Conexões: Da Matemática da Física à Física da Matemática

Deuses, Loterias e Mercados: A ilusão do Apostador e as esperanças matemáticas

Muito Além do Jardim

PARTE I: O ACASO E OS JOGOS DE AZAR

Coincidências na Mega-Sena

Boa dica. Mas os matemáticos que me perdoem. Será que não falta a eles também um pouco de senso comum para entender porque tanta gente anda tão desconfiada de tudo?

Falta conhecimento da teoria das probabilidades? Pode apostar que falta –e quem dera fosse só a falta de conhecimento das teorias das probabilidades–. Nisto eles estão certos. Não é preciso nenhuma pesquisa estatística para validar essa hipótese. Todavia que tal os matemáticos se perguntarem qual a razão –fora, é claro, a paranoia esquizoide e imbecilização generalizada– para tanta gente, mesmo com a ciência dizendo o contrário, continuar a supor que o sorteio foi fraudado. A razão lógico-matemática, se é que existe alguma.

Já adianto que este escrito não advoga em defesa de nenhuma teoria conspiratória ou acusação de que o sorteio foi uma fraude. Não acredito que tenha sido fraudado. Melhor, não tomo a mera coincidência desses números como prova nem evidência que exista fraude nas loterias brasileiras. O que não quer dizer que eu credulamente pressuponha honestidade nessa indústria de jogos de azar, só porque ela é monopolizada pelo Estado e não por mafiosos de Las Vegas. Muito pelo contrário.

Se considerarmos as estatísticas e aplicadas aos eventos não aleatórios e a probabilidades condicionadas, isto é, as chances onde gente literalmente intervém ou mete a mão nos resultados, a chance de encontrar gato na tuba com uma auditoria independente [e quando digo auditoria independente, não é no nome como a do Senado, mas a realizada por instituição completamente desvinculada a auditada] explicaria muito as crendices e superstições populares, bem como sua falta de fé e suspeitas nas bem ditas autoridades ou narrando pela perceptiva inversa, de credibilidade das mal ditas autoridades frente à opinião pública.

Não é, portanto, de surpreender que a ciência acabe comprometida por osmose e tanta gente prefira acreditar nas teorias conspiratórias mais absurdas. Afinal, rigorosamente falando, assim como não há nenhuma razão científica para pressupor que os dados sejam viciados, também não há nenhuma prova de que eles não o sejam. Muito pelo contrário. Há inclusive estatísticas e probabilidade. Vejamos.

Considerando que:

a. a ilusão do apostador só é válida quando os dados não são viciados e a casa não é desonesta;

b. a caixa econômica federal era [e não sei se ainda é ou de quem é] feudo e boca de figuras do naipe de um Eduardo Cunha; e

c. os dados conhecidos testemunham e compõe uma probabilidade bastante desfavorável à suposição de honestidade da .

Posso afirmar que a divergência entre o senso comum da população e os matemáticos está nas suas pressuposições, ambas sem provas, de que o sistema é honesto ou viciado. Pois, se do ponto de vista jurídico é obrigatório a presunção de honestidade, do ponto de vista científico obrigatório é o ceticismo.

O erro ou tolice, portanto, de quem afirma que foi fraude não está em suspeitar da fraude, até porque é sabido, segundo a própria teoria das probabilidades que, quanto maior o número de resultados coincidentes, maior é a probabilidade do sistema estar viciado e, portanto, mais razoável às suspeitas. Se a gente der uma navalhada de Ockham[1] na questão, veremos que o erro ou a tolice está em supor que foi fraude, levando em consideração a coincidência dessa ou daquela combinação sorteada, quando essa suposição é completamente desnecessária, afinal é sabido que, seja para fraudar quanto roubar, eles sequer precisam se dar trabalho nem chamar tamanha atenção manipulando resultados. Isto é, a probabilidade em favor da suspeita de fraude e corrupção, seja qual for os resultados da loteria continuam a mesma: alta.

Resumindo, segundo os matemáticos a probabilidade de qualquer dezena é a mesma quando os sistemas são honestos, falta agora aplicar a probabilidade condicionada usando os dados conhecidos e calcular:

a. qual a chance do sistema ser ou não honesto? e

b. qual a chance dessa desonestidade estar manipulando os resultados?

Repito, não duvido que essa combinação seja mera coincidência, mas não me peça para colocar a mão no fogo que essa roleta não é viciada, porque tenho menos certeza ainda da honestidade da gestão do sistema. Ademais, se eles são honestos, até que se prove, juridicamente, o contrário ou se existem outros métodos bem mais simples e fáceis para eles roubarem caso não sejam. O fato é que não uma coisa nem outra garante, não com certeza, ou pelo menos razoável probabilidade ou credibilidade que os resultados não são manipulados. Pelo contrário, falta. Falta certeza, credibilidade e sobram dados conhecidos para compor histórico e probabilidades que só depõem contra.

De modo que se há uma coisa no Brasil que demanda uma abordagem menos crédula e mais cética é a da gestão das coisas públicas e estatais [e cá para nós, das corporativas privadas também], cujo domínio não é o das provas nem jurídicas quanto mais científicas, mas sim, o império das dúvidas razoáveis onde, portanto, não é de se surpreender tamanha falta e desconfiança generalizada.

Contudo não é esse o assunto desse escrito. No Brasil atual, isso são obviedades. O que realmente me interessa e que gostaria de compartilhar com o leitor, são outras questões cuja análise acho muito mais promissora do que a da fraude e corrupção. Questão como:

Porque esses eventos causam estranheza? Porque nossas noções e impressões são, segundo a matemática, enganosas? O que é a ilusão do apostador? Ainda, o mais importante: Será mesmo que esses apostadores estão realmente tão enganados assim em suas previsões?

Adianto minha conclusão. Não, não estão, não completamente. Logo adianto que esse texto se resume em explicar quando e principalmente porque, os apostadores estão certos ao seguir seus que apontam para a alternância e distribuição mais igual das probabilidades dos eventos, mesmo em sistemas de apostas de fato honestos, isto é, onde as chances e possibilidades são verdadeiramente aleatórias.

Também adianto, para quem não gosta de cálculos, que não vou recorrer a fórmulas algébricas para desenvolver os argumentos. Ao contrário, eu vou usar traduções didáticas da linguagem matemática para a gramatical, priorizando neste primeiro momento a comunicação dos conceitos que embasam a lógica dessas teorias. Até porque estando a lógica correta, a linguagem que elas são expressas, dificultam a aplicação e verificação das teorias, mas facilita o entendimento e sem afetar sua correção.

Para anto precisamos falar, antes de tudo, da “ ou da que embasa a afirmação do matemático na reportagem:

“O processo não guarda memória do passado. Não adianta pensar que esse número saiu mais”

Embora, a dita ‘ilusão do apostador’ não trate especificamente do padrão da sequência sorteada [ou da estranheza e eventual sorteio da combinação [1–2–3–4–5–6] que ela ou uma qualquer, mas sim da repetição de padrões e eventos [ou como colocou muito bem o matemático, com a reincidência de número e combinação sorteadas, repetida ou a frequência]. A ilusão do apostador fornece uma explicação matemática geral, porque todas essas noções e impressões são consideras sem fundamento pela teoria das probabilidades.

Não explica, portanto, porque acreditamos que [até porque a explicação do porquê de tal impressão a outros campos de estudos], mas explica porque isso é considerado um erro ou uma superstição. Mais precisamente porque do ponto de vista da teoria das probabilidades a chance de um raio cair num mesmo lugar ou em outro, ou de uma dezena que já foi sorteada ser novamente sorteada é exatamente a mesma de qualquer outra a cada sorteio.

Sei que parece um assunto que interessa, desde gente que quer achar uma fórmula mágica ou algoritmo para ganhar na loteria, cassinos ou qualquer tipo de jogo de apostas, como bolsa de valores e outras bancas do capitalismo financeiro mundial, e é. Assim como, também o é do pessoal que desenvolve inteligência artificial, aprendizado de máquina, computação em nuvem, biomedicina, genética e outras áreas que não tenho a menor ideia, mas que se usam a inferência Bayesiana[1] e o Teorema de Bayes[2], que estão a trabalhar com as apostas e ilusões que constituem as projeções e previsões de futuro, baseado no conhecimento do passado ou, mais precisamente, na percepção, memória e processamento de dados epistemológicos que compõem a historicidade das coisas concretas como abstrações lógicas e mentais.

Todavia antes de entrar e falar da fórmula de Bayes vamos olhar para as ilusões dos apostadores.

A falácia do apostador

Mais:

Quer dizer, o erro está em pensar que as ocorrências anteriores alteram as probabilidades das ocorrências posteriores em eventos aleatórios, ou seja, pensar que as chances mudam quando elas permanecem exatamente igual a cada rodada. Porém por que, segundo os matemáticos, as chances continuam sempre meio a meio?

Bayes explica. Bayes e Laplace. Sim Laplace, aquele da famosa historinha herege:

De fato ele não precisou dessa hipótese, mas sua newtoniana carecia de outra[s] bem menos determinista, mas deixemos as heresias de lado, e vamos a essas teorias e a explicação de o porquê da moeda, do dado, da loteria ou da roleta, se não estiver viciada, ter sempre as mesmas chances: meio a meio.

Teorema de Bayes

Para entender o teorema de Bayes precisamos ter em mente duas coisas: as chances dos eventos ocorrerem quando olhamos para eles isoladamente; e como essas chances mudam [ou não] dentro, quando olhamos para uma cadeia de eventos que podem estar relacionados pela similaridade ou verossimilhança dos objetos observados e dos padrões. No primeiro caso temos a , que aqui também vou chamar de absoluta, onde olharmos para o lançamento do cara ou coroa sem considerar os resultados anteriores. No segundo temos a ou relativa. Porém condicionada ou relativa ao quê? Relativa ou relacionada à observação dos resultados passados. Como por exemplo uma cara e uma coroa que só cai na cara 100 vezes seguidas.

Quer dizer, as chances de uma , que não esteja viciada, são sempre meio a meio ou, em outras palavras, quando observadas de forma isolada do histórico dos seus resultados absolutamente iguais. Contudo as chances de observarmos alguém jogar uma moeda honesta 1 milhão de vezes seguidas só dando cara é praticamente zero, mas nunca zero nem que fosse um trilhão. Seria, portanto, um evento extremamente raro e singular, e matematicamente altamente improvável, mas não impossível nem com uma probabilidade matemática tão próxima do zero quanto o Big Bang[1] ou a criação do tempo, espaço e matéria a partir do nada ou o perfeito caos.

Isto é, não importa se as chances são 2 em 1, 1 em 6, 1 em X milhões ou uma em até mesmo um número infinito de possibilidades, se observamos os eventos isoladamente as chances estarão sempre distribuídas de forma igual entre todas as possibilidades. Porém, se observamos os eventos ao longo da sua história, no caso o histórico dos resultados a chance de observarmos, uma determinada ocorrência rara como por exemplo, a reincidência de uma dezena ou combinação delas por vários sorteios consecutivos diminui. Por isso mesmo chamamos a ela de rara, mesmo sendo uma mera coincidência.

Logo, vem a pergunta, um apostador que faz apostas aleatoriamente, ignorando o histórico dos resultados tem as mesmas chances do que aquele que observa raridades das coincidências e joga contra elas? Suponhamos 4 apostadores de cara e coroa que só entrem no jogo e apostem quando por exemplo ocorre uma sequência de 3 caras ou coroas. Que um jogador aposte na continuidade do padrão: , o outro aposte justamente o contrário, na alternância: . Um terceiro jogador aposte sempre o mesmo lado da moeda: . Enfim um quarto que simplesmente escolha aleatoriamente o seu lado da moeda: . Qual, com mais frequência, irá acertar o resultado?

Não é preciso jogar moedas. Price e Bayes já responderam essa questão, ainda que eles ou matemáticos não tenham se dado conta disso [ou tenham, e seja eu que não sabia]. Voltemos ao exemplo da aposta no novo dia, no renascer do Sol. De longe a melhor ou mais certa [para não dizer sã e sadia], já feita pelo homem: a aposta que haverá um amanhã.

A aposta no nascer de um novo dia, uma aposta que fazemos sem sequer perceber, tamanha é a certeza, melhor, certeza não, a completa ausência de privação de dúvida na possibilidade contrária e isto mesmo quando sabemos que ela não é absolutamente certa nem verdadeira. Não para todo mundo e certamente não para sempre nem todo mundo estará amanhã vivo para ver o Sol nascer de novo. Um dia o Sol também irá morrer, assim como na ilusão do apostador de Monte-Carlo, após não uma nem 26 zilhões e zilhões de rodadas caindo no mesmo resultado, uma geração de apostadores também vai perder.

Na verdade embora seja improvável, não é impossível que agora, neste exato instante, o Sol já tenha se apagado –algo que só saberemos daqui algum tempo, mais precisamente 8 minutos, o tempo que essa informação, na forma de luz, demora na sua velocidade para chegar até a Terra–. O fato é que o Sol que nasce todos os dias, há zilhões de anos, antes mesmo de haver dias, anos ou o mundo existir para dar voltas, num dado momento vai se apagar e a aposta mais certa e segura da história do tempo vai falhar.

Mesmo sabendo disto, qual é a sua aposta? O mundo vai acabar? Já acabou e você nem sabe ou simplesmente amanhã, bom ou ruim será mais um outro dia?

Qual é a resposta correta?

A resposta correta, do ponto de vista lógico-matemático, é rigorosamente: Não existe resposta correta, apenas a resposta com mais chances de estar certa. Aliás resposta não, aposta. No caso do Sol, ao contrário da loteria, bota chance alta de acertar nisso –supondo evidentemente que a aposta é no renascer do Sol–.

