Eugenia: “Quando a plutocracia demoniza os fracos”

E Bomfim o pensador brasileiro antiracista e anticonservador

Os Estados Unidos têm um histórico de esterilizações forçadas entre os mais pobres, doentes mentais e minorias. Não faz muito tempo, índios, descendentes de mexicanos e negros foram submetidos a esses procedimentos à força ou sendo enganados por representantes do Estado e governos locais.
Apesar desse movimento de eugenia — que despertava a admiração de Adolf Hitler e foi replicado por nazistas — ter atingido seu auge nos anos 1920, a prática continuou até meados dos anos 1980. Em algum momento da história, 32 dos 50 estados americanos tiveram um programa de esterilização financiado pelo governo federal em suas prisões e hospícios.
Homens gays eram forçados a tal se instituições de saúde mental os considerassem “anormais” por causa de sua sexualidade, assim como mães que recebiam ajuda financeira do governo. Em alguns locais, a esterilização era condição para que uma pessoa pudesse deixar a prisão.(…) Mas alguns questionam se um detento pode ou não consentir um procedimento do tipo — e essa questão será central nos processos decorrentes do que ocorreu no condado de White.
“Isso não é uma situação em que uma decisão autônoma é possível. Há uma relação hierárquica envolvida”, diz a historiadora Alexandra Minna Stern, da Universidade de Michigan, autora do livro Nação Eugenia (não lançado no Brasil). “Você pode dizer que as pessoas escolheram, mas há uma relação assimétrica nas prisões, e é por isso que a esterilização não é permitida nesses locais.”
O debate pode chegar à Suprema Corte americana, na qual uma decisão no caso Buck vs. Bell, de 1927, que aprova a esterilização de “deficientes mentais” ainda consta nos registros e foi citada em casos recentes.
Adam Cohen, autor de Imbecis: A Suprema Corte, a eugenia americana e a esterilização de Carrie Buck (não lançado no Brasil), um livro sobre o caso de 1927, não chega chamar o juiz do Tennessee de defensor da eugenia, mas afirma que seu programa chega bem perto disso. -’Fomos cobaias’: programa contraceptivo para presos reacende debate sobre eugenia nos EUA

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Da introdução do livro War Against the Weak, de Edwin Black

Vozes assombram as páginas de todo livro. Esse livro, em particular, fala em nome dos não-nascidos, em nome daqueles cujas perguntas nunca foram ouvidas — daqueles que nunca existiram.

Através das seis primeiras décadas do século 20, centenas de milhares de norte-americanos e um número não calculado de outros não tiveram a permissão de continuar suas famílias através da reprodução. Selecionados por causa de sua ancestralidade, origem nacional, raça ou religião, eles foram esterilizados à força, erroneamente internados em instituições psiquiátricas onde morreram em grande número, proibidos de casar e algumas vezes “descasados” por burocratas estatais. Nos Estados Unidos, essa batalha para acabar com grupos étnicos foi lutada não por exércitos armados ou por seitas de ódio às margens da sociedade. Em vez disso, essa guerra de luvas brancas foi levada adiante por professores estimados, universidades de elite, ricos industriais e autoridades do governo que se juntaram em um movimento racista e pseudocientífico chamado “eugenia”. O objetivo: criar uma raça Nórdica superior.

Para perpetuar a campanha, fraude acadêmica generalizada combinada com filantropia corporativa sem limites estabeleceram as razões biológicas para a perseguição. Empregando um amálgama de achismos, fofoca, informação falsificada e arrogância acadêmica polissilábica, o movimento pela eugenia lentamente criou uma burocracia nacional e uma infraestrutura jurídica para limpar os Estados Unidos dos “unfit”. Testes de inteligência, coloquialmente conhecidos como QI, foram inventados para justificar a prisão de um grupo definido como “feebleminded”. Frequentemente os assim chamados eram apenas tímidos, de boa fé para serem levados a sério, falavam os idiomas “errados” ou tinham a cor da pele “errada”. Leis de esterilização forçada foram aprovadas em vinte e sete estados para evitar que indivíduos-alvo produzissem mais gente de seu tipo. Leis de proibição do casamento proliferaram nos Estados Unidos para evitar a mistura de raças. Litígios foram levados até a Suprema Corte, que aprovou a eugenia e suas táticas.

O objetivo imediato era esterilizar imediatamente 14 milhões de pessoas nos Estados Unidos e mais alguns milhões no mundo — o “décimo mais baixo na escala social” — e assim continuamente eliminar o décimo “inferior” até restar apenas uma super-raça Nórdica. No fim das contas, 60 mil norte-americanos foram esterilizados à força e o total pode ser muito maior. Ninguém sabe exatamente quantos casamentos foram evitados pelas leis estaduais. Embora muito da perseguição tenha sido simplesmente resultado de racismo, ódio étnico ou elitismo acadêmico, a eugenia vestiu o manto de ciência respeitável para esconder seu verdadeiro caráter.

As vítimas da eugenia eram moradores pobres de áreas urbanas e o “lixo branco” da zona rural, da Nova Inglaterra à Califórnia, imigrantes que chegavam da Europa, negros, judeus, mexicanos, indígenas, epiléticos, alcoólatras, batedores de carteira e doentes mentais ou qualquer um que não se enquadrasse no ideal Nórdico dos loiros de olhos azuis que o movimento da eugenia glorificava.

