Facebook poderia ter impedido os massacres?

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(…) O Facebook, que já retirou fotos de mulheres por estarem com seis nus faz vista grossa para fotos que incitam à violência? Mulher nua é mais perigosa que um revólver apontado para o leitor?

Mas a surpresa maior viria no dia seguinte, hoje. A polícia informou que o crime fora discutido pelos dois assassinos na mesma página dessa rede social por mais de um ano e meio.

O próprio Mark Zukerberg já afirmou, no escândalo de vazamento de dados que o Facebook sabe tudo sobre as preferências de seus usuários.

Fica, portanto, difícil entender porque, durante um ano e meio, o Facebook leu as mensagens trocadas entre os dois assassinos e não detectou o massacre que planejavam e os denunciou às autoridades. — Facebook poderia ter impedido massacre de Suzano

Poderia não, continua podendo e devendo. Não digo impedir o massacre- porque se não pudessem usar essa plataforma, provável é que buscariam outra- mas isso com certeza não exime a responsabilidade da empresa de não se prestar a esse tipo de serviço, nem muito menos transferir tal responsabilidade ao usuário. Logo, não só pode como deve, mas essa não é a verdadeira questão, mas sim: qual o interesse deles nisso? Ou mais precisamente, o que eles ganham ou pior perdem fazendo isso?

Tecnologia para tanto não só já existe como está sendo usada e abusada pelas gigantes da informação, incluso Facebook. Rastrear conversas (nem todas públicas); detectar discursos e imagens para mapear interesses e intenções e finalmente converter tudo isso em banco de dados e metadados é basicamente a base dos negócios deles: o tráfico e venda de dados e influência de usuários ou nas palavras do relatório do parlamento europeu: desse gangsterismo digital.

A resposta que procuramos está portanto “onde” e “como” o Face faz seus bilhões. Seja vendendo esses dados para outras empresas (e governos); seja usando-os para aprimorar seu próprio modelo de negócio, isto é, prendendo mais e melhor a atenção do seus usuários para novamente vender esse serviço de influencia e fidelização dos seus usuários. Seu negócio portanto consiste em prender a atenção dos seus usuários e coletar seus dados, seja para vender esses dados como mercadoria, seja para vender seus serviços de influência baseado nessa coleta para quem paga, e muito por ele.

Embora haja quem conteste, Inteligencia Artificial para detectar e distinguir tendencias e intenções, incluso distinguir discursos de ódio e apologia a violência, e até mesmo ofensas gratuitas de ameaças e planos de ataque mais concretas, já existem, mas são utilizadas para outros fins. Assim como outras tecnologias de rastreamento, que combinadas poderiam ser usadas não só para detectar e banir contas do usuário, mas até mesmo identificar e banir máquinas, onde os perfis são falsos, (notem bem, máquinas não pessoas) logo podendo contribuir subsidiariamente nas investigações para se chegar até essas pessoas e para eventualmente impedir seus ações, ou dificultar seu acesso a sua rede.

De fato identificar pessoas em massa é difícil. Porém suas maquinas e perfis não. Tal procedimentos poderiam ser utilizados para outros propósitos que não o tráfico, vigilância e espionagem e manipulação de dados (e consequentemente pessoas). Atividades que obviamente são feitas sem o consentimento expresso dos lesados, mas que não raro estão descritas descaradamente com eufemismos é claro, em contratos e termos de uso onde não consentir em ser objeto de tais atividades não é uma opção, não de uso, ou em outros termos menos eufemísticos: ou você aceita e entrega seus dados ou simplesmente não usa.

O que em tese não seria problema maior e senão uma oportunidade, afinal ninguém é obrigado a usar este, e havendo outros poderia usá-los, ou não havendo fabricar ou bancar a constituição de concorrente melhor, afinal é um livre mercado, ou não é? Em tese, há controvérsias. Mas na prática nenhuma dúvida, longe de concorrência, o que existe é o monopólio dessas companhias, não só porque nem todo mundo tem capital suficiente para competir e sobreviver a elas, mas porque elas, vejam só, vão comprando novamente seus concorrentes usando os mesmos instrumentos e práticas que as levaram onde chegaram e as sustentam por todos os meios necessários onde estão.