Se a probabilidade absoluta do Sol nascer é meio a meio, a probabilidade condicionada [a história observada] do Sol nascer em outra manhã é simplesmente tão alta [bota alta nisso] que simplesmente tomamos o seu renascer simplesmente certeza e a hipótese contrária como simplesmente impossível –embora um dia esse padrão vai se desfazer e logo essa lógica vai falhar–. Uma previsão baseada na mera pressuposição. Uma aposta. Contudo uma aposta sobre a qual podemos fazer outra aposta em cima, sem parar para pensar, porque também é uma barbada: quem apostar nela vai acertar.

Melhor dizendo, sem cálculos probabilísticos, pesquisas, estatísticas ou conhecimento da teoria das probabilidades, simplesmente sabemos ou, mais precisamente, acreditamos com certeza praticamente absoluta [pressupomos]: O Sol vai nascer de novo e, por sinal, quando generalizo, ao dizer, , também estou fazendo uma pressuposição do mesmo tipo: intuitiva ou instintivamente heurística[2].

Todavia não se engane. Essa intuição está longe de ser um chute. Mesmo não estando cientes e jamais conscientes disso, o que estamos fazendo ou o que o nosso cérebro está fazendo, mesmo que não nos damos conta, são cálculos de chances baseadas na memória das nossas observações. Não é porque não expressamos com a precisão das qualidades, quantidades e operações da linguagem matemática [números, funções …], mas com qualidades e quantidades e o mais simples da linguagem verbal [substantivos, predicados…], que não estamos exprimindo o resultado de um cálculo mental processado inconscientemente.

É por isso que eu sei qual é a aposta e você sabe a aposta. Eu sei e você sabe qual é a resposta. Esse saber e pensar que se sabe, eles são meras pressuposições. São apostas, mas não chutes, apostas intuitivamente calculadas. Probabilística … instintiva. Cálculos mentais que permitem que junto com o processamento emocional das volições e impressões emocionais façamos nossas predições cotidianas e decidamos se vamos para a direita ou esquerda, se levantamos ou continuamos parados, instantaneamente. Algo não só muito prático e útil, mas capital em situações mais complexas como, por exemplo, dar de cara com um predador selvagem –ou devidamente domesticado–, mas ainda assim convicto em te atacar.

Claro que, nestes casos, não há decisão certa a ser tomada, mas as chances de sobrevivência de quem fugiu ou até mesmo lutou são sempre maiores do que quem sentou para calcular suas chances e ainda maiores se quem sentou e quem correu estavam. Um experimento mental que me leva a apostar ou, se preferir, propor a hipótese que o desenvolvimento de tal habilidade seja produto da seleção natural. Então bendita seja a paz, porque sem ela não teríamos sábios corajosos, mas temerários e indecisos, porém, suficientemente convictos na sua covardia e ignorância para ter alguma chance de sobreviver.

Contudo deixemos a seleção natural de fora e voltemos para os apostadores dos jogos de azar e suas ilusões. Afinal de contas: O que a aposta no nascer do Sol tem a ver com a ilusão dos apostadores na loteria dos jogos de azar?Mas deixemos a seleção natural de fora. E voltemos para os apostadores dos jogos de azar suas ilusões. Afinal de contas, o que a aposta no nascer do Sol tem haver com a ilusão dos apostadores na loteria dos jogos de azar? Porque física é uma coisa, matemática é outra, e o Sol não é uma loteria. Ou como disse Einstein Deus não joga dados.

Ou joga?

PARTE II — DEUS JOGA OU NÃO JOGA DADOS

Deus joga ou não joga dados?

Nehttps://www.umsabadoqualquer.com/

Segundo os mais pessimistas, e humoristas, não só joga dados, mas o que tiver a mão. E na falta de meteoros vai vacas voadoras mesmo. (Vide os quadrinhos ao lado.)

Pois é. Pobre do cara, (e da vaca). Ganhou na loteria da vida as avessas e sem comprar bilhete. Mas, quais são exatamente as chances disso acontecer?

Bem, sinceramente, taí uma coisa que não faço a menor questão de saber. Mas importante seguinte: se antes de cair, as probabilidades eram imponderáveis, passam a ser mensuráveis a partir do momento que o primeiro coitado que morreu por vaca que caiu do céu foi registrado. E por sinal (dos céus) tal azar tende a aumentar se mais mortes fatais por vacas voadoras forem registrada.

Mas em tempos de neomedievais de terras planas e interpretações estritamente literais, é sempre bom esclarecer aos fanáticos com tochas de plantão, que deus jogando dados (ou vacas) do céu é uma metáfora. Embora isso também seja evidentemente uma ironia. Pois no que refere a as figuras de linguagem o problema nunca é de tolerância, mas de (falta de) entendimento mesmo. E eis aqui a primeira lei do conhecimento: sem senso comum (incluso o senso de humor) não há entendimento. O que qualquer humorista sabe e se não sabe aprende rápido: piada não se explica, especialmente para quem não acha engraçado, não quer achar, e tem raiva de quem acha.

O conhecimento é nesta acepção o produto final de um processo de compreensão onde a sensibilidade, o senso e a predisposição ao entendimento são respectivamente matéria-prima, instrumento e método imprescindíveis a tanto a sua produção quanto comunicação. Entendimento portanto que não implica em concordância, mas necessariamente em compreensão até para se discordar com fundamento, seja do que o outra pessoa esteja dizendo ou fazendo, seja para ler escrever e quem sabe mudar como as coisas são ou para onde vão. Uma questão portanto de pressuposição de lógica, e desenvolvimento da leitura e escrita de códigos que traduzam fenômenos concretos em objetos interpretáveis pela linguagem da mente, ou em outras palavras, ideias. Sejam elas figuras, metáforas, teoremas ou paradoxos. E aqui vamos usar e abusar de todos esses recursos para entender dialogicamente até onde vão essas afirmações e contradições, sejam elas cheias de graça ou não.

O bate-papo virtual entre Einstein e Hawking

Deus não joga dados”. Nem é dono de cassino. As teorias das probabilidades e suas leis não se aplicam a esse outro campo do conhecimento que não é um jogo de azar regido pelo acaso, por coincidências, mas sim pela ordem das causas e consequências, as leis físicas do universo. Bem, isto é o que poderia contra-argumentar um objetor mais sério da proposição que a certeza no nascer do Sol não é uma uma jogo, não é uma brincadeira nem uma aposta praticamente certa, mas uma certeza praticamente absoluta, e não tem graça. Ou melhor graça tem, mas não é engraçado: O Sol não é uma loteria, nem a vida ao menos para a maioria de nós é uma roleta nem de Monte Carlo nem russa. Ou pelo menos não deveria ser.

Entretanto entre o deveria ser e não-ser, e como as coisas são e não-são, não há nenhum relação necessária. E talvez ninguém (recentemente) tenha procurado objetar com mais afinco a aleatoriedade ou, o que é quase a mesma coisa, encontrar essa ordem necessária que Albert Einstein. Não só com frases de efeito mas buscando anos a fio provar sua tese que ele próprio considerou seu maior erro (e talvez não tenha sido): a “constante cosmológica”. Mas sobre essa pedra filosofal da física contemporânea falaremos mais a frente. Por enquanto, vamos ficar só nas frases de efeito.

. Disse Einstein.

Ao que Stephen Hawking objetou (em seu dialogo imaginário):

Só faltou completar que ele não existe, mas se existisse pode ser até que não fosse maldoso, mas certamente teria um senso de humor negro infinito… como o deus do cartunista ao lado que definitivamente é brasileiro. Mas é claro que isso seria de novo uma piada, deus brasileiro é um paradoxo, pois capacidade infinita para rir das desgraças, não só dos outros mas as nossas, implica em resignação existencial igualmente sem fim, o que logicamente elimina a possibilidade de se mover para criar qualquer coisa que dirá o mundo… e em 6 dias. Embora pensando bem, se sou um todo-poderoso tipicamente brasileiro e tenho ainda por cima todo o tempo livre do (outro) mundo, para quê então a pressa? Posso pegar alguém, escravizar, amarrar a um piano e esperar que mais hora menos ele componha uma sinfonia para mim, afinal ele vai estar preso lá para sempre; enquanto isso… vou jogando paciência enquanto espero para poder jogar dados, (ou vacas na cabeça dos outros). Sem problemas. Porque afinal, mesmo que meu bom humor não seja infinito, minha resignação é eterna.

E enquanto o brasileiro espera o futuro chegar com esperanças matemáticas ainda menores do que uma vaca cair na sua cabeça, ou um meteoro cair na Praça dos Três Poderes em Brasília. Voltemos para a guerra pop entre os deuses de Einstein e Hawking, mas agora mais atentos para as é figura de linguagens na retórica de cada um.

Não se deixe enganar pelas metáforas: nem Einstein acredita no deus teológico, nem Hawking é um niilista cosmológico. No fundo, o credo de ambos é o mesmo, a ciência, a existência de uma ordem que pode ser conhecida e explicada pela razão. As dúvidas discordâncias não estão sobre a existência de uma ordem natural no Universo, mas no grau de certeza e logo incerteza sobre a possibilidade de conhecimento dela. O que faz de ambos ateus do ponto de vista religioso, mas pessoas de uma fé profunda na ordem do Universo, e no credo da ciência como sua fonte de revelação descobertas quanto das certezas nas pressuposições não demostráveis, os axiomas ou dogmas. E querendo ou não os princípios e finalidades do credo estão mais próximos de Laplace ou no máximo do mártir da ciência o panteísta Giordano Bruno do que dos crente do deus ex machina antes durante ou depois da criação.

Pode soar estranho se referir a ciência como credo, mas tanto o racionalismo do qual o pensamento e método cientifico se assentam num pressuposto de fé. Fé na existência de uma ordem no universo passível de ser conhecida pela pensamento racional e científico. Mas certamente não mais estranho, aos mais puritanos, que essa mistura de deus, ciência e jogos de azar. Probabilística-metafísica-cosmologia: Uma mistura quase psicodélica. Porém, o problema- digo problema para quem não gosta de misturas as coisas- é que essa mistura está presente justamente na origem histórica tanto da física quanto da matemática como as ciências que hoje conhecemos.

Historicamente falando não é correto dizer que os pensadores que fundaram essas ciências misturavam as coisas, mas sim que as coisas a época que as essas obras seminais foram concebidas não eram pensadas de forma tão separadas e compartimentadas. Porém o fato permanece, . E se a obra seminal da Física Clássica “Principia” de Newton entrega a mistura não só no título mas dentro de toda sua composição. Na probabilística os laços são ainda mais estreitos.

A ciência da sorte: A matemática e o mundo das apostas: de loterias e cassinos ao mercado financeiro, Adam Kucharski

Pois é. E se tem um culpado desse pecado, definitivamente seu nome é Blaise Pascal. Dos gênios da filosofia e ciência ninguém usou (e “abusou”) mais dessa “mistura” que o prodígio precoce Pascal.

Não por acaso além de um dos pais fundadores da matemática probabilística, computação, teoria dos jogos, e precursor também da ciência experimental e estudos do vácuo. Além de diversos escritos religiosos ferozes contra os jesuítas, também geniais em sua literariamente falando. Mas para encurtar a história, morreu jovem e provavelmente doído- ao menos para os padrões científicos ainda vigentes de sanidade- recusando a se tratar e com trechos da bíblia costurados em suas roupas.

E? E daí? Onde é que eu pretendo chegar com essa viagem? Prometo ao leitor que tiver paciência, que isso não é uma digressão inútil. Que ao final dessa volta a resposta as questão apresentadas farão mais sentido assim como aonde pretendo chegar como esses questionamentos.

Então quando o assunto é o combo: deus, acaso, nada e ainda por cima jogando dados, ninguém que já passou sob a face da terra pode falar com mais razão e sensibilidade do que Pascal. Isso se mortos falassem. Felizmente deixou escritos.

Dentre eles o primeiro que nos interessa é não é propriamente uma hipótese cientificamente verificável, mas uma das mais famosas e hereges apostas : a aposta “matemática” que deus existe, ou simplesmente a aposta de Pascal, considerada a fundação da disciplina da teoria dos jogos.

A Aposta de Pascal e a Esperança Matemática

A “Pascalina” a primeira máquina de calcular digital, sim mecânica e digital, inventada em 1642 pelo adolescente Pascal

Sim, Pascal aplicou cálculos lógicos da teoria do valor que ele desenvolveu para fazer sua aposta, ou mais precisamente para efetuar a sua tomada de decisão racional de acreditar em deus. Parece até que ele era um viciado em jogos de azar e não um crente pio.Mas pouco importa o que os cientista dentro ou fora da curva de normalidade acreditam ou deixam de acreditar, o que interessa aqui, é a coerência lógica do argumento que é perfeitamente válido, inclusive para qualquer deus, A ou B, ou o Grande Melão, desde que você suponha que o Grande Melão é uma cara todo-poderoso legal, e não um fanfarrão filho-da-puta, como o Demiurgo de Platão. O problema da aposta de Pascal é portanto símile aos dos inocentes apostadores de Monte Carlo, os jogadores de loteria, ou mesmo dos matemáticos a analisar suas pobres escolhas, ou dos poupadores de poupança de qualquer caixa econômica. Não só a moeda há que ser por predefinição honesta e justa. A casa e o dono também. O problema da aposta de Pascal não é apostar e deus não existir. Mas ele existir e ser um tremendo canalha. Na verdade ele não precisa sequer ser um canalha ele só precisa estar andando e obrando para Pascal. Ou mais irônico ainda, deus não precisa ser um pai ruim, nem relapso, mas somente um pai que ao invés de perfeitamente justo, seja infinitamente amoroso e piedoso. Puro amor. De modo que pouco importasse se Pascal fizesse as piores bobagens e monstruosidades ou se permanece puro e fiel e bondoso, ainda seria seu filho, e seria tratado igualmente com o mesmo amor. Ou talvez deus seja apenas um apostador a jogar uma moeda para cima, e o que der deu. Porque não? Quem diabos poderia impedi-lo, se ele é por definição onipotente?