A eugenia contaminou muitas outras causas sociais, médicas e educacionais nobres, do movimento pelo controle da natalidade ao desenvolvimento da psicologia ao movimento pelo saneamento urbano. Psicólogos perseguiram seus pacientes. Professores estigmatizaram seus alunos. Associações de caridade pediram para mandar aqueles que pediam ajuda para câmaras da morte que esperavam ver construídas. Escritórios de apoio à imigração conspiraram para mandar os mais necessitados para programas de esterilização. Líderes da oftalmologia conduziram uma longa campanha para perseguir e esterilizar à força todos os parentes de todos os americanos com problemas na visão. Tudo isso aconteceu nos Estados Unidos anos antes da ascensão do Terceiro Reich na Alemanha.

A eugenia tinha como alvo a Humanidade, assim seu escopo era global. Os evangelistas da eugenia provocaram movimentos similares na Europa, na América Latina e na Ásia. Leis de esterilização forçada apareceram em todos os continentes. Cada estatuto ou regra da eugenia — da Virgínia ao Oregon — foi promovida internacionalmente como mais um precedente para incentivar o movimento internacional. Uma pequena e fechada rede de jornais médicos ou proponentes da eugenia, encontros internacionais e conferências mantiveram os generais e os soldados do movimento em dia e armados para tirar proveito da próxima oportunidade legislativa.

Eventualmente, o movimento de eugenia dos Estados Unidos se espalhou para a Alemanha, onde causou fascínio em Adolf Hitler e no movimento nazista. Sob Hitler, a eugenia foi muito além do sonho de qualquer eugenista norte-americano. O Nacional Socialismo transformou a busca americana por uma “raça superior Nórdica” na busca de Hitler por uma “raça ariana superior”. Os nazistas gostavam de dizer que “o Nacional Socialismo não é nada mais que biologia aplicada”, e em 1934 o Richmond Times-Dispatch publicou a frase de um proeminente eugenista norte-americano segundo a qual “os alemães estão nos derrotando em nosso próprio jogo”.

A eugenia nazista rapidamente venceu o movimento norte-americano em velocidade e ferocidade. Nos anos 30, a Alemanha assumiu a liderança do movimento internacional. A eugenia de Hitler teve o apoio de decretos brutais e das máquinas de processamento de dados da IBM, de tribunais de eugenia, programas de esterilização em massa, campos de concentração e do virulento antissemitismo biológico — tudo com aprovação aberta dos eugenistas norte-americanos e de suas instituições. Os aplausos diminuiram, mas apenas relutantemente, quando os Estados Unidos entraram em guerra em dezembro de 1941. Então, sem que o mundo soubesse, os guerreiros da eugenia alemães operavam campos de exterminio. Eventualmente, a loucura da eugenia alemã levou ao Holocausto, à destruição dos ciganos, ao estupro da Polônia e à dizimação da Europa.

Mas nada do racismo científico dos Estados Unidos teria se espalhado sem apoio da filantropia corporativa.

Nestas páginas você vai conhecer a triste verdade sobre como as razões científicas que levaram aos médicos assassinos de Auschwitz foram primeiro formuladas em Long Island, no laboratório de eugenia da Carnegie Institution em Cold Spring Harbor. Você descobrirá que no regime de Hitler antes da guerra, a Carnegie, através de seu complexo de Cold Harbor, propagandeava de forma entusiasmada o regime nazista e distribuia filmes antissemitas do Partido Nazista em escolas dos Estados Unidos. E você vai descobrir as ligações entre os grandes aportes financeiros da Fundação Rockefeller e o establishment científico alemão, que deram início aos programas de eugenia que resultaram em Mengele em Auschwitz.

Só depois que a verdade sobre os campos de extermínio nazista se tornou pública o movimento americano pela eugenia perdeu força. Instituições de eugenia dos Estados Unidos correram para trocar o nome, de “eugenia” para “genética”. Com sua nova identidade, o que restou do movimento se reinventou e ajudou a estabelecer a moderna e iluminada revolução da genética humana. Embora a retórica e os nomes tenham mudado, as leis e os modos de pensar ficaram em seu lugar. Assim, décadas depois que o julgamento de Nuremberg rotulou os métodos da eugenia de genocídio e crime contra a humanidade, os Estados Unidos continuaram a esterilizar à força e a proibir casamentos “indesejáveis”.

Comecei dizendo que este livro fala em nome dos nunca nascidos. Também fala em nome das centenas de milhares de refugiados judeus que tentaram escapar do regime de Hitler mas tiveram os pedidos de visto negados pelos Estados Unidos por causa do ativismo abertamente racista da Carnegie Institution. Além disso, estas páginas demonstram como milhões foram assassinados na Europa precisamente porque foram rotulados como formas inferiores de vida, que não valia a existência — uma classificação criada nas publicações e pesquisas acadêmicas da Carnegie Institution, certificadas através de financiamentos da Fundação Rockfeller, validadas por acadêmicos das melhores universidades da Ivy League e financiadas pela fortuna ferroviária da família Harriman. A eugenia não foi mais que a filantropia corporativa “gone wild”.

