Escravidão é hoje 30 vezes mais lucrativa do que nos séculos 18 e 19, diz estudo

Conduzido pelo norte-americano Siddharth Kara, o trabalho apontou que os exploradores de hoje do trabalho escravo lucram entre 25 e 30 vezes mais do que aqueles traficantes de pessoas dos séculos passados, em um negócio anual de US$ 150 bilhões.

Os detalhes do estudo foram publicados nesta segunda-feira pelo jornal The Guardian e tomam por base o trabalho do economista para o livro Modern Slavery (Escravidão Moderna), que será publicado nos EUA em outubro.

Kara buscou dados de 51 países e, ao longo de 15 anos, compilou a sua pesquisa. Ele ainda ouviu durante o trabalho mais de 5.000 vítimas do trabalho escravo.

A escravidão hoje é mais rentável do que eu poderia ter imaginado”, afirmou o economista à publicação. Segundo os seus cálculos, o lucro gerado por um escravo ao seu explorador atinge US$ 3.978 (quase R$ 12,5 mil). Quando a exploração é sexual, o lucro é 10 vezes esse valor, podendo chegar a US$ 36 mil (R$ 112,6 mil).

O montante gerado com a escravidão moderna para fins sexuais corresponde à metade do total gerado pelo crime na atualidade, embora esse tipo de exploração responda por 5% das vítimas de trabalho escravo no século 21. (…)

De acordo com dados da Organização Internacional do Trabalho, ao menos 21 milhões de pessoas pelo mundo são exploradas em algum modelo de escravidão moderna. Conflitos bélicos e fluxos migratórios possuem papel importante nesse processo, segundo especialistas.

Lembrando que a definição de utilizada escravidão moderna não compreende como escravo o trabalho servil explorado de forma oportunista ou planejada a partir da privação ou insuficiência dos meios básicos a subsistência; nem muito menos o trabalho exercido contra a vontade ou vocação de uma pessoa sem recursos ou condições suficientes para não se submeter a determinados empregos ou condições sem colocar assim em risco a subsistência. Não compreende portanto as pessoas que são exploradas em atividades servis (inclusive ilegais e desumanas) que não podem abandonar apenas por falta de alternativas ou outros empregos, mas por falta de recursos básicas para escapar dessa condição, denunciá-la, ou combatê-la por conta própria.

As modernas pré-conceituações de escravidão não levam em conta portanto que os trabalhos forçados por necessidade, ou mais precisamente por privação das necessidades, dependem dessas privações, dependem da pobreza e miséria humana. Não levam em conta portanto que das formas de escravidão, se definem por seus métodos, e a escravidão pela miséria é entre todas ainda a forma mais barata, eficiente e extensa que já existiu para se submeter um ser humano contra sua vontade a qualquer tipo de relação ou atividade não só econômica, mas política ou criminosa. É essa condição de miserável de carestia que torna a pessoa humana extremamente vulnerável não só as diferentes formas e níveis de escravidão econômicas, mas também de servidões políticas. E nos campos e territórios onde a miséria perdura é que os impérios econômicos, militares, políticos e criminosos colhem seus servos, escravos e alienados.

Porque não é só uma questão de querer ou não. É uma questão tanto do indivíduo ter recursos próprios suficiente para subsistir, quanto da sociedade ter os meios para poder resistir e se defender se necessário for, resistir e se defender mutuamente se por ventura a demanda por sua servilidade e alienação, seja no trabalho ou na política, não for simplesmente uma oferta ou pedido, mas uma ameaça agressão ou privação das suas liberdades. Porém como uma sociedade composta por indivíduos que mal tem como subsistir sem ter que se vender a alguém, tem a menor chance de não se render e defender com sucesso sua liberdade, dignidade e propriedades?

A conceituação contemporânea, portanto simplesmente não leva em conta que a miséria não é só a maior facilitadora da escravidão moderna. A miséria, a pobreza extrema é a condição determinante para que a escravidão ainda persista na modernidade e continue persistindo no futuro. É a própria prisão desse trabalho forçado. De tal modo que enquanto houver uma única pessoa vulnerável a essa exploração de outra por falta desses meios vitas que constituem as liberdades fundamentais e dignidades humanas.

Enquanto as pessoas não nascerem herdeiras desse direito natural, incondicional e inalienável de usufruto e participação política e econômica no que outrora foi o bem comum, e continua a ser absolutamente necessário a vida em paz e liberdade. Enquanto houver uma única pessoa privada nesse direito natural que funda todos os contratos justos e legítimos a começar pelo primeiro o social, mão conheceremos nem o fim de fato da escravidão nem estados de direito ou paz, não plenos.

Porque na gênese e perpetuação da escravidão e das guerras está a privação primitiva (o roubo do bem comum) e enquanto esse roubo se perpetuar como miséria haverão senhores e escravos, não importa quão avançadas e automatizados sejam nossas máquinas e meios-de-produção; enquanto houver miséria não importa quão ricas e livre ou desenvolvidas sejam o restante da sociedade, novas formas de guerra e de escravidão surgirão.