Ou em outras palavras usando as próprias teoria de Pascal. Não temos uma chance em duas. Não importa qual seja nossa aposta nossa chance sempre será de no 1 mínimo contra tantas hipóteses quantas pudermos aventar e no máximo contra infinitas possibilidades considerando a onipotência da casa, o criador, incluso as que não conseguimos sequer aventar. Se aposta no mistério do que é sagrado fosse apenas um jogar de dados era fácil. Ela está mais para a prática Zen-Budista do Arco-e-Fecha de olhos vendados, há apenas um ponto a acertar e todos os demais para errar, mas com um detalhe não só vemos o alvo, não existe nenhum alvo, ao menos não previamente marcado. Que dirá prêmio.

Isso quer dizer que a aposta na prudência de Pascal está incorreta? Não, mas é como levar um guarda chuva para passear… só que ao invés de um parque para dentro de um buraco negro, supondo que ele seja um buraco de minhoca e que você vai sair em outro lugar do universo. Pode ser que chova do outro lado do buraco de minhoca? Pode… se sobrevivermos… se tiver outro lado… se… e “se” é um universo tão infinito de possibilidades incertas que as chances de acerto de quem vai sair ganhando se levar ou não o guarda-chuva são as mesmas: praticamente zero. Esse é o problema de jogar ou apostar com potências infinitas imaginárias ou não, nossas chances e certezas decaem a zero. E se não decaem a nulidade é porque não estamos lidando com potencias infinitas, nem matemática, nem física, nem metafísicas.

E isso só trabalhando com as incertezas da casa. O que para Pascal é o paraíso para um psicopata convicto é o inferno: Não poder sofrer, causar nem assistir o sofrimento alheio por toda eternidade! Num calculo de custo e beneficio todo o sofrimento infinito que ele terá, sempre será recompensado pelo sofrimento igualmente infinito que irá causar. Fora a boa chance de com todo esse potencial um bom emprego gerencial no além e subir na hierarquia burocrática infernal. De modo que trocando os valores e os desejos mas mantendo-se exatamente as mesmas crenças ideológicas a aposta de Pascal pode levar um indivíduo perverso e pervertido, seguindo exatamente a mesma lógica que em si está correta, a aproveitar o seu tempo de vida para fazer currículo como estagiário do capeta. Um jogo sado-masoquista doentio win-win tanto no mundano como no além.

Entretanto metáforas ironia com a mitologia cristã fora, o fato é que a revolucionária técnica de Pascal-Fermat baseada na pressuposição dos “valores esperados” permitia fazer previsões e consequentemente tomar decisões além da mero superstição, mesmo que baseada nas mesmas. Mais do que isso, tal abordagem lógico-matemática da questão abrira todo um campo de saber fértil para a contestação e logo aperfeiçoamento de outros pensadores. De modo que nada, ou quase nada do que disse até aqui, é novidade, ao menos sabidamente desde 1731 quando Nicolas Bernoulli propôs um paradoxo e seu sobrinho Daniel logo depois em 38 a solução (imperfeita mas solução) para o paradoxo aventado por seu primo. O Paradoxo de São Petersburgo. E adivinha se não vamos ter que jogar a moeda de novo para cima e fazer outra aposta.

O paradoxo de São Petersburgo

Ou: quanto você pagaria a Paulo para comprar o lugar dele no jogo e levar a bolada certa?

Como vimos segundo a teoria do valor esperado de Pascal-Fermat você deveria dar tudo o que têm, porque neste caso o prêmio não só é infinito mas as chances de ganhar a aposta é ad aeternum não meio a meio mas 100 por cento. Onde está então o paradoxo? O paradoxo segundo Bernoulli e outros é que nenhuma minimamente sensata pagaria uma grande quantia para entrar nesse jogo. A pergunta é porque?

Tradução: Bernoulli usou a ideia precursoramente a ideia que o interesse em comprar algo, o valor que alguém dava e estava disposta a dar ou pagar em alguma coisa dependia da utilidade que isso tinha para ele. E essa utilidade não era só subjetiva como relativa. Dependia tanto dos prazer, interesse ou satisfação que essa coisa poderia lhe proporcionar, como quantidades maiores da cada vez maiores dessa coisa diminuam a satisfação obtida e logo o valor que a pessoa dava e portanto estava disposta a pagar ao objeto. Sim, oferta e procura. Por isso para Bernoulli não importa que o valor esperado do prêmio seja infinito, ninguém em sã consciência entrega os passarinhos na mão, nem por todos do mundo voando. E quanto mais passarinhos na mão o cara menos valor ele dá para os que estão voando.

Na verdade Bernoulli não foi o primeiro e único. Nem foi a partir do trabalho dele que a lei “pegou”.

E na verdade o paradoxo permanece. O que Bernoulli explicou é porque as pessoas supostamente sensatas (exceto Pascal) não fazem esse tipo de aposta.

Não fazem?

Depende do deus para que você reza. Se as pessoas não fizessem esse tipo de aposta não haveriam loterias, cassinos, igrejas dizimistas, nem sistema bancário e financeiro. Ou melhor haveria, mas a graça ou a desgraça teria que cair do céu.

Notem que o Paradoxo de Petersburgo é uma versão mundana, da aposta de Pascal, já que o prêmio infinto é recebido na terra e na mesma moeda apostador. Qualquer semelhança com a teologia da prosperidade, ou com a busca da felicidade na riqueza do capitalismo, não é mera coincidência, é puro saber lotérico. Paulo é a casa (o cassino) e vende esperança infinita. Pedro é o fiel otário que dá tudo em troca do tesouro prometido, no céu ou na terra. Embora Pedro tenha todas as chances a seu favor para ganhar desde que tempo e dinheiro suficiente para apostar contra a casa. Se Paulo for realmente um bom pescador de trouxas, ele sabe duas coisas: Uma: o custo para comprar as esperanças de alguém muito rico só não tão altas quanto os ricos de perder tudo se tiver que cobrir as perdas certas. Duas: o que pobre não tem sobrando é tempo nem dinheiro para sustentar as apostas que se distribuídas por um número razoável de miseráveis na somatória dão lucro… e muito lucro. Rigorosamente o bom pescador apostando riqueza e promessas contra a pobreza e esperança dos pobres. A terra prometida de todo e qualquer cassino capitalista: chances virtualmente infinitas contra chances reais praticamente nulas. Alguém sempre ganha, vence na vida, mantendo a ilusão e fidelização dos apostadores. Ganha mas não leva. Eis o segredo do golpe. O prêmio é sempre pago em novas promessas, pagas em novas fichas que podem representar uma promessa de riqueza praticamente infinita, em fichas, dinheiro, que nunca será sacado, nem nos bancos, nem nos cassinos. Pernas serão quebradas. Guerras serão feitas. As contabilidades apagadas. E os jogos recomeçados de novo do zero. E que os mortos resgatem seu tesouro no paraíso.

Há portanto um furo gigantesco na teoria da utilidade marginal decrescente tão fundamental para a lei da oferta e procura. E seu nome é Paulo, o pescador de gente pobre. O peixe grande, a devorar o pequeno, o predador perfeitamente adaptado a esse jogo para reinar como tubarão nos mares do capitais.

Não a lei da utilidade não está errada. É ela que Paulo usa para aliciar Pedr. É inegável que tanto para Pedro quanto para Paulo, no deserto a água pode ser vendida e comprada a preço de ouro. Quando os desejos decaem para as necessidades básicas e fisiológicas, eles se “universalizam”, porém ao contrário do que supõe a teoria marginalista, a utilidade não decai necessariamente igualmente para todos conforme a satisfação dos desejos, necessidades, interesses, anseios, racionais ou irracionais. E Paulo é a prova viva disso. Seu desejo de acumulação não diminui conforme aumenta cada centavo ganho, nem aumenta, permanece o mesmo infinito, ou simplesmente insaciável. Mas o prazer insaciável do pescador de gente suficientemente carente, desesperada e vulnerável para fazer de otário não é só uma questão de quantidades finitas ou infinitas de coisas computáveis e contabilizáveis por semelhança, mas de coleção de conjunto de elementos não só raros e únicos. Não um, nem dois, elementos únicos mas absolutamente todos. Para Paulo não basta ter mais moedas que Pedro, é preciso ter todas as moedas, de Pedro, José, Ana…Na cabeça de aquário dos tubarões “a mulher do vizinho é sempre mais gostosa”. Até porque ela, não é propriamente ela, nem o vizinho é ele, mas meras presas e troféus. Não é só uma questão portanto, de possuir tudo de todos, mas de possuir todos como o absolutamente “tudo seu” para usar ao seu bel prazer, seja ele qual for. E Paulo pode pagar ou gastar fortunas apenas para ter em suas mãos o seu tão desejado objeto de fetiche que pode se tornar sua fixação e compulsão.

Mas Paulo é a exceção a regra, alguém pode objetar. Não. Não é. A utilidade marginal de fato descresse conforme o prazer diminui a cada unidade devorada ou consumida. Mas isso não implica que Paulo está cada vez mais saciado quanto mais acumula riquezas ou mais consome, pelo contrário. A fome permanece e exatamente como um vicio precisa de uma quantidade cada vez maior de bens, (e por vezes de riscos) para lhe proporcionar quantidades de prazer que projetadas a eternidade tendem a zero, exatamente como existência do outro. Felizmente para Paulo e infelizmente para o resto do mundo, seu capital e suas chances aumentam a cada jogada e apostador depenado. Paulo não é um saco sem fundo, é um buraco negro.

Esse jogo não é só um jogo insustentável. É um jogo perdido antes mesmo do lançar dos dados e moedas. Não importa se são honestos ou falsos, se os jogadores não tem capital nem tempo, não tem cacife para bancar suas apostas, não importa que seus ganhos sejam infinitos ou certos. Eles vão morrer depenados antes de verem o tesouro em dinheiro ou terras prometidas, esteja ele guardado no céu ou na bolsa de valores. Não é necessário possuir capitais iguais, mas se o apostador não tiver capital suficiente para bancar suas chances, nem liberdade se livrar das fichas e abandonar o jogo em tempo antes de perder tudo com títulos e promessas vazias não é Pedro, ou quem comprar as chances ou “opções” para usar um termo do mercado de ações, mas sempre Paulo, o dono da casa.

Há ainda outro fator determinante no cálculo instintivo que as pessoas que não ao contrário de Paulo e suas vítimas, isto é aquelas que se comportam de acordo com o previsto com a teoria, temperando sua ambição conforme a aumentam satisfazem seus interesses, não inclui. O tempo. Não constam da equacionamento dessa função de determinação valor, utilidade, prazer para a tomada de decisão esse fator fundamental que não é só psicológico, mas antes disso físico: o tempo. Um capital que se perde a cada instante passa e que joga contra toda expectativa infinitas de qualquer jogador. De modo que o valor-utilidade das coisas materiais mesmo as imperecíveis (como os diamantes) oferecem não varia apenas pela raridade-abundância de suas posses ou facilidade-dificuldade em sua aquisição, mas igualmente pelo expectativa de tempo (de vida) que o apostador tem em usá-lo para a satisfação seja lá do que for.

O que por sinal contribui para o golpe de Paulo, que pode até mesmo vender terrenos no céu, para gente que sabe ou acha que está as portas da morte ou do fim dos tempos. Afinal entre uma palmo de chão que em breve servirei de adubo e um latifúndio no além, novamente a aposta de Pascal volta a fazer sentido. Pela mesma razão inversamente proporcional quem não está tão vulnerável entende com mais facilidade, ou mais precisamente tem chances materiais melhores literalmente de vida para perceber intuitivamente que um capital gigante ou até mesmo virtualmente infinito seja ele um bilhete de loteria, uma ação na bolsa de valores, ou um tesouro eterno no além, não é equivalente ao usufruto do rendimento garantido aqui e agora, ou melhor ainda, regularmente enquanto ele viver. A natureza do bem que a pessoa atribua o valor não importa; seja essa “riqueza”, dinheiro, felicidade, prazer… ou até mesmo a própria promessa de vida eterna, o fato físico e biológico permanece ela não só vai morrer, como está morrendo ,e é em relação não só as incertezas da quantidade de vida que ainda tem nessa e ainda maiores que tem numa outra vida que uma pessoa faz suas escolhas-apostas em cima das das chances que não são escolhas mas dados. De modo que quanto menor forem não só as chances de vida, que não importa quão rica e poderosa a pessoa seja vão decair quanto mais velha vulnerável a doenças a morte ela for, mais as promessas mais improváveis de ganhos infinitos vão se tornar uma aposta mais razoáveis, e prazeres e bens que antes eram tão úteis perderão completamente seu valor para ela.

É a lei da fragilidade e vulnerabilidade onde até os maiores predadores com o tempo viram presas. Mesmo os mais poderosos com complexo de Cronos que tentam eliminar as futuras ameaças e competidores no berço, a lá Herodes, o jogo contra a eternidade é sempre um jogo a longo prazo perdido. E nele o jogador não é depenado ele é desintegrado, vai pro espaço, vira literalmente nada, ou se preferir, o vazio do tabuleiro do universo de outros jogadores.

E novamente muito do que estou contando não é nenhuma novidade. Se é, então está na hora de conhecer o trabalho de outro Daniel, e mais um paradoxo: o de Ellsberg.

