Gelderloos: A Não Violência é ineficiente

Como a Não-Violência protege o Estado (Parte 1)

O aspecto mais triste da reivindicação pacifista de que a independência da Índia é uma vitória da não violência é que essa reivindicação atua de forma direta na fabricação histórica realizada pelos interesses da supremacia branca dos Estados imperialistas que colonizaram o sul do mundo. O movimento de libertação da Índia fracassou. Os britânicos não foram forçados a abandonar a Índia. Antes, eles escolheram transferir o território de um controle colonial direto para um controle neocolonial[8]. Que tipo de vitória permite que o lado perdedor dite o tempo e a maneira como o lado vitorioso ascenderá ao governo? Os britânicos redigiram a nova constituição e entregaram o poder aos seus sucessores, escolhidos a dedo. Eles alimentaram as chamas do separatismo étnico e religioso para que a Índia se dividisse contra si mesma, fazendo com que ficasse privada de alcançar paz e prosperidade, e dependesse de ajuda militar e de outros recursos dos estados euro/americanos[9]. A Índia continua sendo explorada pelas corporações euro/americanas (apesar de muitas corporações indianas novas, na maioria subsidiárias, terem se juntado à pilhagem), e continua provendo recursos e mercado para os estados imperialistas. Em vários sentidos a pobreza de seu povo se aprofundou e a exploração se tornou mais eficiente. A independência do controle colonial deu à Índia maior autonomia em algumas áreas, e certamente permitiu que um punhado de indianos se sentasse em algumas cadeiras do poder, mas a exploração e a mercantilização dos bens comuns se aprofundaram. Além disso, a Índia perdeu a oportunidade clara de uma significativa libertação de um opressor estrangeiro facilmente reconhecível. Qualquer movimento de libertação teria agora que lutar contra as dinâmicas confusas do nacionalismo e das rivalidades étnico/religiosas para abolir um capitalismo e um governo que estão muito mais desenvolvidos. Fazendo um balanço geral, o movimento de independência provou ter fracassado.

Notas

  1. Esta lista particular foi extraída de um artigo escrito por Spruce Houser (Spruce Houser, “Domestic Anarchist Movement Increasingly Espouses Violence”, Athens News, 12 ago. 2004, disponível em <http://athensnews.com/index.php?action=viewarticle&story_id=17497>), um ativista pacífico autoproclamado anarquista. Tenho visto como se reivindicam essas mesmas “vitórias” uma e outra vez por outros pacifistas.
  2. Hello NYC, 2/15: The Day the World Said No to the War (Oakland, CA: AK Press, 2003). Esse livro dá a sensação de entender as celebrações dos pacifistas nesses protestos.
  3. Por exemplo, como um participante pacifista na conferência anarquista mencionada na introdução era forçado a admitir que a luta pelos direitos civis não terminou de forma vitoriosa, trocava de linha sem pestanejar e acusava de fracasso os movimentos militantes de libertação, dizendo que foi quando o movimento se tornou violento que começou a perder terreno. Bom, este argumento ignora o fato de que a resistência contra a escravidão e a opressão racial aconteceu muito antes do final dos anos 60, e também acaba com a ideia que equipara um aumento da militância com uma diminuição do apoio na base. Essas correlações são objetivamente inexistentes.
  4. Chandrasekhar Azad foi assassinado em um tiroteio contra os britânicos. É o argumento principal de um filme recente, The Last Revolutionary, do diretor índiano Priyadarshan.
  5. Reeta Sharma, “What if Bhagat Singh Had Lived?”, The Tribune of India, 21 mar. 2001, disponível em: <http://www.tribuneindia.com/2001/20010321/edit.htm#6>. É preciso dizer que praticamente toda a Índia pediu a Gandhi para que ele cobrasse publicamente as contas pela sentença de morte de Bhagat Singh, assassinado por um oficial britânico, mas Gandhi escorregou, estrategicamente, não dizendo nada contra a execução de Estado que muitos creem que poderia ter sido facilmente detida. Singh constituía-se como um rival revolucionário afastado do panorama político.
