Expectativa de vida versus segurança do viver

Toda generalização é burra… incluso as estatísticas e científicas Parte I

Expectativa de vida, também chamada de esperança de vida, é o número médio de anos que a população de um país pode esperar viver, caso sejam mantidas as mesmas condições de vida vivenciadas no momento do nascimento. A expectativa de vida está bastante relacionada com a qualidade de vida que um país possui, já que fatores como educação, saúde, assistência social, saneamento básico, segurança no trabalho, índices de violência, ausência ou presença de guerras e de conflitos internos influenciam-na diretamente.-O que é expectativa de vida? — Brasil Escola

Médias são generalizações aritméticas. Mais enganam e escondem do que explicam e revelam. Servem mais para justificar generalizações do que elucidar fatos; mascarar com números o que não se sustenta substantivamente por lógica. E isso seria tão mais verdadeiro se também não fosse uma generalização.

Não vou nem entrar na questão das diferenças por classe, raça, renda ou local de moradia dentro das divisões e subdivisões geopolíticas de um país, estado ou municipalidade. Até porque este índice pode ser estratificado por estes e outros fatores como violência e criminalidade. Vou me ater exclusivamente ao fator determinante dessa esperança de vida: a idade que as pessoas morrem.

Ao nascer supõe-se que a criança tem determinada esperança com base no cálculo aritmético da média das idades das pessoas que morreram naquele grupo num determinado ano. Porém, tal media está longe de revelar as verdadeiras chances dela sobreviver, a real esperança de vida daqueles que nascem ou irão nascer.

Basta comparar taxas de mortalidade neonatal dos próprios países com tal estimativa.

Matematicamente falando é possível uma determinada população ter uma alta expectativa de vida, mesmo que extratos da população tenham uma alta taxa de mortalidade. É possível ter uma “expectativa de vida” alta apenas reduzindo as taxas de mortalidade entre os mais velhos, mesmo que a taxa de mortalidade entre os mais jovem, inclusive neonatal, sejam altas, desde que a população jovem seja numericamente inferior e a taxa de natalidade baixa em relação a população mais idosa. De modo que a expectativa de vida dos que nascem a cada ano não pode ser (nem é) determinada pelo tempo de vida, ou idade de morte dos mais velhos, mas sim pelas chances que aquela faixa etária, a dos recém-nascidos têm de sobreviver.

Na verdade esse cálculo pode ser aplicado para todas as faixa etárias, demonstrando qual é a verdadeira esperança de sobrevivência de uma pessoa segundo as atuais chances de vida da sua idade e geração e não pela pressuposição de que desfruta, ou desfrutará das mesmas ou melhores condições e circunstâncias que as gerações passadas desfrutaram. Afirmar que a expectativa de vida dos que nasceram é a idade dos mortos no mesmo ano pode até dizer algo sobre suas chances de sobrevivência no futuro, mas nada sobre suas chances presentes.

O inverso também é válido. Baixas taxas de mortalidade infantil num determinado ano também aumentam a expectativa de vida de toda a população do país, sem porém acrescentar nenhum ano de vida aos mais velhos, ou qualquer chances de sobrevida a esses jovens ao envelhecer. Como se pode verificar na baixa taxa de mortalidade neonatal de países versus as expectativas de vida.

É óbvio que a baixa taxa de mortalidade entre os mais jovens sempre aumenta a expectativa média de vida da população inteira, porém sempre menos significativamente quanto menor for a população de jovens em relação aos mais velhos. De modo que se nenhuma criança viesse sequer a nascer, a expectativa de vida da população que vive bastante tempo seria alta até decair abruptamente a zero quando o último dos moicanos morresse. Em tese.

Logo uma alta expectativa de vida, não significa necessariamente que chances de viver da população estejam aumentando, mas pode mostrar tão somente que essa população está só envelhecendo, ou até mesmo escondendo que ela esteja desaparecendo como povo ou extrato da população. O cálculo da expectativa de vida não só não revela se há altas taxas de mortalidade infantil onde a taxa de natalidade é baixa, como não diz nada sobre um dos mais importantes fatores para a manutenção das expectativas reais de sobrevida de quem espera ficar velho, ou pelo menos não morrer tão cedo: as taxas de natalidade da população.

Sem uma taxa de natalidade suficiente para reproduzir a população produtiva não é possível manter as condições e padrões de vida que sustentam tal expectativa de vida entre os mais velhos. São as crianças nascidas hoje, e as que vão nascer, que vão sustentar a produção no futuro.

Numa população cada vez mais velha, baixas taxas de natalidade representam diminuição crescente tanto da população futura em número absoluto quanto das reais expectativas de vida da população, a menos que essa população tanto do ponto de vista produtivo quanto reprodutivo seja reposta por imigrantes.Tal necessidade da reprodução ou “importação” de pessoas para a manutenção e crescimento da produção de riquezas e reprodução da mão de obra tem caído de acordo com o avanço da automação, contudo isto não elimina a necessidade da reprodução humana pela sua verdadeira e natural razão de ser em si mesma- nem muito é claro o direito a migração, mas é evidente que não estamos falando de princípios e direitos aqui, e sim em causas e consequências.