Hoje, enfrentamos o retorno potencial da discriminação da eugenia, não sob bandeiras nacionais ou credos políticos, mas em função da ciência do genoma humano e da globalização corporativa. Declarações diretas de domínio racial estão sendo substituídas por campanhas de relações públicas e patentes. O poderoso dólar pode em breve decidir quem fica de que lado na “divisão genética” já em demarcação pelos ricos e poderosos. Quando estamos a caminho de um novo horizonte, confrontar nosso passado pode nos ajudar a enfrentar o futuro que nos espera. — Quando a plutocracia demoniza os “fracos” — Viomundo — O que você não vê na mídia

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“Muita gente associa a palavra ‘eugenia’ aos nazistas e ao Holocausto. Mas isso está errado. Na verdade, Hitler aprendeu com o que os EUA haviam feito”, afirma Daniel Kevles, historiador da ciência da Universidade de Yale, aposentado recentemente.

Segundo Kevles, para entender a eugenia, é preciso voltar à Inglaterra vitoriana, em meados de 1800. “Tudo começou com as ideias de Francis Galton, cientista que era primo de Darwin. Ele era antropólogo, geógrafo, explorador, inventor, meteorologista, estatístico, psicólogo. Mas o que lhe fascinava acima de tudo era a genialidade e a herança biológica.”

Galton acreditava que, se conseguíssemos encontrar a maneira de quantificar essa hereditariedade, poderíamos controlá-la e produzir humanos melhores, como fazemos com o gado e com as plantas. A esse novo programa de reprodução seletiva que permitiria tomar as rédeas da nossa evolução, se deu o nome de eugenia.

“Não era irracional que biólogos como Galton pensassem que, se as ciências físicas estavam mudando o mundo tão dramaticamente — as ferrovias, a luz elétrica, o telefone -, as ciências da vida poderiam fazer o mesmo.”

Contexto americano

Até a virada do século, a ideia de Galton estava se disseminando pelo mundo. Começou a enraizar-se nos Estados Unidos em parte porque nessa época as pessoas estavam preocupadas com o que estava acontecendo com suas cidades. Seus apoiadores tinham uma tendência de ser “da classe média, brancos e bem educados, que se sentiam perturbadas com as favelas industriais”.

Desde a Revolução Industrial, a partir de meados do século 19, os camponeses começaram a ir para as cidades em busca de trabalho nas fábricas. Foi uma das primeiras vezes na história que os Estados Unidos tiveram de enfrentar problemas sociais urbanos.

“Crime, prostituição, alcoolismo, pobreza. Além dos camponeses, os imigrantes também estavam chegando em grandes ondas vindos do sul e do leste da Europa. Houve uma confluência de fatores nos primeiros 15 anos do século 20 nos Estados Unidos que criou um público para a eugenia”, explica o historiador.

A teoria deu àqueles que estavam aterrorizados com o que viam nas ruas uma estrutura biológica para a compreensão da situação: tudo se resumia a problemas hereditários. No entanto, não era precisamente a isso que Galton se referia: para o vitoriano, a eugenia tratava de fomentar a reprodução de gênios.

Foi nos Estados Unidos que a eugenia ganhou contornos mais negativos: o controle de quem se reproduziria e quem não teria esse direito. “Isso acontecia porque os Estados Unidos pareciam estar se ‘degenerando’ — essa era a palavra usada na época”, disse Kevles.

“A eugenia é normalmente tratada como uma pseudociência. Mas, no meu ponto de vista, ciência é o que os cientistas fazem. E nessa época, muitos cientistas estavam interessados na eugenia.”

Mãos à obra

A eugenia não interessou somente a cientistas maus, mas também àqueles que queriam saber como herdávamos certas características. Em 1910, foi criado um laboratório perto da cidade de Nova York, citado no começo dessa reportagem, que se chamava “Oficina de Registro de Eugenia”.

Lá, as informações eram coletadas, processadas e arquivadas. Eles estavam interessados em todo tipo de característica: desde a cor dos cabelos e olhos até o daltonismo e a epilepsia, além de curiosidades como “o amor pelo mar”, algo que chamavam de “ciganismo”, “genes de guerreiros”, até outros menos exóticos, como a promiscuidade, controle moral, “vagabundagem” e sobriedade.

Apesar disso, a eugenia se converteu em uma palavra familiar nos Estados Unidos: aparecia nos jornais, no rádio, nos filmes. Nas feiras agrícolas, começaram a aparecer alguns “concursos de famílias mais aptas” — eram como os de gado, só que as famílias se submetiam a provas médicas, psicológicas e de inteligência, além de entregarem um histórico familiar. Os ganhadores recebiam uma medalha com a seguinte frase bíblica: “Tenho uma bela herança” (Salmo 16:6).

Além desses, também havia concursos nas universidades, e os jovens mais privilegiados eram incentivados sobre o “dever de se reproduzir”. “Todo mundo era eugenista, porque não sabiam dos crimes que seriam cometidos por causa dessa palavra”, afirmou Kevles.

‘Três gerações de imbecis são suficientes’

Em meados de 1920, esterilizar pessoas era legal em alguns Estados americanos. Mas ainda não havia uma lei federal para a esterilização compulsiva nos EUA. Muitas das leis estaduais foram levadas às cortes e anuladas, porque os juízes não aprovavam esterilização sem consentimento.

Mas em 1927 foi emitida uma decisão sobre a constitucionalidade da esterilização por eugenia. O caso Bucks versus Bell ficou famoso na Suprema Corte e representou um ponto de inflexão na história da eugenia nos Estados Unidos.

Carrie Buck era uma jovem interna na Colônia Estatal de Virginia para Epiléticos e Débeis Mentais. O superintendente era John Bell, que queria impedir que ela tivesse filhos. O caso chegou à Suprema Corte, e os juízes, depois de aceitarem que tanto ela como a mãe era “débeis mentais e promíscuas”, votaram 8 a favor e 1 contra por sua esterelização.

