Complementando…

“Urbanização: mais prédios para humanos… e para ratos também”

Sobre as populações humanas, a estimativa das Nações Unidas aponta que, até 2050, quase 70% das pessoas em todo o mundo viverão em cidades — acima dos atuais 55%.

Mais pessoas e mais prédios nas cidades significam mais comida e abrigo para os ratos, que há milhares de anos têm vivido bem perto dos seres humanos para aproveitar o que deixam para trás.

(…) “Os ratos são um inimigo terrível e precisamos aceitar que é impossível erradicá-los. Matá-los não funciona, porque os que ficam para trás podem se recuperar rapidamente”, explicou à BBC Steve Belmain, professor de ecologia da Universidade de Greenwich, em Londres.(…)

(…) Belmain faz parte de um grupo de pesquisadores que tentam alterar o “discurso militar” na abordagem dos problemas criados pelos ratos.

“O problema que temos com a abordagem da guerra é que estamos simplesmente reagindo ao inimigo em vez de planejarmos proativamente antes de atacar”, diz Michael Parsons, biólogo da Fordham University, em Nova York.

“Não ajuda o fato de sabermos muito mais sobre pandas gigantes do que sobre ratos-castanhos. Existe uma escandalosa falta de pesquisas sobre eles”.

Para ilustrar seu desânimo, Parsons cita uma estatística surpreendente: alguns pesquisadores calcularam que os ratos causaram mais mortes do que todas as guerras combinadas nos últimos mil anos.(…)

A maioria das soluções usadas hoje em dia envolve matar os animais, especialmente por envenenamento. Mas isso cria riscos ambientais e também pode afetar seres humanos e outros animais.

Os cientistas também registraram casos em que ratos desenvolveram imunidade a alguns tipos de substâncias supostamente destinadas a matá-los.

“Quando os animais morrem, o aumento resultante na disponibilidade de alimentos provoca acasalamento acelerado entre os sobreviventes e os recém-chegados — e isso significa aumento das populações”.(…)

Algumas cidades também apostaram no uso de predadores contra infestações de ratos. Washington, por exemplo, colocou “pelotões” de gatos em plena capital americana.

Mas a pesquisa de Parson foi um grande golpe para esse tipo de iniciativa.

No período de cinco meses em que ele e sua equipe monitoraram uma colônia de ratos no Brooklyn, em Nova York, os gatos conseguiram matar apenas dois de uma população estimada de 150 ratos.

“Gatos e ratos são mais propensos a ignorar ou a evitar um ao outro do que se engajar em conflitos diretos, especialmente depois que os ratos atingem um certo tamanho”, explica Gregory Glass, ecologista de doenças da Universidade da Flórida.(…)

Em 2016, a empresa americana Sensetech anunciou ter criado um contraceptivo que poderia tornar as ratas inférteis. Nas palavras da fundadora da empresa, Loretta Mayer, a invenção “mudaria o mundo”.

(…) Mas alguns especialistas são mais céticos na eficácia deste produto.

“Os ratos que não morderem a isca podem na verdade acabar procriando mais, pois haverá menos competição por comida”, disse Peter Banks, especialista da Universidade de Sydney, à revista New Scientist.

“As soluções são mais básicas do que pensamos. Se as autoridades lidarem com questões como armazenamento de lixo e falta de saneamento, isso pode ter efeitos profundos”, diz Steve Belmain.

Com menos comida, os ratos “se voltam para si”, de acordo com Mike Parsons.(…)

Mas, para Jan Zalasiewicz, paleobiologista da Leicester University, se as coisas continuarem como estão, o futuro pode realmente pertencer a ratos.

“Os ratos são um dos melhores exemplos de espécies que ajudamos a espalhar pelo mundo e que se adaptaram com sucesso a muitos dos novos ambientes em que acabaram se encontrando”, disse Zalasiewicz à BBC.

“Eles serão protagonistas do futuro geológico da Terra e podem sobreviver aos humanos.” -Como o aquecimento global pode multiplicar a população de ratos

Ratos?

