Do estado de negação da realidade sua produção e exploração

Da separação de Estado e Religião e a Liberdade de Consciência (parte 2)

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Ovelhas elétricas

Feito a apologia ao racionalismo iluminismo e humanismo, e no progresso liberal, social e cultural que ele permitiu a humanidade senão como um todo aos privilegiados. Vamos falar agora, justamente disso, de onde foi que ele falhou e fracassou, de modo a estarmos novamente gente a espera da concretização da profecia do bezerro vermelho em Israel, ou do homem do cavalo branco no Brasil, para o retorno dos seus messias entre um seriado e outro do Netflix que ninguém é de ferro.

Para tanto permitam-me corrigir primeiro os exageros. Ao contrário do que se acredita o período das Trevas não foi um período tão completa pobreza e paralização da cultura ocidental, artes, ciências e filosofia. Mas sim de monopólio e centralização absurda e extrema onde uma elite religiosa e nobreza de bem nascidos restrita tiveram acesso a todo riqueza material e imaterial que era produzida. Ou seja de centralização e consequentemente desigualdade impares, de modo enquanto populações perdiam até mesmo a posse dos meios e condições materiais e imateriais para produzir o pão, em monastérios e universidades outros ainda encontravam tempo e meios para fazer suas investigações e reflexões filosóficas, não sem censura e perseguição e punição, mas ao menos conseguiam.

Evidente que também essas elites foram afetadas pela pobreza e ignorância com a qual sustentavam suas posses e poderes, e portanto toda a riqueza e poder mesmo sendo relativamente gigantesco em comparação as massas plebeias de servos e fieis miseráveis, ainda sim com bem menos riqueza e conforto (fora saúde e higiene) em relação ao cidadão de classe média de muitos países modernos, ao menos dos mais desenvolvidos. Em suma, viviam mais ou menos, guardadas as diferenças, como vivem as pessoas cultas, ricas e poderosas de países pobres em desenvolvimento, encasteladas em seus domínios e condomínios, sentindo-se cercadas por pobres, ignorante, fanáticos e marginais que desprezam ainda mais que a pobreza, ignorância ou fanatismo e a marginalização, mas do qual não podem se livrar, nem da deles nem da sua, nem é claro deles, não porque são gente como eles, porque isso é algo um tanto ainda quanto relativo na cabeça deles, mas porque mesmo querendo ainda não podem, não enquanto não tiverem maquinário que substitua esses recursos humanos, porque é desses recursos (e sua condição) que tiram seu sustento do seu status quo e modo de vida. Claro que há aqueles que vão morrer jurando que o trabalho por trás das suas mesas materialização como um passo de mágica o frango embalado dentro das suas cestas nos supermercados. Mas isso, só prova que a cabeça e o corpo embora morram juntos, nunca morrem ou percebem que já estão mortos ao mesmo tempo, se é que percebem isso.

O que me leva ao devaneio sobre se ou quando as cabeça do sistema feudal caíram na real. Será que depois do fracasso retumbante das cruzadas e guerras santas, tentando dar sobrevida a um sistema já completamente esgotado pela pilhagem e guerras internas, com a ampliação das terras e pilhagem para além das suas fronteiras. quando descobriu que não tinha os meios econômicos, comerciais, monetários, financeiros e administrativos para sustentar nenhum império que não fosse o pobre o primitivo reinado da pobreza, ignorância e exploração sobre sua própria população servil. Quando essa nobreza e aristocracia percebeu que se não parasse de cagar onde comia, estaria fatalmente condenada a morrer como condenava sua plebe marginalizada a viver: suja, pestilenta e analfabeta e assassinada.

Talvez você esteja se perguntando como eles poderiam não ter visto que isso estava acontecendo naquele tempo. Quando a verdadeira pergunta é como nós não conseguimos ver o que está acontecendo agora mesmo. Costuma-se associar o renascimento e iluminismo a grandes gênios, quando parece que não é preciso de tanta luz nem lucidez mas apenas não ser um completo cego para enxergar tamanha obviedade. Mas é por isso que o período não se chama períodos dos cegos, embora não os faltasse, como hoje, mas períodos das trevas, pois não bastava ser capaz de enxergar, mas conseguir enxergar com quase nenhuma luz disponível para quase ninguém.