Tiranos e criminosos e maniacos por ter, poder ou aparecer sempre existirão. E guerras continuarão a ser feitas por poder ou liberdade, mas só enquanto houver gente vulnerável a privação e exploração, enquanto houver gente carente de libertação do grilhão dos grilhões da pessoa humana: a miséria. Miséria que no fundo é de toda humanidade por causa e consequências.

Isso não quer dizer que os senhores da miséria e das guerras, os donos de governos e mercados deixarão de existir, mas a desigualdade de posse e poder estará delimitada pela exata medida da inexistência de pessoas tão desprovidas de qualquer posse ou poder que precise por necessidade, e não interesse, se render ou vender a eles.

Nesse dia em que a mais pobre das pessoas não for mais obrigada a trabalhar e servir nenhuma outra se quiser sobreviver, e a mais rica das pessoas tiver que fazer e manter sua fortuna e poder com o trabalho livre e relações absolutamente voluntárias e consensuais poderemos então dizer que temos democracia e capitalismo. E não mais servilismo e escravidão ainda que com outros nomes mais antigos ou modernos.

Quando ou se esse dia chegar, poderemos enfim dizer que temos civilização mais humana. Uma civilização mais universalmente desenvolvida e sem escravos. E não a mesma, primitiva, ufanista, desigual e ainda mais cheias de robôs e idiotocratas cada vez imbecilizados, que se acham livres apenas por terem escravos, de carne humana ou não. Que pobreza miserável… como se a tirania dos desejos não fosse uma prisão ainda mais desumana e desumanizante que a das necessidades.

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“Eu gostaria que as pessoas parassem de pensar na palavra ‘robô’ e pensassem na palavra ‘propriedade’. Os homens estão sendo encorajados a estabelecer relações com sua propriedade.” (e quando não foram?)

“A vida humana se tornou mais descartável do que nunca […]. A ineficiência da resposta global à escravidão moderna permite que essa prática continue existindo. A não ser que a escravidão humana seja entendida como uma forma cara e arriscada de exploração do trabalho alheio, essa realidade não vai mudar”, avaliou Kara.- Escravidão é hoje 30 vezes mais lucrativa do que nos séculos 18 e 19, diz estudo

Definitivamente, cada dia tenho mais certeza que as liberdades fundamentais são aquelas propriedades mais básicas absolutamente necessárias para a preservação da livre vontade como sentido autodeterminado e soberano sobre sua própria vida. Algo que depende e muito dos meios disponíveis para realizar essa vocação humana, mas também da própria força dessa vontade de liberdade. Definitivamente, compreendo cada dia mais que liberdades fundamentais são o produto desse encontro: o das propriedades que permitem uma vida digna, como a própria dignidade humana, essa vontade de liberdade. Muitos tem dignidade mas não tem condições dignas, nem as mínimas; já outros tem condições mais do que dignas, mas não tem a menor dignidade. E nenhum deles tem nem junto nem separados tem o que os ambos carecem: paz e liberdade básicas.

Definitivamente, liberdade fundamentais e dignidade seja como condição ou disposição são direitos absolutamente incondicionais, inalienáveis e universais. E logo não apenas um direito de cada pessoa, mas um dever de todas. E é por isso que abolição de todas as formas de escravidão não requer só o fim do exploração de quem sofre como privações, mas a erradicação universal dessas privações sobre as quais se instituem os regimes de escravidão. É preciso por uma ponto final nessa miséria política e econômica que rouba tanto a condições de vida quanto a liberdade. Algo que não se faz renunciando a liberdade e dignidade em troca de privilégios e benesses políticas ou econômicas, ,mas justamente ao contrario: provendo diretos políticos e econômicos como garantia de dignidade e liberdades fundamentais.

Os fantasmas do Passado continuam aí para nos assombrar: escravidão, tirania, fanatismo, guerra, miséria. E cada dia mais fora do armários. É hora de abrir os olhos e enfrentá-los. Instrumentos de luta e libertação para abolir de vez esses males já temos, cabe agora tomá-los cada um para si e nos utilizarmos deles como melhor pudermos, juntos ou separados.

Mas que instrumentos seriam esses?

Não faço segredo dos meus, renda básica e democracia direta. Mas cabe a cada um escolher os seus. Até porque nisso está o espirito de toda a coisa que tratados até agora: liberdade.

Definitivamente, cada dia tenho mais certeza que as liberdades fundamentais são aquelas propriedades mais básicas absolutamente necessárias para a preservação da livre vontade como sentido próprio autodeterminado e soberano sobre sua a vida, como vocação. Algo que depende e muito dos meios disponíveis mas também da força dessa livre vontade.não só a material que se faz das privação das condições de vida alheia, mas a das liberdades das pessoas sobre os destino da sua própria vida. Miséria que logo, é simultaneamente política e econômica, onde tiranos se se servem e alimentam da pobreza e a pobreza se multiplica para morrer no abatedouro das tiranias. Misérias que portanto só se eliminam

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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