Escravidão Moderna: Do mercado internacional da Escravidão aos casamentos forçados (Parte 1)

A ONU em parceria com a ONG Walk Free publicou seu mais recente relatório sobre a escravidão no mundo:

Dois pontos deste relatório de 2018 são importantíssimos destacar: (i)além de reafirmar a ampliação do conceito de escravidão para os casamentos forçados; (ii) expandiu a investigação desse mercado transnacional incluindo não só os locais onde a escravidão é ofertada e produzida, mas de onde vem a demanda e o consumo do produto desse trabalho escravo. Ou seja o mercado internacional da escravidão.

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O relatório ainda não busca indicar (e quantificar) toda a cadeia de investimento-produção-consumo e investimento que usa, lucra, banca e abastece e se beneficia do trabalho escravo dando nome a cada um dos bois. Ou seja, não é uma investigação criminal (científica) deste que é por definição um crime contra a humanidade, mas já é um bom passo para uma. Pois não só identifica países e setores onde essa industria escravagistas estão instaladas ao abrigo da falta de lei e em parceria com os governos locais como também aponta os setores produtivos que demanda e as sociedades que consomem essa produção por país.

Um excelente material portanto para uma investigação mais profunda que queira chegar a alguma denuncia e plano de ação concreto contra todos os envolvidos nesse negócio criminoso atua na zona cinzenta da divisão internacional do trabalho e seu butim, o capital.

Mas ainda faltam algumas peças.Vejamos quais são a partir do que temos:

os países ou mais precisamente os governos que fornecem e traficam sua população e riquezas como mão-de-obra, matéria-prima e produção barata- dada a não aplicação ou completa ausência de leis de contra a exploração do trabalho (incluso o escravo). E as empresas transnacionais que se instalam e usam (e as vezes até importam) essa mão-de-obra escrava, semi-escrava e precária, não só pagando a esses governos locais usar trabalho escravo e para leis que o permitem, e fiscalizações que o facilitem, como por vezes podem até mesmo receber financiamentos público via os próprios bancos estatais ou desonerações e benefícios fiscais para efetuar tal exploração.

Peças que faltam: Como tal contrato neocolonial de escravidão pode ser efetuado contra dos interesses de uma nação é efetuado?

Hipótese número 1: Mediante o uso propina para a compra de agentes governamentais.

Hipótese número 2: Mediante o financiamento e patrocínio da ascenção ao poder do lobista entre agentes governamentais do executivo, legislativo ou até mesmo judiciário, logo tanto por via eleitoral quanto carreira pública.

Hipótese número 3: Mediante uma combinação dos dois esquemas.

O estudo também aponta para os mercados consumidores, receptadores e usuários dessas mercadorias criminosas. Ou seja aponta para nós, que consumimos, sabendo ou não, produtos que não são produtos do crime de roubo, ou evasão fiscal, mas escravidão.

Parece até que estou tentando fazer terrorismo com a domesticação legalista da população. Não estou. Mesmo que o sempre criminoso tráfico e exploração de seres humanos e seu trabalho, fosse legalizado e não mais velado e enrustido isso não é nem nunca vai ser a mesma coisa que fazer o download de uma obra com “todos seus direitos [de copyright] reservados”. Não estamos falando de propriedades intelectuais, que precisam de uma adesão cultural e doutrinação para serem instauradas e respeitadas. Estamos falando de propriedades previamente existentes, naturais, fundamentais, e que por seleção natural instintivas compreendidas. Sabidas por qualquer ser minimante dotado de senciência como propriedades que não podem ser separadas em nenhuma hipótese da pessoa sem causar violência, guerra e morte. Estamos falando da liberdade. Liberdade não como uma abstração, uma concepção derivada da desigualdade de relação de poder, mas como condição material, fisiológica e ecológica necessária a vida humana, que não se restringe portanto só a posse do corpo, mas também aos meios necessários a sua manutenção. Liberdade portanto que não é um mero operador mental de abstrações como a igualdade e desigualdade. Mas uma condição concreta, um fenômeno físico materializado e manifesto nessa singularidade no corpo e vontade da pessoa humana. Ou traduzindo para situações práticas que envolvem o crime da sua subtração, a escravidão. Uma pessoa ou grupo que não pertença a determinada cultura, pode até alegar desconhecimento da leis de uma sociedade no que tange todas as propriedades relativas e subjetivas, mas nem mesmo a pessoa ou sociedade mais psicopata pode alegar que não sabe a consequência de sufocar o pescoço de uma pessoa, trancá-la sem água e comida, ou o que é a mesma coisa, trancar a água e comida para ela. Todos esses expedientes que a curto prazo são empregados de forma mais ou menos elaborada para dominar e manter uma pessoa escrava, e que a longos prazo se não interrompidos sempre redundam em assassinato ou genocídio dependendo da quantidade de pessoas submetida a tais privações são o que, na prática desse crime, vai muito além da mera exploração do trabalho, mas implica em geral em extermínio em massa, lento e agonizante das populações submetidas a tais privações.