Além de determinarem que isso era constitucional, os juízes ainda afirmaram que seria “irresponsável” não fazê-lo. O veredito escrito pelo juiz Oliver Wendell Holmes Junior em 2 de maio de 1927 dizia:

“É melhor para todo mundo se, em vez de esperar para executar os descendentes degenerados por algum crime ou deixar que morram de fome por causa da imbecilidade, a sociedade possa prevenir aqueles que são manifestadamente inaptos de se reproduzirem. O princípio que sustenta a vacinação obrigatória é suficientemente amplo para cobrir o corte das trompas de Falópio. (…) Três gerações de imbecis são suficientes.”

Se a eugenia era popular antes desse veredito, a partir desse momento, era lei. “Nos anos 30 a esterilização disparou”, lembra Kevles. Os surdos, cegos, epiléticos, “débeis mentais” e até pobres eram esterilizados, já que a pobreza tinha seu próprio diagnóstico médico: o pauperismo. Qualquer pessoa considerada um obstáculo para a sociedade estava em risco.

Cerca de 60 a 70 mil indivíduos foram esterilizados nos Estados Unidos. E o mais surpreendente é que, em alguns Estados, como a Virginia, a esterilização continuou até 1979. -Eugenia: como movimento para criar seres humanos ‘melhores’ nos EUA influenciou Hitler — BBC Brasil

Implementação da Solução Final

Logo que assumiu o governo, Hitler determinou que um meticuloso censo da população alemã fosse realizado. Contudo, naquela época — em que não existia a tecnologia de que dispomos atualmente e esse tipo de pesquisa era realizada com papel e caneta — a tarefa era bastante árdua. Foi então que os nazistas decidiram empregar as máquinas de Hollerith para automatizar o processo de recenseamento através de cartões perfurados.

Em conjunto com os nazistas, a IBM desenvolveu cartões personalizados que continham dados como religião, nacionalidade e ocupação de indivíduos, e as máquinas de Hollerith eram capazes de cruzar as informações de 25 mil cartões por hora. Assim, os nazistas catalogaram os judeus por meio de uma série de censos, registros e tabulações estatísticas cujas informações — constantemente atualizadas — eram transmitidas instantaneamente a várias agências.

Com esses dados em mãos, os nazistas organizaram e administraram a identificação inicial e a posterior expulsão de inimigos do regime, o confisco de suas propriedades, seu translado para guetos, a deportação a campos de concentração e, finalmente, seu extermínio. Em outras palavras, a IBM desenvolveu soluções tecnológicas que permitiram acelerar — e automatizar — as políticas de extermínio racial de Hitler.

Máquinas da morte

As máquinas de Hollerith foram utilizadas em diversos campos de concentração — entre eles Auschwitz, Buchenwald e Dachau — para que os nazistas pudessem manter registros dos prisioneiros e monitorar o trabalho escravo. Além disso, elas permitiam que os oficiais alemães identificassem quais judeus tinham sido mortos a tiros, morrido de tanto trabalhar ou haviam sido exterminados nas câmaras de gás.

Os prisioneiros eram identificados a partir de números individuais e recebiam designações específicas baseadas em 16 categorias. Assim, o número 3 identificava homossexuais, o 8, judeus, e o 13, prisioneiros de guerra, por exemplo, e esses números muitas vezes eram tatuados nos braços dos capturados -Aliados do nazismo: a IBM e seu envolvimento com a “Solução Final”

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Movimento de eugenia no Brasil

O Brasil não só ‘exportou’ a ideia como criou um movimento interno de eugenia.

Médicos, engenheiros, jornalistas e muitos nomes considerados a elite intelectual da época no Brasil viram na eugenia a ‘solução’ para o desenvolvimento do país.

Eles buscavam, portanto, respaldo na biogenética (ou seja, nos estudos e resultados de pesquisa de Galton) para excluir negros, imigrantes asiáticos e deficientes de todos os tipos. Assim, apenas os brancos de descendência europeia povoariam o que eles entendiam como ‘nação do futuro’.

Segundo a antropóloga social Lilia Schwarcz, a eugenia oficialmente veio ao país em 1914, na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, com uma tese orientada por Miguel Couto, que publicou diversos livros sobre educação e saúde pública no país.

Couto via com maus olhos a imigração japonesa e anos mais tarde, em 1934, seria um dos responsáveis por implementar um artigo na Constituição da época que controlava a entrada de imigrantes no Brasil.

Nos primeiros anos do século XX, porém, havia no Rio, então capital brasileira, a ideia de que as epidemias brasileiras eram culpa do negro, recém-liberto com a abolição da escravatura (1889).

Portanto, para parte da elite intelectual da época, a eugenia seria uma forma de ‘higiene social’, tanto que “saneamento, higiene e eugenia estavam muito próximas e confundiam-se dentro do projeto mais geral de ‘progresso’ do país”, conforme assinalou a pesquisadora Maria Eunice Maciel, professora do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Renato Kehl: o pai da eugenia no Brasil

Quando se deparou com a tese orientada por Couto, o médico e sanitarista Renato Kehl (1889–1974), considerado o pai da eugenia no Brasil, achou que a comunidade científica tinha que se esforçar mais.

Ele acreditava que a melhoria racial só seria possível com um amplo projeto que favorecesse o predomínio da raça branca no país.

