Gelderloos: A Não Violência é racista

Como a Não-Violência protege o Estado (Parte 2)

Em primeira instância, a não violência parece uma posição ética clara que tem pouco a ver com a raça. Esta visão está baseada na afirmação simplista de que a não violência é, em primeiro lugar, uma opção que escolhemos. Mas, que pessoas neste mundo têm o privilégio de escolher o uso da violência? E quem vive em circunstâncias violentas, a desejará ou não? Geralmente, a não violência é uma prática que resulta do privilégio, que surge das experiências das pessoas brancas, e nem sempre faz sentido para as pessoas que não desfrutam desse privilégio branco ou para as pessoas brancas que tratam de destruir esse sistema de privilégios e opressões.

Notas

  1. Denominação utilizada por certos grupos indígenas da América do Norte, ora para designar o governo dos brancos, ora para designar seus presidentes. [N. do T.].
  2. Ver por exemplo, Malcom X, “Twenty Million Black People in a Political, Economic, and Mental Prison”, em Malcom X: The Last Speeches, ed. Bruce Perry (Nueva York: Pathfinder, 1989), p. 23–54.
  3. No original Sittings, forma de protesto não violento em que ativistas se sentam em meio de avenidas e permanecem por lá apanhando e fazendo corpo mole quando eventualmente são levados pela polícia. [N. do T.].
  4. George Armstrong Custer, conhecido como General Custer, foi um militar agressivo que comandou diversas operações de batalha sangrentas à frente de um regimento da cavalaria da União, durante a Guerra de Secessão. Depois da guerra passou a perseguir nações indígenas, vindo a morrer na batalha de Little Big Horn, um ataque dos Estados Unidos à um confederação de povos indígenas hostis a presença branca no oeste norte-americano. [N. do T.].
  5. Numa conversa que tive com um pacifista, Mandela foi citado como exemplo de lutador negro, para ser logo abandonado quando mencionei sua adoção à luta armada. [Detalhada em sua autobiografia: Nelson Mandela, Long walk to Freedom: The Autobiography of Nelson Mandela (Boston: Little Brown, 1995)].
  6. Jack Gilroy, e-mail, 23 jan. 2006. Este e-mail, em particular, foi o resultado de uma conversa bastante sórdida, em um grupo de discussão de pacifistas brancos. Nela, participantes debatiam a sugestão de organizar uma marcha ao estilo daquelas realizadas na luta histórica por direitos civis, ao longo do coração do Sul negro. Uma pessoa tinha proposto chamá-la “caminhada” em lugar de “marcha”, porque “marcha” constitui numa “linguagem” violenta. Gilroy afirmou, “Certo que estamos portando a bandeira do Dr. King!”. Esta afirmação foi uma resposta a uma crítica feita por um ativista negro, que disse que, ao apoiar este tipo de marcha (que começaria em Birmingham ou outra cidade simbólica), estavam cooptando o legado de King e, provavelmente, ofendendo e alienando os negros (já que a organização era predominantemente branca, minimizava a questão da raça em suas análises, e centrava-se na opressão ocorrida no estrangeiro. Ao mesmo tempo, esquecia o fato de que o movimento pelos direitos civis está ainda trancado em suas residências). O veterano pacifista branco respondeu de um jeito extremamente desdenhoso e mal-educado à esta crítica, até mesmo dirigindo-se ao ativista negro como “guri” e alegando que, se o movimento pacifista era tão branco, era porque as pessoas negras não tinham escutado, não tinham aprendido o que lhes fora ensinado, o que lhes havia sido predicado desde o púlpito… não tinham conseguido se conectar com o nosso movimento para levar justiça a todas as pessoas da América Latina, o que inclui milhões de pessoas não brancas. O e-mail terminava insistindo que a “luta contra a injustiça não tem barreiras raciais”.
  7. Rev. Dr. Martin Luther King Jr., entrevistado por Alex Haley, Playboy, jan. 1965, disponível em <http://www.playboy.com/arts-entertainment/features/mlk/index.html>.
  8. Malcom X, citado em Abu-Jamal, We Want Freedom, p. 41. Para mais informações sobre a crucial análise de Malcom X, veja-se George Breitman, ed., Malcom X Speaks (Nova York: Grove Press, 1965).
  9. Tani e Sera, False Nationalism, p. 106.
  10. Abu-Jamal, We Want Freedom, p. 262.
  11. As alegações sobre a implicação do governo no assassinato de Malcom X são convincentemente apresentadas por George Breitman, Herman Porter e Baxter Smith em The Assassination of Malcom X (Nova York: Pathfinder Press, 1976).