La falta de higiene y no las ratas habría propagado la peste negra según nueva evidencia publicada por un grupo de científicos de la Universidad de Oslo. La pandemia de peste más devastadora en la historia de la humanidad que afectó a Europa en el siglo XIV matando a un tercio de la población continental puede haberse propagado a través de pulgas y piojos alojados en humanos y no en roedores como se creía hasta ahora: según la teoría histórica serían los parásitos que vivían en los roedores los vectores de propagación de la peste bubónica que alcanzó un punto máximo entre 1346 y 1361.

En el artículo publicado en «PNAS», los científicos noruegos han explicado que usaron modelos matemáticos de los registros de mortalidad para demostrar cómo la plaga se habría propagado en diferentes escenarios y qué encontraron al hacerlo.

La también conocida como «muerte negra» que afectó devastadoramente a Europa, China, India, Medio Oriente y el Norte de África matando entre el treinta y el sesenta por ciento de la población europea fue causada por la bacteria Yersinia pestis, que pudo moverse entre las víctimas a través de varios vectores. Aquel que explica su propagación a través de las pulgas que saltaban de las ratas a sus anfitriones que murieron de la peste ha ido perdiendo credibilidad con los años ya que no explica la rapidez con que se propagó la pandemia. Además, nunca existieron informes de muertes masivas de ratas por la misma enfermedad. Según esta nueva revisión, los investigadores han presentado la nueva teoría que sugiere que pulgas y piojos que vivían en humanos está el origen de la propagación de la bacteria. Por ende, sería la falta de higiene el principal vector de la peste negra.

La variante de la bacteria «Yersinia pestis» que causó la pandemia y que apareció hacia 1320 en el desierto mongol de Gobi dejó los primeros estragos en aquel país: entre 50 y 70 millones de personas murieron en Mongolia; fueron los primeros casos hacia 1328. Los últimos casos alcanzaron la Rusia europea hacia 1353. Pocas veces se dudó tan claramente de la causa de la propagación de la peste negra como la investigación del equipo sueco y su nueva evidencia: los expertos comenzaron acumulando datos de registros de mortalidad. El equipo comenzó acumulando datos de registros de mortalidad con respecto a la propagación de varios brotes que ocurrieron en Europa entre los siglos XIV y XIX (uno de los cuales fue la Peste Negra). Luego crearon un modelo matemático que podría usarse para demostrar cómo se propaga cada uno de los brotes.

Los autores noruegos del estudio publicado en la revista científica PNAS –la publicación oficial de la Academia Nacional de Ciencias de Estados Unidos– fueron Katharine R. Dean, Fabienne Krauer, Lars Walløe, Ole Christian Lingjærde, Barbara Bramanti, Nils Chr. Stenseth y Boris V. Schmid. Los científicos ejecutaron el modelo en tres escenarios diferentes: en el cual el brote se debió a ratas, transmisión aérea o pulgas y piojos humanos. Según los investigadores, el escenario en el que el brote estaba relacionado con pulgas y piojos humanos ofrecía la mejor combinación posible con lo que realmente ocurría. Ninguno de los otros vectores, descubrieron, podría causar que la enfermedad se propague tan rápido como lo hizo. También señalan que las pulgas y los piojos humanos eran muy comunes en las personas durante el período de estudio debido a baños infrecuentes. Esta falta de higiene sería finalmente la causa de muerte de unos 25 millones de europeos en la Edad Media. (…) -No fueron las ratas, la falta de higiene propagó la peste negra

Castelos, Príncipes Encantados e a toda poderosa teocracia medieval

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Até a chegada da medicina moderna, a taxa de mortalidade infantil em todo mundo oscilava entre 20% e 30%, chegando aos 40% em épocas de fome, guerra ou pragas. Estes números mantiveram-se assim até a entrada no século XX em lugares de ordem social tradicional onde a ciência médica demorou a chegar. As causas mais frequentes eram as infecções otorrinolaringológicas, a difteria, o sarampo, a varíola e a rubéola, com ajuda da anemia. Reflita um instante sobre esta cifra: uma de cada cinco crianças nascidas vivas não chegava à adolescência (no melhor dos casos), e normalmente uma de cada três (no pior). Este é um número pior que o pior inferno de uma nação subsaariana presente, aonde ao menos chegam a penicilina e algumas vacinas de vez em quando.

