Eu, Luciano dos Santos

“Eu, Daniel Blake”

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Quadro da criança dormindo do Filme o Homem-Elefante de David Linch, 1980

Estreou no Brasil um filme obrigatório para quem defende a renda básica INCONDICIONAL, luta desburocratização da vida e pela dignidade humana.

O filme conta a história de Daniel Blake que é afastado do trabalho após sofrer um ataque cardíaco. Todo o problema piora quando o Estado, diferente das recomendações dos médicos, afirma que Daniel tem plenas condições de retorno ao trabalho. A partir disso, o carpinteiro é obrigado a enfrentar uma batalha individual e cruel contra uma burocracia fria e cínica.

O personagem passa o filme todo tentando conseguir benefício financeiro, mas esbarra na burocracia do governo: Ele precisa provar em cada detalhe que passou 35 horas/semanais procurando emprego, precisa fazer um workshop sobre como fazer o currículo, cadastrar-se no sistema online, etc.

Acontece que Daniel é um senhor simples, que “só escreve com lápis” e não sabe sequer manusear um mouse. O problema então é que a burocracia estatal é assim por projeto, de propósito.

O filme não fala apenas disso. Aprofunde o olhar e você sairá do cinema pensando “O que é a vida? ”. O carpinteiro representa milhões de pessoas que precisam viver com o mínimo (sem falar dos bilhões que sequer isso tem) e retrata como a burocracia e o tratamento dado a ele o humilham, desesperam, e fazem com que ele perca aos poucos a sua dignidade.-

http://esquerdaonline.com.br/2017/01/07/eu-daniel-blake-batalha-contra-um-monstro/

O filme me acertou como um murro na cabeça. Essa é uma história que conheço de cor e salteado, parecidas com ela em Quatinga Velho e Paranapiacaba onde vivi conheci muitas. Mas nenhuma delas tão bem como a de Luciano dos Santos.

Luciano nasceu com epilepsia grave, passou a vida inteira a base de remédios pesadíssimos convivendo com crises e convulsões constantes e fortes. Não conseguiu completar os estudos. O conheci trabalhando como pedreiro, subindo em escadas, telhados, pegando todo trabalho que pudesse para sustentar sua família de 5 filhos, mesmo com todos os perigos e riscos de morte que uma convulsão poderia acarretar neste trabalho pesado. Tinha os laudos, tentara por muito tempo se aposentar, e nunca desistira mas como o médico disse-lhe uma vez, a menos que ele tivesse uma convulsão na sua frente, nada feito. Epilepsia era algo muito fácil de se simular.

Trabalhou até depois literalmente não poder mais, ajudando a sustentar até os netos. Só conseguindo sua aposentaria depois de um câncer.

Apesar de tudo Luciano sempre foi um cara comédia, sempre tinha um piada pra contar especialmente sobre as suas peripécies de vida que não foram poucas. Antes de começar a trabalhar como pedreiro tinha sido vendedor de magiclick, e dos bons; viajou o Brasil inteiro um verdadeiro caixeiro-viajante. Uma das suas histórias engraçadas dele, era de quando, se não me engano em BH, teve uma convulsão e apagou; acordou todo sujo e mijado; tinha rolado pelo chão e pela sarjeta, porém se ninguém havia o acudido, por outro lado, tinha jogado uns trocados umas esmolas pra ele no chão. “Porra, bicho, não era pouco não, se soubesse que dava grana, tinha uma crise em cada canto…” , ou algo assim

Conheço bem essa história e muitos outras dele, porque Luciano, Luciano dos Santos é meu tio.

Meu tio que brincava que era filho do padre, de quem tinha recebido o nome em homenagem, porque parecia ainda mais índio e preto que o resto da família mais branquinha. Meu tio que teve gente que não acredita que era era meu tio por eu ser mais branco, ou deveria dizer por eu já não parecer mais tão índio ou negro como ele. O irmão do meu pai que quando fui morar na minha casa de madeira sem nada, sem luz, colchão, no meio da favela histórica de Paranapiacaba, me fez a surpresa de mobiliar toda a casa, com o que tinha dele e ganho nossos familiares.

Meu tio. Umas entre tantas pessoas da minha família que me ensinaram o que é o que é matar um Leão por dia. Como ativista social, ou simplesmente como brasileiro. Pessoas como a minha bisavó-materna, mãe solteira em 1920 que botou pra correr com óleo fervendo o marido que encostou uma vez só a mão nela. Que criou, filhos e sobrinhos sozinha e passou sua velhice sem poder dormir numa cama por conta de uma corcunda tão grande, adquirida por uma vida inteira de labuta curvada em uma máquina de costura Singer. Minha avó Delmira. Meu tio Luciano. E tanta gente que se tornou como um irmão para mim, como os imigrantes de Bangladesh na Itália, em 2010 que vendo nossa cara de fome e desespero para conseguir alguma coisa, pagaram um café para nós e arrumaram um lugar para a gente ficar na periferia de Roma.

Eu, Daniel Blake trouxe de volta a minha memória todos os meus antepassados vivos e mortos, amigos brasileiros e gringos que me ensinaram que vida não é trabalho, é luta. Heróis desconhecidos que passamos pela vida, e pelas ruas, e temos que seguimos, porque a vida segue, e não nos esquecer deles ou contrário, fazer questão de nunca esquecê-los com o nosso trabalho. Ainda que jamais tenhamos dito antes...

Obrigado, a todos vocês.

X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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