A professora Maria Maciel enumera algumas das ideias de Kehl: “segregação de deficientes, esterilização dos ‘anormais e criminosos’, regulamentação do casamento com exame pré-nupcial obrigatório, educação eugênica obrigatória nas escolas, testes mentais em crianças de 8 a 14 anos, regulamentação de ‘filhos ilegítimos’ e exames que assegurassem o divórcio, caso comprovado ‘defeitos hereditários’ em uma família”.

Kehl conseguiu trazer diversas autoridades médicas para levar o projeto de eugenia adiante: um deles é Gonçalves Vianna, da então Liga de Higiene Mental do Rio Grande do Sul. Outra figura bem conhecida era o radialista Roquette-Pinto, que liderou o Congresso de Eugenia no Rio, em 1929.

Nesse congresso, que reuniu dezenas de médicos e biólogos favoráveis à ideia de eugenia, eles classificaram pessoas com deficiência, como cegos, surdo-mudos e pessoas com deficiência mental, por exemplo, de ‘tarados’ — ou seja, um mal a ser combatido para que a ‘raça superior’ prevalecesse.

Mulheres eram tidas como ‘procriadoras’ e a eugenia, para eles, era uma forma de “advertência do perigo que ameaça a raça com o feminismo”, como assinalou Maciel.

Na mesma época, chegou a ser organizado um “Concurso de Eugenia” que serviria para premiar as 3 crianças que “mais se aproximassem do tipo eugênico ideal”, conforme anunciava o cartaz.

As ‘vencedoras’ do concurso eram todas garotas, brancas, que foram classificadas como “boas procriadoras”.

Segundo Pietra Diwan, em escala nacional e política a eugenia era um “superprojeto”, porque permitia identificar as características raciais e físicas consideradas ‘ruins’ pelos mais ricos da época e “cortar o mau para desenvolver apenas as boas características em cada pessoa”.

Intelectuais contra e a favor da eugenia

Quem era a favor

Nas décadas de 1920 e 30, o pensamento eugenista cooptou muitos nomes influentes, como Júlio de Mesquita, proprietário do jornal O Estado de S. Paulo; Oliveira Vianna, jurista e sociólogo considerado ‘imortal’ pela Academia Brasileira de Letras; e o fundador da Faculdade de Medicina em São Paulo, Arnaldo Vieira de Carvalho — que dá nome à conhecida “avenida doutor Arnaldo”, no centro da capital paulista.

O renomado autor de “Sítio do Picapau Amarelo”, Monteiro Lobato, não só era bastante próximo de Renato Kehl, como chegou a escrever um livro baseado nas ideias de eugenia.

Publicado em 1926, “O Presidente Negro — O Choque das Raças” falava de um homem negro que assumiria a Casa Branca no ano de 2228 e uniria todos os brancos dos Estados Unidos a ponto de esterilizar e exterminar os negros de seu país. (…)

Quem era contra

Um dos maiores opositores ao ideal de eugenia foi o médico sergipano Manoel Bonfim. Em 1905, ele publicou uma obra que irritou a comunidade médica: o livro “A América Latina: males de origem”. Ele chamou a eugenia de “falsa ciência” e expôs o preconceito declarado dos europeus em relação aos latino-americanos.

“O livro é uma analise das causas da miséria e do atraso geral do continente, em que desmascarava o chamado racismo cientifico”, explica o sociólogo Jefferson Medeiros, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). “A formulação dada por Bomfim em contraposição ao que era vigente na época sobre o fator das raças serem as causas do subdesenvolvimento leva-o a formular a tese do parasitismo social” . Parasitismo social é a ideia de que os países ricos invadem as nações para extrair a riqueza e fazer dos nativos uma classe dominada. [é mais veja texto abaixo] — O que foi o movimento de eugenia no Brasil

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Parasitismo Social

O trabalho escravo constitui o exemplo mais evidente de parasitismo social. O Brasil, onde a escravidão durou mais tempo (388 anos), continua sendo um país escravocrata (logo, parasita). Desde 1995 (diz o saite da PEC do trabalho escravo), quando o governo federal criou o sistema público de combate a esse crime, mais de 42 mil pessoas foram libertadas do trabalho escravo no Brasil.

No mundo, a estimativa da OIT é que sejam, pelo menos, 12 milhões de escravos. Não há estimativa confiável do número de escravos no Brasil. Por isso, o governo não usa nenhum número.

Na zona rural, as principais vítimas são homens, entre 18 e 44 anos. Na zona urbana, há também uma grande quantidade de sul-americanos, principalmente bolivianos.

Nos bordéis, há mais mulheres e crianças nessas condições. Dos libertados entre 2003 e 2009, mais de 60% eram analfabetos ou tinham apenas o quarto ano incompleto. Ou seja, eram adultos que não estudaram quando crianças. Trabalho escravo também é filho do trabalho infantil.

O Maranhão é o principal fornecedor de escravos e o Pará é o principal utilizador (sugador). As atividades econômicas em que trabalho escravo mais tem sido encontrado na zona rural são: pecuária bovina, desmatamento, produção de carvão para siderurgia, produção de cana-de-açúcar, de grãos, de algodão, de erva-mate, de pinus.

Também há importante incidência em oficinas de costura e em canteiros de obras nas cidades.

