Gelderloos: A Não Violência é patriarcal

Como a Não-Violência protege o Estado (Parte 4)

As pessoas partidárias da não violência, que fazem uma limitada exceção com a autodefesa porque reconhecem até que ponto é errôneo dizer que as pessoas oprimidas não podem ou devem proteger a si mesmas, não têm estratégias viáveis para tratar com a violência sistêmica. A autodefesa serve para defender-se de um marido maltratador, mas não para fazer voar ao ar uma fábrica emissora de dióxido que intoxica seu leite materno? O que existe sobre uma campanha mais coordenada para destruir a empresa que pertence à fábrica e ao responsável de liberar os contaminantes? É autodefesa matar o general que envia soldados que violam mulheres em uma zona de guerra? Ou os pacifistas devem permanecer na defensiva, somente respondendo aos ataques individuais e submetendo a si mesmos à inevitabilidade de tais ataques até que a tática não violenta faça mudar de alguma forma o general ou provoque o fechamento da fábrica, em um futuro incerto?

Referências

  1. Para mais informações sobre o patriarcado, recomendo encarecidamente as obras de Bell Hooks, assim como Kate Bornstein (Gender Outlaw, por exemplo) e Leslie Feinberg (por exemplo, Transgender Warriors). Também, para uma aproximação histórica e antropológica, The Creation of Patriarchy, de Gerda Lerner (Nova York: Oxford University Press, 1986). Lerner tem boas informações, mas se limita muito a si mesma dentro de uma perspectiva de gênero binária rezando para que a divina autoridade intervenha. (Este requisito é semelhante à fé que o pacifismo tem na mídia para que divulgue imagens de sofrimento dignas de motivar as autoridades a fazer justiça.) Ignora as categorias de gênero tomando-as como naturais, perdendo assim o primeiro passo e mais importante na criação do patriarcado, que é a criação de duas categorias rígidas de gênero. Interessante informação, corrigindo essa omissão, pode ser encontrada em Moira Donald e Linda Hurcombe, eds. Representatinos of Gender from Pre history to Present (St Martin’s Press, 200)
  2. Esta última estratégia tem sido aplicada com sucesso em muitas sociedades antiautoritárias ao longo da história, incluindo a Igbo, na Nigéria, hoje. Por exemplo, ver Judith Van Allen, “‘Sitting on a Man’, Colonialism and the Lost Political Institutions of Igbo Women”, Canadian Journal of African Studies, v. 2, 1972, p. 211–219.
  3. Para uma justiça mais restaurativa, uma forma básica de lidar com os danos sociais através da cura e da reconciliação (assim, um conceito de justiça conveniente para tratar vários “crimes” que têm suas raízes no patriarcado), ver Larry Tifft, Battering of Women: The Failure of Intervention and the Case for Prevention (Boulder: Westview Press, 1993) e Dennis Sullivan e Larry Tifft, Restorative Justice: Healing the Foundations of Our Everyday Life (Monsey, NY: Willow Tree Press, 2001).
  4. Bell Hooks apresenta uma análise mais complexa, tratando também do problema da violência das mulheres, em muitos livros, incluindo The Will To Change: Men, Masculinity, and Love (Nova York: Atria Books, 2004). Porém, a violência das mulheres que Hooks discute não é política, não é uma forma de violência consciente contra os agentes do patriarcado, mas sim um deslocamento impulsivo contra o abuso de crianças e outras pessoas situadas em posições inferiores na hierarquia social. Este é um exemplo de um verdadeiro ciclo de violência, que as pacifistas acreditam ser a única forma de violência. E, enquanto todas as formas traumáticas de violência se transformam em cíclicas (isto é, a forma como as pessoas reagem ao trauma da violência inicial perpetuando-a), as hierarquias violentas se mantêm através do uso sistemático da violência de forma unilateral. A resistência violenta dirigida contra as hierarquias e seus engenheiros, longe de perpetuar o ciclo de violência, o debilita. O mundo não