E por favor, não vai me dizer que você acredita que Google, Apple, Microsoft, Face, se tornaram as gigantes que são de uma garagem porque seus fundadores ganharam de mão beijada ou mesmo compraram o capital, eles precisaram vender e vender muito para não dizer tudo, e senão até a alma supondo que tivessem uma, certamente o controle da empresa para o capital que de fato constitui e não só banca seu monopólio, como o subsidia pelo simples fato que controlam tanto os meios pelo qual se financiam potenciais concorrentes quanto os meios que regulam e logo subsidiam burocraticamente estes e não outros.

Assim, a pergunta de porque eles não fazem, é quase retórica. Primeiro porque não faz parte do seu negócio. Segundo e mais importante, porque basicamente tais procedimentos causariam sérios danos e prejuízos a esse negócio. Dados é dinheiro e dinheiro para essa gente não fede, não importa de onde ele venha, nem como é conseguido. Afinal de contas, propaganda fora, Facebook (e propaganda) são negócios e não caridade.

E um negócio que se monetiza tanto com a venda e tráfico de dados dos usuários quanto a venda e trafico de influencia sobre os usuários exercida através da manipulação e instrumentação destes. Como todo serviço de mídia, comunicação, ou congregação, um pesque-pague em aquário, que fornece não só o peixe fácil, mas a isca certa. Um serviço que sustenta ampliando e conquistando o tempo que o usuário gasta nele, prendendo a atenção, e que portanto, um serviço de entretenimento, uma casa de show onde os clientes embora não paguem para entrar, tanto fornecem o espetáculo quanto bancam os lucros dos proprietários tanto consumindo o que é anunciado, quanto entregando de graça, ou sendo roubados no maior bem na sociedade da informação, sua privacidade, mas pode chamar de propriedade sobre dados pessoais.

Sem show, não a entretenimento. Não há clientes, nem anunciantes, nem dados evadidos, nem lucro. Pedir para o Facebook, frear discursos de ódio, apologia a violência, ofensas e ameaça, é como pedir para o Datena não mostrar crimes, Sonia Abraão não mostrar mortes, Ratinho não mostrar barraco, TV não mostrar bunda, XVideos não mostrar sexo, site de fofoca publicar notícia, bar não vender pinga, e indústria armamentista não vender arma. É pedir para o Facebook fechar seu negócio, abandonar o nicho de mercado que o alimenta e que ele alimenta para crescer como cresceu. É pedir para traficante não vender droga. E mais inútil que isso só mesmo interpelar ao invés dele o usuário, e pedir para que o viciado não consuma, nem venda em troca de mais uma dose.

É por isso que ele não vai mostrar tetinhas, tetinhas não são seu negócio, ele não ganha nada nem com liberação sexual, nem com sua perversão, não diretamente, mas sim diretamente com o pacote de problemas da sublimação da libido dos frustrados devidamente transformada e capitalizada, e não só por essa industria, em trabalho, consumo, e claro pulsão competitiva e não raro ultraviolenta, retroalimentada, entre outros fatores, justamente por essa repressão puritana que fabrica paranoides, esquizoides e psicoides na exata proporção das neuroses dos nem tanto.

Não é toa que conforme esse tipo de mentalidade beata e puritana e supremacista se propaga, vem com ela a hipocrisia criminosa tanto dos profetas patriotas e religiosos que demonizam e culpam o outro por seus medos e desejos pervertidos e junto com eles o exércitos de seguidores fieis, cegos ensandecidos, fanáticos e furiosos que se ameaçados e tolhidos em seus privilégios tomados por direitos, não raro relacionados a sua masculinidade e relações de pátrio-poder, e suas miríades de desdobramentos supremacistas integrados da gene aos gêneses: sangue, terra, raças, cultos, sexos e posses e identidades.

Seu negócio não está baseado portanto em sexo, erotismo, romance e privacidade, mas no contraposto, nas frustrações, perversões tanáticas, sua discórdia, discriminação, agressão (verbal) e sua publicidade explicita, nesse que é hoje o maior espetáculo da terra, o grande reality (freak) show, o verdadeiro, big brother.