Uma das formas clássicas do parasitismo é o (parasitismo) social, que ocorre quando uma classe dominante (por exemplo: senhores de engenho), valendo-se dos seus privilégios, de forma indevida (injusta e/ou imoral, seja por meio da violência, seja por intermédio da fraude) suga (se enriquece ou obtém vantagem), mediante a apropriação ou a exploração, o trabalho (por exemplo: dos escravos) ou os bens da classe dominada (parasitada).

Há várias outras formas de parasitismo, como o empresarial, o funcionarial, o situacional, o político etc. Sobre este fenômeno é fundamental a leitura de M. Bomfim, ‘A América Latina’.

Desgraçadamente o parasitismo (em suas várias modalidades) faz parte da nossa formação cultural. É um dos males de origem do Brasil. Enquanto não eliminado ou drasticamente reduzido estamos condenados ao atraso, às barbáries, em suma, à ausência de civilização. — Parasitismo

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Manoel Bomfim: “intelectual marginal e rebelde esquecido”

(…) Manoel Bomfim se encontra no seleto rol dos pensadores latino-americanos que de forma autonomista pensou a vida nas recém-independentes colônias. (…)

Sua relevância reside na singularidade de seu pensamento na história das idéias no Brasil, bem como no seu posicionamento frente a um debate que tanto inquietou a intelectualidade latino-americana como um todo. O fio que norteia as quatro principais obras de Bomfim em questão é justamente o fato de que todas elas são articuladas a partir de uma visão marginal, qual seja, a visão de um brasileiro e consequentemente latino-americano. A busca por uma auto-representação fugindo assim das representações europeias e de intelectuais nativos que escreviam a partir do olhar do colonizador. Em sua obra A América Latina, Bonfim desenvolve o conceito de “Parasitismo Social” que está associado ao sistema colonizador implementado pela colonização ibérica das Américas e se traduz em “viver à custa de iniquidades e extorsões” como um parasita.

(…) Este conceito inspira a idéia de que Bomfim teria sido um intelectual que se rebelara contra as idéias positivistas e racistas vigentes em sua época. quando analisa o Brasil ele afirma que “Bragantismo” é o “Parasitismo Social” nominalmente brasileiro que insiste em corromper o bom desenvolvimento histórico-cultural da Nação. Neste sentido, em uma perspectiva Pós-Colonial, vislumbraremos os escritos históricos de Manoel Bonfim como sendo “narrativas de resistência” ao discurso eurocêntrico pseudo-científico do Darwinismo Social, no final do século XIX e início do século XX, que segundo Bonfim visava legitimar uma nova colonização europeia na América. A valorização e defesa do indígena, do negro e do mestiço como verdadeiros representantes do Brasil e da América Latina somada à defesa de uma revolução para integração de todos os marginalizados o coloca na contramão da história dita “ocidental” e como um precursor de uma crítica pós-colonial brasileira, que mais tarde vem a somar Darcy Ribeiro e Paulo Freire. (…)

Na perspectiva do Pós-colonialismo fica claro que a possibilidade de desenvolvimento latino-americano a partir da imitação é questionável, pois não serviria aos propósitos da autonomia política, cultural e econômica das novas nações. Ao contrário, a ideia de que ao imitar as metrópoles as antigas colônias alcancem os mesmos resultados, se mostra como uma arma do discurso ideológico europeu, isto porque a Europa não chegou ao patamar no qual se encontrava no século XIX a partir do progresso intelectual e moral que teoricamente construíram ao longo dos séculos, mas sim, pela exploração absoluta das colônias e da escravização dos indivíduos que lá se encontravam (indígenas) ou mesmo dos que foram posteriormente introduzidos (negros africanos). Segundo Frantz Fanon: “Diante desse mundo, as nações europeias mergulham na opulência mais ostensiva. Essa opulência européia é literalmente escandalosa, pois foi construída sobre as costas dos escravos, alimentou-se do sangue dos escravos, vem em linha direta do solo e do subsolo desse mundo subdesenvolvido. O bem-estar e o progresso da Europa foram construídos com o suor e os cadáveres dos negros, dos árabes, dos índios e dos amarelos” (FANON, 2010, pp.117,118). Nesta perspectiva, a imitação pura e simples apenas continuaria a respaldar a condição de dependente da antiga colônia em relação à antiga metrópole ou mesmo de outras potências que se apresentem para tutelar os interesses da nação. Portanto, é visível que o pensamento subalterno precisa de libertação em relação aos condicionamentos físicos e psicológicos oriundo da empresa colonial. Dentre os condicionamentos mencionados, o psicológico é o mais profundo e difícil de ser extirpado. Por este motivo, quando se fala em descolonização, fala-se também e principalmente em “descolonização da mente”.

Nesse sentido, a autonomia das obras de Manoel Bonfim o colocou na contracorrente do pensamento dominante no Brasil e em boa parte da chamada América Latina. Conforme Bonnici, a literatura pós-colonial de terceira fase se apresenta como claramente diferente, distinta e até mesmo radicalmente contrária à forma e ao conteúdo do discurso metropolitano colonizador. As obras históricas de Bomfim se encaixam perfeitamente esta fase, pois se apresenta claramente como uma contra narrativa ou narrativa de resistência. Antes de falarmos o que entendemos por resistência, se faz necessário mostrar que a ideia de superioridade imperial, segundo Edward Said (2005), se mostra de forma contundente na disparidade de poder entre Ocidente e o não-Ocidente, principalmente no poder de representar o mundo, que se encontram presentes em formas culturais como “o romance, o discurso etnográfico e histórico, certos tipos de poesia e ópera, formas nas quais abundam alusões a essa disparidade e estruturas nela baseadas” (SAID, 2005, p.245). É contra essa autoridade imperial que tende a eternizar as disparidades artificialmente pensadas e concretamente instituídas que se instaura a ideia de narrativa de resistência ou simplesmente discurso de resistência. (…)