é um campo em que diferentes agentes sociais encontram-se em iguais condições (em termos de poder e responsabilidade) para exercer a violência. A violência que decorre de outros níveis de hierarquia e outros fins tem também, naturalmente, resultados diferentes. Mais especificamente, se as mulheres se organizarem de forma coletiva para um atacar enérgico e vigoroso contra os estupradores, violações específicas serão evitadas. O trauma de violações anteriores será exortado de forma construtiva e empoderadora, homens descartarão a opção de estuprar impunemente, e futuras violações serão desencorajadas. Ou, outro exemplo, negros e latinos das cidades que realizam ataques de guerrilha contra a polícia não encorajam um ciclo de violência. A polícia não mata pessoas não brancas por estar traumatizada por situações de violência anteriores; ela o faz porque o sistema de supremacia branca exige e porque é paga para isso. É claro que toda atividade revolucionária resulta em um aumento da repressão, mas isso é um mero obstáculo para a destruição do Estado, que é o maior agente fomentador de violência. Após a destruição do Estado, do capitalismo e das estruturas patriarcais, as pessoas ainda estarão traumatizadas, ainda terão pontos de vista autoritários e patriarcais, mas os problemas individuais que não são reforçados estruturalmente podem ser tratados de maneira cooperativa não violenta. Exércitos não terão mais lugar.
  5. Por exemplo, Robin Morgan, em The Demon Lover: On the Sexuality of Terrorism (New York: W.W. Norton, 1989). The Rock Block Collective’s pamphlet, Stick it to the Manarchy (Decentralized publication and distribution, 2001) faz críticas válidas contra o machismo em círculos anarquistas brancos, mas sugere que a militância em si mesma é machista e que as mulheres, pessoas não brancas, e outros grupos oprimidos são, de alguma maneira, demasiado frágeis para participar de uma revolução violenta.
  6. Laina Tanglewood, “Against the Masculinization of Militancy”, citado em Ashen Ruins, Against the Corpse Machine: Defining a Post-Leftist Anarchist Critique of Violence (Decentralized publication and distribution, abr. 2002). Disponível em: <http://www.infoshop.org/rants/corpse_last.html>.
  7. Ibid.
  8. Sue Daniels, e-mail, set. 2004. Para mais informações sobre autodefesa para mulheres, Daniels recomenda Martha McCaughei, Real knockouts: The Phisical Feminism of Women Self-Defense (Nova Iorque: New York University Press 1998).
  9. The Will To Win! Women and Self-Defense é um panfleto anônimo distribuído por Jacksonville Anarchist Black Cross (4204 Herschel Street, #20, Jacksonville, FL 32210).
  10. No texto original, o autor utiliza o termo anglo-saxão “whitewashing”, que é traduzido literalmente por “branqueamento”; com ele, se refere ao fato de apagar propositalmente da história e da memória toda marca que seja “incômoda” para o Estado, o patriarcado, o capitalismo ou a supremacia branca. [N. do T.].
  11. O aforismo conservador pacifista de que “a mudança deve vir de dentro” não deve ser confundido com autocrítica. Funcionalmente, esta filosofia incapacita as pessoas para desafiar o sistema e combater a opressão estrutural; é análoga à noção cristã de pecado como uma barreira para a rebelião e outras ações coletivas para a opressão. Nos poucos casos em que a “mudança de dentro” significa principalmente mais do que um simples comando à não violência, é uma forma de autoaperfeiçoamento impotente para fingir que a opressão social é o resultado de falhas comuns de personalidade que podem ser superadas sem a remoção das forças externas. O autoaperfeiçoamento do ativismo antiopressão, por outro lado, supõe que forças externas (que são as estruturas de opressão) influenciam inclusive aqueles que lutam contra elas. Então, lidar com os efeitos é um complemento conveniente para combater as causas. Antes do ato como um complemento, o autoaperfeiçoamento pacifista tenta ser uma substituição.
