Fabby, concordo com praticamente tudo o que você colocou. Com o restante, como tenho mais dúvidas do que certezas acho legal ficar assim no ar. Qual a extensão do perigo dessa nova nacionalista? Como funcionaria uma economia com a desmonopolização dos meios-de-troca? Acho essa então é uma questão que eu gostaria mesmo de voltar a me aprofundar quando tiver mais tempo. Gostaria mesmo de elaborar uma resposta melhor para o que você me escreveu, merece. Por isso demorei. Mas não queria escrever algo vazio de conteúdo, e que no final acrescentaria muito pouco ao muito que você já bem tinha colocado, só para replicar.

Espero então não seja demais.

Fico contente que você acredite que as pessoas vão atingir um outro estagio de compreensão solidária e começar (ou voltar) a se ajudar mutuamente. É curioso, quando iniciei o projeto da renda básica acreditava nisso também. Porém, hoje, calejado, ainda vejo isso acontecendo, mas por razões menos nobres.

Veja, você está absolutissimamente certa,e se eu não admitir isso estaria traindo minha própria história de vida. A inovação, consiste justamente, em fazer o impossível, em realizar aquilo que as pessoas não acreditam ou não acreditam mais. Então não estou excluindo a possibilidade que surja um projeto, um movimento, não sei, talvez simplesmente uma nova consciência e que as pessoas passem a se comportar de forma diferente. Mas não acredito mais nisto.

Talvez porque depois de tanto lutar para algo acontecer, o surgir, e acontecer tenham sido tornado palavras absolutamente enganadora. tem gente que acredita em trabalho, eu acredito em muito luta, com muita cotovelada na cara. Surgir primeira engana… Como se nossas experiências pudessem ter “acontecido” sem todo o trabalho acadêmico anterior (que eu tanto ojerizo pessoalmente, mas reconheço). Ou ainda essas novas programas governamentais pudessem “surgir” sem nossa onda das experiências. Para depois acomodar…

Sei que uma transformação esta em curso. Que essa plantinha esta crescendo, mas não tão rápido, e protegida das nuvens de tempestade que se aproximam. Você tem razão esse jogo está aí há seculos, mas é justamente por isso que eu sei quando eles perdem no seu brinquedo, no seu banco imobiliário, eles viram a mesa e partem para briga, para não pagar suas apostas, reembaralhar as cartas e começar o mesmo “banking” de novo. Você pode até dizer que a guerra para eles é um jogo e uma aposta apenas mais alta de mais vidas humanas contra mais vidas humanas.

É engraçado geralmente ativistas são pessoas boas de coração. Otimistas, agradáveis e pacificas. Eu sou uma pessoa ruim, pessimista, violenta, e absolutamente inconveniente e desagradável. Se não sou estou incomodando é porque estou sendo dissimulado. E o pior de tudo é que ainda por cima com todos esses defeitos pessoais gosto muito da minha gosto de mim, veja só que coisa. Gosto de ser um filho da puta! Porém por razões que não vem ao caso, decidi não ser governado por minha personalidade, ser um escravo da minha índole, criação, sei lá. E portanto decidi fazer absolutamente o oposto do que essa persona que mora dentro de mim. Decidi ser exatamente quem eu queria ser independente até mesmo do meus desejos e vocação contrária. Decidi, deliberadamente então não matar esse filho da puta que eu sou, porque como eu disse eu gosto dele, mas incomodá-lo, perturbá-lo, zombar dele e fiz disso um hábito. Em resumo tornei-me mais insuportável, um idiota filho-da-puta que ao invés de fazer canalhices e filha da puticites, faz ou fazia algo de bom para alguém. No começo precisava ir para lá, uma vez por semana ou por mês. Depois virou um hábito. E já faço sem pensar. Cada vez, que pago esse renda básica eu eu tenho prazeres num mesmo ato:

o primeiro absolutamente puro e incomparável, dar e receber a confiança de outra pessoa sem pedir nada em troca. Como diria o burguês isso é que nem ir a Paris, não dá para explicar tem que conhecer, mas eu prefiro Quioto.

o outro absolutamente prazer sórdido, deixar puto e exposto quem se não move um dedo, tem escorpião no bolso, e só atrapalha.