Vamos expressar graficamente para dramatizar a coisa toda: pegue uma folha de papel em branco e escreva uma lista com nomes de dez crianças que conheça. Agora risque dois, ou três, ou até quatro, em um ano. Esse era o risco de natimortos até aproximadamente a segunda metade do século XIX no mundo mais desenvolvido, e meados do XX. A tendência a ter muitos filhos, presente em todas as culturas, é que ao menos uma percentagem deles sobreviveria para cuidar dos pais quando fossem velhos, antes que existissem as aposentadorias dos sistemas de previdência social.

Se alguém conseguisse sobreviver a estas taxas de mortalidade infantil, causadas pela pouca diversidade alimentícia, falta de higiene e assepsia e ausência de antibióticos e vacinas, então era possível que chegasse a viver até os 60 ou 70 anos; inclusive, em alguns casos, até idades mais avançadas. Mas se fosse uma garota, estava redondamente “fodida”: as probabilidades de morrer no parto oscilavam entre 1% e 40%, normalmente de hemorragia, obstrução ou febre puerperal, quando não de aborto caseiro. Isto é, a partir de 12 ou 13 anos, assim que chegava a puberdade, porque isso de começar a se reproduzir com 18 ou mais anos é outra modernice, uma exceção na história humana que teria feito nossos antepassados se mijarem de tanto rir. “Muito passadas”, diriam.

Falando de garotas, o passado foi um péssimo momento para nascer com uma racha entre as pernas. As idílicas sociedades matriarcais sob a tutela da deusa Gaia que pretendem algumas (e alguns) jamais existiram. Nas menos patriarcais e machistas de todas, talvez a mocinha pudesse aspirar ter a mesma educação que seus irmãos varões, mas ademais, parindo filhos. O mais normal é que fosse alguma classe de propriedade dos homens da família, em diferentes graus de submissão. Não há nenhum indício de que as amazonas tenham sido mais do que uma fantasia erótica dos escritores gregos, inspirada em mulheres guerreiras, jamais existiu uma sociedade amazônica.

No entanto se ela sobrevivesse à infância e não morresse na guerra ou da peste ou de uma febre puerperal ou qualquer outro mal, é possível que vivesse um bom punhado de anos. Como viveria é que são elas.

Piolhos, malária, tosse sangrenta e dor de dente.

Ouvimos com frequência que a cárie é uma doença da civilização, vinculada às dietas que assumimos quando inventamos a agricultura e nos sedentarizamos. É verdade que a agricultura e a sedentarização, ainda que tenham dado lugar às civilizações, foram uma ideia muito ruim à época: a expectativa de vida média de 33 anos que tínhamos quando éramos nômades, no Paleolítico Superior, caiu para menos de 30 (25 ou 28 e às vezes 18, como na Idade do Bronze). É inclusive provável que as populações nômades foram submetidas e sedentarizadas a força, como servos ou escravos agrícolas, às mãos dos aspirantes a se converter em donos da plantação, reis e imperadores. Outros acham que o processo foi mais voluntário, trocando uma maior segurança no fornecimento alimentício por um empobrecimento de sua variedade e uma menor expectativa de vida. Seja lá o que for que tenha acontecido, sentar prumo nesses terrenos insanos que chamamos terras férteis piorou a mortalidade e a qualidade de vida de quase todo mundo, até aproximadamente no século XX.