  12. “Seja a mudança que você deseja ver no mundo” ou “Personifique a mudança …” são palavras de ordem pacifistas comuns que se pode encontrar ao menos em um par de bandeiras em qualquer protesto pacifista nos Estados Unidos.
  13. E-mail pessoal ao autor, dez. 2003.
  14. Cortright,The Power of Nonviolence.
  15. Robnett, How Long?, p. 87, p. 166, p. 95.
  16. A história de Bayard Rustin tendo que deixar a SCLC porque era gay pode ser encontrada em Jervis Andersen, Bayard Rustin: The Travells I’ve Seen (Nova Iorque: HarperCollins Publishers, 1997) e em David Dellinger, From Yale to Jail: The Life Story of a Moral Dissenter (Nova Iorque: Pantheon Books, 1993).
  17. No entanto, as pessoas cujas estratégias incluem a formação de partidos ou organizações similares centralizadas, tanto revolucionárias como pacifistas, também manifestam interesse não expressado na autocrítica. Mas as ativistas revolucionárias de hoje demonstram uma tendência marcada longe de partidos políticos, sindicatos e outras organizações que desenvolvem o ego, a ortodoxia e interesse em si mesmas.
  18. Robnett, How Long?, p. 93–96.
  19. Abu-Jamal, We Want Freedom, p. 161.
  20. Ibid., p. 159.
  21. Ibid.
  22. Julieta Paredes, “An Interview With Mujeres Creando”, em Quiet Rumours: An Anarcha- Feminist Reader, ed. Dark Star Collective (Edimburgh: AK Press, 2002), p. 111–112.
  23. Leslie Feinberg, “Leslie Feinberg Interviews Sylvia Rivera”, Workers World, 2 jul. 1998, disponível em: <http://www.workers.org/ww/1998/sylvia0702.php>.
  24. Ann Hansen, Direct Action: Memoirs of an Urban Guerrilla (Toronto: Between The Lines, 2002), p. 471.
  25. Emma Goldmann, “The Tragedy Of Woman’s Emancipation”, em Quiet Rumours, ed. Dark Star Collective, p. 89.
  26. Paul Avrich, Anarchist Portraits (Princeton: Princeton University Press, 1998), p. 218.
  27. Yale, “Anna Mae Haunts the FBI”, Earth First! Journal, jul.-ago. 2003, p. 51.
  28. Ibid.
  29. “Interview With Rote Zora”, em Quiet Rumours, ed. Dark Star Collective, p. 102.
  30. Entendido como um ativismo “independente”, que não lida com as instituições. [N. do T].
  31. Ibid., 105.
  32. Para o sexismo do Weather Underground, ver Tani y Sera, False Nationalism, e Dan Berger, Outlaws Of America: The Weather Underground and the Politics of Solidarity (Oakland, CA: AK Press, 2005). Para a oposição ao feminismo das Brigatte Rosse, ao que denunciaram indiscriminadamente por ser burguês ao invés de abraçar sua radicalidade, ver Chris Aronson Beck et. al., Strike One To Educate One Hundred:The Raise Of The Red Brigades In Italy In The 1960’s- 1970’s (Chicago: Seeds BeneathThe Snow, 1986).
  33. Carol Flinders, “Nonviolence: Does Gender Matter?”, Peace Power: Journal Of Nonviolence and Conflict Transformation, v. 2, n. 2, verão 2006, disponível em: <http://www.calpeacepower.org/0202/gender.htm>. Flinders utiliza o mesmo exemplo de Gandhi, mesmo elogiando o pacifismo inato de “a esposa devota hindu.”
  34. Ibid.
  35. Para aqueles não familiarizados com o termo, algo que é “essencialização do gênero” implica a ideia de que o gênero não é uma construção social — ainda que sirva como uma divisão imperfeita — mas é uma série de categorias inerentes formadas por essências imutáveis ​​e até mesmo determinantes.
  36. Flinders, Nonviolence: Does Gender Matter?
  37. Patrizia Longo, “Feminism and Nonviolence: A Relational Model”, The Gandhi Institute, disponível em: <http://www.gandhiinstitute.org/NewsAndEvents/upload/nonviolence%20and%20relational%20feminism%20Memphis%202004.pdf#search=%22feminist%20nonviolence%22>.
  38. “Feminism and Nonviolence Discussion”, fev. e mar. 1998, disponível em: <http://www.h-net.org<r/˜women/threads/disc-nonviolence.html>. Consultado em 18 out. 2006.

X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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