E não é que é (ou era) mesmo Eslovena a estratégia de Independência da Catalunha

O Governo catalão está a preparar-se para substituir a administração a que está sujeita por parte do Estado espanhol por um esquema de governação totalmente digital, projecto no qual trabalha há dois anos em estreita colaboração com a Estónia. O diário El País noticia neste sábado que o plano Bases para a Transformação Digital das Administrações Públicas Catalãs foi encontrado a 21 de Setembro pela Guardia Civil nas buscas ordenadas pelo juiz Juan Antonio Sunyer às instalações do Consórcio Administração da Catalunha, no Centro de Telecomunicações e Tecnologias e na Fundação PuntCat.(…)

A Generalitat (governo regional da Catalunha) está a ser apoiada pela Estónia, para onde tem enviado altos quadros administrativos para aprenderem como está desenhado o modelo de governança baseado na internet. O país, que passou metade do século XX sob ocupação soviética, teve de reconstruir do zero o seu modelo administrativo na década de 90.(…)

Essas desconfianças foram confirmadas através de escutas telefónicas das duas dezenas de altos cargos dirigentes catalães detidos há três semanas. Nas conversas cruzadas, a Guardia Civil percebeu que esse plano da administração digital está tão avançado que a região poderia, em breve, desligar-se da estrutura digital gerida por Madrid.(…)- Independentismo na Catalunha. Catalunha prepara um Estado digital independente com a ajuda da Estónia

Mas e aí, vai ou fica? Pressão por todos os lados

Do Governo Espanhol para a rendição sem negociação nem condições

Enquanto Mariano Rajoy faz saber que não avançará com a suspensão da autonomia catalã, através do artigo 155 da Constituição, caso Carles Puigdemont recue e negue que tenha proclamado a independência na terça-feira passada, os seus ministros, como María Dolores de Cospedal, que detém a pasta da Defesa, vão insinuando que, se calhar, não será necessário empregar o exército na Catalunha. Ao mesmo tempo, aparecem notícias nos meios de comunicação social, supostamente vazadas pelas autoridades, com os planos militares para a Catalunha, e o ministro dos Negócios Estrangeiros vai a um programa de rádio dizer que a prisão de Puigdemont está em aberto. «Tudo depende dele», garante Alfonso Dastis.

O tempo está a passar e o presidente do governo catalão tem até segunda-feira ao final da manhã para responder ao ‘requerimento’ com que Mariano Rajoy iniciou o caminho para a aplicação do artigo 155. Caso negue que proclamou a independência da Catalunha, o líder do PSOE, Pedro Sanchéz, garante-lhe que já acordou com o governo do PP a realização de um processo de revisão da Constituição espanhola, que permitiria acautelar algumas das reivindicações catalãs, por exemplo em matéria fiscal, sem pôr em causa, certamente, a sacrossanta unidade de Espanha e o garante do seu cumprimento, pelo exército, como recordou de uma forma hábil a ministra da Defesa.

Da Esquerda e Movimentos sociais para a Independência e Enfrentamento da Repressão Militar dada como certa

Em sentido contrário, o antigo presidente da generalitat socialista, Ernest Maragall, agora eurodeputado, usou a sua conta de Twitter para dizer que Puigdemont devia declarar a independência. Cabe ao atual presidente do governo autonómico escolher entre «rendição ou repressão», afirma o antigo militante do PSC, concluindo que «é a hora de assumir o risco da liberdade». Um post que mereceu, no Twitter, a concordância do vice-presidente do governo da Catalunha, Oriol Junqueras, que comentou em frase curta: «Completamente de acordo».

No campo independentista, os seus maiores movimentos sociais, a Assembleia Nacional Catalã (ANC) e a Omnium Cultural instam Puigdemont a que anule a suspensão da declaração de independência. O secretariado da ANC reuniu-se na quinta-feira e pediu para que fosse levantada a suspensão. Em comunicado, o secretariado desta organização fez saber o seguinte: «Tendo em vista a negativa do Estado espanhol a qualquer proposta de diálogo, já não faz nenhum sentido manter suspensa a declaração de independência. Por isso, instamos o parlamento a levantá-la e ao presidente do governo a colocar em marcha a lei da transitoriedade jurídica e fundacional da República».