De modo que quando compramos o produto do trabalho escravo consumindo uma mercadoria que foi fabricada:

na “melhor” das hipóteses mediante expedientes que envolvem o emprego mais ou menos ostensivo ameaça, chantagem, corrupção, trafico humano, sequestro, carcere, agressão, coerção, estupro, mutilação, assassinato incluso de crianças em condições de miséria, abandono e insalubridade protagonizado por organizações criminosas consideradas ilegais nos territórios onde atuam.

E na “pior” das hipóteses, as mesmas mercadorias obtidas com o emprego dos mesmos expedientes criminosos porém estratégica e metodicamente racionalizados e planejados, produzidos em massa e escala industrial por gestões comercial e administrativas corporativas profissional. A característica que separa os crimes contra humanidade “do passado”, e os mesmos crimes após a sua modernização científica e institucional. Ou em outras palavras estamos “financiando” o mesmo crime contra a humanidade porém sistematizado e protagonizado por uma parceria devidamente legalizada entre Estados-Nações e empresas transnacionais.

Notem que o “financiando” está entre aspas. Porque os usuários e receptadores embora contribuam para sustentar a demanda desse mercado, no capitalismo não são exatamente os mesmos elementos que propriamente financiam esse mercado criminoso, nem portanto os maiores beneficiários do butim, do seu lucro. No capitalismo moderno, não basta apenas gente disposta a ofertar, nem gente disposta a adquirir, para que a oferta e procura se realize é necessário que quem detenha o capital, o capitalista, também invista, ou seja, banque o negócio. E se há uma coisa nos sistemas de financiamento é investimento sem plano de negócios e garantias. Ou seja, é possível um consumidor ter o produto sem ter a mínima idéia de como ele foi produzido. Uma corporação cujo negócio é financiar negócios. E eis que chegamos a peça que sempre fica propositalmente faltando: os mandantes.

Mas onde estão os mandantes? Quais seriam suas motivações, interesses, porque usam desses expedientes criminosos? São apenas sem com escrupulos precários? Não teriam nenhum respeito nem apreço pela vida dos outros? Ou até teriam, mas dentro da sua escala de valores esse apreço não paga o preço e valor dos seus interesses e ganhos devidamente convertidos em lucros e dividendos?

Em geral se pensa no crime da escravidão como um negócio cheio vítimas, executores, e até beneficiários, dos consumidores, aos empresários, as investidores, até os governos tanto locais quanto de origem dessas empresas que cobram seu pate em tributos nesse crime hediondo banalizado como “negócios”. No final das contas, ao utilizarmos as leis utilitaristas-marginalistas econômicas da oferta e procura, parece que o mal assim como o bem são produzidos exatamente pela mesma razão identificada por Adam Smith em a Riquezas das Nações, como o padeiro o escravagista está apenas interessado em maximizar os seus interesses particulares na forma de lucros.