Outro Daniel na cova dos Leões

http://resistir.info/eua/ellsberg_dez10.html
https://www.mintpressnews.com/212306-2/212306/

Não só a democracia. Mas a ciência. E num sentido mais amplo todas as formas de conhecimento, enquanto busca da verdade, não importa o quão irracional, incerta, subjetiva e até mesmo incognoscível ela seja. Ou melhor é exatamente isso que importa: a natureza da verdade. Mas deixemos a política de fora, até porque a presença dela em qualquer experimento invalida imediatamente a pressuposição de qualquer moeda honesta.

Entre outras coisas, Ellsberg apontou que não é só a teoria do valor esperado não era tão universal quanto se acreditava, mas também a teoria da utilidade esperada . Mas não só. Ele também indicou que mais do que simplesmente a preferência por ganhos certos ao incertos, a mente humana, em geral, prefere os riscos certos, aos riscos incertos, a denominada Aversão a Ambiguidade ou Incerteza. Entre outras coisas…

Como por exemplo a idiotia teratológica da teoria da intimidação que entre outras pérolas resultou na estratégia de Destruição mútua assegurada, uma teoria dos jogos (de guerra), onde supõe-se que o desenvolvimento crescente de armas de destruição em massa cada vez mais poderosas é fundamental para dissuadir que inimigo potenciais e virtuais ataquem com as suas armas, como medo da retaliação. Estratégia “genial” criada pelos amerikanisches da Rand. Provando que vestidas com as formulações teorias e matemáticas mais elegantes as propostas mais estupidas e repugnantes não se tornam apenas palatáveis, mas celebradas peças de propaganda… do cientivismo.

“The character is an amalgamation of RAND Corporation strategist Herman Kahn, mathematician and Manhattan Projectprincipal John von Neumann, rocket scientist Wernher von Braun (a central figure in Nazi Germany’s rocket development program recruited to the US after the war), and Edward Teller, the “father of the hydrogen bomb” — Dr. Strangelove — Wikipedia

E o pior: uma estratégia virótica que não só sobreviveu latente após a guerra fria como voltou a escalar com toda a carga com Putin e seu Trump. As provas nuas e vivas que nem a aversão a aniquilação, quanto mais as incertezas (incluso as existências) não constituem o senso comum de todo mundo, nem povoam as volições mais inconfessáveis das mente dos estatopatas megalomaníacos que fazem do mundo o seu brinquedo de guerra.

Mas deixemos as taras e os tarados por posse-poder de lado, pois eles são os macacos que apertam os botões e não os macacos amarrados (ou não) que compõe as sinfonias. E nos concentremos naqueles que para o bem o mal criam a ciência e tecnologia que será entregue para os apertadores de botões.

Os jogos de azar dos homens tem pouco mistério. Taras, porretes, rapinagem e um medo sem fim da morte, aí talvez o única motivação minimamente interessante, produtiva e nobre capaz de produzir alguma arte e conhecimento, que faça jus a esse nome. Voltemos portanto a produção e produtores do conhecimento, seus medos, desejos e onde eles levaram a filosofia a ciência e a humanidade. Pois o cagaço da morte, o medo da aniquilação, especialmente em sua forma mais transcendental, a aversão a nulidade a falta de existência e sentido, é uma das maiores fontes de motivação da busca pelo conhecimento e criação e descobertas de padrões significativos onde aparentemente simplesmente não havia nada, senão os pressuposto do e vazio, da coincidência e principalmente do impossível.

Oppenheimer, diretor do Projeto Manhattan e considerado o pai da bomba atômica. Viria posteriormente a pregar desarmamento caindo em desgraça durante a caça as bruxas do macartismo.

PARTE III- QUEM TEM MEDO DO NADA?

O vácuo: Quem tem medo do Nada?

Da Semântica à Física da Matemática (Parte 3)

Os hemisférios de Magdeburgo: e O vácuo absoluto e ultra alto vácuo — Astronoo

O horror ao vácuo

Na essência da polêmica de se nada é por acaso, que praticamente resume a busca do unicórnio da física moderna, a Teoria de Tudo, está a Física do Nada, o estudo do Vazio. E a famosa suposição: A natureza tem horror ao vácuo.

Pascal, o maior apostador da história da ciência e teologia, de novo. Definitivamente, se alguém dedicou sua vida com toda sua fé na razão a resolver o problema anciente formulado posteriormente nas palavras de Einstein: “Nada é por acaso, deus não joga dados” esse cara foi Pascal. Fez do nada, do acaso, e até dos seus credo objetos de estudo da sua razão e prática como experimentação.

Oceanos de Ar

Uma outra leitura desse acidente retorna as vacas voadoras caindo na cabeça das pessoas, e a natureza relativa das probabilidades ordinárias e extraordinárias. Do ponto de vista da ordem estabelecida, isto é de acordo com nossa amostragem espaço-temporal as chances desses eventos ocorrem é ínfima, mas não impossível. Mas considerando o tempo e espaço de toda existência do Universo, e só a conhecida, as probabilidades se invertem, é a vida que se tornam o fenômeno tão altamente improvável e extraordinário que embora não seja impossível, é do ponto do vista das n possibilidades um verdadeiro milagre, ou o desvio padrão efêmero em toda a entropia do sistema. O surpreendente portanto não são as infinitas formas de que como acabar ou como a vida simplesmente não existiria, o extraordinário é justamente como do caos primordial emerge (e se sustem) a ordem altamente rara esse oceano que é um ponto que tende ao zero no meio da imensidão das impossibilidades e vazios capaz de sustentar formas tão complexas e frágeis de vida.

É natural que assim como nos acostumemos com a pressão atmosférica, também percamos a percepção da própria extraordinariedade, efemeridade e vulnerabilidade do fenômeno da existência, mas basta uma mudança de pressão, ou das condições de normalidade, para nos darmos conta que singularidade da vida é uma (im)probabilidade tão mais próxima do zero, do impossível, e da nulidade em relação ao totalidade dos eventos que talvez um buraco negro seja um fenômeno mais frequente e casual no nosso universo. E ainda sim, contra todas as chances, aqui estamos nós, vivendo com toda a nossa certeza cartesiana de que existimos, ao menos enquanto estivermos pensando, na nesse oceano de efemeridade onde tudo flui. Ou expresso em termos atomistas-materialistas d’antes do século XXI: como partículas dentro dessa “termodinâmica dos fluídos”.

Panta Rhei: tudo flui

Mas a dinâmica dessa polêmica é muito mais antiga que o próprio advento da ciência. A questão é muito mais antiga que a própria filosofia ou cosmologia ou pelo menos tão antiga quanto sua origem pré-socrática enquanto busca sobre o principio primordial da natureza, a arché da Phisis.

Parmênides, Heráclito, entre outros já versavam, literalmente, sobre a natureza da natureza e suas propriedades. Entre outros estava Tales de Mileto considerado não só o primeiro filósofo, mas o primeiro especulador financeiro do mundo. Provando que ciência e finanças já trocavam idéias muito antes do do nascimento das ciência ou do capitalismo.

Aristóteles e suas falácias. Tales ficou rico usando seu saber, mas ainda sim a escrava continuou tendo razão, continuo sendo um idiota por andar olhando para cima quando poderia adquirir-lo seguramente parado. Mas despeito (e preconceitos) aristotélicos a parte, um idiota genial. Tales não foi genial por ter sido capaz de fazer fortunas com seus conhecimentos, até porque esses pensadores não compartilhavam desse interesse e valor universal utilitarista moderno. para a contrariedade dos marginalistas clássicos. Mas sim, por ter descoberto, ou melhor sido pioneiro na invenção e acumulação de outro valor, o conhecimento. que contrária essas leis utilitaristas, pois como bem observou Sócrates, sua filia não decai quanto mais se acumula, mas pelo contrário só cresce, dado que quanto mais se conhece, mais se sabe que sabe-se menos, e logo, a utilidade e desejo de acumulação desse bem, o saber, não diminui, mas só aumenta quanto dele se tenha. Ou seja, a filosofia.

De quebra, Tales ainda por cima elegeu a água como a arque da Physis. A água que em termo de “mecânica da fluidez” só perde em propriedades para ter a “termodinâmica de outra substâncias cujas propriedades são ainda mais representativas da fluidez, o fogo, como aliás seu discípulo Heráclito, que também preferia jogos de dados do políticos, usou para dar substância a a arqué do seu oceano existencial: Pantha rhei, tudo flui.

Mas voltemos as profundezas do oceanos de ar de Torricelli-Pascal, a Terra. Coloquemos os pés nos chãos. Mas tão somente por um instante, para poder novamente junto com os lunáticos voltar a historia desses sonhar com o impossível. Sonhar em nadar em oceanos de limonada como o utopistas Charles Fourier, e seus falanstérios, ou como um Leonardo da Vinci, em nadar nesse oceano chegando as camadas mais altas da sua superfície. Ou seja, a própria metáfora da liberdade e utopia: voar.

Nadando em oceanos de ar

Isso não é uma montagem: Santos Dumont e o 14 BIS voando em Paris 1906.

Sim voar. O voo não contrária a lei da gravidade, mas nem tão pouco exatamente por “causa” das leis de newton que um objeto mais pesado que o ar levanta voo, mas mais propriamente “apesar” delas. A mágica para que esse feito não está na força do motor- como prova asas deltas que não só planam mas literalmente velejam usando as correntezas de ar- e sim no desenho das asas. Está na arte de planar, ou mais precisamente ser capaz de boiar nesse oceano de ar. E oceano de ar não é nem de longe uma metáfora, porque não a lei da natureza que explica como os aviões de mantem no ar, através da diferença de pressão que gera uma força embaixo da asa maior que em cima de todo corpo do avião no ar é a principal equação da Mecânica dos Fluídos denominada lei de Bernoulli. E novamente não por acaso descrita, pelo mesmo físico e matemático da teoria dos jogos e decisões Daniel Bernoulli.

Seguindo mais uma vez os passos e linha de estudos experimentais de Pascal com a pressão atmosférica, Bernoulli, traduziu o principio da conservação de energia, a primeira lei da termodinâmica, para as a mecânica dos fluídos através da sua equação. Sua obra publicada em 1738 trazia uma das teses com mais maiores aplicações e implicações até hoje na física (e química), mas especialmente na física molecular e termodinâmica:

A Física das Panelas de Pressão

E não só desenvolveram a teoria cinética dos gases, mas a Física Estatística ou Física Matemática. Um campo da ciência que ajuda a explicar e prever o comportamento (leia-se calcular as probabilidades dos eventos) dos mais diversos fenômenos naturais: desde das chuvas passando pelas pressão nas atmosferas até novamente como o sol nasce e também morre, na partícula de deus, o bóson de Higgs e claro nas loterias.

A Bomba H Solar

O Sol é não é bomba atômica, é uma bomba termonuclear explodindo gradualmente. Uma usina termonuclear. Porém não de fissão (divisão de átomos) de urânio, como as primeiras bombas nucleares e usinas atômicas espalhadas pelo mundo a produzir lixo radioativo, mas de fusão nuclear do hidrogênio, a produzir da reação da união entre átomos energia na forma de luz e calor. Uma fonte praticamente certa de destruição imensa se você estiver perto do epicentro dessa explosão, e possivelmente de vida por um longo tempo se estiver a uma distância razoável, como por exemplo a Terra.

E onde entra os modelos moleculares de Bernoulli, Clausius, Maxwell, Boltzmann e cia nesta história? Entra nas benditas colisões entre as partículas. Colisões com energia para provocar as reações nucleares. ou seja com quantidade de movimento suficientemente rápidos, ou simplesmente energia suficiente para quebrar as forças que mantem as coisas (no caso átomos) configurados exatamente como são, ou melhor, estão.

Como Hans Bethe demonstrou em seu artigo , de 1939, que as partículas com maior chance de produzir essa reação são aquelas aquelas com máxima energia na distribuição de Maxwell-Boltzmann, isto é, as partículas que probabilisticamente possuem as mais altas velocidades dentro desse grande bola incandescente de gás, o Sol para fundir as partículas de nitrogênio e carbono em hélio, liberando fótons ou literalmente esquentando esquentando a coisa brilhar.

A Física Estatística

Pois é a Física Matemática explica.

Mas o que é a Física Matemática?

Será que a Wikipedia explica? Não, não explica, neste caso, ela complica. Mas é uma injustiça afirmar que a física contemporânea é sem pé nem cabeça ou complicada ou hermética demais é porque não filosofia medieval em especial Guilherme de Ockham. A ciência sofre sim do mesmo mal da comunicação dos economistas e mecânicos de beira de estrada, o tecnicismo, ou a dificuldade para traduzir -quando não são charlatismo é claro — o seu saber para a linguagem comum.

Dizer portanto que a linguagem comum não comporta a complexidade de da Física, ou que a mesma coisa, dizer que a Física não se pode traduzir a esse senso, é tanto subestimar o poder da linguagem e seus paradoxos, quanto a capacidade de compreensão comum. E o perigo assim proceder, é como Linus Pauli é deixar de ser mecânico da física para virar um piloto da física, apenas conduzindo as teorias e cálculos como se fosse um carro sem ter a menor ideia do que como a geringonça funciona. Nisto é curioso notar como muitos cientistas praticam a engenharia da sua ciência como os estudantes escolares calculam os quadrados das hipotenusas, senos cossenos e força g, como calculadoras humanas, sem ter a menor ideia do que significam. Claro que quase sempre, e assim esperamos, que sabendo onde e como aplicar os resultados obtidos, mas sem a menor ideia de como e qual é a medida epistemológica dessas formulações com os fenômenos naturais correspondentes. Melhor é falar e entender de física como se fosse metafisica do que ela fosse uma “rebinboca da parafuseta”, porque se essas ideias contraiam o sendo comum, ou melhor os preceitos e paradigmas vigentes, a forma de ver e pré-ver o mundo isto é problema de outro departamento, uma questão de cultura, educação e psicologia.