  12. Ward Churchill e Jim Vander Wall, The COINTELPRO Papers: Documents from the FBI‘s Secret Wars Against Dissent in the United States (Cambridge: South End Press, 1990).
  13. Pessoalmente, mesmo depois de ter me interessado em História e, com o passar dos anos, estudando nas melhores escolas públicas da nação, e ter conseguido boas qualificações nas aulas de História Americana, terminei o segundo grau sabendo bem pouco sobre Malcom X, além do fato de ele ter sido um extremista muçulmano negro. Por outro lado, ainda no ensino fundamental, aprendi um pouco sobre Martin Luther King Jr. Para ser sincero, como figura nos direitos civis e dos movimentos de libertação negros, Malcom X é tão importante quanto King, se não mais ainda. Nos anos seguintes, minha educação política nos círculos brancos progressistas fracassou na hora de tentar corrigir tanto a invisibilidade de Malcom X, quanto a enganosa biografia de King. Só depois de ler os escritos dos ativistas negros sobre a importância de Malcom X, é que pude fazer a pesquisa necessária.
  14. Darren Park, e-mail, 10 jul. 2004.
  15. Considera-se a popularidade, por exemplo, da seguinte citação: “O que as pessoas brancas não compreendem, é que os negros que participam das revoltas têm abandonado a América. O fato de que não se faz nada para aliviar a sua urgente situação, confirma a convicção dos negros de que a América é uma sociedade em decadência e sem esperança”, Martin Luther King Jr., “A Testament of Hope”, em James Melvin Washington, ed., A Testament of Hope: The Essential Writings of Martin Luther King Jr. (San Francisco: Harper & Row, 1986), p. 324.
  16. Este sentimento, que tem sido expressado por muitas pessoas diferentes, chegou até mim de forma mais direta por Roger White, Post Colonial Anarquism (Oakland: Jailbreak Press, 2004). White, em primeiro lugar, assinala a frequente tendência entre anarquistas brancos de rejeitar os movimentos nacionais de libertação por não fazerem parte de uma ideologia anarquista concreta. A dinâmica é semelhante a do pacifismo que descrevi, e as duas são resultantes do privilégio branco, tão efetivas quanto qualquer ideologia explicitamente racista. O pacifismo tem sido um bloqueio trancado que permitiu aos radicais brancos controlar ou sabotar os movimentos de libertação, mais não foi o único. O livro de White vale a pena, precisamente, porque os militantes anarquistas brancos encontraram-se refletidos em muitos dos problemas que têm os brancos pacifistas.
  17. Tani e Sera, False Nationalism, p. 134–137.
  18. O nome da organização ao qual o autor se refere era inicialmente Weatherman, de inspiração num imaginário maoista norte-americano, popular entre a esquerda marxista estadunidense na década de 1960 e 1970. Afirmavam que sua atuação através de atentados tinha como objetivo “trazer a guerra para casa” em solidariedade aos vietnamitas, e a guerra empreendida pelo governo ao Partido dos Panteras Negras. [N. do T.].
  19. Tani e Sera, False Nationalism, p. 137–161.
  20. Abu-Jamal, We Want Freedom, p. 7.
  21. E-mail pessoal ao autor, dez. 2003.
  22. David Cortright, “The Power of Nonviolence”, The Nation, 18 fev. 2002, disponível em <http://thenation.com/doc/20020218/cortright> — Este artigo atribui uma citação de uma só palavra a César Chávez, mas centra-se na explicação do significado e na implementação das estratégias não violentas.
  23. Bob Irwin e Gordon Faison, “Why Nonviolence? Introduction to Theory and Strategy”, Vernal Project, 1978, disponível em: <http://www.vernalproject.org/OPapers/WhyNV/WhyNonviolence1.html>.
  24. Staughton Lynd y Alice Lynd, Nonviolence in America: A Documentary History (Maryknoll, Nova Iorque: Orbis Books, 1995).
  25. Citações de organizadores brancos atuais, em Ward Churchill, Pacifism as Pathology, p. 60–62.
  26. Art Gish, Violence/Nonviolence (debate, Conferência Anarquista Norte Americana, Atenas, 13 ago. 2004).
  27. Tani e Sera, False Nationalism, p. 101–102.
  28. No original, bullet and ballot, refere-se ao ato de votar movido exclusivamente pelo medo. [N. do T.]
  29. Belinda Robnett, How Long? How Long? African-American Women in the Struggle for Civil Rights (Oxford: Oxford University Press, 1997), p. 184–186.
  30. Kristian Williams, Our Enemies in Blue (Brooklyn: Soft Skull Press, 2004), p.87.
