se não estiver, se ninguém estiver nem aí para eles (e qualquer coisa parecida com um nós), desde que possam encher o tanque e a pança nos supermercados. Se o exercito cumprir sua missão sem pensar duas vezes. Se Temer continuar até o fim, seja lá qual for, no poder. Se semana que vem voltarmos a bater o futebol político de quem vai ser o campeão da próxima eleição. Então, que fique a lição não para eles que ensinaram, mas para os idiotas que nunca aprendem. Os idiotas que acreditam que a solução do país passa pelas forças armadas: que constituam as suas próprias. Porque essa vai morrer como nasceu: protegendo o Estado e não a Nação. Porque o Brasil não é um Estado-Nação, mas uma Nação submetida a um Estado. E mesmo quando esse Estado está sequestrado por criminoso, desde que o bandido governamental não se meta nos interesses e valores da categoria, desde que sua pilhagem não atinja a caserna “missão dada” continua sendo “missão cumprida.”, ainda que seja contra a própria população. Levante, insubordinação, intervenção ou voz de prisão a governantes criminosos só no caso do criminoso ocupante do palácio ser de outra filiação ideológica. E não sairá jamais dessa condição enquanto tiver forças armadas a servir como capangas de tiranos e não como a proteção do povo contra a todos tiranias, a começar pela a do seu próprio governo criminoso.

Aliás fica a lição para quem acredita em qualquer solução para o país, incluso as sociais e pacíficas. Querem construir alguma? Então esqueçam as instituições governamentais, e comecem a construir as suas próprias, comecem a tomar parte de uma verdadeira sociedade civil organizada, não só baseada em interesses de classe e categoria, mas de povo, de cidadania, porque dos salvadores da pátria só teremos o mesmo de sempre travestido de reforma e progresso, o velho disfarçado de novo, e o novo que vem para sustentar tudo que há de podre e velho: pilhagem contra quem não resiste e repressão contra quem ousar se levantar.

Pois enquanto formos uma sociedade-nação assim dividida e cooptada, em classes que mesmo quando são ricas e remediadas são ainda mais servis, estaremos condenados a ser o país que somos. Um não-país. Enquanto tudo o que fizermos como povo for rir e fugir da nossa realidade, tudo que vamos transmitir como legado será o produto de mais uma geração, será o produto da nossa omissão, tentando adiar o inevitável, a Revolução.

O Brasil não é republica, não é democracia, nem sequer independente e jamais o será sem uma revolução, pacifica ou não, necessariamente revolução. Sim revolução, porque de golpes em cima de golpes, a se proclamar autocrática e arrogantemente como legítimos nossa história está cheia. De novidades, de progresso, reformas que vem para se mancomunar e preservar tudo que há de podre e velho, estamos fartos. Fartos, mas acostumados. E no que depender da nossa coragem, os Estados-Nações falem antes do Brasil vir a ser uma coisa ou outra, quanto mais uma só.

Somos um povo gado com medo de sair do curral, mesmo sabendo que estamos sendo levados ao abate, e quando alguma parte se levanta, nunca vamos até o fim, nunca tomamos a decisão de por um fim nesses parasitas mesmo sabendo que vamos definhar sem o fazê-lo, pois por mais rico que sejamos, uma hora, a festa, vai acabar, os recursos que parecem inesgotáveis vão se exaurir, e não estaremos mais a lutar para findar a pilhagem de riquezas, mas pela sobrevivência do que restou após toda rapinagem.

Nos escondemos atrás de um falso pacifismo, quando na verdade o que somos é covardes. Prendemos bandidinhos em postes, mas basta uma medalhinha, um subsidio, um empreguinho ou um cargo, e dos criminosos de faixa, toga, ou farda entronados ou até destronados lambemos até o fiofó. “Veja bem…” Dizemos pacíficos e fraternos, mas queremos sangue. O sangue dos pequenos e os mimos dos grandes. Uma unidade feita não só da vibração com os linchamentos públicos, mas sobretudo da omissão, da completa ausência de empatia e solidariedade para como os iguais como um povo: a ausência dos privilégios como se fossem direitos. E assim como a obrigação de nos submeter às injustiças como se fosse dever cidadão.

O problema não é a obstrução das estradas, isso não é causa é consequência. O problema não é a obstrução da justiça, não a punitiva, mas a social, que essa pilhagem e repressão sustentam. O problema não são nem esses criminosos estatais, mas a nossa covardia servil de aceitar o emprego da força armada contra a população, mas abominá-la contra as figuras de autoridade e tirania.

Outros povos corrompidos pela cultura da subserviência e idolatria também cometeram o engano de adorar fascistas e demagogos, mas pelo menos tiveram a dignidade de cortas suas cabeças ou pendurá-los como porcos em praça pública. Uma violência absolutamente desnecessária contra a pessoa humana, mas não contra o figura do pátrio-poder. Não, não é preciso matar ninguém, e nem adianta, até porque quem se arroga a licença para tirar e destruir vidas impunemente são eles as autoridades e não nós, meros cidadãos. Mas matar esse monstro da submissão covarde travestida de pacifismo contra os grandes, e violência covarde contra os pequenos; condição pusilânime que mora em nossas cabeças e dentro de nossa alma, e que precisa morrer.