Pese a isso, a cárie não é estritamente uma doença da civilização relacionada com esta menor variedade alimentícia das comunidades sedentarizadas, como a história médica conta muitas vezes. E não o é porque está presente em numerosos crânios recuperados de períodos anteriores, como o Paleolítico; inclusive encontraram dentes do Neandertal cariados. No entanto, sua incidência era muito menor. A cárie, certamente, multiplicou-se e agravou enormemente durante o Neolítico, com a agricultura e a sedentarização.

E o pior é que ninguém sabia como combatê-la, porque para compreender a necessidade da higiene bucal -em realidade, de qualquer classe de higiene- há que compreender primeiro a teoria dos germes. A única possibilidade era arrancar o dente, mas ficar banguela naqueles tempos também não era uma ideia muito boa, de modo que muitas vezes o sujeito aguentava a dor até que deixasse de doer, o que conduzia a infecções maxilares bem mais severas. A história da humanidade é uma história de gente desdentada, com constantes dores de dente e graves abscessos faciais, gente que tinha um hálito vomitável cheirando pior do que um esgoto. Sem analgésicos, nem antibióticos, nem nada parecido à cirurgia dental e buco-maxilo-facial contemporânea.

Nômades ou sedentários, os piolhos acompanham a espécie humana desde que surgimos, e despiolhar-se mutuamente foi uma das atividades familiares e sociais mais correntes até o surgimento dos atuais tratamentos químicos. A família que se despiolhava unida permanecia unida, ou algo assim. O caso é que passamos um bom tempo como refeição de piolhos, ao menos nos lugares com pelos abundantes. Para piorar ainda mais, a invenção da roupa permitiu a evolução e especialização de uma terceira classe destes parasitas, o piolho corporal, que nos come do pescoço aos pés. A diferença dos dois primeiros, incapazes de transmitir alguma doença em particular a mais do que as moléstias cutâneas associadas a sua presença (coceira, irritação, com consequência da insônia e debilidade), este último é um vetor conhecido do tifo, a febre das trincheiras e a borreliose. As peles e roupas resultaram ser um grande avanço para as… epidemias.

Outra consequência perversa da sedentarização foi o surgimento da tuberculose, neste caso graças a um bacilo frequente no gado. Provavelmente trate-se da primeira doença de que tivemos consciência como um estado específico: no Egito já existiam hospitais especializados em seu tratamento lá por 1.500 a.C. Com duvidoso sucesso, pois parece que tanto o faraó Akenatón como sua esposa Nefertiti morreram por causa da tuberculose. Agora dá uma garibada na situação: se imperadores considerados como deuses morriam assim, imagine então o que acontecia com o povão.

Na Índia, os brâmanes proibiram terminantemente o casamento com mulheres cuja família tivesse um histórico de tuberculose, o que também não resultava muito eficaz. Na Europa, o tratamento mais avançado consistia em uma imposição das mãos do rei, uma REIkianagem com um resultado que todos podemos supor. Paracelso, em outra de suas pirações -o mérito de Paracelso não está no que criou, senão no que destruiu: as fraudes ainda maiores de seu antepassado Galeno, o das sangrias-, achava que a tuberculose era devida a algum órgão incapaz de cumprir adequadamente suas funções alquímicas, nem mais nem menos. Durante o século XIX, a chamada Peste Branca comia as jovenzinhas e não poucos jovenzinhos e nem tão jovenzinhos aos milhões, dando lugar a um dos temas mais característicos do Romantismo. Aleluia que chegou Robert Koch para dizer que se tratava de um micróbio, e unicamente então fomos capazes de combatê-la.

A malária é outra velha amiga -eu sei que isto já está cansando, mas é a verdade-, só recentemente erradicada nos países desenvolvidos, vinculada também às águas paradas e seus mosquitos, os campos de cultivo e a sedentarização. Na Roma clássica, a malária, a tuberculose, o tifo e a gastrenterite ventilavam a cada ano uns 30.000 cidadãos nos meses de julho a outubro. Por não mencionar a impingem (foto abaixo) ou outros males comuns e incuráveis em seu tempo, incluindo, por suposto, as doenças venéreas da antiguidade, que já dá para imaginar como eram igualmente horrorosas.