Ou seja dois coelhos numa cajadada só. Fazendo uma coisa construtiva de quebra fodia quem me entravava e perseguia e o mais importante de tudo: fazendo o que algo de bom: o que eu podia fazer por alguém que precisava mais do que eu. Barba, cabelo e bigode.

Ademais a coisa mais fácil do mundo é bancar o bonzinho com a renda básica, principalmente na era dos pagamentos eletrônicos, transfiro o dinheiro e depois tenho mais tempo ainda para atazanar os governos e demagogos que se acham o máximo e não conseguem fazer nem isso? Confesso, é divertido. Como é que essa gente tão vaidosa e rica consegue ser ainda por cima tão avarenta para não se blindar de tamanha hipocrisia fazendo tão pouco, nem me pergunte? Como eu te disse eu sou um filho-da-puta mas não sou um idiota.

Tô brincando. É claro que eu sei. Pagar é fácil. Fazer um projeto é pra chamar de seu e pagar de bonito é difícil pra caraio. Até dá. Mas a chance de nem sair do papel é gigante.

Acho que você deve estar percebendo onde quero chegar, mas deixa eu continuar mais um pouco.

Na verdade não sou bem um pessimista quanto a natureza humana me considero um “realista”. Não consigo portanto deixar de ver as duas possibilidades trabalhando não apenas como alternativas, mas juntas dentro da nossa natureza humana. E por isso, não anseio pelo melhor espero pelo pior e trabalho não só contra isso, mas com isso para fazer o melhor que puder. Não apenas com o que a de ruim em mim, mas com o que a de ruim nos outros. Você pode até fazer uma coisa bem legal só com gente boa fazendo coisa boa, mas isso só vai durar pouco tempo, e ter pouco alcance. Se você quiser uma coisa que atinja muita gente por um longo tempo então você vai ter que pegar que usar toda a energia ruim que eventualmente iria derrubar o que você queira fazer para alimentar o barco da utopia de onde você quer chegar.

Explico.

Marx já dizia que o sistema inerentemente engendra seu fim. Suponha que não. O que impede que você o alimente com o que ele quer para que ele se destrua? Em uma perspectiva mais pessoal, Diógenes de Sinope dizia que arte da liberdade não era o enfrentar, o inimigo, mas sim manipular quem acredita que está mandando em você. o que é bastante inteligente quando ele é infinitamente mais forte e brutal que você. Na verdade está estratégia de libertação dos prepotentes é tão velha quanto o primeiro escravo, e nasceu com a primeira a mulher livre submetida pelo primeiro homem estupido que a tomou pela força bruta.

Você pode peidar bem fedido, tudo que você precisa fazer é convencer esses egocêntricos vaidosos que o peido é deles, que eles vão cheirar com gosto, especialmente quando eles são do tipo que peida no elevador quando só tem ele e mais alguém e com a maior cara finge que não aconteceu nada.

Há dois tipos de preto-da-casa o que ama o patrão, e o usa e trama contra a casa. Quando você pode enfrenta enfrenta, quando não dá se finge de morto e espera o momento certo para se defender.

Porém essa estratégia é limitada e arriscada. Primeiro porque eles só usam o que conseguem tomar como seu, o que conseguem se apropriar, e só para compartilham entre os seus iguais. E depois porque eles só podem se dar conta que estão carregando o filho de outro pensando que é seu, quando esse já for grande o suficiente para não ser morto no berço. Porque é assim que o pátrio-poder funciona.

Logo se estou te revelando, aqui abertamente essa estratégia é porque agora já era. Gostem ou não das experiências e práticas, admitam ou não de onde vieram elas são,cresceram e estão se espalhando. Agora vão ter que criar esse filho como se fosse deles, mesmo no intimo odiando ele. Tudo o que eles podem fazer é dizer que sempre foram a favor das experiencias desde de criancinha. E que que eles inventaram a roda e não os pretos e escravos. Não tem problema, não estamos correndo atrás de reconhecimento, só roda a porra da nossa roda. Queremos renda básica.