Na verdade essa distinção se não for complementar é absurda, pois, os signos matemáticos tanto representativos quanto operacionais perdem o sentido, se tornam ideias vazias sem sua conceituação substantiva. O que a nossa linguagem gramatical (analítica-sintática) não foi desenhada para fazer é computar, contabilizar e calcular, ou seja equacionar quantidades, mas para substantivar, qualificar, para formular conceitos e equacionar ideias ela é a ferramenta lógica não só ideal mas o processo produtor de críticas e antes disto critérios imprescindíveis ao pensamento.

Mas afinal de contas o que é a Física Matemática?

A chave para responder essa pergunta, para entende o que a Física Matemática está portanto na sua abordagem que constitui o modelo com o qual esses físicos observam e resolvem os problemas. Na Física Matemática ou mais precisamente Física Estatística como o nome já diz o cientista procede seguindo e aperfeiçoa a abordagem de Bernoulli, combinando o reducionismo da física-molecular newtoniana com a matemática determinista da teoria das probabilidades do velho Laplace. A grosso modo, o cientista pega para observar um fenômeno macro (como a pressão de um gás dentro de um recipiente, por exemplo) e o reduz a um modelo micro molecular-atomístico e aí aplica as os cálculos de probabilidades para fazer resolver seus problemas e fazer suas predições, formulando novos conceitos e inevitavelmente mudando visões de mundo. Ou a mais grosso modo ainda, ele literalmente combina a modelo clássico de visão do mundo como bolinhas (partículas) em movimento com diferentes velocidades dentro de uma matriz do tempo e espaço, com as noções e cálculos de probabilidade para determinar o estado desse sistema complexo composto pelo movimento de sabe-se-lá quantas partículas, qual velocidade em que espaço estão e em que tempo. Ou seja literalmente complica para explicar e fazer previsões mais precisas. Existe um mito que a ciência é feita de proposições simples e elegantes. Não é. A ciência é feita de proposições que funcionam. Não há proposição mais simples e elegante e universal do que explicar . Ela só tem um problema não explica nem serve para nada, exceto talvez para continuar a não explicar coisa nenhuma.

Mas o importante aqui não é o Física Matemática complica e explica, mas o que ela implica. Ao fazer das partículas não mais átomos, mas regiões do espaço-tempo, da mera probabilidade existência, tal concepção abriu o portal para a noção contemporânea das partículas elementares da matéria do espaço e do tempo. E não é toa que debruçados nos trabalhos físicos do século XX iriam conceber tanto a Mecânica Quântica quanto a Relatividade Eisnteniana. Era como se os problemas estivessem pedindo por isso, Tais soluções eram o próximo passo que tal abordagem que imbutia a probabilidade e logo a incerteza na natureza elementar do universo. Afinal quando partículas não estão mais em movimento, não são mais átomos mas sim campos, eles não são por definição mais partículas e sim ondas. Exatamente como os campos de força eletromagnéticos, que na teoria da relatividade se livraram da ideia de éter e passaram não só a existir como entidades e não como fenômenos como também viajar no espaço vazio do cosmo por conta própria sem precisar de nenhum oceano de etér para nadar nele.

Com a Física Matématica os campos probabilísticos das partículas-onda ganharam literalmente existência, mais do que isso passaram a ser o fundamento elementar da matéria.

Em física matemática, o conceito de ensemble, ou ensemble estatístico ou simplesmente conjunto estatístico foi introduzido em mecânica estatística e termodinâmica por J. W. Gibbs em 1902. Trata-se de uma idealização que consiste em considerar um grande número de cópias virtuais do sistema, cada uma representando um estado físico possível em que o sistema pode estar. (…)

Experiência como macro como gases dentro de um recipiente. Mas não o jogar de dados. Porque?

O ensemble estatístico de Gibbs, é fundamental para conseguir explicar e prever o comportamento macro através do visão probabilístico micro, como o de gases dentro de um recipiente. Já o jogar de dados nem tanto, o movimento de particulares elementares nem tanto. Como vimos Einsteins e Bose precisaram introduzir outros cálculos que fazem parte não da Física Matemática Clássica, mas da Quântica. Mas não só outros cálculos. E sim outros conceitos e processos que contribuíram para constituir essa disciplina a Mecânica Quântica. Me refiro em particular a Estocástica que está na raiz da explicação dada por Einstein ao movimento browniano que é essencialmente um processo estocástico.

Mas vamos por partes primeiro uma rápida explicação do que é o tal movimento browniano.

A anima (caótica) das moléculas de Polén

Como vimos Einstein explicaria.

Mas de onde ele tirou essa ideia dos processos estocásticos? E antes disso o que é Estocástica? Aqui a Wikipédia ajuda.

Estocástica: Mais uma vez os mercados financeiros

Talvez o mais famoso método estocástico seja o de Monte Carlo, inspirado no cassino do Cassino onde nasceu as ilusões dos nossos apostadores. Adivinha porque.

Caraio, conexões. Haja voltas, para chegar no mesmo lugar que partimos: Monte Carlo, loterias e mercados, bombas atômicas, Doutores Manhattans e a morte e a vida do brilho da Sol e deus sabe-se lá fazendo o quê, talvez, jogando dados, ou esquentando o inferno como diria Santo Agostinho para graciosos cheios de piadinhas e perguntinhas, reza a lenda. Mas enfim, eis que a questão voltamos ao principio onde o mistério permanece, ou como diria o Pastor Al Green cantando com soul os os improváveis branquelos Bee Gees:

PARTE IV- A FÍSICA DA MATEMÁTICA

As esperanças e ilusões dogma-axiomáticas

E eis que voltamos princípio, a questão original:

O que a aposta no nascer do Sol tem haver com a ilusão dos apostadores na loteria dos jogos de azar? O que a física tem a ver com a teoria matemática das probabilidades.

Não só do ponto de vista epistemológico mas também fenomenológico . Ou em outras palavras a questão é na verdade: o que a teoria da matemática das probabilidades tem a nos mostrar sobre a Physis de todas as coisas.

A ilusão do apostador, que redunda nos diferentes tipos de pensamento supersticioso dos apostadores é a base do raciocínio heurístico que fundamenta o advento de toda e qualquer hipótese, incluso as científicas. Porque o erro do apostador nos eventos improváveis ou praticamente impossíveis está intrinsecamente ligado não só a maior chance de acerto nos eventos mais prováveis ou costumeiros, mas, como a própria descoberta, se existe ou não uma relação de causa e consequência entre eles ou se há meramente coincidências. Pois não importa que o nascer do Sol é a aposta com as chances infinitamente maiores de estar certa do que acertar os números da loteria, no momento que a aposta falha, o erro ou a ilusão é a mesma: supor como impossível ou simplesmente que não vai ocorrer o que poderia acontecer e de fato aconteceu.

A ilusão que induz o apostador ao erro é a mesma que induz o observador ao acerto. Ela é simplesmente a mesma que permite a aquisição do conhecimento, a observação, a memorização e a suposição da existência de padrões que se mantêm, seja como alternância, repetição, ordem predeterminada ou completa aleatoriedade. Mas e o método científico? O que o método científico faz é testar essas proposições ou pressuposições, mas ele não serve para nada, se entre as pressuposições e as hipóteses formuladas não estiverem presente a mais correta para ser validada. Ele, portanto, serve para filtro de verificação de ideias e não como processo de sua composição. Claro que o cientista pode, com o computador, enumerar todas as hipóteses possíveis e testar e até mesmo projetar as causas e consequências de cada uma delas. Todavia a enumeração só funciona em sistemas fechados e finitos como um jogo de xadrez. No jogo do mundo real, aberto e infinito, não só as combinações futuras são igualmente imensuráveis, mas os movimentos passados são simplesmente desconhecidos.

Na verdade essas pressuposições de padrões efetuadas a partir da observação e suposição de existência de casualidades e sincronicidades permite só ao observador-apostador fazer pressuposições corretas ou incorretas, mas também avaliar em comparação com os resultados as possibilidades destes pressupostos estarem mais provavelmente certos ou errados, e aventar outros padrões que eventualmente poderão ter mais chances de acertar dos que ele atualmente toma como certos e válido. Em outras palavras a cada decisão não são só as apostas que estão sob escrutínio do sucesso dos resultados, mas querendo ou não o apostador, a própria pressuposição em que elas estão baseadas. Ou seja de que a moeda é honesta ou não.

Vamos pegar um caso extremo como exemplo. Imagine que a moeda cai no cara, não uma, duas ou dez vezes seguidas, mas 100 vezes seguidas. Isto é matematicamente, ou melhor fisicamente possível? É claro que é. Mas a questão é outra: O que é mais provável? (a) a suposição de que a moeda é honesta? Ou muito pelo contrário, (b) a moeda está viciada ? Ou em outras palavras o qual a pressuposição com maior probabilidade de estar correta? a de que a moeda é honesta ou desonesta? Termos e julgamentos morais fora. O que estamos nos perguntando diante das probabilidades qual evento físico estamos diante das probabilidades matemáticas: estamos a ver uma moeda honesta cair repetida e indefinidamente do mesmo lado, ou simplesmente diante de um moeda viciada?

Embora não exista nenhuma relação de casualidade entre um lançar da moeda e os seguintes, sabe-se também justamente por conta disso, que a cada lança as possibilidades permanecem igualmente as mesmas 50–50. No entanto estatisticamente se por exemplo temos 1 milhão de lances caindo do mesmo lado, os dados da amostragem demostram 100 contra 0. Heuristicamente a probabilidade de estarmos diante de uma moeda viciada é muito maior que o oposto: a mera coincidência. Inclusive esse percepção poderia ser traduzida em razão: medindo experimentalmente os resultados de moedas viciadas com diferentes proporções de resultados, de modo a verificar não só quando um evento honesto pode apresentar a dúvida razoável da sua honestidade, mas em que proporção de vicio, e mais importante quanto lances são necessários para termos uma amostragem de acordo com o universo de possibilidades para fazer tal avaliação.

Embora útil seja quando os resultados de uma loteria ou de qualquer evento aleatório estão sob dúvidas razoáveis de manipulação, intervenção ou predeterminação de forças casuísticas , cabendo investigação científica não é esse o objetivo, nem é essa a proposta desse escrito. Mas sim entender não só qual é exatamente há natureza do fenômeno epistemológico a produzir a ilusão do apostador, mas a natureza do fenômeno físico por trás de tal percepção.

Por isso vamos continuar apostando no senso comum. Segundo ele, qual seria a aposta mais prudente (excluindo, é claro, a opção de não jogar mais)?

  1. Apostar pressupondo na repetição do resultado, seja porque se supõe que o jogo viciado ou supersticiosamente que determinando resultado “está mais quente”.
  2. Ou continuar apostando pressupondo que as chances são aleatoriamente iguais, tendendo a uma distribuição mais ou menos igual dos resultados ao longo prazo?

Quem está raciocinando por dogmas e superstições? O indivíduo que pressupõe que os outros estão errados, porque sendo que o sistema honesto e aleatório os resultados só podem ser coincidências, ainda que a história dos resultados (as estatísticas) indique que o sistema não é provavelmente aleatório nem honesto como ele supõe. Ou o apostador que desconfia da honestidade e aleatoriedade do sistema por causas de improbabilidade das coincidências?

Pois é. Como diria o cara que só precisava de uma alavanca para mover o mundo e morreu estocado por um soldado enquanto ignorava a ordem do soldado porque calculava …, a resposta é eureca! E eureca na cabeça. Pobre do tolo que aposta na desigualdade como mero produto do acaso e não de dados viciados, jogos de cartas marcadas onde quem vence é sempre a casa. No entanto, mais pobre ainda do tolo que acha que as maçãs simplesmente caem sem nenhum padrão. Jamais teria se perguntado se não há uma causa ou razão para essas co-incidências.

A falácia do observador

O erro do apostador consistiria, portanto, em pressupor que existe qualquer relação de causa e consequência entre os resultados anteriores e os que seguirão, ou seja, supor que existe uma razão fenomenológica entre os eventos passados e futuros. Uma questão que pertence ao campo de conhecimento da física e não da matemática. Será que as pessoas não pressupunham que todas as maçãs iriam cair antes de Sir Newton[3] formular a lei da gravidade? Mesmo depois de descoberta essa força da natureza, descrita antropomorficamente a imagem e semelhança das leis, as pessoas passaram a pensar que as maçãs hão de cair por causa da lei da gravidade ou continuaram sabendo que elas caem simplesmente pelo mesmo raciocínio de antes? Em outras palavras, as pessoas acham que as maçãs caem por causa da lei da gravidade, ou literalmente no memorial das amostragem correspondente as suas observações? Mais do que isso, seria possível a descoberta ou formulação da lei da gravidade sem a suposição de correlação entre tais coincidências?

O mesmo raciocínio indutivo que leva as pessoas a acreditar acertadamente na generalização de que todas as coisas simplesmente caem, porque elas nunca viram nada diferente disso, é também o mesmo raciocínio que leva as pessoas a acreditar em generalização baseadas na observação, até descobrir pela experiência contrária que estão erradas. Se Sir Newton não apostasse que, por detrás da repetição dos eventos observados havia uma razão fenomenológica determinando seus resultados contabilizados da obervação, ou seja a estatística, jamais teria uma hipótese a ser testada.

