Crise na Venezuela: Putin “explica” as bases da “nova” ordem mundial

Do primeiro tiro a primeira vítima

No artigo abaixo, fiz um pequeno resumo em que pé (de guerra) estava a crise na Venezuela.

Nele expliquei que longe ainda de ser um “Vietnã”, ou “só” mais um conflito engedrado por “petróleo”(ou mesmo sobre outros matrizes energéticas minerais que cresce ainda mais na importancia estratégica) o cenário histórico em que essa crise -que não é só local, mas mundial-está atualmente muito mais próxima de uma crise de mísseis, e portanto é in loco muito mais similar ao “incidente” de Cuba, 61 do que seus posteriores desbobramentos caóticos durante todo o resto da guerra fria.

Através da CIA, o governo estadunidense treinou 1 297 exilados cubanos, a maioria deles baseados em Miami, para destituir o governo de Fidel Castro. Como o planejado apoio da Força Aérea Americana fora vetado pelo presidente Kennedy, temendo envolver o governo dos Estados Unidos de forma institucional e aberta, a operação foi lançada com pouco apoio logístico dos Estados Unidos e acabou fracassando. Castro, temendo uma nova invasão americana, decidiu apoiar a ideia russa de instalar mísseis nucleares no seu país, o que precipitaria em uma nova crise na região, desta vez com proporções bem maiores. -Invasão da Baía dos Porcos — Wikipédia, a enciclopédia livre

Não foi a primeira vez que as “potênciais ocidentais” teriam que engolir um ditador que não conseguiram vencer nem derrubar, nem seria a última vide exemplos mais recentes como Assad. Nem todos terminam como Saddam. Mas não é exatamente outro atoleiro, de mais outra guerra “perdida” ou “vencida”. Nem muito seria uma outra guerra “apenas” pelo controle de recursos estratégicos. Não que esses tenham perdido sua importância, pelo contrário, seu controle vai se tornando cada vez mais fundamental para alimentar as máquinas estatais de guerra. Mas essa disputa, já escalou faz tempo, está em outro estágio, e tem outros interesses ainda mais determinantes.

Um estágio que não está nem no anterior das antigas guerras economicas-comerciais incluso as tercerizadas em territórios alheios, nem muito já em um outro e posterior. Mas ainda num momento crítico e perigoso de transição, compreendido pela resolução dos termos e limites em que as potências se enfrentarão. Resolução de conflitos que nem sempre é pacífica e por vezes descambam para um envolvimento mais direto do que gostariam. Um momento onde nem mesmo a guerra total embora improvável, está completamente fora dos cenários em questão. Muito pelo contrário, está posta sobre mesa como arma de dissuasão por todas potências que tem cacife (não só econômico, mas militar) para continuar pagando para ver até onde os outros player irão pagar para ver. Logo, um cenário não só de incerteza, mas de certeza do conflito, se no final não sobrar apenas um player a não recuar.

Assim, embora a disputa por recursos e riquezas permaneça sobre essa mesa de negociação internacional entre machos armados, esses interesses já não são mais o fator determinante de cada movimento estratégico, nem muito menos a principal razão pela qual nenhum deles ainda saiu dessa disputa perigosa. As apostam dobrabam, ou em outros termos a disputa escalou. E já não é mais riqueza ou recursos estratégicos que estão em jogo, mas tomadas de posições estratégicas, no sentido onde a palavra Estratégia faz pleno sentido, o militar. O que está em jogo é o estabelecimento de bases, controle de territórios dentro desse xadrez geopolítico que não é só jogado sobre o mapa mundi, mas o desenha.

Nesta fase atual de disputa geopolítica entre as pontenciais mundiais,(EUA, Russia, China) a tomada de posições busca mais apenas a hegemonia econômica ou comercial , mas literalmente um melhor posicionamento de suas armas e armadas dentro desse jogo de negociação mediado por dissuasão, leia-se ameaças de retaliação, que dependem e muito portanto, não só da certeza que cada em concretizar tais ameaças, mas da certeza que se espera provocar na outra potência alvo da manobra dissuasiva.

Uma estratégia que depende portanto não só da capacidade destrutiva, mas do alcance e velocidade de ação e reação, sem falar é claro da inteligência e espionagem que envolve a detecção e antecipação desses movimentos, algo que hoje envolve a posse e domínio massivo não só sobre tecnologia de lançamento de mísseis e armas de destruição mas satélites, mas sistemas de telecomunicações e produção dos seus componentes eletrônicos. Uma ciber guerra que está pública e flagrantemente em curso há pelo menos 10 anos, desde o vazamento Assange-Snowden e os escandalos das escutas de Obama. Se levarmos em conta ainda os patrioct acts da era Bush Jr. como outro marco da espionagem, é de se supor que há bem mais tempo…

Definitivamente já não estamos mais na antiga fase de guerra econômica-comercial com suas centenas de guerras de fato a se espalhar mundo afora desde o fim da segunda guerra, matando e dividindo não só países, mas povos e territórios, em Norte e Sul e guerras sem fim. Da Coreia, as antigas Indias sob domínio do império britânio, passando pelo próprio Oriente Médio. O desenho das linhas imaginárias que compõe as fronterias geopolíticas desse mapa-mundi, não foi desenhado apenas como um produto dessas ocupações, mas só foi e será mantido enquanto tal pelas forças belicas de fato, forem capazes de manter e defender seus interesses nesse desenho. Não são minas terrestres esquecidas, mas campos minados em plena atividade que sem “manutenção” da “dissuasão” constante das partes, simplesmente podem explodir,e não por acaso são as fontes constantes e recorrentes de instabilidade global da Caximira à faixa de Gaza, passando é claro pelo paralelo 38.