Logico que há pessoas inclusive nos lugares mais ricos que são solidárias, e não se movem só por vaidade e poder. O problema é que elas estão submetidas ao mesma desigualdade senão de riquezas, de poder, que nós. Elas portanto sim, poderão ajudar a reduzir a desigualdade mas não exportado e sim compartilhando com outros cidadãos. Podem reduzir a desigualdade econômica entre os que estão submetidos as mesmas desigualdade politicas que eles, mas não tem como quebrar a desigualdade extrema. Podem compartir sua riqueza particular, mas não tem nem como reaver sua própria riqueza comum quanto mais ajudar-nos a reaver a nossa.

A desigualdade extrema não é pela desigualdade entre indivíduos ou entre povos, é dada contra os povos expropriados por governos e corporações industrias e financeiras juridicamente protegidas e malcomunadas. Os bancos são pessoas jurídicas eles não existem sem a proteção do Estado. Assim como o Estado não existe sem o financiamento deles.

Logo a redistribuição de renda, não se faz sem a restituição dos direitos das propriedades e recursos naturais expropriados em favor desse conluio. Não se faz com tributos, ou contribuições solidárias mas pela desestatização e desprivatização do bem publico e comum em favor do controle politico e econômico pela sociedade, pelo cidadão não mais reduzido a cliente das corporação privadas e estatais, mas seu controlador e proprietário.

O problema é que isso não é devolvido de boa-fé pelos usurpadores e ladrões, isso só pode ser retomado e não pela força mas pela desobediência civil, isto é, pela radicalização da igualdade de poderes entre os cidadãos, democracia radical. Daí a minha certeza que sem a plenitude de democracia e cidadania plena, não há possibilidade de uma verdadeira renda básica completamente incondicional, e vice-versa. Porque você jamais tem o controle pleno sobre sua renda se não tem antes o controle pleno da sua participação na sua propriedade, nem tem o controle politico se não absolutamente nenhum poder ou participação econômica.

A desintegração do direito natural à liberdade-propriedade compartimentada entre poderes políticos e econômicos é em si a divisão preconceitual que enseja o domínio cultural e alienação dos povos. E sem a libertação dessa cultura desintegradora e desagregadora do direito natural não há possibilidade nem de igualdade politica, nem liberdade econômica ou seja justiça social.

Mas perdão, isso é a teoria.

Na prática, não acredito que as pessoas nem dos países ricos ou pobres vão exportá-las, porque para a grande maioria o que os olhos não vem o coração não sente. E é por isso que há as pessoas preferem construir muros para “preservar sua sensibilidade” e a crença da sua bondade do que ter que lidar com a pobreza e o fato de que são engrenagens conformadas de uma monstruosidade. Historicamente nenhum avanço tecnológico social ou material ou cientifico colocou pressão moral nenhuma nas sociedades que desfrutam dele. Pelo contrário, o que ao longo do tempo, foi feito é um discurso de racionalização justificação da exclusão e privação dos marginalização e expropriação mesmo quando ela ocorreu como crimes colonizatórios desses próprio processo que se autodenominou civilizatório!!!

As pessoas ainda morrem nos lugares mais pobres do mundo de diarréia. E ao contrário são as pessoas mais ricas desses mesmos lugares, as suas elites e burguesias a que menos se solidarizam com elas, porque isso as obrigaria a reconhecer a sua desumanidade e entre isso e sair do seu conforto, preferem desumanizar como bandidos ou instrumentalizar como oprimidos os marginalizados por elas e sair para jantar. É por isso que quando você tem um projeto social transformador desses que não agrandam a Globo, você consegue suporte e grana até na Suiça, mas não no Brasil.

A tendencia de quem desfruta de um estado de bem-estar é justamente oposta. eles tendem a ufanizar o seu estado social e seu progresso como se fosse para todos, invisibilizando as maiorias excluídas, mesmo que essa cegueira seletiva precise de muros físicos para se sustentar e acabe por constituir a sombra onde os racistas xenofobos e todos que precisam odiar alguém por conta das suas frustrações ressurjam com toda a força bem debaixo do seu nariz e dentro da sua própria sociedade tão perfeita!