  6. Bose se retirou por um conflito com outros líderes políticos indianos, atacado pela oposição, liderada por Gandhi, por não dar apoio à não violência. Para saber mais sobre as lutas de libertação indianas, ver Sumit Sarkar, Modern India: 1885–1947 (Nova York: St. Martin’s Press, 1989)
  7. E-mail do professor Gopal K., set. 2004. Gopal também escreveu: “Tenho vários amigos na Índia que ainda não perdoaram Gandhi”.
  8. O padrão neocolonial é muito mais eficiente na hora de enriquecer o colonizador do que a administração direta colonial, e mais eficiente na hora de manter o poder, uma vez que o colonialismo direto produziu com êxito a necessária reorganização política e econômica dentra das colônias. Os liberais, dentro dos estados imperialistas, foram injustamente caracterizados como antipatrióticos e desleais, quando, de fato, tinham razão em relação ao fator econômico, ao advogar pela independência das colônias. George Orwell, Ho Chi Minh e outros escreveram sobre a ineficiência fiscal do colonialismo. Ver Ho Chi Minh, “The Failure of French Colonization”, em Ho Chi Minh on Revolution, ed. Bernard Fall (Nova York: Signet Books, 1967).
  9. O status neocolonial da Índia está extensamente documentado como parte de uma cada vez mais expandida literatura anti e alter globalização. Ver Arundhati Roy, Power Politics (Cambridge: South end Press, 2002) e Vandan Shiva, Stolen Harvest (Cambridge: South end Press, 2000).
  10. O grupo Direct Action, no Canadá, e, na guerrilha suíça, Marco Camenisch são dois exemplos disso.
  11. Ver Robert William, Negroes with Guns (Chicago: Third World Press, 1962); Kathleen e George Katsiaficas, Liberation, Imagination, and the Black Panther Party (Nueva York: Routledge, 2001); e Charles Hamilton e Kwame Ture, Black Power: The Politics of Liberation in America (Nueva York: Random House, 1967).
  12. Historical Context of the Founding of the Party, disponível em: <http://www.blackpanther.org/legacynew.htm>. Em 1994, Dr. Kenneth Clark, o psicólogo, cujo depoimento foi determinante no momento em que ganhara, em 1954, a decisão da Corte Suprema Brown vs. Board Education, declarou que a segregação havia sido pior que quarenta anos de protetorado. Ver também Suzzane Goldberg, “US wealth gap grows for ethnic minorities”, The Guardian (UK), 19 out. 2004, impresso em Asheville Global Report, n. 302, 2004, disponível em: <http://www.argnews.org/issues/302/nationalnews.hmtl>. O Pew Hispanic Center, ao analisar os dados do Censo dos Estados Unidos, descobriu, recentemente, que a média de famílias brancas que possuíam uma rede de credores era onze vezes maior do que a média das famílias latinas, e quatorze vezes maior do que a média das famílias negras, e que tal disparidade está aumentando.
  13. Mick Dumke, “Running on Race”, ColorLines, outono 2004, p. 17–19.
  14. “Eles [o movimento pelos direitos civis e o movimento pela libertação negra/anticolonial] rapidamente passaram para a luta armada, com a autodefesa dirigida a organizações armadas. A violência antigovernamental obteve a participação e a aprovação das massas”. E. Tani y Kaé Sera, False Nationalism, False Internationalism (Chicago: A Seeds Beneath the Snow Publication, 1985), p. 94. Ver também Mumia Abu-Jamal, We Want Freedom (Cambridge: South end Press, 2004), p. 32, p. 65.
  15. Flores Alexander Forbes, “Ponto número 7: queremos o fim imediato da brutalidade policial e do assassinato de pessoas negras; por isso que me juntei ao Black Panther Party”, em Police Brutaility: An Anthology, ed. Jill Nelson (New York: W.W. Norton and Company, 2000), p. 237.