Locais que no menor sinal de instabilidade sísmica da geopolítica internacional podem vir a ser o ponto zero de um conflito de proporções e destruição mundiais. Tão instáveis que mesmo abalos a milhares de quilometros de distância são capazes de afetar o seu frágil e fake estado de paz. Locais onde basta um bater de asas mais forte, mesmo nos confins da América Latina, para que uma tempestade ainda mais forte se inrompa do outro lado do Planeta, que dirá um terremoto. E é de terremotos que estamos falando. Principalmente porque não estamos nos anos 1960. E do ponto de vista militar, se a Venezuela não está mais perto das fronteiras militares americanas do que estava a pequena ilha de Cuba, está ainda sim perto demais. Um raciocínio que como Putin explicou recentemente sem meias-palavras, colocando suas cartas na mesa, vale para todas as potências. E que responde algumas da questões deixadas ainda no ar, no escrito anterior:

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, advertiu nesta quarta-feira (19) aos Estados Unidos que, em caso de desdobramento na Europa de mísseis de médio e curto alcance, Moscou responderá “imediatamente” apontando seu armamento não só a esses países europeus, mas também aos centros “de tomada de decisões”.

“A Rússia será obrigada a fabricar tipos de armamento que podem ser utilizados não só contra os territórios de onde provenha a ameaça direta, mas também contra os territórios onde se encontram os centros de tomada de decisões para o uso dos sistemas de mísseis”, disse.

Putin fez esta afirmação em alusão à recente saída unilateral de Washington do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF) durante seu discurso sobre o estado da nação diante do Parlamento.

“Sabemos como fazer e poremos em prática estes planos assim que essa ameaça se torne real”, afirmou.

O líder russo ressaltou que as medidas serão tanto “simétricas como assimétricas”, já que “alguns dos mísseis” que Washington poderia usar no continente europeu “têm um tempo de voo de 10–12 minutos até Moscou”.

“Esta é uma ameaça muito grande para nós. Isto agravaria radicalmente a situação no âmbito da segurança internacional”, denunciou.

Putin ressaltou que Moscou “não tem intenção, e isto é muito importante, de ser o primeiro a desdobrar tais mísseis na Europa”.

O presidente também garantiu que o Kremlin segue disposto a negociar com os EUA em matéria de desarmamento estratégico, mas disse que “não está disposto a tocar em uma porta que está fechada”.(…) -Putin diz que se EUA desdobrarem mísseis na Europa, responderá imediatamente

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Putin detalhou seu alerta pela primeira vez, dizendo que a Rússia pode enviar mísseis hipersônicos em navios e submarinos que poderiam se aproximar as águas territoriais norte-americanas se Washington decidir enviar armas nucleares de alcance intermediário à Europa.

“(Estamos falando de) veículos navais de lançamento: submarinos ou navios de superfície. E podemos colocá-los, dadas a velocidade e o alcance (de nossos mísseis)… em águas neutras. Ademais eles não são estacionários, eles se movem e eles (norte-americanos) terão que achá-los”, disse Putin, segundo uma transcrição do Kremlin.

“Vocês façam as contas. Mach nove (a velocidade dos mísseis) e mais de mil quilômetros (de alcance)”, acrescentou.

O Departamento de Estado dos EUA minimizou o alerta anterior de Putin, que classificou como propaganda, dizendo que foi pensado para desviar a atenção do que Washington alega serem violações russas do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF).

O pacto, que proíbe os dois lados de posicionarem mísseis terrestres de alcance curto e intermediário na Europa, está agonizando, o que cria a perspectiva de uma nova corrida armamentista entre Washington e Moscou.

Putin disse que não quer uma corrida armamentista com os EUA, mas que não terá escolha senão agir se Washington instalar novos mísseis na Europa, alguns dos quais afirmou serem capazes de atingir Moscou em 10 a 12 minutos. (…) -Putin diz estar pronto para crise como a dos mísseis em Cuba se EUA desejarem

Um discurso que também prova que a tênue linha que separa a dissuação e ameaça, depende mais das suposições e interesses de quem é alvo dessas palavras, para interpretá-los como uma coisa ou outra, do que as verdadeiras intenções de quem emite as mensagens ou sinais, pelos limites naturais intrínsicos da comunicação, a rigor, desconhecidas.