Tudo parece uma grande falha do sistema do qual todos partilhamos do mesmo princípios, afinal o negócio não é caridade, o negócio é ganhar dinheiro e essas empresas, governos e bancos usam as ferramentas que tem em mãos para maximizar seus lucros como qualquer outro ator desse jogo. Eles detém os dois meios de produção político e econômicos, o capital, e a jurisdição, tanto a máquinas que fabricam e reproduzem um quanto o outro, a lei e o dinheiro, os bens e os porretes, porque não usariam isso para maximizar seus interesses, ou o que é a mesma coisa o que os impede de fazê-lo? Consciência? Ética? Solidariedade? Isso são pertence ao setor de imagem, marca, e propaganda política e comercial, e na gestão dos recursos humanos e não na administração nem muito menos na contabilidade.

Não importa se os números que a IBM computa são judeus mortos (e escravizados) em campos de concentração da Alemanha nazistas ou crianças escravizadas (e mortas) em fábricas da China Comunista, o capitalismo é democrático, dinheiro não tem cor, nem tem raça, nem discrimina as pessoas por credo ou ideologia, nem portanto por meios que foram obtidos, nem as moedas nem os bens. Como a pena e espada lavou (a imagem) tá novo.

A cadeia de produção desse negócio ao contrário da cadeias de produção crimes contra a humanidade, simplesmente parece não ter cabeças, apenas mãos invisíveis contribuindo irracionalmente para a produção banal dos mesmos bens e o mesmo mal. Como se a escravidão fosse uma tragédia natural. Como se ela simplesmente chovesse, sem sujeito indeterminado nem oculto, simplesmente sem sujeito, como se fosse um fenômeno da natureza, ao menos da humana. No final das contas “é tudo por dinheiro”. O que não explica absoluta nada. Pelo contrário só encobre os rastros das verdadeiras motivações que o dinheiro até para isso serve, esconder os rastros dos crimes que são cometidos em seu nome. Um ferramenta que enquanto signo encobre quem a usa das consequências e investigação das suas motivações.

Por isso não citei a lei da oferta e procura para criticá-la ou refutá-la, e sim para aplicá-la na investigação das motivações desse crime.

A lei da oferta e procura está assentada em firmes bases não só ideológicas e empíricas fundadas por economistas utilitaristas e marginalistas, mas também matemáticas (ver Daniel Bernoulli). Mas não vou entrar nos aspectos históricos, e me atentar somente nas propriedades que embasam a relação ou melhor função entre: unidades de valor, utilidade e interesses. O que a teoria da oferta e procura nos ensina é justamente o que a propaganda de mercado, não é tudo por dinheiro, ou mais precisamente. O valor atribuído aos bens decai ou amentam de acordo com sua utilidade. Utilidade que é definida, por sua vez, por sua capacidade de satisfazer os interesses do indivíduo, sejam eles quais forem: prazeres, felicidade, necessidades básicas, taras, manias, objetivos… enfim não importa o que se busca satisfazer pela acumulação de bens de valor, a lei da oferta e procura prevê que o interesse e logo o valor atribuído a esses bens diminui conforme a quantidades de sua posse produz a satisfação esperada. O que inclui também o valor dos bens utilizados como meio de troca para aquisição dos úteis para outras finalidades. De modo que a valor não só das riquezas, mas do dinheiro como seu signo de representação-contabilização, também decresce em utilidade na exata medida do elemento que constitui esse valor o prazer-interesse satisfeito.

Assim signos e representações fora, o que temos num negócio, numa troca, é essencialmente a busca de satisfação mútua dos interesses das partes envolvidas. Logo mesmo quando dizemos que um determinado individuo busca em praticamente todas suas trocas maximizar seu ganhos, dado que seu prazer é a maximização dos ganhos e não propriamente a aquisição ou uso do bem, em alguma instância ele não troca esses meios de troca por nada que tenha uso para satisfazer outros interesses, esses individuo sem fazer julgamentos ou avaliação dos sérios problemas sociais e psicológicos que ele possui, tem de fato a acumulação do dinheiro ou bens em si como suas motivações, incluso para tomar parte do mercado e negócios criminosos da escravidão. Mas isso é só uma das possibilidades de motivação dos criminosos.