A isto somam-se as pressões da CUP, o partido independentista mais radical, cujos deputados garantem o apoio parlamentar maioritário dos independentistas ao governo dos Junts pel Si, coligação do Partido Democrático Europeu Catalão (PDeCAT) com a Esquerda Republicana da Catalunha (ERC). A direção deste partido anticapitalista pede a Puigdemont que «proclame já a República», a três dias de se esgotar o prazo do ‘requerimento’ enviado pelo governo Espanhol: «Por todos os que defenderam os seus colégios [eleitorais] perante a violência da ocupação militar e policial; os que votaram sim e os que votaram não», por todas essas pessoas e face «à falta de apoios explícitos a nível internacional», «segue sendo tão necessária a proclamação da República». Para a CUP, qualquer recuo nesse propósito derrotaria os independentistas, por perda de apoio popular, «sem apoio do povo não é possível manter o firme objetivo da autodeterminação». Para este partido só há uma resposta possível a dar a Rajoy: aquela que saiu do referendo — «a República é o mandato de mais de dois milhões de pessoas». Qualquer outra significaria, para CUP, que, «perante a repressão do Estado, ficaríamos imóveis face às ameaças [do governo espanhol], o que não nos permitiria existir como povo». A CUP não acredita numa mediação internacional e conclui: «Se nos aplicarem o artigo 155, que nos apliquem quando formos República».

E do Partido para se render

De alguma forma, haver ou não um recuo vai decidir-se no seio dos independentistas mais moderados do PDeCAT, para quem a perda das instituições autonómicas — que eles controlam quase sem interrupções, desde 1980, tirando o período em que governaram os socialistas com o apoio do ERC — é um golpe fundo, e que o facto de cerca de 400 empresas terem deixado de ter sede social na Catalunha pode fazer soar os alarmes. Daí não serem estranhas as declarações do antigo presidente da generalitat e presidente do PDeCAT, Artur Mas: «A violência policial no dia 1 de outubro demonstrou que o governo espanhol não tem limites e que são capazes de qualquer coisa». Um fator novo e importante no processo, «com que não contávamos», garantiu Mas na estação de televisão autonómica TV3. O antigo presidente catalão mostrou-se prudente: «Se pensamos que a independência é a única maneira de proclamar uma República, estamos enganados». Sem explicitar as outras formas, ficou implícito o apoio a um possível recuo na segunda-feira.-Catalunha. A estratégia da cenoura e do pau

E a comunidade internacional?

Entretanto, o pouco que o governo catalão conseguiu da chamada comunidade internacional foi a condenação de Espanha no Conselho da Europa pela violência policial de 1 de outubro. Na mesma direção, a Human Rights Watch solicitou o governo de Madrid uma investigação séria sobre os abusos aos direitos humanos cometidos pelas suas forças de segurança no dia do referendo.

União Europeia, Alemanha, França, EUA e claro UK estão firmes como rochas do lado espanhol juntos com o mercado financeiro.

A Catalunha está sozinha. E o Puigdemont no maior dilema pessoal que pode mudar o futuro da Catalunha, Espanha e sabe-se lá depois mais onde:

Se ele se render. Derreterá de vez e provavelmente cairá no ostracismo, como uma das maiores desilusões populares dos últimos tempos. Isto, se tiver sorte, e a Espanha não quiser fazer dele um exemplo contra quem ousar desafiar o Estado- o mais provável.

Se ele resistir que agora com o ultimato é o mesmo que avançar. Terá que se esconder para não ser preso. E seu liberdade estará diretamente vinculada a ao sucesso da independência. Ou seja primeiro da vontade e depois da capacidade popular de resistir contra a repressão espanhola.

Ou seja, ou corre o risco ir preso sem dignidade e sem ir adiante com a a independência de fato. Ou corre o risco de ir preso com dignidade tentando a independência de fato. Parece uma solução fácil para quem está de fora, mas para quem está dentro, as pressões acima citadas tendem a alterar completamente a percepção. Fora que é possível que haja informações que nós meros mortais não tenhamos acesso. Mas considerando somente os fatos e os dados que estão postos até o presente momento, está mais do que claro que Puidemond foi longe demais para voltar sem perder de qualquer forma e Rajoy não está a deixar nenhuma saída. Ou tem certeza absoluta que ele vai se render, ou então de fato quer que ele avance para poder fazer a intervenção e acabar não só com a declaração independência, mas com todo o processo que vinha avançando silenciosa tirando (pelo tempo e como as “medidas que forem necessárias”) a autonomia catalã.

A pergunta é uma só: fazia parte da estratégia a lá eslovenia do governo catalão ter de enfrentar essa intervenção? Ou ele contava ou ainda conta com alguma ajuda internacional? É muito desses fatores, do que da vontade política, orgulho, medo, ou pressões por todos os lados que se dará a decisão dele.

Ou pelo menos é como deveria se dar.

Planejamento de lado, particularmente compartilho, da opinião dos independentistas, melhor cair de pé que de joelhos. Mas dizer isso daqui é fácil, quem vai levar no lombo até se dobrar ou ganhar pelo cansaço (de tanto bater!) são eles. Por isso independente de qual seja a decisão meu apoio permanece com esse povo que corre teve coragem de se levantar e por isso corre o risco de ficar ainda mais sozinho, se até seu governo também o abandonar. Diga-se de passagem a volta da “normalidade”, a regra e não a exceção. Mas acho que isso está mais do que óbvio? E não só mais no Brasil, mas no mundo inteiro.

Ou não?

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