Assim, a pergunta poderia voltar para nós: quando nos daremos conta que a grande revolução político-econômica entre o feudalismo e capitalismo, não passou do ponto de vista socioambiental de uma mudança e extensão e dimensão das mesmas práticas, e não propriamente uma mudança de relação entre os homens, e dos homens com o mundo. Basicamente ninguém parou de pilhar e cagar na cabeça uns dos outros nem no mundo, a grande revolução capitalista está no desenvolvimento de técnicas para poder pilhar e cagar com conforto e segurança o mais longe de casa possível. A diferença entre os países desenvolvidos e subdesenvolvidos, o fator determinante Da Riqueza das Nações. Enquanto uns ainda pilham e cagam onde comem, outros não só pilham e escravizam bem longe de casa, mas mandam seus dejetos domésticos para as mesmas latrinas e senzalas do mundo. Algo que qualquer quadrilha sabe, não se rouba nem emporcalha seu próprio território, mas o alheio. Uma mentalidade insustentável próxima do esgotamento junto com o próprio meio ambiente e recursos naturais e humanos, já faltam novos mundos para pilhar mas gente e povo disposto a aceitar bovinamente ser a latrina e senzala do resto do mundo.

Ora, é preciso ganhar tempo, e se não é possível, abrir novos mundos, não enquanto não enquanto o velho sistema não tiver os meios para colonizar o espaço sideral. Só uma alternativa, aberta o cabresto dos abestados, investir na condição bovina da população até que uma solução final, seja ela de abate ou imigração se torne economicamente e tecnicamente viável.

E eis que a simbiose de Estado como administração política e cultural dos interesses e a religião como doutrinação e condicionamento epistemológica milenar e profunda para a efetivação de tal processo de anestesia e pacificação das bestas de carga e carne de abate volta a carga em doses cavalares, com lideres e cultos religiosos e políticos fundamentalistas e totalitários prontos a se abraçar fraternalmente para garantir que as bases da seus sistema e esquemas de pirâmide sobrevivam. Tiranos e Charlatões juntos e misturados para garantir seus ministérios.

Viver em negação é básico. E negar a negação, projetando ao outro é mais básico ainda.

É aquela história, eu não tenho coragem de matar um pobre e indefeso bichinho, nem estômago para estripa-lo e esquarteja-lo, mas se ele for gostoso que se dane, me manda que eu como. E nisto mesmo quando digo “eu” parece ainda sim que estou falando de um “outro”, e não de mim mesmo- já que também não sou vegetariano.

Pois é. Viver em negação da realidade como uma alteralidade é básico. Mas já passamos desse estagio. E aqui não falo como “eu” ou “eles”, mas como nós porque a loucura pode ser do outro mas o realidade é todos. A sociedade ou mais precisamente sua mentalidade entrou numa nova fase, na qual excluir e renegar já não basta para sustentar seu universo de preconceitos, fantasias e dogmas ideológicos- e claro relações de poder e privilégios derivados a quem interessar possa, agora deles é preciso eliminar o contraditório. Entramos numa fase onde a intolerância evolui para a desintegração. Na qual mesmo os mais tolerantes, querendo ou não, em breve se verão obrigados a encarar ou fugir da dura realidade, se puderem. Ou melhor, obrigados a lidar com a loucura alheia impostas como sua realidade tão absurda e concreta quanto pode ser tudo que é imposto via a força de fato, incluso os delírios histéricos mais insanos. No entanto para lidar com essa realidade, é preciso sair do estado de negação de essa loucura é normal. Nunca foi antes só por que conseguimos suportá-la. Nem é agora que não teremos condições de conviver com ela.

Dizem que hábitos e costumes se adquirem, mas não eles se desenvolvem. E se desenvolvem ou por uso e exercício das capacidades, ou pela perdas. O ser humano é capaz de se adaptar as mais tristes, miseráveis e absurdos condições de vida. E essa capacidade que nos ajuda a sobreviver e suportar o que seria insuportável, é também fatal quando nos leva a armadilha de nos acostumar com o que fatalmente será nosso fim. A pessoa que vive ou trabalha nos esgoto vai perdendo a capacidade de sentir o seu fedor, até perder toda sua sensibilidade, ou seja, vai se habituando até o hábito se tornar um costume. Porém não o habito e costume de exercer seu potencial como vontade de transformação da sua vida, mas o habito e costume justamente oposto o de conformação com a impotência perante a sua condição de vida. E é assim considerando cada dia mais normal o que é cada dia um pouco mais absurdo só por que cada vez mais banal que vamos nos se acostumando e conformando com perdas e condições, privações e agressões que não devemos podemos nos jamais permitir ninguém impor nem supor que ninguém tenha a obrigação de suportar.