O criminoso pode também estar envolvido na escravidão não pelo mero prazer da acumulação de bens ou maximização de ganhos em si, mas para tanto para utilizá-lo para satisfazer ou financiar outros propósitos, prazeres ou manias. Como pode até mesmo se envolver pelo prazer em si de tudo que o ato pode significar desde realizações de taras de relação de poder, até as mais perturbadoras e pervertidas taras que envolvem as suas consequências desses atos e práticas, seja como executor presente, ou espectador que não precisa necessariamente assistir, mas apenas ter a certeza do controle e consequências das suas ações que investe, financia, ou seja o mesmo prazer do capitalista ao olhar para uma ponte, ele simplesmente sabe que sem a participação do seu capital jamais tal empreendimento teria saído do fantasia e papel.

E por falar em fantasias de criminosos. Há também que considerar uma ultima hipótese de motivação destes criminosos, que não envolve diretamente taras pervertidas, nem manias compulsivas, mas ideologias delas derivadas, as mesmas fantasias, porém subtraídos os componentes emocionais, prevalecendo apenas suas racionalizações preconceituais. Ou seja pessoas motivadas mais propriamente por desejos ou sentimentos de ódio, mas por reprodução automática, costumeira de doutrinas ritos e costumes que compõe a seu sistema de valores enquanto cultura. De modo que o desprezo pela vida e liberdade, ou completa falta de empatia, respeito ou consideração pela do outro enquanto ser, e não mercadoria, coisa,objeto, recurso, ou meio (de troca ou uso) para a satisfação de fetiches ou credos, ou objetivos estratégicos racionais -que não deixam de ser nem crenças nem taras, o são desprovidas de instintos gregários- é um comportamento resultante desse condição mental, dessa mentalidade onde o valor-utilidade da vida-liberdade-sofrer do outro ser está reduzido a mera satisfação utilitária do seu prazer marginalista, ou preconceito eugenista.

Mas é eugenista ou utilitarista? Essa distinção não importa. Não para quem vai virar salsinha, as vitimas em potencial a ordem dos fatores não altera o produto. Se o planejamento estratégico é escravidão pela fome mesmo que isso implique a longo prazo a morte de milhões ou genocídio lento. Ou o genocídio rápido utilizando um combinação de técnicas de extermínio racional que inclui o uso de trabalhos forçados dos “mais aptos” até a execução rápida. Seja pelo método dos guetos de Varsóvia ou do Auschwitz, o o resultado para as vítimas é o mesmo, extermínio em massa.

Independe se você estrai trabalhos forçados porque pretende depois descartar os seres humanos como se fossem lixo, ou se você pretende descartar os eliminar seres humanos porque já o condirá um lixo, e nesse processo de eliminação extrair alguma coisa que presta com trabalhos forçados, a ordem dos fatores não altera nem o produto, nem a causa o profundo desprezo psicopático por vida de seres humanos que o a algoz-explorador não é capaz de sentir nem estabelecer mais nenhum laço instintivo de empatia, nem conceber como igual ou semelhante.

A fantasia erótica ou terática, esteja já racionalizada e institucionalizada culturalmente em preconceitos doutrinários e ideológicos ou não; essas autojustificações que levam as manadas humanas a reificar os demais até o fetiche da mercadoria, útil ou inútil, a ser consumida e/ou descartada; são meras cores e traços da pintura dessa psicose da inconsciência coletiva. Os motivos que levam dos ideólogos psicopáticos e seus fanáticos psicóticos, a reduzir a pessoa humana dos não-egregados e assemelhados a mero objeto e ideação para satisfação dos seus interesses-prazeres; desde o desejo, possessão e uso (enquanto útil) até o desprezo, repulsa e ódio enquanto lixo (completamente inútil); esses diferentes conceituações não alteram o processo. Ou em outras palavras, não importa quais as especifidades deste ou daquele culto ou cultura de coisificação dos dissemelhantes, a contabilidade e a solução final no final das contas são sempre as mesmas porque a a base do raciocínio a mentalidade é a mesma.