Fora períodos e situações de extrema carestia, a taxa de natalidade (assim como a migração) não interfere negativamente em nada nos padrões de vida dos mais velhos, mas é positivamente fundamental para expectativa de vida futura tanto dos adultos que vão envelhecer, quanto menos egoisticamente destas crianças e imigrantes como o futuro tanto das próximas gerações quanto dos próximos povos.

Dois fenômenos naturais que a humanidade que parece envelhecer sem amadurecer não odeia, despreza: crianças e imigrantes. Ódio e desprezo só são superados quando se misturam, isto é quando são dirigidos aos estrangeiros que “não param” de se reproduzir.

Mas isso já é assunto para a segunda parte desse escrito. Nesta primeira parte fica a proposição de uma outra abordagem para a valoração da qualidade de vida e chances de sobrevida e até sobrevivência de populações ou extratos da mesma, até o nível mais elementar que de fato compõe a expectativa de vida em tempo real desses grupos: as chances de sobrevivência de cada indivíduo de acordo com as suas condições e oportunidades de cada pessoa como individuo.

A chance de sobrevivência calculada não pelo tempo de vida dos mortos recentes em um extrato, mas a chance de vida projetada a partir das condições e oportunidades reais de viver e sobreviver, acesso á bens e serviços básicos aos mais especiais, acesso que compõe não só as diferenças reais de chance de cada pessoa, mas o próprio extratos da população ou classe a que ela pertence- definida portanto não previamente por predefinições ou preconceituações, mas posteriormente por esse dado fundamental: as suas chances de sobreviver e não o tempo de sobrevida dos demais. Em outras palavras o primeiro método permite que se adultere as reais expectativas pelo recorte dos extratos, no segundo se reconhece como de fato está se dando a estratificação da população pelas chances de sobrevivência atuais de cada pessoa conforme suas condições presente de vida, fator determinante dessas chances.

De modo que verificando as mortes, suas causas e condições de vida de cada pessoa morta podemos verificar não só os riscos de morte de pessoas morrerem naquela determinada condição, mas compor esses extratos ou grupos de acordo com o cruzamento desses dados: as condições de vida e os riscos de morte- incluso as mortes prematuras e evitáveis em qualquer idade. Aí sim, a partir desse dado podemos dizer a que grupo pertencemos e qual é a verdadeira chance de viver e morrer de cada um desses extratos segundo a somatória das condições e oportunidades de vida e sobrevida que compõe, que determinam tanto as chances de vida de cada um desses extratos das populações composto justamente pelo risco de morte de cada pessoa vivendo nas mesmas condições e naquele momento de vida.

De fato continua a ser uma média a partir de somatórias, mas não mais do tempo de vida de extratos arbitrariamente predefinidos, e sim das chances de sobrevivência de grupos definidos pela própria proximidade dos riscos de morte segundo as causas e circunstâncias da morte em relação a condições similares de vida. Ainda sim estaremos a calcular as chances de vida dos vivos de acordo com os dados daqueles que morrem, mas agregados e discriminados antes de tudo pelos fatores determinantes tanto da vida e morte, quanto do extrato da população a qual pertencem, a saber: sua condição de vida e circunstancia da morte.

Em outras palavras me diga como viveu e do que morreu uma pessoa, e direi a que classe ela pertence e quais são as chances de vida dos seus mais próximos e semelhantes, incluso seus filhos, as próximas gerações. As chances de cada estrato da população já descriminada de fato antes do estudo de viverem e morrerem a cada momento ou circunstancia da vida que vão passar, desde o nascimento até a velhice… eventualmente. Ou seja, me diga quem é você, onde está e o que tem, me diga tudo que serve para classificar e discriminar uma pessoa da outra e pode ser usado contra ou a seu favor, e te direi quais são as suas chances, não só de chegar até certa idade, mas de passar por cada uma delas. Te direi a chance de passar dos trinta ou de seu filho chegar pelo menos aos 5 anos, porque a somatória das suas condições e meios de vida determinantes da sobrevivência constituem de fato a sua classe, a classe das pessoas literalmente com as mesma chances de viver, tanto como risco de morte quanto Segurança do Viver- afinal não importa apenas o quanto se vive, mas como; e passar a vida com as mesma chances de quem está preso a uma roleta russa sem fim não é o que se pode chamar propriamente ser livre nem muito menos viver em paz.

Não, não deixa de ser uma generalização, talvez só um pouco menos burra, mas certamente um pouco mais honesta, sobretudo para com as diferenças e desigualdades de vida e morte. De qualquer forma fica a crítica e proposta de outra abordagem a quem se dedica a produzir dados, principalmente aqueles que se dedicam a isso com a finalidade de entender problemas e produzir transformações e não justificar condições ou embasar suposições.

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