As alternativas para nossos antepassados eram simples: ou permaneciam como nômades caçadores-coletores, presos no primitivismo Paleolítico e cada vez mais recusados e expulsos pelas comunidades fixas, ou se somavam à sedentarização total ou parcialmente, se convertendo em súditos, quando não servos e escravos, das civilizações agrícolas e pecuárias em ascensão.

Insegurança alimentícia.

Por outra parte, nem nômades nem sedentarizados tinham garantia alguma sobre a segurança de sua comida e sua água. As comunidades nômades eram pequenas e dispersas porque dependiam do que a terra quisesse dar, impossibilitadas para evoluir e se desenvolver. As comunidades sedentárias não só produziam comida abundante, mas pouco variada e de péssima qualidade, durante longo tempo, senão que estavam submetidas a toda classe de pragas e putrefações. Não havia esgoto, cagavam e mijavam perto de suas casas, essa merda toda ia para o lençol freático e nem precisa falar o resto.

Essas estupendas espigas de milho, esse trigo perfeitamente seguro ou essa carne com garantias veterinárias são o resultado de geração sobre geração de hibridações, cultivo seletivo e progresso nas ciências agropecuária e médica. No passado tinham que se virar com coisas mais parecidas ao farro, ao joio e a cevada, que são basicamente um asco como alimentos recusados até mesmo por porcos, e com carnes e pescados obtidos e conservados de maneiras realmente criativas. (…)

Hoje em dia nos queixamos um monte de que a comida e a água têm corpos estranhos, de que estão cheios de agrotóxicos e venenos e de que é tudo artificial. Lamentavelmente, as alternativas seriam o cólera, a gastrenterite, a pústula maligna, a triquinose, a salmonela, a listeriose, o botulismo, a polirradiculoneurite aguda, a gangrena gasosa, a hepatite, a diarreia infantil e outras “diliças” do estilo que no passado constituíam uma permanente roleta russa para a espécie humana.

As epidemias dos cultivos e do gado não só os matavam, provocando constantes fomes, senão que inclusive quando não matavam podiam contaminá-los de maneira invisível para um mundo sem microscópios. São especialmente curiosos os casos de ergotismo, um fungo dos cereais com efeitos muito parecidos ao LSD, que ademais passa aos bebês mediante o leite materno.

A potabilidade da água merece parágrafo a parte. Antes que aprendêssemos a separar as águas fecais e jogar cloro e outros produtos químicos, beber água era tão perigoso quanto puxar o pino de uma granada e manter a pressão para que não explodisse. De fato, as pessoas, se podiam evitar, não bebiam água. Nem também muito leite, exceto o materno, pois antes que aprendêssemos a pasteurizá-lo (pasteurizar vem de Luis Pasteur, o pai da microbiologia moderna) provocava tuberculose bovina em massa, também polineuropatia desmielinizante inflamatória, enterite, pústula maligna (de novo) e mais um monte de porcarias. Por conseguinte, até as crianças bebiam vinho, cerveja ou cachaça se podiam se permitir a esse luxo, não muito, mas um pouquinho sim, pela presença do álcool, que é um conhecido antisséptico.

Por verdade, para comer minimamente bem havia que ser rico, mas rico mesmo, não é rico pouca merda não! A comida era muito cara de produzir, conservar, transportar e comercializar, e estava sujeita a numerosos imprevistos. O preço do pão foi uma questão de estado durante milênios, sabendo que um aumento excessivo devido à escassez ou a especulação podia ocasionar revoltas e subversão, dado que as pessoas não tinham outra coisa para comer: só tinha pão e de péssima qualidade. Por isso o pãozinho, apesar de horrível continua tendo tanta importância na sociedade atual.