Uma das razões para eu escrever Renda Básica Universal foi esta. Em duas viagem distintas para Europa entre 2010 e 2015 pude assistir e sentir na pele o crescimento desse racismo e xenofobia enquanto o próprio movimento da renda básica permanecia como toda a sociedade alienado, preferindo não olhar para o que não queria acreditar que estava acontecendo. E o Canada foi o apice. Ver quem deveria estar se colocando como alternativa, fingindo que nada estava acontecendo, que Trump ia perder, que não viviamos a maior crise de refugiados destes a segunda guerra, e blá, blá, blá, foi para mim a gota dagua. Sei que isso ocorre em todas as bolhas da sociedade capitalista e em todos os movimentos sociais. Quem mais poderia fazer alguma prefere acreditar que não é preciso fazer nada, e fica esperando as coisas se resolver por conta própria ou que venha um governo que enfim resolva por eles. Mas a renda básica não é só muito importante para se prestar a isso, ela hoje é do ponto de vista estratégico absolutamente necessária se não quisermos ter um regresso a conflitos e regimes ditatórias mundo afora. Por isso, estou sendo tão enfático.

Tive essas mesmas discussões com os especialistas em rede quando da primavera árabe e levantes populares pelo mundo. Eles acreditavam que isto em si, resultaria na revolução democrática que esperávamos. Eu defendia pela perceptiva histórica dos outras revoluções produtivas e primaveras dos povos, que isto não ocorria sem reação autoritária: guerras e repressão. Na verdade minha preocupação a época já era tão grande que trouxe isso para o meu curso de Associativismo e Redes dentro da instituição que eu dava aula, para os olhares, estupefatos dos alunos que queriam saber como captar recursos, e não o que a porra do slide do Mussoline estava fazendo ali.

Bem para não fazer deste texto uma Bíblia. Fabby. Vou dizer para você o que acredito que vai acontecer. Não é uma previsão, porque é uma mescla de anseios, temores e parte de uma trabalho para continuar interferindo nesses acontecimentos, sim peidando bem fedido mesmo eles já sabendo que o peido não é deles:

A Finlândia é uma renda básica nacional num lugar de um mundo globalizado e desigual. Se eles fizerem tudo certo, e espero que façam, porque não é tão fácil quanto parece, eles no final vão encontrar o seguinte problema aparentemente insolúvel pela própria limitação do modelo e das circunstancias: a imigração. Um problema que já existe, sem a renda básica.

Pessoas vindo dos lugares mais distantes do mundo já buscam até mesmo os países mais inacessíveis e adversos da Europa porque é melhor do que a merda que eles vivem, imagine com o sonho de uma renda básica senão para ela, pelo menos para seus filhos naturalizados. Disso eu sei porque vi gente sendo expulsa as pencas de trens para a Suécia. E disso eu sei porque quando apliquei a renda básica em Quatinga Velho, um dos fatores que mais monitoramos foi a imigração.

Conforme publicamos em nossos estudos o mesmo fator que levou os proprietários mais ricos a abdicar de participar da experiencia- ou seja, demandarem a renda básica- foi o que não levou os moradores próximos (de Quatinga Novo) a se mudarem para Quatinga Velho para receber o beneficio: o valor baixo do beneficio. Simplesmente não compensava aos ricos que moravam tomar parte do projeto, e nem mesmo aos mais pobres tomar parte de um projeto que pagava tão pouco, ainda que para os morados mais carentes valesse a pena. Chamamos isso de focalização pelo valor significativo.

Esqueça o valor ideal ou necessário, pense no que é uma renda básica significativa. Uma renda básica significativa é aquela que o individuo considera e ninguém mais senão ele julga que vale a pena buscar. Como assim não é só receber? Hoje o projeto as pessoas participam da contribuição mesmo que essa contribuição seja zero. No inicio não havia nem isso, mas é um erro pensar que não existe um custo. Tempo é nosso maior capital e nem sempre dinheiro paga esse custo. Quanto mais rico, ou pelo menos mais consciente uma pessoa é mais ela paga ou se livra do dinheiro para ficar com esse capital que não tem volta.