O discurso de resistência de Bomfim inaugurado em sua obra A América Latina: Males de Origem traz como fundamento a crítica ao parasitismo social implementado pelas metrópoles nas regiões colonizadas. Bomfim em momento algum forneceu explicitamente uma definição para o conceito de “parasitismo social”, no entanto, a partir de seus exemplos e comparações com organismos biológicos, fica claro do que se trata. Isto pôde ser evidenciado quando Bomfim analisou um animal marinho chamado Chondracanthus gibbosus, que é complexo na condição de larva, mas que passa a ser extremamente simples na condição de adulto, no entanto, detém colchetes poderosos com os quais se agarra ao animal que será parasitado. O que fez este animal simplificar-se ao invés de complexificar-se? Segundo Bomfim, isto se deve à degeneração que se deu a partir da não necessidade de utilização de todos os órgãos.

Nas palavras de Bomfim,

fixado ao animal que o nutre, o Chondracanthus resume toda a atividade vital em sugar a seiva nutritiva, que ele já encontra elaborada, pronta a ser assimilada e apropriada para a nutrição íntima dos tecidos, e em reproduzir-se. É nessas condições que o animal adulto se apresenta: parasita, rudimentar e “inferior” — a ponto de ser considerado um verme. (BOMFIM, 2005, p. 62)”

Tal citação mostra o que é o parasitismo e quais as suas consequências para o parasita, pois é uma ação que produz dois efeitos distintos: ao mesmo tempo em que o parasita suga tudo o que necessita para sua sobrevivência, sem o mínimo de esforço, do corpo parasitado, em contrapartida involui, decai, degenera, pois não utiliza outros órgãos além dos que são necessários para garantir a perpetuação do parasitismo.

Segundo o autor de A América Latina, “as consequências são as mesmas para os organismos sociais, pois, vivendo parasitariamente, uma sociedade passa a viver às custas de iniquidades e extorsões; em vez de apurar os sentimentos de moralidade, que apertam os laços de sociabilidade, ela passa a praticar uma cultura intensiva dos sentimentos egoísticos e perversos… demais, o simples exame do fato em si é bastante para mostrar que um grupo, um organismo social, vivendo parasitariamente sobre outro, há de fatalmente degenerar, decair, degradar-se, involuir, em suma”. (BOMFIM, 2005, pp.66,67)

Portanto, o parasitismo social carrega em si a ideia de exploração de um indivíduo ou sociedade sobre outrem, a ponto de adoecer o parasitado e degenerar o parasita. Este foi um conceito-chave que possibilitou toda a construção interpretativa de Bomfim, bem como sua terapêutica para a América Latina, materializada em seu projeto identitário e no representante deste projeto — o homem latino-americano mestiço.

Bomfim, no intuito de defender a América Latina das acusações europeias, buscou no referencial teórico da Biologia os elementos necessários para analisar a história e fundamentar sua acusação contra a pretensão neocolonialista da Europa e dos EUA. Tal abordagem do passado latino-americano tinha a pretensão de questionar o arcabouço teórico-argumentativo oriundo da Europa e dos Estados Unidos, que considerava o atraso sócio-econômico da América Latina como fruto de uma sociedade constituída por elementos díspares — tais como os brancos, os indígenas, os negros e, o pior de todos, os mestiços — resultados da mistura e da consequente degeneração das raças originais. (…)

(…) Bomfim reconheceu que a América Latina estava enferma. Mas o que viria a ser esta enfermidade e quais as suas causas? Ora, segundo Bomfim, a doença nada mais era do que uma “inadaptação do organismo a certas condições especiais” (BOMFIM, 2005, p. 58). Portanto, a América Latina estava enferma em função da inadaptação da sociedade latino-americana às condições especiais impostas pelo parasitismo social das metrópoles sobre as colônias ibero-americanas. Este argumento se contrapunha ao discurso da superioridade racial, pois a enfermidade latino-americana, para Bomfim, não era fruto da miscigenação e da consequente degeneração dos povos latino-americanos, como acreditavam alguns defensores desta tese, mas sim fruto de uma situação de exploração historicamente identificável, conceituada por Bomfim como parasitismo social. (…)

Não havia nada de inferior com a América Latina ou mesmo com o homem latinoamericano, mas sim foram inferiorizados pelas representações construídas pela Europa e posteriormente pelos Estados Unidos ao longo da história. Ficou claro que o parasitismo social foi um sistema a partir do qual as metrópoles sugavam energias, as riquezas e as potencialidades latino-americanas, não permitindo que as mesmas se desenvolvessem. Ao contrário, fazia o organismo parasitado definhar, beirando a morte, exatamente como aconteceu com a América Latina, pois, na concepção de Bomfim, no momento da independência, ela (América Latina) era um corpo semimorto, que estava naquele instante despertando para a vida. Estas são algumas características da América Latina após passar tanto tempo sob a égide do regime parasitário.