Contudo, mesmo assim a ligação da marca e o uso da plataforma para o planejamento de assassinatos premeditados e sua transmissão por terroristas é sempre uma má publicidade e péssimo para os negócios, mesmo dentro de um mundo de maior tolerância a hegemonia de uma espécie de supremacismo velado, ou seja, mesmo quando eles não são muçulmanos negros nem orientais, mas brancos, cristãos e declaradamente apologistas da civilização européia, e suas práticas históricas que ela mais evita lembrar, isto não é bom para os negócios. Logo a pergunta permanece, porque não evitá-los?

E eis que evitando ilações conspiratórias, onde pressuposições que enxergam cabalas e alimentam a histeria paranoide dos que vivem de buscar bodes expiatórios para seus holocaustos, chegamos finalmente ao dilema do Facebook que não é moral, mas estritamente legal e jurídico, ou se preferir um dilema amoral que habitam a zona cinzenta entre o crime recriminado e o legalizado.

Mesmo sendo péssimo aos negócios, como o Facebook, e outras gigantes da informação, poderiam denunciar crimes cometidos em suas plataformas, sem assim se entregar e confessar os seus? Ou melhor, sem se ver obrigado a confessar mais alguns…

Como entregar crimes de outros sem se incriminar (de novo) nos seus, sem denunciar junto as suas práticas que permitiram testemunhar tais atos? É o dilema do ladrão que arromba uma casa para roubar documentos e se depara com um assassinato, como ele pode denunciar o assassino sem explicar o que estava fazendo ali? E pior, como poderia explicar porque uma das ferramentas que ele usou seja planejar ou publicitar seu crime, seja não por acaso justamente a que ele provê?

Assim, ainda que seus crimes de invasão, roubo, apropriação indevida da informação não estejam devidamente previstos nas legislação, e talvez nunca estejam- ao menos não de modo a garantir a propriedade da pessoa sobre seus dados, pois tal inviabilizaria essa nova fase de expropriação e acumulação do capital tanto para empresas quanto estados, baseada na reificação da privacidade e sua mercantilização expropriação agora não mais como propriedade privada e pessoal- ainda sim certamente a publicidade de ser tomado por um notório ladrão mesmo que grande demais para ser sequer julgado como tal, é ainda pior do que se fazer de “João sem braço”, e bom moço, dentro do seu próprio parque de diversões, onde você paga para entrar com um bem muito mais valioso do que o dinheiro, e ainda vai rezar para sair com o pouco que restar dele.

Essa então é a verdadeira razão porque o Facebook não pode se expor de modo algum, nem entregar, nem impedir eventuais massacres, não enquanto não chegar a um acordo legal com seus reguladores (e tributadores) sobre a parte obscura (para não dizer mafiosa) do seu modelo negócio (para não dizer pilhagem) e claro qual é a parte deles, os donos da lei e jurisdições sobre esse butim. Este sim, um monopólio ainda mais lucrativo que qualquer outro jamais inventado ou por ele subsidiado. Não vive do espetáculo de massas, do culto a discórdia e cultura da violência, não espera, faz acontecer pela supremacia da força de fato.

Fazer, portanto do Facebook uma verdadeira rede social, de concórdia e não de discórdia, abdicar da formação de bolhas incomunicáveis sempre prontas para comprar uma ideia e um produto e seguir fidelizadamente seus vendedores é simplesmente matar a galinha de ouro de algo que é muito mais do que um simples negócio, é um império. E pior ainda do que isso, seria o expor as práticas que sustentam seu modelo de negócios “apenas” para evitar os efeitos, ainda que não tão colaterais assim desse modelo que alimenta seu poder e riqueza.