Na verdade se você for um proprietário com grana e um agente do ReCivitas vier bater a sua porta num domingo para perguntar: “você conhece o que é a renda básica?”, “teria um tempo para conhecê-la” “não gostaria de recebê-la?” você vai ter vontade de mandar o desgraçado tomar no cú como um testemunha de jeová. Pouco importa se o chato ao invés de estar te pedindo 30 contos para te encher de lorota, quer te pagar 30 reais para ainda ouvir seus problemas. É domingo seu único dia de descanso… nem se fosse 50. E se a gente incomodasse mais tem gente que pagaria 30 só para a gente nem passar mais lá! Mas e se fosse 1000? Hum…

Fabby, não é a toa que fundei uma igreja para não cobrar dizimo, mas distribuir renda básica, o trabalho social de base da renda básica é a mesma coisa que evangelização… só que reversa! ao invés de roubar dinheiro dos pobres e vender mentiras; ouço as verdades da vida deles e distribuo renda.

Logo, Fabby, não só ordem dos fatores altera o produto. Mas a forma como é feito e sobretudo o valor da renda básica. De acordo com as posses de cada pessoa, a mesma grana pode ter diferente valor. Em teoria econômica austríaca eles chamam isso: Teoria da Utilidade Marginal

O equilíbrio é portanto delicadíssimo. Quando você não tem como pagar para todo mundo que está fora da sua área de abrangência, você não simplesmente desconsidera essas pessoas. Se você pagar uma renda básica que seja absurdamente desigual vai gerar mais desigualdade e migração, se pagar uma renda minuscula demais, não vai fazer diferença para ninguém, nem mesmo quem mais precisa.

Isso também pode ser traduzido na seguinte equação: o custo da imigração não pode ser inferior ao do beneficio da renda, ou o beneficio da renda não pode ser superior ao risco da imigração. Um autoritário fascista irá naturalmente aumentar as barreiras migratórias mesmo inclusive as físicas e repressoras e ao mesmo tempo diminuir ao máximo a renda básica- de preferencia não pagando nenhuma. Um libertário humanista vai pagar a maior renda básica que puder e buscar eliminar o perigo da imigração expandindo progressivamente a áreas de abrangências da renda básica partindo das zonas mais vulneráveis e carentes, até atingir a todas.

Se as possibilidades de ganho forem maiores, mesmo quando incertas noutro lugar são suficientes para levar as pessoa a abonar o que tem quando não é quase nada, ou só sofrimento. imagine quando esse ganho é garantido.

por isso ao invés de começar pagando no Morumbi, você paga em Paraisópolis e não precisa discriminar ninguém lá dentro. Por uma razão muito simples… Ninguém no Morumbi vai sair da sua mansão, do seu burgo rico, seja ele um bairro ou um pais inteiro para ir morar na comunidade, para ir morar num lugar pobre só para receber uma renda básica, que já faça uma puta diferença para quem mora lá, mas é dinheiro de pinga, quero dizer, de uísque para eles. A pobreza não tem rosto, mas tem endereço, porque desde que o mundo é mundo os senhores da terra empurram para periferias e guetos as classes e raças serviçais. Não há desigualdade sem discriminação, nem discriminação sem segregação. Não há miséria sem guetos. Mesmo quando o rico precisa do trabalho do pobre, ele não tolera conviver com ele. Ele o tranca em cubículos para que possa se servir mais rapidamente dele, e a sua prole a sua família que não pode viver do outro lado do mundo, porque ainda não reproduzem pobre em chocadeira, tem que estar perto. Porém perto não é junta. mas separada, e devidamente segregada por muros guetos e favelas devidamente guardados por policiais. É por isso que nunca precisamos de condicionalidades. Basta ir ao lugar certo, que você vai pagar para quem mais precisa sem precisar discriminar ninguém.

Lógico que se você colocar liderança politica no meio, ai já era, quem vai receber é ele e o cara do Morumbi e sem precisar nem sair da mansão. E não uma renda, mas várias. Por isso que o importante é a democracia direta a autogestão e autofiscalização da própria comunidade.

Na verdade, pessoas de outras comunidades não vão abandonar as suas para viver lá, se a renda básica não superar o próprio capital social que essa comunidade representa para elas.

É claro que melhor do que pagar uma renda básica de fome, é pagar uma renda básica ideal para todas as comunidades carentes, e melhor ainda que isso é pagar para todos independente da carestia. Mas se você não pode pagar para todos tem que priorizar quem tem menos. Senão você vai ter mais do mesmo: Desigualdade e imigração, ou segregação e extermínio longe dos olhos, atrás dos muros e fronteiras.