De modo que tanto para quem detém o porrete quanto para quem detém o capital a metáfora é uma só: de um jeito ou de outro seja na paz ou na guerra está sempre literalmente se matando dois coelhos com uma cajadada só. Ou melhor o mesmo coelho não importa com qual tipo de porrete ou a ordem das porradas. No final elimina-se a população marginais ou marginalizadas de áreas com riquezas e recursos vitais ou estratégicos, e extrai-se nesse processo a própria força de trabalho dessas mão-de-obra feita de gente descartável expandindo o domínio jurisdicional e institucionalização das classes que controlam o território pelo monopólio/supremacia da violência como governo, aumentando ao mesmo tempo as áreas e riquezas disponíveis a especulação e apropriação como capital a esse mercado, tributos a essa máquina criminosa cada vez mais estatal. Na guerra ou na paz, na escravidão ou trabalho, no tráfico ou comércio, o que muda é a velocidade ou progressão do sistema e suas máquinas, e logo a percepção do seu movimento e violência pelos observadores presentes e históricos.

Sejam as raízes das culturas, ideologias e sistemas de valores que desprezam, odeiam, ou simplesmente não tem nenhum tipo de consideração pela vida e liberdade de outros seres humanos ou seus valores e culturas exatamente as mesmas, isto é, seja a mentalidade meramente egoísta que simplesmente despreza a vida alheia, até a mentalidade com traços psicopáticos que não possui nenhuma consideração ou sentimento de ligação, igualdade, semelhança ou compaixão pela vida alheia, produtos do mesmo sistema de desvalorização e da vida e perda dos valores e sentimentos gregários instintivos de empáticos, é importante exatamente o estágio mental de cada um envolvidos nesses crimes, parar imediatamente de pressupor que eles não seriam capazes disto ou daquilo, mas para determinar exatamente o que eles o que eles não são capazes, e porque não são.

É um erro pressupor que “eles” não seriam capazes disto ou daquilo. E um erro por vezes fatal. É preciso entender a mente humana, de cada pessoa, criminosa ou não, sem fazer pressuposições a partir das nossas motivações e valores. Ou do contrário teremos apenas objetos das nossas projeções e vontades e não seres. O que prejudica seriamente a capacidade de entendimento mútuo, mas de compreender unilateral não só o que elas querem, mas as diferenças do que são capazes de fazer (diferentemente do que supõe por “nós”) para satisfazer nossas vontades e quereres seja para o bem seja para o mal.

É preciso saber exatamente não só onde exatamente está o apreço que ele tem pela vida e liberdade semelhante e alheio, e quem são esses semelhantes e alheios, se é que ele ainda tem algum laço empático para construir relação mutual de proximidade e semelhança como alguém e não apenas de parasitária de discriminação e alienação. Em que grau suas empatias e falta delas foram e estão podadas em favor ou contra quem. Em que grau seus instintos gregários estão presentes e para exatamente onde forma culturalmente direcionados e ideologicamente posicionados dentro das escalas de valor-utilidade. Pois é na exata medida que esse sentimento se fazem presente ou estão amputados como um prazer e motivação instintiva a ser satisfeita que a escala de valores e tomadas de decisão do individuo irá se pautar, definindo junta com os outros valores e motivações hipervalorizadas na nossa cultura o seu comportamento e ações.

Mas qual das hipóteses levantas decorrentes da amputação dos sentimentos empáticos corresponde exatamente as motivações, escala de valores e estágios mental dos possíveis envolvidos nesses crimes contra a humanidade?