Denunciar seria praticamente portanto confessar não só sua omissão criminosa, mas sua (i)responsabilidade social e criminal e de quebra entregar suas outras praticas ilegais que colocam nessa posição de omissa e irresponsável e cúmplice na exata proporção de intencionalmente alimenta a propagação de qualquer coisa que esteja de acordo tanto com seus interesses pecuniários quanto os dos seus grandes acionistas, qualquer coisa que não só não afete portanto de lucro, sem afetar como esse sistema teratológico e seus ganhos se reproduzem, qualquer coisa, como por exemplo o ódio e a violência. Afinal de contas o negócio precisa ser sustentável; não pode quebrar o ciclo vicioso, a simbiose que sustenta a audiência e seus ganhos promove e propaga o mórbido e conformalidade que são literalmente o sistema nervoso desse sistemas enquanto corporações.

Existem muitas formas de ter sucesso e ficar rico , inclusive as verdadeiramente honestas, mas essa definitivamente não é uma delas.

Moral da história: se ainda alguém não lhe fez uma “proposta irrecusável”, um dia ainda irá fazê-lo, e quando você recusar, se recusar, ele irá te dizer qualquer coisa como: “não seja tolo, se não for você a fazer isso, um outro certamente irá fazê-lo”. E se isso for suficiente para mudar ou reforçar suas ideias, então, meu amigo, fique tranquilo você tem tudo que precisa para ser Zuckeberg exceto é claro uma coisa: inventar um Facebook, ou qualquer outro sistema ou esquema parecido, que na falta de inventividade você pode comprar ou mesmo roubar, tanto faz… desde que você tenha em mente essa ética: “se não eu, um outro, então, porque não eu?” Com ela o céu, ou o inferno, a gosto do freguês, ou melhor do provedor é o limite e o mais importante sem culpa, nem remorso. Quem sabe um dia não seja você a estar fazendo “propostas irrecusáveis”, vai saber…

Em seu relatório publicado em 24 de janeiro deste ano, Greenspan afirma que o Facebook é “o maior golpe da história” e que metade das contas são falsas.

Segundo o CEO da Think Computer, a rede social nunca quis reconhecer o alcance do problema de contas falsas que veio à tona com o escândalo da Cambridge Analytica e as eleições presidenciais americanas de 2016. Para Greenspan, esse problema, em tese, não tem solução.

“O Facebook é tão grande e sua equipe, proporcionalmente, é tão pequena, que não sabem o que está acontecendo”, afirma à BBC News Mundo.

“Criaram uma estrutura que, de uma perspectiva computacional, não é possível fazer o que dizem que pode ser feito, como distinguir uma conta real de uma falsa. Em alguns casos sim, é possível. Mas se alguém diz que seu nome é José Pérez, como saber quem realmente ele é?”

Greenspan cita o Teste de Turing, desenvolvido pelo matemático Alan Turing, que estabelece, basicamente, que para um computador ser considerado inteligente precisa ser capaz de interagir com um humano e não ser identificado como máquina.

“O assunto se complica porque haveriam que determinar se essa entidade é um humano e, mais ainda, dizer de que humano se trata. Não acredito que o Facebook seja capaz de fazer isso. E não acredito jamais vá ser capaz de fazê-lo.”

Segundo Greenspan, Zuckerberg mentiu ao Congresso americano ao afirmar que essa questão seria resolvida com inteligência artificial.

“Não é verdade. E ele sabe que não é verdade”, afirma, aos risos. Greenspan afirma ter alertado Zuckerberg sobre isso em 2005.

“Mark sabe desse problema há anos. E eu disse a ele por escrito e tivemos uma conversa porque um amigo de um amigo tinha um problema ligado a essa questão. Mark negou e disse que estávamos exagerando as coisas. Ele sabia exatamente o que poderia acontecer. Mas nunca admitiu.”

Para Greenspan, Zuckerberg não apenas deveria se demitir como também ser processado pelos danos causados por sua rede social.

“Muita gente subestima até onde Zuckerberg pode chegar para conquistar mais poder. Eu também fiz isso, foi o meu erro. Mas acredito que ele sempre foi assim. Não tem empatia pelos outros. É capaz de quebrar leis e promessas e arruinar relações para seguir adiante”, afirma (…)

-’Mark Zuckerberg não sabe o que é amizade’, diz ex-colega do dono da rede social em Harvard

No fundo o problema é maior do que as gigantes da informação, porque não só para eles tudo não passa apenas de um jogo… onde a tara e perversões são outras.

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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