  31. Ibid., p. 266.
  32. Keith McHenry, e-mail, lista de distribuição internacional de Food Not Bombs, 20 abr. 2006.
  33. Frantz Fanon, The Wretched of the Earth (Nova York: grove Press, 1963), p. 86.
  34. Frantz Fanon, The Wretched of the Earth (Nova York: grove Press, 1963), p. 94.
  35. Darren Parker, e-mail, 10 jul. 2004.
  36. Churchill e Vander Wall, Agents of Repression, p. 188.
  37. Alguns dos mais dedicados ativistas não violentos nos Estados Unidos sofreram torturas e mortes no transcurso de suas ações de solidariedade à América Latina. Mas isto não é exatamente o mesmo que os ativistas não brancos sofreram dentro dos Estados Unidos, dado que estes ativistas brancos sofreram violência numa situação na qual eles próprios se colocaram, não numa situação que lhes foi imposta, sobre eles e sobre suas famílias e comunidades. É, finalmente, muito mais simples ter complexo de mártir por si mesmo do que pela própria família (o que não significa que todos estes ativistas estivessem motivados por dito complexo, apesar de eu ter participado de certos encontros com alguns que aproveitaram este rasgo para reivindicar que experienciaram uma forma de opressão que equivale a sofrida pelas pessoas não brancas).
  38. Churchill, Pacifism as Pathology, p. 60–61.
  39. David Gilbert, No Surrender: Writings from an Anti-Imperialist Political Prisoner (Montreal: Abraham Guillen Press, 2004), p. 22–23.
  40. Alice Woldt, citado em Chris McGann, “Peace Movement Could Find Itself Fighting Over Tactics”, Seattle Post-Intelligencer, 21 fev. 2003, disponível em: <http://seattlepiNwsource.com/local/109590_peacemovement21.shtml>.
  41. E-mail ao autor, out. 2004. Este mesmo ativista reescreveu de forma paternalista a história da libertação negra, declarando que os Panteras Negras não advogaram em favor da violência. No mesmo e-mail, citou O arte da guerra, de Sun Tzu, para reforçar seus argumentos e melhorar sua sofisticação tática. Enquanto o mesmo Sun tsu teria estado de acordo com suas teorias se tivesse empregado suas ideias dentro de uma discussão, empregá-las num e-mail para demonstrar a eficácia do pacifismo é mais do que questionável.
  42. E-mail ao autor, out. 2004.
  43. David Dellinger, “The Black Rebellions”, em Revolutionary Nonviolence: Essays by David Dellinger (Nueva York: Anchor, 1971), p. 207. No mesmo ensaio, Dallinger admite que há ocasiões nas quais os mesmos que atuam de maneira não violenta devem converter-se em resistentes aliados ou partidários críticos daqueles que recorrem à violência.
  44. David Dellinger (Nova York: Anchor, 1971), p. 207. No mesmo ensaio, Dallinger admite que há ocasiões nas quais os mesmos que atuam de maneira não violenta devem se converter em aliados resistentes ou partidários críticos daqueles que recorrem à violência.
  45. Abu-Jamal, We Want Freedom, p. 76.
  46. Belinda Robnett assinala que tornando-se mais militantes e adotando ideologia do Black Power, os grupos previamente não violentos como o SNCC, antes financiados por grupos financeiros liberais (presumivelmente compostos por uma maioria branca), perderam seu financiamento. Esta perda da sua principal fonte de financiamento implicou, em parte, no colapso da organização (Robnett, How Long? How Long?, p. 184–186). Robnett, além disso, iguala o abandono da não violência com o machismo. Refletindo seu status acadêmico (como professora de sociologia no sistema da Universidade de Califórnia) ela confunde a linha que separa os provocadores pagos pelo FBI que advogam pelo sexismo dentro do movimento (por exemplo, Ron Karenga), os legítimos ativistas que defendem um aumento da militância, e os autênticos ativistas com aqueles que confundem a militância com o machismo. Ela também menciona que Angela Davis queixa-se por ter sido criticada pelos nacionalistas militantes negros, “por fazer um trabalho de homem” (Robnett, How Long? How Long?, p. 183), mas esquece de mencionar que Davis foi muito influente na hora de defender a luta militante. Robnett também parece esquecer a necessária ruptura com uma situação na qual os grupos com uma agenda tão radical como a da igualdade racial não tiveram uma atitude de apoio interno, e, em lugar disso, contavam com o apoio do governo federal e das doações dos brancos.

X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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