FEBEAPÁ: Como o policiamento ideológico está se tornando a ditadura dos idiotas

O autoritarismo inevitavelmente produz duas coisas em uma: indivíduos idiotas e intolerantes unidos num só corpo coletivo: a ditadura.

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Muito se fala sobre pós-verdade. Mas tenho por mim, desde que adquiri o hábito da leitura que o erro a ignorância e o orgulho em ser um idiota sempre tiveram no Brasil palco e aplauso de público cativo, para não dizer fãs histéricos. O elogio ao absurdo e a apologia a imbecilidade são uma constante na vida brasileira. E desde que exercida com poder e autoridade ou no mínimo com o diploma ou licença legal da sua prática profissional, a imbecilidade especialmente a subsidiada pela brutalidade sempre foi onipresentes na nossa história.

Uma cultura servil como a brasileira é logicamente também uma cultura autoritária ou mais precisamente de culto a figura de autoridade, não importa se estupida ou inteligente, se bruta ou pacifica, tem que ser autoridade. Afinal não há relação sem ao menos 2 partes, e se há tamanha audiência ao autoritarismo imbecil é porque ele tem um grande público.

Por sinal começo eu mesmo a discorrer sobre o Festival do Besteiras cometendo uma: “autoritarismo imbecil” é como “água molhada” um pleonasmo.

Nem todo idiota é autoritário, como já dissemos há de haver pelo menos um crente para cada autoridade, mas todo autoritário é necessariamente um idiota, e se não é com hábito fica. Mais precisamente podemos dizer que a produção do autoritarismo e da imbecilidade é uma grande espiral de merda simbiótica. Há que ser um pouco imbecil para recorrer ao autoritarismo ou aceitá-lo, e há que se ter impor cada vez mais o regime autoritário para produzir mais imbecis tanto os servis, quanto os prepotentes orgulhosos e arrogantes da sua ignorância bruta como poder.

A autoritarismo imbeciliza e a imbecilidade vulnerabiliza ao culto imbecilizante a autoridade. De modo que quanto mais idiotas aplaudindo imbecis apresentando seu triste e risível espetáculo da sua bruta e arrogante ignorância, pode ter certeza mais perto ou já dentro de um patético regime autoritário nos encontramos.

Recentemente tenho me deparado com pérolas nos noticiários que são um sinal desse tipo de imbecilização autoritária tanto da fina flor da intelectualidade de esquerda quanto de direita e da justiça que supostamente não deveria ter lados. Uma de cada facção para fingirmos que somos imparciais e não discordamos de todas:

Os cineastas de esquerda que por definição são absolutamente contra todo forma de censura e a favor do dialogo e diversidade boicotaram a exibição de um ou dois filmes de direita numa mostra em Pernambuco. Detalhe: seria a pré-estreia do filmes. Logo ou eles assistiram e julgaram por nós que ninguém deveria ser exposto a esse tipo de material subversivo; ou julgaram essa obra subversiva sem sequer assistir. Que medo. Fiquei até curioso de ver essa bosta, só para contrariar.

Já o secretário do Doria em São Paulo foi mais genial no quesito desfile da da sua classe demonstrando toda a sua compreensão dos termos e das coisas. Disse que não era contra as greves, mas que os grevistas a fizessem fora do horário de trabalho, de preferencia nas suas folgas. Essa dispensa comentários.

Outra mais antiga, 2013, mas que poderia ter ocorrido até mesmo durante a ditadura militar quando o Primeiro Febeapá estava a todo vapor: delegado carioca mandou prender perigoso blac block… Bakunin. Isso é que é fé na diligencias mediúnicas e produção de provas transcendentais: o anarco-comunista russo morreu em 1876. Considerando que há precedentes jurídicos e históricos está nem é tão isoladamente absurda assim…

Não confundam portanto o entanto o festival de besteiras com dificuldades de articulação do pensamento ou sua formulação. Dilma neste quesito foi “ó-concur” (“hors concours” para quem é “chic”) O Festival de Besteiras que assola o país vem e vai muito além destes últimos dias da democracia, e já vinha fazendo seus ensaios e pré-estreias bem antes .

O autoritarismo latente na esquerda e direita nunca morreu. A mediocridade estava só esperando sua chance de voltar a ribalta do poder. Assim embora seja inegável que tenha renascido do autoritarismo e patrulhamento ideológico desta esquerda conservadora, caquética e beata, é agora com a participação sempre de destaque da velha direita das cavernas que ele volta a ganhar seus contornos de besteirol clássico.

É aquela velha história, a intolerância não é só um convite a briga, é um convite a desinibição do que há de pior. Onde o outro idiota diz para ele mesmo: se eles podem desfilar toda a sua imbecilidade arrogante e ocupar o poder para cagar regras, porque não nós? Cagar regras por cagar regras qualquer idiota é capaz de fazer.

Pois é. Aproveita enquanto o festival ainda não reestreia oficialmente e ainda tem para todos os gostos: da intolerância burra do radicalismo da esquerda autoritária, a arrogância das mulas autoritárias e reacionárias de direita. Há besteirol para todos. Algumas mais risíveis do que perigosas, outras muito mais perigosas do que engraçadas.

Mas enquanto ainda da tempo, nada como revisitar a obra original de Stanislaw Ponte Preta, e o Festival do Besteiras que assolou o pais em outro período onde os autoritários mais cretinos da época saíram das tocas para os gabinetes de poder e produziram algumas das maiores pérolas da idiocracia nacional.

Leitura ou releitura “obrigatória”. Especialmente para quem acha que já chegamos ao fundo do poço, ou que “nunca antes na nossa história” estivemos tão fundo nele.

Porque relembrar pode não ser viver, mas ajuda a antever.

Segue um aperitivo.

Foi então que estreou no Theatro Municipal de São Paulo a peça clássica Electra, tendo comparecido ao local alguns agentes do Dops para prender Sófocles, autor da peça e acusado de subversão, mas já falecido em 406 a.C. Era junho e o pensador católico Tristão de Ataíde, o mesmo Alceu de Amoroso Lima, uma das personalidades mais festejadas da cultura brasileira, chegava à mesma conclusão da flor dos Ponte Preta em relação à burrice reinante, ao declarar, numa conferência: “A maior inflação nacional é de estupidez”(…)

Em Campos ocorria um fato espantoso: a Associação Comercial da cidade organizou um júri simbólico de Adolf Hitler, sob o patrocínio do Diretório Acadêmico da Faculdade de Direito. Ao final do julgamento Hitler foi absolvido.(…)

O ministro da Saúde — dr. Raimundo de Britto — pronunciava uma frase lapidar: “Para aliviar a despesa do Tesouro Nacional devem morrer de fome dez por cento dos funcionários públicos, nem que para isso se inclua meu filho”. Somente uma outra frase conseguiu rivalizar com esta para gáudio do Febeapá, foi aquela que pronunciou o ministro Juraci Magalhães: “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”(…)

“Tem que manter isso aí, viu?”

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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