Viver em negação é o segredo da felicidade. Ao menos a felicidade de quem vive como hiena comendo merda e rindo. Porém foi-se o tempo que eramos capazes de engolir o fantástico show da vida como se fosse realidade sem ao menos nos perguntar: mas será que isso não é um monte de merda !@ Foi-se o tempo, que bastava não saber como e do que as coisas eram feitas para engoli-las. Continuamos a engolir, mas já precisamos mais do que mera embalagens bonitas para conseguir ajudar os vendedores de ilusão a enganar nossos cérebros. Hoje para ajudá-los a nos ajudar a manter nossa confortável ilusão precisamos muito mais do que o autoengano, ficção e ilusão, precisamos de anestesia, alucinação e fantasia não como entretenimento crível e verossível, mas fantasia como realidade virtual e artificial substituta da pessoal completamente apodrecida e insuportável. Com drogas ou sem drogas precisamos viver como drogados, porque nóias e viciados em ser felizes completamente narcotizados e dependentes do viver de fantasiar uma realidade explicitamente insuportável e insustentável, isso já o somos. E como todo viciado estamos sempre atrás de um dose maior para produzir o mesmo efeito, já que, como disse, o cérebro se conforma e acostuma.

Como cocainados pessoas saem verdadeira comovidas ou excitados ao assistir após uma dose do seu imagético de projeção de uma outra realidade, saem alegres, tristes e revoltadas do seu mundo dos espetáculos, as vezes até chorando sinceramente com a triste história dos pobres negros e índios pelos colonos norte-americanos, ou pelos sofrimentos e angustias e misérias do protagonista, se solidarizando como o personagem, mas incapazes não só de se sentir o mesmo pelo mendigo negro e índio que jaz na sua porta, mas incapazes de se solidarizar consigo mesmo, ou as vezes sequer notar a sua própria condição sofrível, miserável e angustiante- não sem o intermédio da midia. Não sem a droga. O viciado pode perder a família ou ganhar na loteria, e mesmo assim só consegue sentir felicidade se drogando ou drogado, não importa qual seja o processo que efetue esse mecanismo de dependência cerebral se químico ou psicológico o resultado é o mesmo. Euforia no pico, apatia angustia e depressão na normalidade e novamente a nóia crises de abstinência. O pior é que na era do broadcast yourself, onde todos são os protagonistas do espetáculo de si mesmo, o personagem fictícia não é mais um personagem, uma imagem projetada pelo outro, mas pelo próprio, onde os sentimentos não alienados não estão senão a projeção não só narcisista da imagem do seu eu virtual, mas pior da projeção da bolha de aprovação virtual dos olhos e opiniões alheias.

É…foi-se o tempo em que os olhos não vem o coração não sente. Hoje os que os olhos veem o coração ainda não sente. E mesmo o que a cabeça a sabe como verdade e até mesmo o coração sente como verdadeiro, não consegue se impor como vontade sobre o desejo e medos. Já não importa que seja falso, já não importa nem que por trás das boas e aparências e sensações há podridão e monstruosidade; não importa o que nos espera, nem de quê e como as coisas são feitas, precisamos de uma outra dose e não importa quem perdemos ou foi sacrificado ontem, ou quem mais será amanhã. Nada importa senão nossa dose instantânea de felicidade presente feita de um passado romantizado e falsa esperança de futuro, mas sobretudo da aprovação fugaz e instantânea da nossa casca cada dia mais vazia e sem sentido.

Na vida contemporânea o sentido da vida foi reduzido a um mero estado fisiológico, o de bem estar e estar bem. Não importa se as coisas o quão mal andam as coisas, o quão mal se esteja, os mecanismos de recompensa e punição introjetados na mente humana do homo civilizado se resume a uma busca desesperada e viciada pela busca constante da felicidade, como se esse estado fosse o estado ideal de realização plena do sentido da vida de pessoa adulta. Uma busca onde o ser feliz, se resume a sentir e parecer feliz a luz do julgamento alheio, não importa o quão falsa seja essa projeção ou sensação. Entre a nossa percepção e a percepção, entre a relatividade das percepções e a subjetividade das noções, a humanidade perdeu na contemporaneidade a sensação e noção natural e instintiva da sua próprioconcepção, autodeterminação e com ela não só a soberania sobre sua livre vontade, mas sobre seu juízo, fé e razão. Perdeu a capacidade não só de pensar sozinho sem intermediários, mas de sentir, gozar e sofrer sem plateia, direção, roteiro, premiação, maquiagem e curso de atuação.