As pessoas vão dizer que o Morumbi não tem que pagar para Paraisópolis. Que cada comunidade sociedade e nação, tem que se virar por conta própria. Até aí, rigorosamente por essa lógica, cada um tem que se virar por conta própria e ninguém tem obrigação de pagar nada a ninguém. Pagar ninguém tem pagar nada do seu bolso, o que tinha que ser pago é o que precisa ser retomado dos ladrões dos governos e corporações. Logo se as pessoas pagam algo, é porque elas são inteligentes ou solidárias, o que no final das contas dá no mesmo, porque ambos querem preservar a paz do seu mundo.

Na verdade esse pagamento verdadeiramente universal interessaria até mesmos os cidadãos e governantes mais racistas e segregacionistas do mundo, não os genocidas e escravagistas, mas só os que querem viver apartados de quem eles odeiam. Porque não só essas pessoas não precisariam mais imigrar para viver da maravilhosa companhia de quem as despreza e discrimina só para não morrer por causa de regime de fome-ditaduras, como eles mesmos teriam a redução dos custos astronomicos de muitos de seus bens que só tem esse valor, justamente para funcionar de barreira aos indesejados. Não precisariam cobrar os olhos da cara para viver em sociedade como se fosse um club prive. Onde no fundo a grama é grama a quadra é quadra e água são água. E não água mais o couvert do valor agregado sem gente que preta, latina e asiática que eu odeio. Porra, se for para viver em paz, que eles morram quietos com medo e odiando até a sombra delas que é não é branca.

Em 2009 apresentamos no Partners of Americas uma proposta de financiar a renda básica em cidades comunidades brasileiras com altos níveis de migração para os EUA. A migração e os muros já eram pauta faz tempo. E usamos como justificativa que o custo da repressão e contensão da imigração era muito maior do que a promoção de melhores condições de vida nos lugares que olhavam para eles como alternativa para escapar disso. Não funcionou, fomos chamados de comunistas. Quase 10 anos se passaram e muita coisa mudou na cabeça e no mundo. Pode ser que agora as pessoas estejam mais abertas para entender isso. E com certeza muito mais delas estão. Porém, não é preciso nem dizer que a reação contrária se faz também muito mais fortemente presente. E esse é o meu maior receio, mesmo que você esteja certa e a renda básica se espalhe concorrentemente entre todos os países do mundo inclusive os mais pobres. Esse processo precisa se acelerar de forma muito mais rápido do que o mundo se fecha. Porque do contrário, pode até ser que os lugares mais ricos do mundo haja free lunch para todos, mas entre os proletários não.

Na verdade, seria apenas uma expansão do processo civilizatório de sempre. A classe dos privilegiados que pode escolher sua profissão e sobreviver do rentismo se ampliaria com a ampliação da proteção social, mas a classe dos excluídos permaneceria sustentando com seu trabalho e expropriação não a sua renda básica, mas os privilégios intocados de sempre. A unica diferença é que essa divisão do trabalho seria enfim completamente internacionalizada ou melhor globalizada.

Conclusão Fabby, concordo com você acho que a renda básica vai se espalhar, quero que ela também chegue aos países e lugares mais pobres, e espero que isso se dê a tempo de frear o crescente dos conflitos e ondas extrema-direita, mas não conto com isso. Trabalho com o pior dos mundos, onde a pressão migratória e por consequência o nacionalismo e a exclusão e xenofobia aumentem ainda mais acentuando o conflito entre ocidente e oriente, norte e sul, países em desenvolvimento e subdesenvolvidos, os centros e as periferias. Inclusive aumentada por rendas básicas exclusiva e restritas somente aos cidadãos dos países mais ricos. Até porque se eu estiver errado ótimo. Se estiver certo, alguma alternativa teríamos então.

Acho que é isso, Fabby, Desculpa pela resposta gigante, mas é até uma forma de respeito por tudo o que você coloca e reflexão sincera. espero que pra você não seja um incomodo, você não faz ideia o quanto eu sou grato por suas considerações. Ou talvez faça, né?

Obrigado por tudo

Com carinho

Marcus

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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