Neste sentido o que o método científico faz pelo conhecimento ao testar uma hipótese é acelerar o caminho do saber com prudência. Pois, ao invés de esperar que eventualmente uma tese encontre os fenômenos que negam ou confirmam sua validade, o cientista reproduzir artificialmente as condições para validação (ou não) que só as experiências podem dar às preconcepções e através da confirmação das predições. Porém, tal validação empírica, como a história da ciência conta, não produz nenhuma certeza absoluta nem definitiva. Porque mesmo que todos os testes experimentais imagináveis ou a observação cotidiana continuem a validar a correção da teoria, tais confirmações não eliminam a probabilidade matemática da ocorrência de um novo evento ou a descoberta de um, até então ignorado, que contradiga a teoria. Que o diga a órbita de Mercúrio em torno do bendito Sol. Entretanto se das leis de Sir Newton tenha vindo a falhar para predizer as órbita de Mercúrio- exatamente como as superstições dos apostadores iludidos- isso não anula as tantas outras vezes que essa forma de ver, explicar e prever o mundo acertou e acerta. Uma predição de resultados, diga-se de passagem, muito mais acertada e bem sucedida que as predições dos apostadores dos jogos de azar, porém ainda sim uma predição que do ponto de vista da matemática não tem diferença de gênero, mas de grau, ou mais precisamente de quantidade de possibilidades, ou seja, probabilidades. Uma aposta com um índice de acerto e precisão muito maior, mas ainda sim uma aposta. E uma aposta que seja tanto no princípio da sua formulação, quanto no final na verificação do seu sucesso está embasada justamente para aquilo que os apostadores estão tentando encontrar nas loterias e roletas: um padrão na reincidência dos resultados, ou o que é a mesma coisa, a hipótese de que “não é mera coincidência”.

O caos

Não pense que ao dizer isso estou a menosprezar o pensamento científico. O que estou fazendo é não subestimar o senso comum. Até porque, ao contrário do que se crê, a valoração de um não é excludente à outra. Não preciso desvalorizar um para valorizar o outro, pelo contrário, ao eliminar essas e desconsiderar tais pressuposições, eu posso compreender melhor o papel do senso comum desde as superstições até a formulação das hipóteses e descobertas científicas e ir além “dobrando as apostas”.

Entender não só a matemática por detrás da física, mas a física por detrás da matemática. E apostar, ou melhor, pressupor sentido, ou ordem no acaso. Formulando, por exemplo, a hipótese de que o acaso não é a mera ausência de padrão e razão, ou mesmo o padrão que se configura na, ou pela, ausência de razões. Mas sim o padrão de ordenação aleatória que emerge naturalmente como comportamento e configuração da matéria como resultado da manifestação (e interação) de uma força elementar do universo, uma propriedade tão inerente e fundamental de toda matéria, quanto a própria gravitação, a entropia.

A entropia, o caos, é uma propriedade inerente de toda a matéria, do universo. E corretamente não é concebida como uma força elementar, e sim a configuração complexa que permanentemente emerge da interação entre as forças elementares constituintes da natureza. Ou seja não é concebida como uma força elementar da física, mas um produto delas. Mas o que a hipótese aqui aventada implica, e depende portanto de possível verificação, é que não só o caos mas a ordem, é produto dessa OUTRA força elementar do universo ainda não descrita como tal mas que é o fator determinante que cujo comportamento experimentamos e observamos nos sistemas onde isolamos os demais fatores como determinantes dos padrões de comportamento ou configuração, como por exemplo, as loterias.

Enfim segundo essa hipótese implica que nenhum padrão ordenado ou aleatório, causal ou não-causal emergiria meramente da interações ou ausência dessas forças, mas sim toda toda matéria e suas propriedades e forças, as leis universais da física derivam dessa ordem-desordem, essa “volução”, assim como o próprio ausência de tudo, seja ele abstraído e percebido como o nada, o vazio, o acaso, desordem, desconhecido ou o próprio impossível, objetos portanto da mesma visão, projeção, cálculo e previsão, a ciência a matemática das probabilidades.

Em escritos anteriores denominei essa força da natureza como Liber, por suas propriedades (não por acaso) semelhantes como aquilo que denominamos por liberdade e livre vontade. Sei que soa estranho, dar uma forma ao que é concebido literalmente como a negação das formas. Mas não mais estranho , como vimos, que a atração entre objetos mateiras separados pelo espaço vazio, o vácuo.

Isso ocorre porque concebemos o acaso como exclusivamente como uma propriedade epistemológica sem diferenciar o fenômeno da sua senso-concepção.

O acaso enquanto conceito é usualmente entendido como sinônimo de coincidências, as ilusões produzidos justamente pela tendência natural da inteligência em supor ou pré-atribuir significado as coisas para produzir ideias com sentido e entendimentos, e é portanto a ideia feita para negar a existência de qualquer relação de causa, razão, ou sentido seja por falta percepção, verificação ou simplesmente pressuposição entre a ideia e a coisa.

A ordem aleatória (em termos matemáticos) ou entrópica (em termos físicos) não deve portanto ser confundida nem com a ideia de ausência ou ilusão de ordem provocada pela meras coincidências, ou mais precisamente não deve ser confundida com a pressuposição de que existem forças não-aleatórias predeterminando o comportamento dos objetos observados ou que tais comportamentos não possuem razão. “Acaso” não quer dizer que o comportamento não possui uma causa, mas isso não significa que ele não possua uma lógica, uma razão, seu padrão não emerge do nada. Pelo contrário até o nada emerge tem lógica tanto pelo qual ele é percebido como tal, quanto emerge de tal forma assim ser concebido. Ou em outras palavras: Acaso não é sinônimo de coincidência, porque causa não é sinônimo de razão.

Fenomenologicamente, o acaso, não é um padrão lógico de configuração ou comportamento da matéria que se constitui da ausência de ordem ou razão; nem muito menos da falta de intervenção de forças, causas e razões de ordem que predeterminem sua configuração. O acaso, e toda complexidade de suas interações são padrão universal resultante da razão autodeterminada da sua ordenação aleatória: o caos primordial . A ordem entrópica que não só um padrão gerador (e destruidor) do universo, mas uma constante cosmológica, atemporal.

Mas o que é é uma razão autodeterminada?

Ordem livres e Forças entrópicas

Em física, é simplesmente uma força elementar do universo. Como por exemplo a gravitação. Quando dizemos que os objetos caem, ou mais amplamente que a matéria se atrai mutuamente por causa da força da gravidade, estamos dizendo duas coisas: 1. que esse comportamento não é coincidência, ele tem uma razão. 2 que essa razão não está em nenhuma força ou causa externa, mas é da natureza, é inerente a esse objeto. E no caso da gravitação a todos os objetos. A gravidade como outras forças consideradas elementares, como por exemplo as forças eletromagnética, não são forças transcendentais que interferem na trajetória e movimento dos objetos, mas propriedades inerentes que produzem o movimento e interação da matéria. Não são portanto propriedades do espaço e do tempo, mas da matéria.

É por isso que se diz corretamente que o espaço é curvado pela gravidade e não é a trajetória dos objetos é curva no espaço. Espaço e tempo são conceitos derivados e determinados pelas propriedades elementares da matéria e não o oposto. De modo que quando se pensa na gravidade como lei a condicionar o comportamento dos objetos a imagem e semelhança que as leis humanas condicionam as forças de vontade dos seres humanos. A lei da gravidade não é uma lei que se impõe contra a natureza, ela é por definição uma lei da natureza. Não emana de fora, mas sim da própria natureza dos seres.

Veja que não estou fazendo nenhuma apologia como o caos. Estou apenas constando que o caos não é a ausência de lei, mas uma lei da natureza, que assim como a gravidade, não se jogar contrária jogando de precipícios, mas lida com ela, aprendendo como voar. Nem apologia, nem conformismo, nem censura, até porque sem reconhecer e saber como funciona a gravidade, não poderíamos construir aparelhos capazes de voar. Renegar esse força da natureza, e tentar estabelecer a ordem a revelia do caos, é como lançar-se do alto de prédio com capa e acreditar que vai sair voando, afinal essa ordem livre não existe e a liberdade como fenômeno e força elementar constituinte do Universo é só uma ilusão, uma mera abstração mental.

Ou seja, forças elementares são por definição as causas de movimento, volições, evoluções e revoluções que não são consequência de outras forças, mas as causas de si mesmas. Os deuses e motores aristotélicos da física como campo do conhecimento. E se a pressuposição de que eles são causas de si mesmos envolve o desconhecimento ou mesmo a praticamente impossível cognição se existem causas geradoras dessas forças. Já o reconhecimento de são são as causas do movimento de todas as coisas geradas isto é um produto da verificação das predições desses movimentos. É por isso que a hipótese de uma força entrópica, assim como a gravitacional e eletromagnética não se comprova pela descoberta das suas fontes geradoras, mas pela verificação do comportamento predito pela teorização. Até porque se por ventura se vier a descobrir a fonte geradora por exemplo da lei da gravidade esta passa a ser por definição a força e ordem elementar da natureza enquanto a força gravidade e a gravitação perdem seu estatus da causa de si mesma, autodeterminante para se tornarem uma função consequente.

O Determinismo no Indeterminismo

Quando portanto falamos que deus não joga dados estamos a discutir tanto o tanto o grau de predeterminação da ordem do universo quanto do nosso grau de conhecimento desses fatores determinantes das causas e consequências. A indeterminação é portanto um objeto do nosso conhecimento e desconhecimento tanto dessas predeterminações das causas quanto do nível de predeterminação de causas, isto é, se ou quanto são predeterminadas.

A teoria do caos, lida com a complexidade de causas e consequências fenomenologicamente todas predeterminadas bem ao gosto de Laplace, mas ainda sim fora do alcance completo da nossa cognição pela complexidade dos eventos frente a limitações cognitivas da nossa capacidades naturais e artificiais de percepção-cognição, ou sejas que não dependente do estágio ou condição atual de conhecimento, aquisição e produção do saber, mas dos limites inerentes da sua produção por seres que não observadores oniscientes mas partes integrantes do universo, ou seja, objetos da observação tentando ser o máximo que podem apenas sujeitos.

Não estamos portanto aqui falando da conhecida Teoria do Caos.

Aqui, não estamos propondo que as causas da indeterminação de todos fenômenos percebidos como caóticos é produto da complexidade do sistema, uma consequência das infinitas possibilidades de interação de fatores predeterminados versus uma possibilidade de conhecimento em espaço-tempo real delimitado, mas sim que o comportamento caótico dos fenômenos de fato gerados por forças entrópicas não é só gerado espontaneamente como todo força elementar mas instantaneamente autodeterminado. Como o matemático disse “o processo não guarda memória”, o seja, sua configuração é definida no exato instante da sua manifestação. É portanto literalmente definido por nenhuma causa, ou o que é a mesma mais precisamente como única ordem que estabelece tal padrão aleatório, o acaso. Assim sendo, mesmo a um ser onisciente, um demiurgo platônico, o universo continuaria um mistério imprevisível, ou mais precisamente, probabilisticamente menos determinístico quanto maior for a propriedade caótica em sua composição.

Logo o acaso é de fato uma propriedade fundamental do universal, segundo tal tese, a mais primordial e fundamental de todas, mas isso não quer dizer que o acaso é desprovido de suas razão determinante. Em outras palavras deus joga sim dados e os joga longe do alcance da nossos olhos, mas o saber da constância desse comportamento aleatória, não torna a previsão do comportamento do universo insondável, pelo contrário, o saber das suas constante indeterminista torna as previsões probabilísticas que levem em consideração essa constante da inconstância mais corretas e precisas. Pois de tal tese não for uma fantasia, a ordem caótica no final das contas, em amostragens suficientemente representativas do espaço e do tempo, tendem a a apresentar um padrão.

A constante da inconstância, ou o que é a mesma coisa da variação sob nenhuma ordem ou razão restabelecida, evidentemente não pode ser diretamente deduzida da pressuposição de ordem, mas pode ser logicamente deduzida da pressuposição da sua ausência, ou seja a pressuposição de desordem. Deduzida a partir da suposição de que a ordem conhecida e estabelecida está sempre na eminencia de se desfazer, assim como da absoluta desordem a possibilidade de emergência de um configuração ordenada pode emergir espontânea. E o mais importante tal nível de desordem do sistema pode ser relativamente calculada e prevista de acordo com tanto com a ordenação possível e projetada quanto a estabelecidas e configuradas. Ou seja se o sistema não possui memória, ele não pode se comportar como se tivesse uma. Se o sistema não possui causas para produzir ordenadas num tempo infinito ele não só irá apresentar todas as configurações ordenadas possíveis, como não poderá manter somente a elas. Pelo contrário, não é necessário um tempo infinito, mas tão somente uma amostragem de tempo suficiente para empiricamente sabermos se o sistema é regido por causas e consequências, é predeterminado, ou se é indeterminado regido por padrões aleatórios que apresentam a configuração especifica da ordem aleatória. Ou seja, se o jogo é de cartas marcadas ou se é de fato uma loteria justa.

Mas qual configuração seria essa que caracteriza o comportamento dessa liber elementar da natureza? Qual é o padrão de ordenação que caracteriza a onipresença dessa ordem entrópica universal?

A constante universal e o Universo em expansão

Tomemos uma sistema finito e fechado e regido predominantemente entropia uma panela de pressão, por exemplo. Qual é a probabilidade de todas as moléculas sincronizada se concentrarem ou mesmo atingirem espontaneamente um único ponto como se estivessem organizadas?

Supondo que a panela jamais perderia pressão nem explodisse, se pudêssemos mapear a história da trajetória de cada molécula numa matriz espaço tempo, durante um tempo infinito a distribuição e variação das moléculas em cada posição tenderia sempre ao absolutamente igual. Não há uma ordem determinando cada trajetória de cada partícula a cada instante, mas há uma ordem determinando o padrão do conjunto das moléculas que tende literalmente a ocupar igualmente todo o espaço, quanto maior for a amostragem de tempo. Se não houvesse, não haveria razão para que as moléculas não apresentassem determinados padrões ordenados constantes em diferentes sistemas não importa o tempo de observação, mesmo que infinito fosse.