Naturalmente como qualquer ser dotado de sensibilidade os seres humanos buscam evitar a dor e buscam o prazer, como qualquer ser dotados de memória e raciocínio buscam evitar situações que lhe tragam sofrimento ou coloquem em risco seus prazeres e felicidades. Mas a busca por esse estado, faz tempo que deixou de ser uma resposta instintiva, para se tornar o comportamento devidamente condicionado de manadas de aliados dispostos a viver em completa alienação, letargia ou mesmo alucinação, para manter seu cérebro viciado abastecido da sua droga que substitui o falta de sentido existencial da suas vidas: felicidade.

Não importa, se tudo e todos que você ama estão mortos ou vão morrer; Se sua vida é um fracasso, ou jamais se realiza ou terá a mínima chance de. O que se busca desesperadamente não é a transformação da realidade, mas a fugir desse sofrimento. Como se viver o luto, a amargura, a revolta, o sofrimento, a dor e a raiva fossem o mal do seu ser e estar, e não a condição da real da sua vida. Como se o sofrimento fosse o doença e não o sintoma, ou mesmo a reação natural e necessária. Anestesiados e viciados em nossas bolhas e doses de felicidade artificial, vamos nos tornando cada dia mais incapazes não só de sentir a infelicidade e sofrimento alheio, mas incapazes de sentir e perceber o sofrimento e infelicidade da nossa própria condição. E como poderíamos se tudo o que nosso cérebro drogado e viciado consegue pensar é: onde posso arrumar outra dose de felicidade? Ou pelo menos outra dose de qualquer anestésico diminuía um pouco a dor da realidade e me faça esquecer um pouco onde estou e quem sou e não sou, outra dose de fantasia como felicidade, ou já só droga mesmo como dose de felicidade e fantasia.

A descoberta de que o mundo que não só imaginamos, mas vemos e sentimos e concebemos, não é nem precisa ser exatamente 100 por cento a correspondência do real, é bem antiga. Tão antiga quanto a loucura. Desconectar-se da realidade como forma de suportar a dor ou encontrar o prazer, viver seus sonhos ou lidar com os problemas, é uma resposta natural, e por vezes, até estrategicamente saudável para a mente recompor-se e reencontrar as forças que carece para enfrentar a dura realidade. E avançamos bastante no conhecimento desses processos, tanto no plano social e psicológico quanto químico e neurológico. De modo que hoje não só é perfeitamente possível viver de forma socialmente aceitável, politicamente passivo, e ser economicamente produtiva nesse estado, como é possível fazer desse estado a condição de funcionamento normal e produtiva do ambiente social, econômico e político. Seja na criação de gado de abate, seja na de empregados socialmente aptos, as técnicas e tecnologias de lido com as manadas avançaram, e tão importante para quanto manter um cercado é manter a carne das massas sempre calma e macia. E claro senão absolutamente feliz, ao menos passiva, impotente e conformada, mesmo que para tanto seja necessário o emprego da estratégia o oposta, o da ameaça da suspensão da droga e perda da fantasia.

Esse estado mental se manifesta em todos os campos ideológicos e classes sociais. Por exemplo. Nada mais sintomático que as criticas a legitimidade de uma pleito eleitoral e seus futuros resultados feitas por ambos os lados.

A direita questiona a segurança e fidedignidade das urnas eletrônicas. E questiona por qual razão! Porque o eleitor não pode ter um comprovante do seu voto que possa servir de prova e conferência do resultado em caso de contestação?

A esquerda questiona porque não permitir que os eleitores dos grotões que tiveram seu direito de votar cancelado por não comparecerem ao cadastramento biométrico não possam votar em urnas não-eletrônicas?

Quando não só a resposta para ambas as questões eliminada a critica e cegueira seletiva a mesma, mas a questão como um todo é irrelevante, dado que a raiz do problema é mesmo. E não está restrita a tecnologia nem na tecno-burocracia que dominam a polêmica e o debate. Mas na realidade como um todo que prefere negar para se ater esquizofrenicamente aos detalhes.