  16. Abu Jamal, We Want Freedom, p.31.
  17. “Se as emoções das pessoas oprimidas não são liberadas de forma não violenta, serão liberadas de forma violenta. Deixem que os Negros se manifestem…Porque se se permite que suas frustrações e desesperos sigam se acumulando, milhões de negros buscarão consolo e segurança nas ideologias nacionalistas Negras”. Martin Luther King Jr., citado em Tani e Sera, False Nationalism, p. 107. Martin Luther King Jr. deu de cara com a ameaça da violência revolucionária negra como o resultado provável da surdez do Estado em relação às suas demandas reformistas. Os organizadores dos protestos, muitas vezes, ignoraram os distúrbios que levavam a cabo os ativistas militantes negros — para colocar os líderes pacifistas negros sob uma luz mais favorável. Ver especialmente Ward Churchill, Pacifism as Pathology (Winnipeg: Arbeiter Ring, 1998), p. 43.
  18. Tani e Sera, False Nationalism, p. 96–104. Como King mesmo disse, “O som da explosão em Birmingham se estendeu até Washington”.
  19. Ward Churchill, Pacifism as Pathology. Também por Tani e Sera, False Nationalism, capítulo 6.
  20. Um anarquista que participava do Congresso Anarquista da América do Norte rechaçou a ideia de que a resistência vietnamita, e não o movimento pacifista, foi quem venceu os Estados Unidos, confundindo temporariamente sua posição moral e tática com uma posição racial e afirmando que foram as mesmas tropas estadunidenses que, assassinando seus próprios oficiais, conduziram ao fim da guerra.
  21. No original, speaking truth to power. [N. do T.].
  22. No original, it backfired. [N. do T.].
  23. Tani e Sera, False Nationalism, p. 124–125. “O projeto 100.000” teve início no ano 1966, com a sugestão do assessor da Casa Branca, Daniel Patrick Moynihan, quem, a propósito, supôs que os homens desempregados alistados para o serviço militar estavam “mal adaptados” por causa da “desorganizada e matrifocal vida familiar”, enquanto o Vietnã representava “um mundo longe das mulheres”. (Curiosamente, a demonização das fortes mulheres negras foi insinuada algumas vezes também pelo próprio Partido dos Panteras Negras.) O coronel William Cole, comandante de um distrito de recrutamento do exército, disse: “O presidente Johnson quer esses meninos fora das ruas”.
  24. Tani e Sera, False Nationalism, p. 127.
  25. No exército estadunidense, fragging refere-se ao ato de atacar um oficial superior em uma cadeia de hierarquia com o objetivo de matá-lo. O termo originou-se durante a Guerra do Vietnã e foi mais comumente utilizado para significar o assassinato de um oficial impopular dentro de uma unidade de combate. Frag viria da granada de fragmentação, dispositivo mais usualmente utilizado em tais assassinatos. Informação disponível em: <http://en.wikipedia.org/wiki/Fragging>. [N. do T.].
  26. Mathew Rinaldi, Olive-Drab Rebels: Subversion of the US Armed Forces in the Vietnam War, rev. ed. (Londres: Antagonism Press, 2003), p. 17.
  27. Ibid., p. 11–13.
  28. Tani e Sera, False Nationalism, p. 117–118.
  29. É muito educativo ver como a mesma elite percebe o movimento antiguerra. Um relato rico é o do Secretário de Defesa, Robert McNamara, no documentário Fog of War: Eleven Lessons from the Life of Robert S. Mc.Namara, dirigido por Errol Morris, 2003. McNamara claramente expressou sua preocupação pelos protestos que frequentemente ocorrem em frente ao seu local de trabalho, mas com a típica arrogância de um burocrata, assumiu que o público não sabia o suficiente para fazer sugestões políticas. Ele acreditava que ele também queria a paz, e como o esperto condutor do governo que era, portanto, trabalhava pelo interesse dos manifestantes antiguerra.
  30. “Millions Give Dramatic Rebuff to US War Plans”, News, United for Peace and Justice, disponível em: <http://unitedforpeace.org/article.php?id=1070> (consultado em 5 out. 2006). Originalmente publicado pela Agencia France-Presse, 16 fev. 2003.
