Europa: Desvendando O mito Utilitarista do Progresso (Parte 1)

Da janela lateral do quarto de dormir em Paranapiacaba

Introdução

Durante os debates da Renda Básica no Fórum Social Mundial de 2016 no Canadá, tive a oportunidade de bater de frente com o discurso do progresso utilitarista. O resumo desta narrativa é basicamente a depois de contar a história de como a pobreza foi praticamente eliminada no mundo no século XX (?), agora que esse problema foi resolvido, poderíamos enfim aprimorar, aumentar o grau ou quantidade de liberdade real disponíveis para todos(?) através da adoção de avanços como a renda básica, e assim dando continuidade a marcha da humanidade rumo ao progresso civilizatório. Ou em outras palavras a renda básica significa a possibilidade de poder dizer não a um trabalho ruim, trocar de emprego ou carreira no meio da vida, e manter seus padrões de vida durante esses períodos sem cair nos humilhantes e desnaturadores programas de assistência social.

O dono dessa narrativa era europeu. E tudo que ele disse é absolutamente verdadeiro, mas igualmente absolutamente restrito a seu mundo. A renda básica é muito, muito mais do que isso para quem precisa de liberdades tão políticas e econômicas tão reais e importantes quanto, mas bem mais básicas, que ele nem sequer sabe que existe ainda como necessidade básica de muita gente que não faz parte do progresso civilizatório, não talvez como parte integrante do futuro da humanidade. exceto como povo ou cultura índia ou bárbara empalhada em museu.

Entretanto o eugenismo era do discurso era muito mais latente e inconsciente. A título de exemplo é como o machismo para nós povos latinos, é uma mentalidade que está no nosso inconsciente coletivo e que enquanto não nos apropriamos conscientemente do processo desse processo de reprodução de preconcepções cultural e mudamos as estruturas da concepção do nosso próprio pensamento continuamos a disseminar esses arquétipos sem sequer perceber.

Mas não podemos ser injustos. Ao contrário do burgues provinciano dos países periféricos que menos civilizado (na acepção dos mesmos) ainda exaltam seus preconceitos em discursos de apologia ao autoritarismo, ao populismo e até racismo- seja por ignorância do seu próprios preconceitos e ideologias declarados ou seus perigos, seja por completo desprezo ao humanismo; o burguês europeu (e imitações nacionais), por sua vez, renega e abomina todas esses discursos explícitos- seja por respeito ao humanismo seja por saber e temer onde vai dar essas “tendencias” totalitárias. Aliás, não só abomina, mas criminalizou. De tal modo que acreditavam que essas ideologias estas definitivamente derrotadas e banidos de seus territórios… exatamente como a pobreza do mundo. Não é toa portanto que como seus colegas norte-americanos, também escritores e acadêmicos, consideravam completamente impossível e risíveis (até então) as chances de um Trump, um Le Pen, ou Geert Wilders chegar ao poder.

Entretanto, não é o supremacismo, o objeto da critica desse discurso, mas o utilitarismo e o seu mito progressista usado tanto pela esquerda quanto direita para justificar suas hegemonias ideológicas quando no poder. Portanto Preconceitos e preconcepções fora. O que interessa na crítica do discurso utilitarista são outros elementos a começar pela falta de senso comum ou bom senso. Senso comum, que não é outro coisa senão a sensibilidade que todo ser senciente possui do bem comum (Commons). Sua conexão sensível com o mundo que é simplesmente natural, o universal.

Logo é completamente “normal” que uma pessoa desconectado de outras realidades onde prevaleça as necessidades básico, não tenha mais a noção do que é seria o mínimo vital. Assim como crianças vietcongues do sul que nasceram durante a guerra criam que o arroz caia do céu jogado pelos aviões de assistência humanitária, o adulto urbano acredita ao contrário que a água limpa brota do cano da torneira da sua casa, e não cai do céu, numa coisa do tempo sua bisavó chamada chuva. E de fato, em muitos lugares eles tem razão, a água de chuva em Cubatão por exemplo tinha as vezes gosto de pilha.

Enfim, quem tem “tudo”, quem nasce socialmente com o que naturalmente se mata e morre para conseguir talvez porque como o ar limpo, a água potável, ou comida, ou um lugar descende para cagar nunca quem nunca precisou se preocupar em lutar ou reivindicar essas necessidades básicas, seja para si ou para o próximo precisa de muita inteligencia solidaria para entender as necessidades básicas que não vivenciou. Há quem consiga outros não, precisam conhecer no sentido profundo de saber. Porque as coisas mais fundamentais, as coisas mais importantes, as mais simples como a saúde, o ar, a luz, a água e o chão, e o amor, e o sentido da vida só damos pela sua existência pela sua falta, quando já o perdemos.

Logo, tudo o que ele disse sobre as vantagens de uma renda básica é absolutamente verdadeiro. Os problemas que ele narra são problemas importantíssimos que a renda básica resolve. Problemas que pessoas que vivem em muitos lugares periféricos do mundo- invisíveis aos olhos ou insensíveis ou vendados dos habitantes dos centros “civilizatórios”- ainda sonham em ter. Ou numa como me ensinou o morador de Quatinga Velho quando falei a ele a primeira vez sobre seu direito (por lei federal) a uma renda básica de cidadania. E ele respondeu, não sou da cidade, vivo campo.

Me considero libertário, humanista e cosmopolita, mas não porque rodei o mundo, mas porque vi o mundo da janela de Paranapiacaba, a 40 minutos da metrópole São Paulo. Mesmo não tendo saído para o mundo como turista com olhos de turista, mas com corpo, braços e boca de ativista, não conheci para o mundo viajando, mas na America-latina da janela lateral do quarto de dormir naquele mundo esquecido por deus e pelos homens, onde trabalhares e locomotivas e a mata descansam em paz. Foi naquele cemitério da revolução industrial que nasci aos 30 e poucos anos de idade.

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Paisagem Da Janela — Lô Borges

Da janela lateral do quarto de dormir

Vejo uma igreja, um sinal de glória

Vejo um muro branco e um vôo pássaro

Vejo uma grade, um velho sinal

Mensageiro natural de coisas naturais

Quando eu falava dessas cores mórbidas

Quando eu falava desses homens sórdidos

Quando eu falava desse temporal

Você não escutou

Você não quer acreditar

Mas isso é tão normal

Você não quer acreditar

Eu apenas era Cavaleiro marginal lavado em ribeirão

Cavaleiro negro que viveu mistérios

Cavaleiro e senhor de casa e árvores

Sem querer descanso nem dominical Cavaleiro marginal, banhado em ribeirão

Conheci as torres e os cemitérios

Conheci os homens e os seus velórios

Quando olhava da janela lateral

Do quarto de dormir

Você não quer acreditar

Mas isso é tão normal

Você não quer acreditar

Mas isso é tão normal

Um cavaleiro marginal, banhado em ribeirão

Você não quer acreditar

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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