Sim as urnas eletrônicas, o cadastramento eleitoral, e até mesmo as eleições são apenas um mero detalhe ou se preferir sintomas ou consequências do problemas e não a sua causa. Mas já que somos impotentes para salvar a vida do paciente a república, então nos contentamos em escolher com qual caixão e terno vamos enterrá-lo. As pessoas estão discutindo a legitimidade das técnicas e tecnologias quando se esquecem que de nada adianta o provimento das melhores práticas e sistemas quando eles estão nas mãos e a serviço de quem sabidamente não poderia nem deveria estar? De que adianta discutir a honestidade e bom funcionamento dos botões que se aperta quando todos sabem, é publico e notório, que quem aperta esses botões não é nem honesto, nem está se lixando para o bom ou mal funcionamento do sistema, desde que ele esteja na cadeira e continue apertando os botões como bem quiser e como melhor o interessar? Prova de que todos sabem do quê e quem estou falando, não só como pessoa mas como função, é que não preciso sequer citar nomes ou cargos. É triste e patético, estamos a discutir sobre a legitimidade dos exames, quando eles serão entregues a falsos médicos, ou pior médicos de verdade mas que fazem parte de uma gangue especializada no trafico de órgãos humanos.

A esquerda minimamente honesta e não alucinada sabe que a denuncia contra a manipulação e falsificação dos resultados no sistema eleitoral não é de ontem, remonta a eleição de Brizola no Rio de Janeiro de 82. Assim como a direita também minimamente sã, sabe que os processos de controle biométrico servem a composição de bancos de dados a serviço de estados totalitários de vigilância e patrulhamento politico e policial do cidadão sejam eles de inspiração fascista ou comunista. Isso sem falar em material que será vazado corruptamente para corporações amigas em troca de propina.

As eleições funcionam como a copa do Mundo e Carnaval, as pessoas dão um reset no cérebro e parecem de nascerem ontem, só para acordar de ressaca, e se perguntarem no dia seguinte onde é que eu estava com a cabeça quando fiz isso?

O sociólogo, filósofo e estadista Tiririca dizia que “pior que está não fica”. Mas fenômenos contemporâneos periódico como as eleições, ou isolados como por exemplo a dita epidemia da Tarantela na idade média provam que não. A tarantela que dá nome a dança tradicional italiana e que deriva da palavra tarântula descreve um “curioso” fenômeno na idade media, onde as pessoas começam a dançar freneticamente sem parar em grupos que iam atraindo mais e mais pessoas que não conseguiam resistir e que não paravam até caírem exaustas ou literalmente mortas de exaustão. Acreditava-se que tal comportamento era porque as pessoas tivessem sido picadas por tarântulas daí, o nome Tarantela. Mas evidente que não, a culpa não era das aranhas. Não era por causa do veneno delas ou de nenhum outro animal que as pessoas passaram a comportar como manadas de insanos, nem na idade média nem no passado mais recente ou agora no presente. Os gatilhos e a vulnerabilidades fisiológicas e psicológicas que disparam esses comportamentos sociopatológicos epidêmicos são outros e tem outras causas.

Seria curioso se não fosse triste e trágico, assistir como as pessoas em geral são e estão vulneráveis, a serem cooptadas em massas para transes catárticos teráticos, verdadeiras danças da morte, onde a sensação de morrer em grupo e menos desoladora de que uma vida em solidão e isolamento imersa no vazio “do veja como sou feliz!” das multidões.

Felizes dos feios, solitários e inconvenientes porque deles é o reino do saber viver sem a carência da aceitação do alheio, e aprovação do alienador. As pessoas acham que o mal está na tecnologia da hiperconectividade, não meus amigos. O Facebosta, jamais funcionaria e prevaleceria, se não vivemos numa sociedade de hipercarência e necessidade de hiperatenção. Onde estar completamente sozinho com seus próprios pensamentos e sentimentos é mais assustador do que enfrentar esquadras e patrulhas de neofascistas ou neobolcheviques. Chamar responsabilidades e tomar o destino nas próprias mãos e muito mais apavorante do que entregá-lo ele aos piores déspotas e tiranos.

Mesmo diante de um evidente e gritante beco sem saída, preferimos afundar-nos em nossas narrativas fantásticas de realidade. Sabemos que as alternativas que se impõe como alternativas, não são alternativas a coisa nenhuma. Sabemos que a próprio processo de escolha e tomada de decisão coletiva não é representa nenhuma escolha, nem decisão verdadeira e que no final dessa seleção e eleição, o que quer que resulte dela, não representará a vontade nem terá o apoio verdadeiro de não mais que 1 ou 2, sendo otimista 3 entre 10 brasileiros, e que o restante apenas terá feito uma não-escolha, uma não-eleição, de outra parte. Sendo que 1 , 2 e sendo pessimista até mesmo 3 entre brasileiros continuarão dispostos a tirar por todos os meios quem ele não conseguiu deseleger.