Porém uma coisa está clara, Russia, e por suposição China, não vão recuar da posição estratégica estabelecida na Venezuela, sem um acordo com as contrapartidas. Não vão entregar a cabeça de Maduro, sem que haja uma mudança de disposições num outro teatro de operações, naquele mais próximo do seu quintal. A Europa, que corre novamente o risco de pagar o preço de ser ainda o centro geopolítico do mapa-mundi, e ser o palco principal de um novo fogo-cruzado, agora de proporções e danos que ninguém conhece a real dimensão e extensão, não só porque não estamos mais nos anos 40 do século passado, e cartas na manga como segredos de Estado, mas porque há práticas que embora banidas, permanecem ainda que jamais sejam confessadas por nenhuma das partes. Vide os crimes de guerra e contra a humanidade cometidos parte a parte, e não de todo sem o conhecimento de ambas, na Síria.

De tal modo, que assim como o futuro da Europa depende em certa medida, do que será feito nesta periferia-quintal de uma grande potência, também o futuro do América Latina, depende (e muito) do quanto a Europa consegue se manter sem se tornar quintal nem de uma nem de outra. E mais ainda, as regiões como o Oriente Médio, ou África onde os interesses de evitar a escalada aberta dos conflitos armados não são, digamos, tão grandes quanto nas fronteiras da Russia, mares da China, ou mesmo ao Sul da América, que dirá então em comparação a Europa.

Assim, se não for blefe de Putin, a tendência é que a crise na Venezuela escale ainda mais. E portanto a pergunta agora não é mais o que Russia e China farão, mas sim o que EUA e, em menor medida, o que a Europa fará- supondo é claro que Alemanha e França ainda tenham algum cacife para continuar dando algumas cartas nesse jogo. A pergunta é portanto: quem vai pagar, para ver? Porque nas fronteiras venezuelanas com Colombia e Brasil, a pergunta já não é nem mais quando, e quanto mais onde, porque aqui, já os players já estão pagando para ver.

E quem vai pagar por essa conta, incluso com a vida, não serão os mesmo que a fizeram. E não me refiro só aos governos caudilhos e populistas que participaram dessa aventura, mas a quem , muito antes da crise financeira de 2008, está bancando e apostando alto com vidas humanas para que os outros paguem a deles?

Em suma, não é só a cabeça de Maduro (e sua corte militar), mas a Venezuela, a qual esse parasita interno ora em competição ora simbiose, com os externos se agarrou, não passa nesse momento de moeda de troca numa negociação sobre as cercas embandeiradas que definem os respectivos quintais. E como fica o povo nisso? Ao menos quem pode. Porque aos olhos desses players continuarão a ter exatamente a mesma importância: mera massa de manobra tanto interna quanto para o opinião pública internacional, na guerra de informação por “mentes e corações”, porém com uma diferença significativa para sua vida e a humanidade, na escalada do conflito, valerão cada vez mais mortos do que vivos, seja como escudos humanos, chantagem e munição para armas de propaganda, onde uma imagem de uma criança morta vale mais do que não só ela, mas milhares vivas, especialmente como decoração macabra de palácios onde circularão todos os estatopatas e seus representantes- incluso os que são diretamente responsáveis por esses crimes e com honras devidas ao que oficialmente são chefes de Estados.

Papa inaugura estátua do menino sírio símbolo da crise migratória

Bem-vindo a nova (velha) ordem mundial do século XXI, onde déspostas e tiranias que nunca foram capazes de prover o mínimo vital, não para todos, não sem mais pilhagem, não sem a contrapartida da servidão e o mais importante sem jamais se abster de seus privilégios criminosos feitos da carestia dos excluídos; agora cada dia mais falidos e incapazes de sustentar seus privilégios voltam as suas origens protoestatais primitivas e tem “propostas irrecusáveis” para fazer aos povos e sociedades dentro e fora dos seus territórios.

Eis a nova ordem mundial, e o “segredo da estabilidade” das pequenas e grandes tiranias populistas (incluso as grandes potências): a ameaça e chantagem do exterminio das massas- a começar pelo da sua população- com a arma de todas as formas de privação e carestia em uma mão apontada para sua própria gente e uma bomba na outra apontada para o resto do mundo. A base estatal da política de dissuasão dos estados e máfias contra todos os povos, que tem duas opções: ou se tornam são clientes e “pagam” em tributo o que lhe exigido ou são inimigos de Estado.

Embora, quando o cenário é exclusivamente doméstico, muitas vezes, basta apenas um snipers para manter o campo de concentração em ordem, “trabalhando” mesmo nos momentos de crise do sistema. Afinal só o “trabalha salva”… não a todos, é claro.

Nem todos, não mesmo…

Números de mortes sobe para dois. Rolando García sucumbiu num hospital no Brasil

Mais um morto confirmado após o tiroteio na fronteira entre o Brasil e a Venezuela, diz no Twitter o deputado da Assembleia Nacional Americo De Grazia. Chama-se Rolando García, pertence à comunidade pemón e morreu após dar entrada Hospital de Pacaraima, no Brasil. Há ainda três vítimas em estado grave entre os 12 feridos confirmados. Todos são indígenas[ grifo meu]. -Um morto e 12 feridos em confrontos na fronteira do Brasil com Venezuela

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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