Games e Renda Básica

Nossa primeira doação internacional para Quatinga Velho em 2009, veio de uma avatar que visitou a sede virtual do ReCivitas no Second Life em Lindon ou Linden Coin. Nós fecharíamos a sede pouco tempo depois quando mudamos para o meio do mato (Paranapiacaba) já que não tínhamos mais conexão para interagir. Mas o doador o escritor Pietro Constantino, quando soube que estamos na Europa, fez questão de nos hospedar em sua casa, em Bologna. De eu não sei o que inspirou quem criou as criptomoedas, mas isso me ajudou muito a enxergar seu potencial e propor que os Fundos de Investimento e o próprio ReCivitas passasse a receber oficialmente já em 2010. O que hoje na época só serviu ainda mais para diminuir a pouca credibilidade que nos tínhamos já por defender outra ideia considera maluca,você sabe qual é. Enfim para encurtar a historinha quando fechamos nossa conta, e vendemos as terras virtuais no Second Life ao converter o Lindon coins em reais tínhamos tido uma considerável ganho. Porém o ponto interessante da moeda dos SL era que o crescimento do seu valor, não estava exclusivamente atrelado ao cassino do mercado em si. Ou mais precisamente a procura e consequentemente o crescimento do valor da moeda não era gerado pela vontade de ganhos especulativos e pecuniários, mas sim pela aquisição dos objetos virtuais, que poderiam conter um grande valor concreto, inclusive passível (juridicamente falando de propriedade intelectual). Design, obras de arte, programação, conteúdo original criados pelos usuários, estava criando valor não só um valor para a plataforma, Mas propriedades específicas que a imagem e semelhança do mundo real, eram comercializadas entre os usuários. Lembro-me que isso gerava uma discussão que é pertinente até hoje e enche o rabo do youtube e outras redes de grana. O contéudo original ali criado pertence a quem? E os direitos de reprodução ou copia, a quem? Ninguém então a casa (o cassino) fica com tudo.

Quando desenvolvi o robinright a licença alternativa de propriedade intelecual redistributiva minha proposta era utilizá-la em ambientes de criação intelectual coletiva, de modo que os criadores e desenvolvedores de contéudo e portanto do valor não renunciassem ao controle da obra, nem tivessem o poder de impedir sua difusão, mas fossem imediatamente remunerados toda vez que suas criações fossem utilizadas ou reproduzidas em obras que eventualmente recebessem pagamento. E nada quando ou enquanto nada fosse ganho. Uma lógica simples, mas que obrigava por contrato principalmente entre o usuário e a plataforma essa a remunerar por todos os dados, e metadados (incluso o que as obras) por esses desenvolvidas dentro da plataforma toda vez que o valor dela ou o que é mesma coisa para efeito de cambio da sua moeda recebesse um aporte de recursos.

Em suma era um sistema de redistribuição de renda a partir da propriedade intelectual do úsuário sobre o de fato é sua propriedade inviolável, seus dados, informações e produção autoral, que construia uma sistema monetário virtual onde o ambiente coletivo de criação produzia o bendito lastro, o valor não econômico real da moeda. Ou seja uma moeda digital que ao invés de ser minerada, era literalmente produzida a partir do valor das obras artisticas, arquitetônicas, literárias, culturais que estavam registradas na midia da plataforma, mas que transcendiam ela como valor próprio. e foda-se também o cartório, porque a plataforma para ganhar “em cima” precisaria garantir a propriedade do usuário sobre a obra.

Todo o segredo do processo é o jui-jutsu do contrato de uso. O “eu aceito”. Em 2013 passamos a tentar incorporar esse engenharia jurídico-econômica na plataforma de democracia direta do governe-se.com.

Os programadores que tive que contratar eu tinha e não podiam trabalhar de graça por que não tem como sobreviver não conseguiram desenvolver o projeto, como o capital que eu tinha também era pouco, não foram os melhores do mundo e nem tinham tempo para se dedicar porque dividiam seu tempo com o trabalho para alguma grande corporação que eles odiavam. Curiosamente, eles se dividiam entre os que eram a favor da total pirataria, copy totalmente free (nenhuma propriedade intelectual) e os que eram a favor de copyleft, a proibição completa do uso comercial de suas obras. Nos dois casos eles estavam sempre quebrados. No copyleft precisam ganhar em serviços que não tinham capital para prover. E no no copy free eles podiam pegar qualquer coisa de qualquer um e até ganhar dinheiro em cima, mas quem ganhava, é obvio, era a grande corporação que pegava inclusive o que eles criava free para o mundo e vendia fechado sem pagar um centavo para ele. E ainda por cima eles depois tinham que trabalhar como empregados. Nem um nem outro era a favor de propriedades (nem rendas) redistributivas. Preferiam sonhar em pegar tudo de graça para cobrar pelo que criassem em cima. Ou impedir que qualquer pessoa pegasse aquilo que criaram e tentasse ganhar alguma coisa em cima, nem que fosse como ele alguma coisa para o seu próprio sustento, já que nenhum deles era rico, e se não ganhasse com sua obra como seu capital, não teria outra opção senão vender o seu trabalho para quem era! Cobrar das corporações para dar de graça a quem precisava (a começar por eles mesmos!!!) essa justiça equitativa não interessava a nenhum deles, um porque sonhava em se tornar um Zuckberg, outro porque queria a todo custo implodir com ele. E terminavam os dois trabalhando no mesmo lugar: no Face- um sonhando em matar o boss… o outro em ser o boss.

Porque insisto tanto, porque toda construção econômica tem um aspecto político-jurídico que se não esta prevista na lógica da própria tecnologia, termina inevitavelmente depois sendo engolido tanto pela política quanto pelo jurídico. O projeto precisa ter anticorpos para lidar com esses ambientes toxicos, tem que ter politicidade e juridicidade incorporadas ao seu desenvolvimento.

Sei que sou chato, repetitivo e extremamente prolixo (e essa porra texto era para ser mais curto, juro!) mas nós da esquerda (você é de esquerda? não importa, não importa mesmo). Mas em geral a esquerda influenciada natrualmente pelas suas raizes socialistas, anarquistas e depois marxistas, tende a pensar na propriedade quase como o ludista vê a máquina como um inimigo um concorrente ao seu trabalho, em suma um problema e não uma ferramenta, e pior tende a propor para esse problemas solução extremamente simplistas como a completa abolição ou coletivização. Quando o sistema exige algoritimos mais complexos e inteligentes como mais variáveis e sentenças condicionais. Enfim tudo isso para dizer que concordo plenamente que esse é um dos campos mais promissores de onde vão surgir as mais inesperadas soluções que vão transcender os jogos e a recreação.

Abraços Fabi

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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