Da mesma forma que os caminhoneiros conseguiram parar o país de dimensões continentais de forma articulada e ainda sim descentralizada: assembleias locais conectadas utilizando a tecnologia da telecomunicação/informação já disponível. Democracia Direta Digital.

Na verdade o desafio não é o que fazer, até porque uma vez criados os dispositivos, as medidas e decisões passam a ser tomadas passam dentro desse âmbito em tempo real, e não mais a priori ou posteriori das circunstâncias de demandas. O desafio é como se dará essa transição frente a resistência de uma classe de intermediadores que se tornou contraprodutiva e obsoleta, mas que ainda detém o poder de fato: a classe política.

Estamos em plena fase de revolução industrial, da passagem do capitalismo financeiro para o informacional. Assim como a sua economia a democracia liberal está fadada a se transmutar ou morrer. De modo o que está verdadeiramente em disputa por trás das crises não é o controle do poder ou sua hegemonia, mas a arquitetura constitucional sob as quais se darão essas novas disputas seja como projetos de poder, ou sociedade.

O poder de fato como avanço tecnológico já está disponível na mãos da população para constituir esses novos sistemas, desde a democratização da comunicação até dos sistema bancário e financeiro, passando inclusive pelo político. E eventualmente e a revelia da poder instituído essa tecnologia é usada para dar voz e poder de decisão a quem pode e sabe utilizar essas redes virtuais que estão se sobrepondo sobre as estruturas de poder e seus detentores. Diversos papeis dentro não só da cadeia socioeconômica estão se tornando ultrapassados e sendo suprimidos e integrados em novas funções sociais e produtivas. E a menos que o próprio sistema de produção capitalista global se desintegre, a tendência é desses papeis serem reintegrados. Como?Na forma de idiotas e alienados virtuais, ou de uma cidadania digital, essa é a guerra por trás das guerras hibridas e ciberguerras, que resultarão ao fim do nosso tempo na formação ou de Superestados de vigilância da população onde cada passo do cidadão será rastreado digitalmente, ou pelo contrário de fato sociedades do conhecimento e informação onde a tecnologia servirá ao empoderamento e controle cidadão não sobre os governos e empresas ou seus gestores, mas diretamente sobre o sistema financeiro, monetário e político, como capital que não só temos, mas somos. Ou seja, da mesma forma que hoje compramos e vendemos dados sem sequer saber, e o centro do capital mundial migra de Wall Street, para o vale do Silício, apenas com um clique. Algo que não passa apenas pela democratização dos meios e ambientes informacionais-comunicacionais, mas pelo restituição do usufruto dos meios e ambientes vitais e comuns. Daí a importância da abordagem e tratamento dos recursos, riquezas naturais e ainda estratégicas, como o petróleo por exemplo, não como um bem como água, o qual podemos terceirizar a sua extração e distribuição, mas não renunciar a sua posse como bem comum.

No momento em que a cidadania passa a ser de fato não um conjunto de direitos virtuais de papel ou dados eletrônicos, mas a propriedade de fato, uma cidadania fundada no direito de posse, participação no patrimônio e decisão política sobretudo, tributária-orçamentaria do que é coisa pública. O cidadão e a cidadania já deixou de ser um expropriado político e econômico, para ser um cidadão com direitos de propriedade e renda hereditários, um pequeno burguês ou capitalista por herança. Desigual em grau de riqueza, mas não mais condição jurídica de expropriado dos seus direitos iguais sobre o que é bem e coisa pública. Uma condição que num futuro muito breve não será apenas uma questão de justiça e restituição de direitos naturais, mas de sobrevivência na exata medida que o avanço dessa mesma tecnologia da automação e informação que torna obsoleta as classes parasitárias políticas ou econômicas, também tornará as próprias classes trabalhadoras extintas.

Logo em ultima instancia diria que a resposta a sua segunda pergunta, remete a própria condição emergencial que o desabastecimento atual. Pois assim como a transição para integração da cidadão terá que ser feita em algum momento, o abastecimento terá que ser restabelecido. Se será feito para atender os interesses do governo e afins, ou dos populares e suas reivindicações é isto que definirá como se dará e não o contrário. Por que nos dois casos, os meios e instrumentos para efetuar uma ou outra coisa, a integração e empoderamento da sociedade, ou a sua desintegração e ampliação da subserviência já estão disponíveis e estão sendo usados tanto como tecnologia quanto capital.

Assim a reposta da primeira questão, como “vamos criar uma sociedade onde a administração pública e a iniciativa privada estejam à serviço da coletividade?” reside justamente na inversão de valores que essa nova arquitetura do sistema já promove. A pergunta não é como criamos uma administração pública e iniciativa privada a serviço da coletividade, mas esse publico e privado fariam para impor suas decisões autocráticas? Novamente a greve dos caminhoneiros demostra tem um indicativo das respostas: se as forças armadas não tiverem contingente para reprimir e assumir tais funções, nem o controle do sistema de comunicação, nem pelo qual eles mantém a mobilização, nem sequer dos recursos vitais que provem a população como vão impor seus decretos? O uso da força neste caso pode quebrar o país sistema e não reativá-lo. Algo que pode acontecer, justamente porque a jurisdição, o poder de fato sobre tais meios e recursos fundamentais não está sob a posse de quem não pode subsistir sem eles. A base de constituições de administrações e gestões dependem de controle e define os códigos da arquitetura do sistema. Os caminhoneiros não só ditaram o que queiram que fosse posto nos códigos, mas ditaram como isso deveria ser feito de modo a protegê-los de futuras apropriações e traições de seus redatores. De modo que vier a controlar tais recursos irá definir como ou se as suas questões serão respondidas e solucionadas. Assim como as minhas, também as suas propostas.

E assim falando da sua solução, ela me parece extramente promissora, sinceramente para mim não falta nada para apresentá-la, exceto o espaço e dispositivo constitucional onde as partes interessadas pudessem parlamentar e tomar a decisão e no final dar a última palavra se elas vão querem bancar e usufruir sem atravessadores, as assembleias locais e virtualmente integradas dos cidadãos. E quantos projetos e soluções de Brasil não morreram e ainda vão morrer nas gavetas dos engavetadores enquanto não tivermos dispositivos de uma verdadeira democracia popular e não a burocracia dos oligarcas e seus fantoches tecnocratas. Eis a história das ideias e invenções e soluções do Brasil, morrer como projeto de nação enquanto não tivermos nenhuma capital político nem econômico como republica e democracia, como materialidade da e para nossa cidadania.

Em suma democracia direta e renda básica, mas especificamente sobre esses dispositivos fico por aqui. Porque nem eu mais aguento o som dessas palavras na minha cabeça. Se interessar há vários artigos, sobre ambos os temas perdidos por aqui. Mas de boa, recomendo a leitura apenas em último caso, se as ideias vierem um dia eventualmente a faltar. Comigo acontece… direto, mas pelo que li do seu texto, não é o caso, elas sobram para dar, vender e compartilhar.

Parabéns, e abraços.

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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