O processo da manipulação eleitoral da democrática representativa que empurrava todos para escolher entre falsas opções iguais de modo a manter o sistema, degenerou e como uma câncer anti-sistema está comendo o sistema e empurrando agora as pessoas a eleger entre duas opções

Quem vive da imbecilidade morre pela imbecilização. De modo que os já limítrofes idiocratas também se desconectaram completamente da realidade e em sua prepotência cometeram o mesmo erro da plutocracia norte-americana. Acreditaram que ao eliminar tempo de TV, que ao trancafiar lideranças mafiosas, ou expor as tendências fascistas iriam literalmente arrebanhar a aterrorizada população de volta para o seu cercado do status quo de centro da moralidade e moderação. Mas que moralidade? Que moderação? O centro de poder não só se desintegrou ele derreteu. E só ele não percebeu, graças ao nível de tara, fantasia e descolamento da realidade que só o encastelamento palaciano e poder sem freios (nem imputabilidade) é capaz de prover. O status quo não percebeu que entre o truculência fascista dos Bolsonarianos e o bolchevismo mafioso dos Lulopetismo, o asco pelas hipocrisia das personas e intuições desse poder constituído era ainda maior, mesmo com todas os dados da dimensão da rejeição ao espantalho que foi escolhido para representar seu interesses: Temer.

Será que é preciso fazer um desenho, para que para uma parcela significativa da população, embora uma esteja a esquerda e outra direita, o pior dos seus males é melhor do que está aí, e que cada qual só não se une porque considera a outra polo ideológico como parte desse sistema que abominam? É possível que pragmaticamente dançando sua tarantela as pessoas aceitam novamente as velhas alianças como a podridão, tanto a esquerda quanto a direita. Mas quando a festa da democracia passar e a ressaca vier, quando o novo governo, não puder cumprir o que prometeu, seja porque é impossível, seja porque teve que vender o rabo para chegar lá, teremos novamente uma pais em uma crise ainda maior, com uma população que odeia quem está no poder, e outra mais uma vez traída por quem chegou.

Sei que as pessoas estão enebriadas pelas eleições e que eu estou estragando a festa. Mas tanto faz infelizmente já selamos nosso destino cagamos de novo onde comemos e agora comemos chorando, amanha novamente rindo e celebrando e arrotando caviar. A sociedade não vai se dividir ela já foi divida. De modo que a pergunta não é quem mantê-la unida, mas se seremos capazes de reintegrá-la ou se mais uma vez ela será costurada de novo a força e tocada como uma rebanho.

Porque não importa quem vença com ou sem apelação, não vai ter bases para governar, mas no máximo para se segurar no poder, comprando apoio e reprimindo e espoliando a população. Todas as outras alternativas estão fora da mesa, não só porque estão fora do esquema institucional, mas da concepção de mundo possível das pessoas dentro da abrangência desse sistema que antes de um domus político-econômico e domínio sociocultural é uma matriz psico-epistemológica que se replica como relações de poder e produção baseadas na violação e condicionamento do desenvolvimento cognitivo e emocional antesdetudo como privação de posses de meios e recursos vitais e ambiental tanto os comuns quanto os absultamente privados e pessoais.

Eis um exemplo atualíssimos de como a separação de credos e razão não só é impossível, ela não existe como fenômeno. Mas que não só a separação e discernimentos dos juízos políticos, religiosos e científicos não só pode mas precisa ser feita, e se isso implica logicamente e necessariamente como prática na devida separação dessas instituições, não diz nada a respeito a da manutenção delas como são e estão, ou mesmo na necessária perpetuação das mesmas como única realidade ou os únicos campos e esferas do possível nem como saber, fazer nem muito menos viver.

Igrejinhas politicas, politicagem religiosa, intrigas palacianas ou episcopais, são modelos, projetos que não possuem só uma mesma arquitetura, mas uma mesma lógica. Não ideal, mas psíquica e modelar não só a visão, a percepção sensível de mundo, mas a episteme, a capacidade ver, de distinguir, inteligir, dar sentido e significado as abstrações concretudes e operações mentais e fenômenos que compõe o mundo, a sua imagem de semelhança ou dissemelhança como signos e representações do imagético como real. A arte milenar de comprar tudo que é naturalmente real vendendo sonhos e pesadelos como realidade artificial.

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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