Se não houvesse tal força e ordem entrópica universal diferentes sistemas fechados apresentariam de fato o que se supõe como comportamento completamente desprovido de qualquer razão, ou logos. Se assim fossse, uma loteria poderia simplesmente cair sempre no mesmo número, e isso não seria um fato extraordinário, mas normal. Isso porque infinitos sistemas aleatórios apresentariam espontaneamente infinitos possibilidades de padrões lógicos de ordenação aleatória e não um mesmo padrão, a saber, o caótico, isto é justamente o padrão que tende a variar as a realização das combinações de forma absoluta igual em termo de probabilidade instantânea em relação as possibilidades de ordenação, um fenômeno que é percebido e pode ser deduzido semioticamente como padrão que justamente demanda a ausência de ordem preestabelecida.

Interessante notar que em espaços abertos, gigantescos e potencialmente infinitos em relação a matéria existente, o padrão desse sistema seria justamente o observado ao nosso Universo, a expansão. Dado que num espaço-tempo infinito a matéria tenderá entropicamente sempre a distribuir igualmente por todo essa matriz. Ou seja tenderá a expansão. Isso não quer dizer que não houve Big-Bang, nem que não exista a tal “matéria ou energia escura”, mas que com ou sem esse evento e elementos, o universo ainda apresentaria o comportamento observado, se expandiria por conta dessa propriedade, ou melhor força elementar inerente que compõe (e decompõe) toda matéria.

A física da matemática

Aplicamos a matemática para produzir os cálculos da física, mas muitas vezes nos esquecemos de aplicar a física para produzir os cálculos matemáticos. Quando tanto a física quanto a matemática, antes de serem representações simbólicas do saber e campos distintos do conhecimento, são fenômenos da physis[4] e seu logos. Fenômenos epistemológicos produzidos tanto por esse mundo e seus padrões quanto pela observação deles enquanto conceitos físicos, matemáticos, filosóficos ou de qualquer outra categoria abstrata do pensamento, que represente o conhecimento do que tomamos por concretude e realidade do mundo e das coisas e suas relações.

Quando Newton, por exemplo, formula a lei da gravidade, o que está fazendo é descobrir a razão fenomenológica por detrás de eventos computados instintivamente como um padrão matemático intuitivo. Mais precisamente, construindo um modelo que fundamente os padrões observados e contabilizados de ocorrência de um evento. Porém a sua lei universal da física como qualquer outra lei universal da natureza não só tem jurisdição limitada por mais extensa que seja sua validade no tempo e espaço do conjunto universo observado, como também tem brechas e furos, como toda lei humana artificial, mesmo quando essas brechas e furos não são a intenção de um legislador desonesto.

As leis da física não fogem às leis matemáticas da probabilidade. Se existe a possibilidade incondicional de uma lei falhar submetida há um tempo e espaço infinito, a probabilidade dela eventualmente falhar ou estar falhando, agora mesmo, se inverte tornando a possibilidade da existência dessa singularidade praticamente infinita, ou seja, a certeza.

Pensar na infabilidade das leis científicas como se fosse uma infabilidade papal é produto dos mesmos erros aplicados a diferentes campos do pensamento que tem por objeto não diferentes universos, mas o mesmo. Fenomenologicamente não existem fronteiras, campos nem territórios do pensamento e saber, não entre os objetos do saber e dos credos. Se na ciência e na religião essas divisões abstratas entre territórios do ver e saber é produto de um tratado de paz entre a autoridade sobre seus respectivos domínios, sobre mentes e corações. Na matemática e na física a divisão e disputa não chega a tanto e tem suas aplicações, mas não deixa de ser política, também não deixa de ser mero produto de uma cultura do saber que imita e replica, inconscientemente ou não, os hábitos e costumes antropológicos na sua estruturação compartimentalizada dos seus campos e domínios.

Ora, então não seja por isso. Não percamos tempo em desatar o que não é feito para ser desatado. Vamos mandar às favas, as divisões e fronteiras sobre o abstrato e concreto, e sobre o físico e o metafísico. Esqueça a e pegue logo a espada de Alexandre e vamos cortar esse nó górdio e entender os conceptos mentais em sua concretude em toda a sua abstração mental.

A lei das probabilidades está abrindo mais do que portas para a ciência da incerteza, está abrindo as portas para a ciência do impossível. Ela não tem implicações cognitivas não apenas epistemológicas, mas fenomenológicas. Ao afirmar matematicamente que não existe possibilidade absolutamente certa, logicamente a lei também está afirmando que não existe impossibilidade absolutamente certa ou, o que é a mesma coisa, que não existe o impossível. A mera incerteza da possibilidade fenomenologia de um evento elimina, ao menos do ponto de vista científico, a correção com que se aplica o conceito impossível. Saber que se aplicado à física implica que o impossível concebido como concretude ou, mais precisamente, o vazio não passa de um campo abstrato de probabilidades momentâneas praticamente nulas, mas também praticamente certas numa somatória infinita desses momentos, mas pode chamar pelo nome popular, eternidade.

A física da matemática trata, portanto, deste campo relegado à transcendentalidade, o campo do impossível, erroneamente confundido com o campo do incognoscível. Parece lidar com abstrações sem correspondência fenomenológica, quando, na verdade, está estudando a lógica dos fenômenos invisíveis, altamente improváveis e tido como impossíveis, no limite do horizonte de eventos do buraco negro do cognoscível, mas ainda, não dentro dele.

O vazio, a ausência de substância ou matéria, seja como ausência de padrão ou ordem, o vácuo e o caos não são uma caixa fechada sem sentido. Os conceptos inexistências fazem referência aos fenômenos concebidos por negação aos senso inteligidos, porque os que incognoscíveis, esses por óbvio e definição, passam batido, não são nem deixam de ser, aos nossos olhos, sendo ou não.

As probabilidades não funcionam quando aplicadas como teorias e cálculos racionalizados, nem heuristicamente por sorte ou uma feliz coincidência. Essa capacidade de pensamento abstrato se desenvolveu como adaptação à natureza, mas isso não é prova, sim é apenas uma evidência. Uma pista de que o raciocínio matemático probabilístico se fundamenta em observações de leis e forças ainda mais fundamentais e logo mais banais e despercebidas que as que levam as maçãs e outras coisas ao chão.

Sim leis tão universais quanto a gravitação, porém mais difícil ainda de serem descobertas já que não estamos dentro da lei, mas da sua exceção. Não somos a chance certa, mas o impossível que aconteceu. A singularidade. A sequência ordenada em meio aos infinitas combinações e padrões aleatórios. Um ponto ínfimo fora da curva do universo repleto de e , mas pode chamar de entropia[6] e se ela falasse diria: .

Não, a entropia não é só a segunda lei da termodinâmica, mas sim é o padrão de organização do que não possui nenhum padrão ordenado de combinação. Isso não faz da entropia um Deus, Criador do Universo, bastante imprevisível, mas não incognoscível nem completamente indeterminado. Pois não importa se Deus joga dados, e ainda faz suas jogadas longe das nossas vistas. Porque ao fazê-lo e necessariamente fazê-lo, permite que façamos predições sobre elas. Não podemos saber qual ele vai certamente jogar, mas podemos enumerar e apostar em quais ele não poderia jogar sem quebrar a entropia e constituir um padrão ou uma ordem, esse sim bem mais previsível. Em outras palavras, não sabemos nunca com certeza qual será o padrão ou se ele se manterá, mas da mesma forma que apostar com razoável certeza que é possível que ele se mantenha uma vez estabelecido, podemos saber com a mesma razoável certeza que os eventos continuarão a se comportar aleatoriamente dentro de padrão entrópicos enquanto nenhuma ordem se estabelecer com razoável certeza de continuidade.

Isto é, quando os matemáticos fazem cálculos das probabilidades para eventos aleatórios, eles estão fazendo predições baseadas na observação de um princípio fundamental de organização do Universo: a entropia, o caos. Cujo padrão não é ausência fenomenológica de padrão, mas justamente a presença de um determinado padrão de organização que se caracteriza e pode ser rastreado epistemologicamente pela ausência de padrões ordenados. Fisicamente falando, o caos é, portanto, um padrão de organização, caracterizado não pela igual emergência de ordem ou desordem, mas justamente pela alta probabilidade da continuidade de ausência de qualquer padrão ordenado percebido.

Vamos trocar então a metáfora do Deus , para não causar confusão a quem o tenha ao pensamento literal, até porque nem como metáfora ele é político nem mafioso. Vamos lidar com a Entropia com termos e conceitos mais neutros e palatáveis de princípio criador, ou seja, uma lei universal proveniente de uma força elementar do universo. Quando um físico prediz usando a probabilística, a distribuição mais ou menos igual, mas sem nenhuma ordem, que se mantenha ao longo de um tempo infinito das possibilidades de combinação das partículas, dentro de um determinado espaço fechado ou quando um matemático está calculando as possibilidades de uma combinação em uma loteria, sabendo ou não, ambos estão fazendo cálculos em cima da entropia do sistema. Mais precisamente, fazendo cálculos das incertezas dentro dos limites do seu conhecimento, enquanto observador-apostador, dentro do sistema de probabilidades.

Calculando o imponderável

Note que, portanto, se a nossa capacidade de previsão desses fenômenos está fundamentada na proposição negativa de padrões ordenados, isso nada mais é que um método. Não descreve o comportamento dos fenômenos, mas sim efetua a previsão da forma como o evento não vai se comportar de acordo como conseguimos conceber os eventos cognoscíveis, pela sua ordem. Isto é, ao invés de dizer que o fenômeno ou a ordem inexiste ou é impossível, deduzimos seu comportamento a partir do seu comportamento que é não desprovido de lógica nem muito incerta, mas rigorosamente desorganizada. Caótica. Em outras palavras, a ciência do impossível, do altamente improvável, incerto e desorganizado. A ciência de 99,99999999… por cento de tudo que existe transcendente à nossa singular existência: .

Isso tem sérias implicações tanto físicas e matemáticas quanto existenciais. Por exemplo, considerando que o universo não é, não por ser um sistema fechado, tal padrão implica na expansão e esfriamento constante do universo como um todo [como se verifica] e contínuo, e permanente renascimento como singularidade, dentro de cada partícula elementar desse universo morto. Dentro da carcaça de universo frio, em algum momento explode o impossível, um novo universo. Sim, o Universo como o Sol vai eventualmente morrer e outros infinitos provavelmente renascer.

Não importa se o espaço não for infinito, mas fechado pela força da gravidade, ele vai inflacionar, porque o espaço assim como tempo é uma abstração mental derivada dos fenômenos e a distância entre os objetos tendem a crescer infinitamente como campos de probabilidades, por uma simples razão, entropia. Em outras palavras, a distância do espaço físico entre os eventos e objetos, o vazio aparente se expande na exata medida que as probabilidades vão se perfazendo. Não é preciso existir espaço-tempo infinito para se expandir. O espaço e o tempo se forma e tomam forma aparente aos observadores, conforme o campo probabilístico entrópico progride.

Isto é, do ponto de vista do Deus da verdadeira eternidade, o caos, a ordem é apenas uma ínfimo grão de areia no espaço-tempo infinito, um grão de areia, e areia que existe e é absolutamente tudo, não apesar do caos, vazio e incerteza, mas justamente e tão somente por causa dele. Em outras palavras a ordem determinada e preestabelecida é apenas uma das muitas infinitas formas de combinação e organização da existência, que se assim não o fossem, absolutamente livres, não seriam determinadas nem indeterminadas, não ordenadas nem desordenadas, simplesmente não seriam.

Não Deus não joga dado, ele os cria instantemente tão debaixo do nosso nariz que sequer percebemos. Se fosse alguém não seria um dono de cassino, mas um mágico ilusionista. Não sei quanto a você, mas conhecer a ilusão não estraga em nada a mágica, apenas aumenta mais meu respeito pela magia, principalmente quando descubro que no caso o verdadeiro mago não é o cara da cartola, mas o coelho.

… E aí? A ciência como fica nisso tudo? Como testamos essa hipótese?

Parando de tentar acertar na loteria, e começando a tentar não errar. O que, como vimos, para as probabilidades condicionadas não é exatamente a mesma coisa.

Se a hipótese, estiver correta, todos os eventos estão conexos, por um mesmo padrão onde a ordem e a desordem são apenas diferentes estados de maior entropia, compreendidos em duas diferentes abstrações mentais de relação e organização: a aleatória e a causal. Usando nossa percepção da realidade podemos então fazer, o que por sinal já fazemos, pressupor ordem e desordem em todos os padrões aleatoriamente ou ordenadamente enumerados para análise. Não importa. As combinações ordenadas verificadas deverão se desfazer e não se manter, do contrário ou a ordem emergiu e se manteve do nada, do caos … … ou , você descobriu como uma matemático esquizofrênico que o sistema não era tão honesto e aleatório quanto propagandeavam, o que é mais provável e elementar, meu caro .

Na verdade é possível fazer mais se você tiver um supercomputador, ou um tempo livre infinito de vida para desperdiçar. Você pode efetuar essas combinações para todos os eventos e análises de combinações que for capaz de aventar com base nos dados. O resultado dessa combinação dará um campo de combinações possíveis por exclusão das improváveis. Contudo isso seria uma mera ampliação computacional da estratégia de quem não aposta nos mesmos números que cariam no último sorteio da loteria.