Bem o dinheiro neste caso é uma faca de dois-gumes. Ele que encobre que enquanto generalização encobre as motivações mais inconfessáveis das pessoas, também é as pegadas das mesmas, basta seguir seu rastro. E na contabilidade, nos gastos e ganhos, e gastos feitos como os ganhos auferidos, descobrimos exatamente os propósitos desse mercado. Podemos saber quanto o padeiro está interessado em assar o pão, as vezes mantendo seu negócio no vermelho e o quanto ele está interessado tão somente nos ganhos que ele poderia auferir mesmo que isso implique em destruir os pães ou desmontar a própria panificadora for mais lucrativo assim o fará. Assim também podemos saber o quanto um escravagista ou genocida NÃO está disposto abandonar suas práticas e negócios mesmo quando eles não são tão lucrativos, ou pelo contrário podem levá-lo muito mais do que só a falência; ou seja qual é o dimensão não só da sua de falta de empatia, mas o tamanho da motivação e comprometimento para levar seu empreendimento destrutivo até as últimas consequências e satisfazer seus objetivos, interesses, prazeres, credos, missão, não importa as consequências nem mesmo para ele. Ou o que é a mesma coisa em que grau ele não move mais como um indivíduos com interesses, mas é movido como mera célula ou agente desses interesses.

Escravidão Moderna? Eu não sei quanto a você mas eu não faltei nessa aula de história básica, e qualquer semelhança com o mercantilismo e colonialismo não é mera coincidência. A escravidão não voltou. A escravidão nunca acabou. Apenas evolui, ou melhor foi adaptada semântica, política e sobretudo economicamente aos novas fases de um um sistemas de produção que em essência é o mesmo. De moderno mesmo somente as técnicas e tecnológicas incluso de propaganda e persuasão para convencer as populações potencialmente alienadas e as já vencidas de isso é um comércio global legítimo e não um tráfico internacional criminoso.

A industria humana da escravidão e do genocídio são as mesmas em motivações e propósitos. O que “evoluiu” foram as técnicas e tecnologias de produção: seja de transformação dos seres vivos em coisas empregáveis a produção, quanto seu tratamento e eliminação enquanto meros resíduos lixo, recursos humanos descartáveis. De modo que se antes o homens possui-se a ciência, tecnologia, métodos e processos de produção e maquinário, incluso as máquinas de propaganda, estatal e privadas desenvolvidas no século XX, como você acha que teriam sido feito as guerras, colonizações e inquisições do passado? Com fogueiras e espadas e missionários? Ou câmaras de gás e bombas nucleares e propaganda?

De modo que a pergunta é quais são as armas disponíveis no século XXI? Que maquinários estão disponíveis para efetuar os mesmos crimes intestinamente interligados: a alienação, escravidão e extermínio em massa? Quais são as armas pós-modernas para conquistar corações tomar e pilhar territórios e riquezas?E de que forma esses métodos, processos e sistemas estão infra e superestruturados enquanto técnicas, programas e instrumentos estão disponíveis ou já em uso para efetuar a conquista, a domesticação e eliminação das populações?

Na busca pelos mandantes dei especial atenção aos motivos.Porquê?Por que os motivos são tão importantes? Primeiro porque não há crime sem motivo. Sem uma relação de responsabilidade e responsabilização entre causadores e consequências, temos consequências sem causa, as famosas tragédias e chagas incuráveis da humanidade. Uma doença sem agentes transmissores. E não há metáfora mais próxima para explicar esse mal do que a das infecções parasitárias epidemiológicas, até porque não é uma metáfora, mas uma análise.

A investigação cientifica de crimes contra a humanidade evidentemente uma vez configurados, não escapa da lógica do crime e castigo. Da busca pelos causadores, sua neutralização. Mas isso é tratar das feridas quando quando elas explodem pustulentas numa fase onde remédios amargos, tratamentos e remédios com efeitos colaterais com danos quase tão graves contra a própria doença já não podem mais ser evitados, isso para não falar em amputações ou e tudo isso supondo que há tempo para remediar e as intervenções irão funcionar. Tais tratamentos contudo não implicam em cura. Não impedem que a doença retorne, porque a doença em si não foi tratada. Ela permanece latente.