Livros revolucionários clássicos como “A Conquista do Pão”, do anarquista Pyotr Kropotkin, nos transmitem uma ideia do quão complicado era alimentar as pessoas e a miséria geral em que viviam. Com frequência, uma família não podia pagar as calorias necessárias para alimentar todos seus membros; fazê-lo de forma saudável ou ao menos variada era uma fantasia de aristocratas, arcebispos, reis e papas. Ficar gordo era coisa de rico, era moda e a referência estética de beleza e sucesso social, porque só o pessoal que tinha dinheiro para queimar e os muito poderosos podiam permitir-se; as pessoas normais eram sempre famélicas e exibiam os ossos dos corpos como estas cadavéricas modelos da atualidade, eram desnutridas com o excesso de trabalho físico. Enfim… ser magro era coisa de pobre. (…)

Sujeira, ignorância, superstição, tirania.

O passado era um lugar sujo e fedorento, com ratos e parasitas por todas as partes. Onde tinha rede de esgoto, costumava ser aberto; só os ricos podiam pagar saunas, banhos e coisas do estilo. Na maior parte das casas, a higiene era um conceito desconhecido e desnecessário, porque ninguém sabia nada de micróbios.

Que demônios. Éramos ignorantes como pedras: uma multidão vil e analfabeta presa por tiranos, demagogos, clérigos, santarrões e toda classe de superstições. A alfabetização era um segredo gremial de escribas, monges e sábios; a maior parte das pessoas não sabia ler ou escrever nem seu próprio nome. As crianças não começaram a ter o costume de frequentar a escola sistematicamente até meados do século XIX. Até os nobres, e às vezes os reis, eram mais brutos que seus cavalos. O príncipe dos contos era um asno tosco e brutal. E o venerável sábio local de barbas brancas dos filmes antigos, era em realidade um analfabeto desdentado e fedorento, supersticioso e machista que adorava mandar bruxinhas virgens à fogueira.

As bruxas e em geral qualquer mulher, por sua vez, tinham exatamente os mesmos direitos que um pedaço de carvão em uma casa às escuras. Quanto as crianças, não eram mais que uma boca a alimentar, uma carga tratada a pau que ocupava o último lugar da casa, frequentemente abaixo do gado na ordem social. Isso de protegermos as criancinhas é outra modernice; no passado ninguém colocaria as necessidades e direitos de uma criança acima de um adulto capaz de ganhar seu próprio pão. Quanto às garotas, só não eram violadas quando pequeninas por respeito à honra de seu pai, supondo que o pai fosse um homem livre e já tivéssemos chegado a esse grau de civilidade. Se nascesse escrava ou em uma sociedade que ainda não tivesse atingido esse ponto, melhor nem falar o que acontecia.

Em um mundo assim, toda classe de fraudes, medos, religiões e tiranias falavam sempre mais alto em amplas massas sociais, desprovidas das mais tênues bases intelectuais para desafiá-los. A forma comum de governo era à base da bordoada. Não entendeu o que deve ser feito, toma pancada! Não existia nada parecido à justiça; a ideia de que deveriam julgar com um juiz imparcial e um advogado defensor sob o império da lei só se estende ao povo a partir dos processos revolucionários do século XVIII. A vendeta, ordálio e Talião eram formas de justiça comum, bem como castigar até os delitos mais leves com tormentos infames.

Para os partidários que acham que devemos voltar ao endurecimento das penas, basta saber que existiu um tempo em que até o ladrão de galinhas ia para a roda de desmembramento, sobretudo se o dono da galinha pertencesse às castas superiores, e o absurdo é que mesmo assim nunca deixou de ter ladrões, violadores ou assassinos. De fato, existiam muitos mais do que agora: a miséria, a fome, a opressão e a incultura impeliam constantemente grupos da população para a delinquência, desde o pequeno roubo até o bandoleirismo e a pirataria. Em realidade, não tinha justiça nenhuma, no sentido atual do termo: só a vontade dos poderosos. -O passado, em verdade, foi uma época que nenhum de nós gostaria de viver (11 fotos) — MDig

Um banho de Fanatismo, Ignorancia, Sujeira, Pobreza, Doenças e Tirania

Os médicos achavam que a água, sobretudo quente, debilitava os órgãos, deixando o corpo exposto a insalubridades e que, se penetrasse através dos poros, podia transmitir todo tipo de doenças. Inclusive começou a estender a ideia de que uma camada de sujeira protegia contra as doenças e que, portanto, o asseio pessoal devia ser realizado “a seco”, só com uma toalha limpa para esfregar as partes expostas do corpo.