Nas palavras de Bomfim, “no fim de três séculos de exploração aturada, de produção intensiva e trabalho escravo, tocado a relho, a América Latina se achou tão pobre como no dia em que os aventureiros lusoespanhóis pisaram aqui, ou mais pobre ainda.” (BOMFIM, 2005, p. 151) No organismo parasitado, o que se apresenta é doença e inabilidade mental para caminhar, mas nada que não tenha cura; pelo contrário, o fato de se libertar já indica o caminho para a cura. Da mesma forma ocorreu com a América Latina que, ao se libertar das metrópoles, teve de construir do nada um caminho próprio e distinto do anterior para se afirmar e se manter em nível sócio-cultural e político perante as nações colonizadoras. Isto leva a perceber o quanto os projetos identitários, tais como o de Manoel Bomfim, eram significativos nesse contexto latino-americano do século XIX e princípios do século XX. Até o século XIX, segundo Bomfim, a América Latina havia sido impedida, pelo parasitismo social metropolitano, de colocar todas as suas potencialidades a serviço do progresso social. Mas o que é o progresso social? Segundo Bomfim, “o progresso social consistia no desenvolvimento da inteligência, pelo esforço contínuo para aproveitar do melhor modo possível os recursos havidos da natureza, da qual tiramos a subsistência, e no apuro dos sentimentos altruísticos, que tornam a vida cada vez mais suave, permitindo uma cordialidade maior entre os homens, solidariedade mais perfeita, um interesse maior pela felicidade comum, um horror crescente pelas injustiças e iniquidades”. (BOMFIM, 2005, p. 66) Tal concepção de progresso social muitas vezes destoa do que se apregoava tanto no século XIX quanto no século XX a partir de concepções imperialistas de desenvolvimento e manutenção das sociedades. No entanto, mesmo em meio à independência e à constituição das novas nacionalidades, a cultura do parasitismo foi absorvida pelos dirigentes políticos e econômicos da América Latina, todos formados numa mentalidade que buscava seus próprios interesses em detrimento dos interesses do restante da nação. Segundo Manoel Bomfim “o regime parasitário impunha a escravidão. E porque o regime colonial era o do puro parasitismo, foi imposta às novas sociedades uma organização política inteiramente antagônica e incompatível com seus interesses próprios, um regime retardatário, opressivo, corrupto e extenuante… eis a razão por que, exânime, embrutecida, a América do Sul se achou, na hora da independência, como um mundo onde tudo estava por fazer.” (BOMFIM, 2005, p. 158).

A vida econômica resultante do parasitismo social imputou sobre a vida política das novas nacionalidades um desarranjo estrutural, isto porque os maus costumes políticos latinoamericanos encontravam-se na mentalidade parasitária herdada das metrópoles. Dessa forma, o Estado — que na modernidade aparece como representante, garantidor, protetor e defensor da nação — na América Latina, em função da cultura parasitária, degenera-se ao ponto de ser para a nação “o inimigo, o opressor e espoliador; a ele não se liga nenhuma ideia de bem ou de útil (…) ainda hoje se notam esses sentimentos porque ainda hoje eles não perderam o seu caráter duplamente maléfico — tirânico e espoliador”. (BOMFIM, 2005, p. 160) Bomfim acreditava, que a educação seria a saída para o atraso brasileiro e latino americano, atraso este que seria consequência de um governo caracterizado pela rapinagem e pela espoliação. E isso foi detectado por Bomfim a partir de seu diagnóstico da realidade latino-americana. Seu diagnóstico parte, fundamentalmente, do conceito de parasitismo social. Para ele, o Brasil, enquanto colônia foi parasitado pela metrópole, que sugava todas as suas forças e potencialidades. Tal modelo de espoliação foi rapidamente implementado pelos novos dirigentes do Brasil no ato da sua independência. Então, os brasileiros que antes eram usurpados pela metrópole ultramarina, passaram a ser usurpados pelos governantes formados em uma cultura dita “de rapinagem e espoliação”, que Bomfim sintetizava no conceito de “brangantismo” que, faz referência especificamente à tutela parasitária desenvolvida no Brasil por parte da monarquia lusitana e tem uma conotação pejorativa para identificar uma cultura ou forma de pensamento na qual há sempre a opressão de uns sobre outros, cultura esta que foi, segundo Bomfim, herdada pelos dirigentes do país, mesmo após a destituição da monarquia. (…)

Segundo José Carlos Reis a obra de Bomfim “é uma densa revisão da história e da historiografia brasileiras. É uma teoria da história do Brasil e da América Latina” (REIS, 2006, p. 186). Isso mostra a abrangência da obra de Bomfim, que consegue transitar entre o nacional (Brasil) e o regional (América Latina), trazendo contribuições tanto à interpretação quanto à proposição de um discurso de resistência latino-americano, a partir do Brasil. Foi Bomfim, segundo Reis, quem “sustentou a força da civilização brasileira contra o olhar desanimador, aniquilador, de europeus e intelectuais brasileiros aculturados” (REIS, 2006, p. 22). É contra estes olhares europeus, que denegriam a imagem do Brasil e da América Latina e por consequência a imagem do homem latino-americano, que Bomfim se levantou encabeçando a narrativa de resistência tal qual apresentada. — O CONCEITO DE “PARASITISMO SOCIAL” DE MANOEL BOMFIM COMO FUNDAMENTO DE SUA “NARRATIVA DE RESISTÊNCIA” PÓS COLONIAL. Msc.Cleiton Ricardo das Neves (PUC-GO)

Livro Completo: A América Latina: males de origem

Bomfim: pensador anticonservador e atualíssimo (infelizmente)

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Celso Nobrou Uemori
Uma tese tão boa quanto a obra original

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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