  31. Excluindo Al Sharpton, quem foi tratado (como sempre) como um marginal.
  32. Sinikka Tarvainen, “Spain’s Aznar Risks All for a War in Iraq”, Deutsche Presse, Agentur, 11 mar. 2003.
  33. Não foram somente os comentaristas quase anônimos que atribuíram diretamente a mudança de poder aos atentados, o próprio governo espanhol reconheceu o impacto dos atentados tentando encobrir o envolvimento da Al-Qaeda, e culpando os separatistas bascos do ETA. Os membros do governo sabiam que se os atentados estavam conectados no imaginário público com a participação espanhola na ocupação do Iraque, eles perderiam nas urnas, tal como ocorreu.
  34. Ward Churchill, quando usa o exemplo do Holocausto para demonstrar a dificuldade do pacifismo para lidar com a opressão, cita Raul Hilberg, The Destruction of European Jews (Chicago: Quadrangle, 1961) e Isaiah Trunk, Judenrat: The Jewish Councils in Eastern Europe Under Nazi Occupation (Nueva York: Macmillan, 1972). As próprias contribuições de Churchill ao tema, as quais eu mesmo me pus a ler, podem ser encontradas em Churchill, Pacifism as Pathology, p. 31–37. Também recomendo o prólogo de Bruno Bettelheim para Miklos Nyszli, Auswitchz (Nueva York: Fawcett Books, 1960).
  35. O exemplo dos dinamarqueses no Holocausto foi utilizado pelo anarquista pacifista Colman McCarthy em sua oficina “Pacifismo e anarquismo” na National Conference on Organized Resistance, na American University (Washington, DC), em 4 fev. 2006.
  36. Yehuda Bauer, They Chose Life: Jewish Resistance in the Holocaust (Nova Iorque: The American Jewish Committee, 1973), p. 32–33.
  37. Ibid., p. 21.
  38. No original, sit-down. [N. do T.].
  39. Ibid., p. 36.
  40. No original, not to rock the boat. [N. do T.]
  41. Por exemplo, no grupo que coordenava a lista de distribuição dos antigos “presos da consciência” da School of the Americas Watch (SOAW), que havia realizado uma das maiores campanhas de desobediência civil não violenta contra a política externa dos Estados Unidos, um pacifista veterano sugeriu que se os militares estavam colocando mais restrições aos protestos realizados em frente à base do exército, era porque estávamos fazendo algo mal, e deveríamos dar um passo para trás. A mesma pessoa, representativa de uma grande tendência dentro do pacifismo estadunidense, também se opôs a denominar “marcha” ao invés de “passeio” a um protesto (ainda que reivindicou defender o legado de King e Gandhi)
  42. Bauer, They Chose Life, p. 45.
  43. Ibid., p. 39–40.
  44. Ibid., p. 39 (em relação a Kovno), p. 41 (em relação a França).
  45. Ibid., p. 47–48.
  46. Ibid., p. 50.
  47. Ibid., p. 53–54.
  48. Um exemplo de que a mera ameaça de violência popular cria transformações provém do Movimento Indígena Americano (American Indian Movement, AIM), em Gordon, Nebraska, em 1972. Um homem Oglala, Raymond Yellow Thunder, foi assassinado por uns brancos que a polícia se negou a prender (algo relativamente comum). Seus parentes, cansados da apatia do governo, fizeram entrar em cena o AIM. Mil e trezentos indígenas com raiva ocuparam a cidade de Gordon durante três dias, ameaçando: “Viemos aqui a Gordon hoje por uma justiça segura para os indígenas norte-americanos, e para colocar Gordon no mapa […] e se a justiça para os índios não for imediata, voltaremos para apagar Gordon do mapa”.[Ward Churchill e Jim Vander Wall, Agents of Repression: The FBI’s Secret Wars Against the Black Panther Party and the American Indian Movement (Cambridge; South End Press, 1990), p. 122.] Com grande rapidez, os dois assassinos foram presos, um policial foi afastado de suas funções, e as autoridades locais fizeram alguns esforços para acabar com a discriminação contra os índios.

X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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