Essa ideia doentia que alguém tenha por alguma razão a prerrogativa de vida e morte sobre os demais, de quem pode manda e quem tem juízo obedece é fundamental para sairmos dessa eterna infância de povo tutelado, e nos fazermos enfim um país, a procura de fraternidade e não de patriarcas que tratam e tomam o bem público como se fossem seu patrimônio e o nosso povo como sua plebe, escrava e servil. Enfim uma questão de Sociedade e não de Estado e que enquanto for tratada como tal, seremos assim tratados pelo estadismo e patrimonialismo que encarna a nossa cultura de submissão sádica e masoquista.

E tudo isso que vale para as autoridades fardadas, vale para as togadas, na exata medida dos seus títulos e patente dentro da hierarquia e escalões. De modo se queremos justiça, havemos de construir a nossa, e não como tribunais e desigualdade de privilégios e autoridades, mas igualdade dentro de uma outra sociedade, dentro de um outro pacto social. Porque esse não foi corrompido, ele é corrupto, na essência da sua constituição de desigualdades sobre direitos e deveres sobre o bem comum.

Quem quer uma republica que se faça primeiro cidadão. Uma condição que não se pede, nem muito menos de toma, mas literal se dá na prática, não pagando tributos que sustentam os usurpadores e perpetuação da usurpação, mas bancando essa abolição, nem que seja pagando pela alforria dessa espécie de escravidão que antes de ser econômica é política. Literalmente pagando pela libertação dos seus irmãos dessa condição de privação que é em maior ou menor proporção a mesma de todos que não se governam mas são governados: obedecer quem detém o poder se quiser ganhar e manter seu sustento.

Bem, essa é a solução que eu proponho para o Brasil, uma solução de paz. Há quem acredite em outras. Mas uma coisa é certa, todas elas passam pela chamada e aumento da responsabilidade social-cidadã e diminuição da transferência e centralização de poderes e recursos e irresponsabilidades na mão da classe politica-estatal. Todas elas passam pela solidariedade social e desfanatização pelo governamental. Passam pelo fim da omissão mais onerosa da história da humanidade, a estatal, tão extensa enquanto cancro e pilhagem quanto for a incapacidade do povo em voluntariamente acabar com a própria miséria em seu território com responsabilidade social.

Porque enquanto houver um miserável, haverá sempre um soldado pronto a ser recrutado e executar suas ordens, em troca do seu saldo, seja de quem for e contra quem for. Enquanto a sociedade civil não compreender como se reproduz materialmente o poder e a submissão, será sempre refém do macaco líder que souber distribuir ou prometer mais bananas para o bando que controla o território, e quer ela goste ou não também faz parte do seu.

Ou aprendemos a distribuir com mais racionalidade os recursos para que a ninguém tenha a sua subsistência submetida às vontade de outrem, ou vamos amargar as disputas de poder, onde quem detiver o monopólio da violência, o de fato, prevalece e os demais se não quiserem definhar obedecem. Porque nas terras onde a vulnerabilidade social continuar existindo, a rapinagem e violência hão sempre de prevalecer no lugar da paz e inteligência e não só como marginalidade, criminalidade governamental. Nosso eterno protoestado montado sobre as costas de uma população que de nação e sociedade só tem a bandeira, e a camisa, porque de brasilidade como solidariedade entre aqueles que compartilham uma mesma terra como seu patrimônio e bem comum, só há o mito e a propaganda governamental e eleitoral. Mitos tão falsos quanto o próprio cosmopolitismo, tolerância, pacifismo e miscigenação de raças e classes que fora do curral da plebe inexistem como credo e muito menos como práticas.

Um povo que exceto entre o povão, os excluídos e marginalizados pelo Estado e a sociedade não se conhece nem reconhece como igual, nem muito menos como nação. Uma nação cujas forças não sabem sequer do que são feitas. Que não são feitas de bandeira, nem de poderes, mas de um povo. Um povo que enquanto não tiver forças armadas que não apontem armas contra elas, mas contra os tiranos, jamais será um nação livre, mas a eterna colônia de quem quer se seja o canalha a pagar mais a nossas lideranças, sempre a venda e vendendo sua gente e sua terra como se fossem o seu capital.

De qualquer forma, nem a sociedade nem nenhuma classe social ou categoria é monolítica. E a tendência, mantendo-se o atual status quo, é o agravamento da crise institucional. Logo não me surpreenderia de nos próximos meses verificarmos divisões claras dentro das próprias forças armadas, assim como já ocorreu dentro do próprio poder jurídico. Aí, meu amigo, nós que não somos forças armadas nem temos poder de juiz, torçamos para eles escolham o lado certo, o que produz e não o que parasita, o lado da sociedade e não do governo, ou essa greve será apenas o começo de algo que se alguém disser que sabe como vai terminar está mentindo. Isto,se é que já não começou…

Resumindo, todo apoio a greve. E se o emprego da força armada for mesmo inevitável, que quem a detenha de fato a aplique contra quem por justiça e necessidade se deve usá-la: contra o governo que não é governo, nem de fato, nem de direito. E não contra quem mostrou que pode parar o país, sem dar um tiro, simplesmente cruzando os braços.

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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