Os crimes contra a humanidade, que perpassam as diferentes fases da industria da guerra, escravidão, miséria até por fim o estágio final desse processo de dominação e pilhagem de povos e territórios sobre povos, o genocídio é uma doença que assola a humanidade. Uma doença que é causada por agentes parasitários, mas que se reproduz dentro do organismo social como um câncer. Ou mais precisamente é uma câncer social transmissível. Isto é pode surgir dentro de qualquer organismo social e ao mesmo tempo contaminar os demais. De modo que a eliminação dos agentes parasitários não produz imunidade dos organismos a doença nem para resistir e conviver com esses organismos externos nem internos, nem defesas para combatê-los caso se tornem agressivos, ou o que é a mesma coisa, perca-se a imunidade contra suas características.

A mentalidade que constitui cada pessoa como célula de diferentes organismos sociais e a próprio organismo social como tal, não só não tem imunidade e defesa contra a disseminação desse tipo de relação parasitária como está condicionada para se comportar não só como hospedeira e transmissora dessa forma de viver “normalmente” parasitária, como dependendo das circunstancias se adaptar e atuar como parasita. E não só mesmo depois de se tornar um câncer, essas células mantém sua capacidade de organizar como exército de defesa dessa doença autoimune atacando e combatendo as células sadias como se fossem o próprio sistema imunológico. Um processo autodestrutivo insustentável que sustenta a vida dos parasitas a curto e médio prazo, mas que inevitavelmente leva o organismo e seus órgãos a falência e a morte.

Neste sentido a investigação dos razões que produzem e reproduzem não só os parasitas, mas a falta de imunidade e defesa contra o a parasitismo, as causas da vulnerabilidade e proliferação desta chaga da humanidade é o caminho profilático para sua cura. Porque essa doença não é uma condição isolada deste ou daquele ser humano em particular, mas uma condição da pisque humana como estado inconsciente coletivo ou melhor inconsciência coletiva da nossa condição humano e dos laços empáticos-gregários instintivos que estabelecem essa comunhão como predisposição natural de paz neste mínimo denominador comum: humanidade. Uma doença da psique prevalente sim nas sociedades civilizadas, urbanizadas, e industrializadas e capitalizadas, mas que nossos antepassados primitivos não evidentemente tinham a cura nem a imunidade, ou não teriam sido exterminados ou contaminados.

Condenar nazis e fascistas e escravagistas é fácil. E mais fácil ainda é perdoa-los. Difícil é fazer o necessário. Trabalhar de livre e espontânea vontade para por um fim não só a essas práticas, mas a essa mentalidade que se reproduz em práticas normatizadas do absurdo como se fosse a normalidade. Díficil porque não implica em imposição de normas e intervenção sobre a vontade e ideações do outro, mas sobre a nossa vontade e ideias. Um ato mais profundo verdadeiro e primeiro de libertação, emancipação e declaração de independência de soberania, o da nossa vontade sobre os desejos e manipulações e racionalizações alheias não só efetuadas pelos outros, mas as vezes por nós mesmos. Libertar-se para libertar. Governar-se para não nem ser governado, nem ter ou querer governar. Mas pode chamar simplesmente de consciência. O estado da pisque humana onde a condição-relação senhor- escravo mesmo as mais civilizadas disfarçadas e luxuosas são tão monstruosas e repugnantes quanto um mercado banquete onde o prato principal é a carne dos seus pais, filhos e irmãos, ou em outras palavras carne humana.

Uma questão que não envolve argumentos racionais, mas simplesmente instintos. Empatia que se não for amputada desde criança por culturas, educação e propaganda por pscopatas socialmente aceitos em posições de autoridade para (im)plantar superegos neuróticos e psicóticos em seus futuros recursos humanos é a matéria-prima mais do que suficiente para quebrar esses grilhões desse hospício e construir essa novo lar salubre e saudável para a psique, uma nova mentalidade um pouco mais consciente.

Na segunda parte tratarei dos casamentos forçados.