Se a hipótese estiver correta, um supercomputador poderia simular um inteligência artificial completamente esquizofrênica a projetar infinitos sorteios paralelos cujos conjuntos resultados que não vão cair cruzados, também não podem probabilisticamente formar nenhum padrão coincidente. Reduzindo o universo dos resultados entropicamente mais prováveis por interferência da predição dos observador e apostador. Todavia qual é a relação de causa e efeito entre o sorteio real e os paralelos? Nenhuma [fora a própria distribuição entrópica] e por isso mesmo a probabilidade das análises entrarem e convergirem ou entrarem é praticamente nula. Então o cruzamento destas análises conseguiria predizer o resultado da loteria por eliminação dos improváveis? Não. Fatalmente eliminaria a combinação a ser sorteada quanto mais coincidências buscasse, porque inevitavelmente as encontraria. Afinal quem procura acha. Contudo entre o erro, a totalidade das combinações possíveis e a computação por acerto e erro, também acabaria encontrando eventualmente a razão da probabilidade de acerto para cada diferentes conjunto de possíveis combinações condicionadas a essas analises aleatórias. Algo que não se presta a ganhar na loteria, mas pode ser útil a outras aplicações bem menos fúteis do que jogos de azar.

Conclusões

Há portanto a ilusão dos apostadores e a falácia dos deterministas. A primeira erra quando aposta que a variação e aleatoriedade dos padrões não é aposta de curto prazo, mas a longo prazo na entropia do sistema. A segunda erra ainda mais ao ignorar justamente a validade e fundamento dessa aposta, erra ao negar e renegar que a entropia está presente como padrão matemático não só de certeza-incerteza, mas de organização-desorganização de todas as coisas do universo, inclusive o que conceituado como nada e impossível.

Não só a física está fundamentalmente em abstrações conceituais da matemática, mas as abstrações conceituais da matemática, assim como a física estão fundamentalmente em fenômenos da física. A probabilística é o campo da lógica-matemática que calcula os efeitos da força elementar, livre e criativa, que constitui a entropia. O comportamento de sistemas aparentemente desordenados ou simplesmente livres no qual todos os eventos estão inseridos, ou seja, a constante cosmológica do Universo, entrópica, incerta, indeterminada e incognoscível, mas não completamente, na exata medida que probabilisticamente não pode ser, no mais das vezes, por definição, certa e ordenada nem determinada e logo rastreada em seu padrão fenomenológico como o Tao[8], pela rastro da sua ausência, suas pegadas.

Define-se a ilusão do apostador como a crença que algumas pessoas desenvolvem de que se um determinado evento ocorre, a probabilidade dele ocorrer diminui em relação as outras possibilidades ou, como diz o ditado popular, , pelo menos a chance dele cair é no mínimo menor. Embora diga-se que não só os apostadores de jogos de azar, mas geralmente pessoas inteligentes tendem a desenvolver esta crença ou mania não há nenhum conhecimento científico que embase essa percepção.

A separação da matemática e da física útil para a produção do conhecimento, pode levar o matemático a filosofar matematicamente e esquizofrenicamente sobre a existência da sua não existência ou procurar abstrair conexos em eventos completamente desconexos. É até possível que os encontre, mas é como a doença descoberta num hipocondríaco, que faz todos os tipos de exames desnecessários, um achado clínico.

A matemática não é composta só de operações e operadores lógico-mentais, mas simbólicos, abstratos de eventos e padrões fenomenológicos. A matemática aplicada aos fenômenos da física, não é só uma ciência que embasa a física como campo do conhecimento, mas é embasada pelo conhecimento da física como percepção do mundo físico, antes mesmo deles se configurarem como conhecimento abstrato e compartimentado tanto do campo da física quanto da matemática. Melhor, percepção não, percepto físico- -matemático intuitivo, principio cognitivo constituinte tanto da lógica do cérebro dotado dessas capacidades de fazer observações quanto da própria lógica das observações.

A ilusão do apostador mais do que uma aposta é uma observação intuitiva, um algoritmo heurístico simples que pode tanto redundar em credos e superstições ou conhecimentos razoavelmente fundamentados não pela natureza deste raciocínio baseado em pressuposições que é a mesma, mas pelo tratamento dado posteriormente a essas impressões. Do ponto de vista da ciência somos todos observadores, mas apostadores. Mais precisamente apostadores que fazem suas apostas com base em nosso acesso a informação, aos eventos passados e aos fatos, cuja probabilidade de certeza e validade enquanto dados informacionais.

As probabilidades condicionadas a historicidades de eventos, pressupostamente correlacionados por generalizações baseadas em semelhanças perceptíveis, pode tanto levar a superstições completamente inúteis com baixos índices de acerto, inclusive em situações consideradas normais, mas também pode levar a pensamentos supersticiosos que funcionam razoavelmente bem, desde que eventos extremamente raros continuem sendo o que são, raros. Da mesma forma, a consciência tanto acerca deste procedimento mental quanto da natureza da ocorrência dos fenômenos nos permite saber que: [i] não só as certezas mais razoáveis também vão falhar em situações de excepcionalidade, [ii] as previsões mais razoadas também podem falhar mesmo em situações de aparente normalidade.

Um grau de incerteza que não diminui a segurança do sistema de conhecimento, mas aumenta inclusive em consideração à segurança e amplitude da capacidade de previsão. Porque o erro e o perigo não está em não saber, mas na forma como representamos nosso saberes e ignorâncias, quase sempre de forma apartadas, quando eles são rigorosamente um mesmo complexo de probabilidade. Na verdade, o erro mais perigoso não está em representar como certo aquilo que não se sabe ou absolutamente como certo aquilo que nunca é, mas se esquecer que tais representações absolutas, rigorosamente não deixam de ser predições instantâneas do presente-futuro, como e sobre o que é uma probabilidade maior ou menor de uma incógnita mais ou menos conhecida, a qual chamamos de toda a realidade, mas que não passa do horizonte de eventos da nossa cognição sobre o mundo dos fenômenos.

Todavia não se preocupe em tentar processar isso, sua mente já faz isso por você. O desconhecido já provoca as sensações basilares que irão nortear a curiosidade e a produção do saber. Não é preciso ter medo do conhecimento. Porém é preciso não perder o senso de respeito sagrado pelo mistério, algo que nem mesmo os cientistas mais ateus ou panteístas perderam, ao menos não os gênios. Não há estado cognitivo mais morto, imbecil e improdutivo do que o estado de espírito da mente que acha que sabe. O mistério, essa busca constante de sentido no absoluto vazio não move só a ciência, a filosofia, ou a religião, ela move o pensamento.

Liberdade

Porém das hipóteses aqui apresentadas a principal é a de que a ilusão do apostador não é uma ilusão, mas uma forma rudimentar e intuitiva de aplicação simples dos mesmos princípios de ordem entrópica ou aleatoriedade observada da mecânica quântica a problemas cotidianos.

Físicos e teóricos como Stephen Hawking[9] dedicaram sua vida na busca da teoria do Tudo, isto é, um acrônimo para a unificação das duas grandes teorias a da física atualmente vigentes à da relatividade de Einstein, que explica em termos simples o mundo das dimensões extremamente grandes ou cosmológicas e o mundo das dimensões extremamente pequenas ou atômicas, a mecânica quântica. Talvez, essa é a hipótese que aqui levanto, a resposta sempre esteve aqui, no mundo das coisas comuns e observações [e apostas] ordinárias, integradas pela física por detrás da matemática aplicada nos três planos: no grande, no pequeno e no comum: a ordem entrópica, o fenômeno que fundamenta o conhecimento matemático das probabilidades. A fenomenologia por detrás da epistemologia.

Não é, portanto, por acaso que a probabilística parece possuir infinitas aplicações à física. A ciência matemática das probabilidades parece possuir infinitas aplicações ao conhecimento da física porque a base epistemológica desse conhecimento, ou seja, os fenômenos ao qual ela faz correspondência, ainda de forma inconsciente, representam não a ausência de ordem como se supõe, mas o caos ou entropia como constante cosmológica do universo.

Não que a entropia seja propriamente uma força elementar, mas sim a ordem resultante dessa força elementar. Pois, querendo ou não a aleatoriedade não deixa de ser uma razão distributiva que segue sua lógica e isso fisicamente não ocorre, como nada ocorre sem a incidência de forças que produzam tal alternância, mutação ou revolução dos padrões inerciais. Tais forças são absolutamente o terror dos deterministas, materialistas e autoritários de plantão, porque elas não são só incertas, imprevisíveis, indetermináveis, mutáveis, aleatórias ou anárquicas, elas são, por definição, aquilo que em política e filosofia chamamos de libertárias. Elas simplesmente não contrariam as pretensões de ordem e padronização, elas criam não gradual mas em saltos e instantaneamente novas ordens e padrões, e possibilidades de combinação-ordenação a partir da própria quantidade de ordem-entrópica do sistema.

Liberdade não como abstração, mas como força elementar, como fenômeno. Mais do que força criadora original, força criativa permanente de novas formas de existência em diferentes esferas e planos de organização. Porém pode chamar pelo nome popular: natureza e vida.

Nisso constitui todo o engano da falácia determinista-materialista, a ordem entrópica é uma abstração, mas a liberdade não. Não é uma mera representação substantiva, relativa e complementar de igualdades e desigualdades entre entes e seres. É a força elementar constituinte do seu próprio estado inerente de entropia da matéria em permanente movimento de evolução e revolução. Não é um padrão correlacional percebido ou preestabelecido, é uma força elementar da Physis.

Por isso é irrelevante onde Deus joga dados, se joga dados não apenas do ponto de vista cosmológico, mas teológico.

Liberdade é uma concepção que não só por definição é a causa de si mesmo, mas o único fenômeno que paradoxalmente se reafirma, persiste e recria da sua própria negação e destruição. Uma propriedade imprescindível e elementar não só ao mais reles e estúpido ou ao mais genial e criativo dos mortais deste mundo, mas também a todo e qualquer ser eterno ou infinitamente poderoso.

Entre as causas e consequências, existem forças naturais e volitivas que transcendem à materialidade manifesta e o fato de não sermos autômatos predestinados, mas seres dotados de livre vontade não subtrai nossa vida de sentido nem joga o universo no caos do mero acaso. A cada tempo e espaço pertencem as forças presentes da sua geração. O futuro pode ser projetado, planejado e até previsto desde que se reconheça a sua natureza, como a própria manifestação intrincada do conhecido e desconhecido. O futuro é previsível na medida justa da consideração do fator determinante da geração de todo presente: a liberdade. Tanto como evolução da sua ordem, por força da sincronicidade[10] quanto da sua revolução pela força da entropia. Em outras palavras, o futuro é imperfeitamente previsível, mas ainda assim probabilisticamente previsível e volitivamente passível de construção e desconstrução à medida que consideramos o passado não como o fator absoluto da sua determinação, mas como o componente da constituição dos fundamentos intrincados da indeterminação evolutiva dos seus ciclos e revoluções.

A ordem do universo não é nem caótica nem predeterminada, nem uma combinação resultante da contraposição dessas forças. A entropia não é sinônimo de caos nem a sincronicidade de predeterminismo. A ordem do universo é livre, indeterminada e criativa, e quanto maior for a liberdade dos agentes dotados de força própria mais de acordo com sua natureza será a sua trajetória no tempo e espaço. De tal modo que, nos sistemas tanto abertos quanto fechados podemos não apenas fazer previsões sobre os possíveis comportamento e trajetórias dos componentes considerados aleatórios, como determinar em que grau eles realmente possuem forças volitivas ou não e até onde são governados por outras forças que predeterminam seu destino. Em outras palavras, nós podemos determinar o grau de liberdade de um sistema, prever as interferências ou mesmo impedimentos à manifestação do potencial criativo ou, até mesmo, tanto verificar a falsificação de sistemas supostamente aleatórios, podemos fazer muito mais do que prever, podemos criar até mesmo da matéria-prima de que compõe todas as coisas, o nada aparente, o praticamente impossível, mas que em verdade não senão uma das muitas faces desse deus-universo: a Liberdade.

Epílogo

Na Física Estatística os físicos e matemáticos estão a tropeçar em forças fundamentais do universo que eles ignoram e tomam como mera solução epistemológica, assim como também por vezes tomam meras abstrações semióticas como se fossem constantes cosmológicas para solucionar problemas matemáticos dos seus estudos e observações da física. Não estou portanto falando de implicações filosóficas, teológicas, politica-econômicas, nem culturais, mas científicas dessa abordagem dos problemas da Física que resultou nesse novo campo de estudo. Cabe aplicar mais uma vez o modelo ao modelo, e verificar o que há de elementar por traz dos campos das probabilidades e seus padrões estocásticos e termodinâmicos matematicamente axiomatizados. É preciso buscar a arché da matemática por traz da física matemática, conceituar a física por traz das teoria das probabilidades.

Nisto se resume basicamente este escrito. Não confunda a Física Matemática com a Física da Matemática, na primeira o principio fundamental da termodinâmica matemática não é um postulado axiomático, mas um fenômeno, um logos produzido por força entropica elementar da natureza constituinte das própria lógica que embasa tanto a teoria das probabilidades, quanto o comportamento correspondente dos fenômenos estocásticos observados como padrão resultante dessa propriedade universal, a Liber, força elementar da natureza e arché da Phisys. Não são as abstrações mentais do saber matemático a construir o logos, mas a força elementar da Liber a construir esse logos essencialmente libertário que compõe tanto o mundo conhecido e desconhecido quanto o pensamento que o conhece ou não. Deus não joga dados, deus não é o jogo. Deus é a liberdade, o tudo-nada, o possível-impossível, o que sempre existiu, sempre se destrói e continua existindo, a liberdade, e ela não é um jogo, ela simplesmente é… é constantes e permanentes; efêmeras e instantâneas, essencialmente paradoxal, seja nos paradoxos concebíveis ou simplesmente na sensação infinita de mistério e descoberta perante o que não se sabe se é cognoscível ou não. Como estado do espírito o mistério e a fé no vontade de conhecer que move a ciência e saber, a liber do saber, como fenômeno o própria principio gerador da existência como constante autocriação, a própria liberdade como força universal da existência como Vontade. Livre Vontade constituinte dos entes e fenômenos. Mas isso já é metafísica. Mas talvez um dia, não mais. Vai saber… os dados estão lançados.

X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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