Em tempo:

A Burberry, famosa marca de moda de luxo britânica, incinerou roupas, acessórios e perfumes não vendidos no valor de 28,6 milhões de libras — o equivalente a R$ 141,7 milhões — no ano passado para preservar a marca.

Nos últimos cinco anos, o valor total de produtos destruídos pela Burberry ultrapassa 90 milhões de libras — R$ 446 milhões.

A Burberry diz que o gás carbônico emitido com a queima dos produtos foi compensado, tornando a ação “ambientalmente sustentável”.

“A Burberry tem procedimentos cuidadosos para minimizar o excesso de estoque que produzimos. Nas ocasiões em que o descarte de produtos é necessário, fazemos isso de maneira responsável e continuamos a buscar formas de reduzir e revalorizar nosso lixo”, disse um porta-voz da companhia. -Marca de luxo Burberry queima roupas, perfumes e acessórios no valor de R$ 141 milhões

Burberry, acho que já vi esse nome em algum lugar…

American Apparel, Abercombe & Fitch, L.L. Bean, Gymboree, Hanes e Burberry são algumas das marcas conhecidas que utilizam trabalho escravo para produzir seus tecidos e roupas. De acordo com o Fórum Internacional do Trabalho, estas empresas não se enquadram nos padrões de trabalho justo e não tentam melhorar as condições de trabalho de seus empregados. L.L. Bean, Gymborree e Hanes utilizam trabalho infantil forçado em suas fábricas de produção de algodão no Uzbequistão. Os funcionários destes fabricantes de roupas não têm qualquer direito de negociação coletiva e não são filiados a sindicatos. O Fórum Internacional do Trabalho indica que esta é uma lista inconclusiva, já que há diversas outras marcas de roupa que exploram o trabalho escravo. — Relação de marcas que utilizam trabalho escravo

O termo Sweatshops (em português “Fábricas de suor”), é cada vez mais usado hoje em dia. O próprio nome dá a entender que se tratam de empresas envolvidas com a exploração extrema dos trabalhadores. São caracterizadas por um salário abaixo do mínimo necessário à sobrevivencia, pela ausencia de qualquer forma de garantia ou protecção laboral; pela exploração de crianças; pelas condições de trabalho perigosas para a saúde ou por ameaças, e por abusos sexuais, físicos e psicológicos.

As denúncias internacionais contra as Sweatshops crescem a cada ano e mostram uma triste realidade na qual existem inúmeras possibilidades para a exploração dos trabalhadores. São mulheres forçadas a tomar contraceptivos e submetidas a testes de gravidez periodicamente; trabalhadores expostos a substancias tóxicas, ameaçados e demitidos em caso de protestos e impedidos de abandonar o trabalho por meio de vigias armados.

Outra característica é que estas fábricas normalmente estão instaladas em países pobres, principalmente na Ásia e América Latina. As empresas previligiam a produção nestas regiões, pois a regulamentação laboral é geralmente inexistente e os salários são menores.

(…)

Contúdo, e apesar de todas as denúncias internacionais, marcas de roupas como a Primark, Zara, H&M ou Gap, assim como marcas de luxo como a Armani, Gucci, Prada, Dolce and Gabanna ou a Burberry, continuam a conseguir reduzir os seus custos, fazendo o outsourcing da sua produção, para onde se possa violar leis laborais, utilizando mão de obra semiescrava na produção.

Entretanto, empresas tão poderosas como as que vemos constantemente nos centros comerciais pelo ocidente fora e que dominam muitas vezes o espaço mediático publicitário de alguns dos maiores eventos e espaços mundiais, ou magnatas com os recursos de Amancio Ortega, fundador do grupo espanhol Inditex que detém as conhecidíssimas Zara, Stradivarius, Bershka, Lefties e Pull&Bear, continuam a apresentar-nos o argumento de que não sabiam, ou não tinham forma de saber, onde as suas roupas são feitas, por quem, e em que condições. Claro que não sabem, claro que não endorsam, claro que não lucram nada com isso, claro que não lhes é conveniente … é a globalização. — Os Milhões de Escravos da Moda

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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