Os médicos recomendavam que as crianças limpassem o rosto e os olhos com um trapo branco para limpar o sebo, mas não muito para não retirar a cor “natural” (encardida) da tez. Na verdade, os galenos consideravam que a água era prejudicial à vista, que podia provocar dor de dentes e catarros, empalidecia o rosto e deixava o corpo mais sensível ao frio no inverno e a pele ressecada no verão. Ademais, a Igreja condenava o banho por considerá-lo um luxo desnecessário e pecaminoso.

A falta de higiene não era um costume de pobres, a rejeição pela água chegava aos estratos mais altos da sociedade. As damas mais entusiastas do asseio tomavam banho, quando muito, duas vezes ao ano, e o próprio rei só o fazia por prescrição médica e com as devidas precauções.

Os banhos, quando aconteciam, eram tomados em uma tina enorme cheia de água quente. O pai da família era o primeiro em tomá-lo, logo os outros homens da casa por ordem de idade e depois as mulheres, também por ordem de idade. Enfim chegava a vez das crianças e bebês que podiam se perder dentro daquela água suja. Não é à toa que as crianças tinham grande desgosto em tomar banho.

Tudo era reciclado. Tinha gente dedicada a recolher os excrementos das fossas para vendê-los como esterco. Os tintureiros guardavam urina em grandes tinas, que depois usavam para lavar peles e branquear telas. Os ossos eram triturados para fazer adubo. O que não se reciclava ficava jogado na rua, porque os serviços públicos de limpeza urbana e saneamento não existiam ou eram insuficientes. As pessoas jogavam seu lixo e dejetos em baldes pelas portas de suas casas ou dos castelos. Imagine a cena: o sujeito acordava pela manhã, pegava o pinico e jogava ali na sua própria janela.

O mau cheiro que as pessoas exalavam por debaixo das roupas era dissipado pelo leque. Mas só os nobres tinham lacaios que faziam este trabalho. Além de dissipar o ar também servia para espantar insetos que se acumulavam ao seu redor. O príncipe dos contos de fadas fedia mais do que seu cavalo.

Na Idade Média a maioria dos casamentos era celebrado no mês de junho, bem no começo do verão boreal. A razão era simples: o primeiro banho do ano era tomado em maio; assim, em junho, o cheiro das pessoas ainda era tolerável. De qualquer forma, como algumas pessoas fediam mais do que as outras ou se recusavam a tomar banho, as noivas levavam ramos de flores, ao lado de seu corpo nas carruagens para disfarçar o mau cheiro. Tornou-se, então, costume celebrar os casamentos em maio, depois do primeiro banho. Não é ao acaso que hoje maio é considerado o mês das noivas e dali nasceu a tradição do buquê de flores das noivas.

Nos palácios e casas de família a existência dos banheiros era praticamente nula, nem “casinha” existia. Quando a necessidade imperava, o fundo do quintal ou uma moita eram escolhidos segundo a preferência de cada um. Não era incomum também ver alguém cagando nas ruas. Os sistemas de esgoto ainda não existiam; portanto as cidades medievais eram verdadeiros depósitos de lixo e excremento. Grandes metrópoles como Londres ou Paris podiam ser consideradas naquele tempo como alguns dos lugares mais sujos do mundo.

Os mais ricos tinham pratos de estanho. Certos alimentos oxidavam o material levando muita gente a morrer envenenada, sem saber o porquê. Alguns alimentos muito ácidos, que provocavam este efeito, passaram a ser considerados tóxicos durante muito tempo. Com os copos ocorria a mesma coisa: o contato com uísque ou cerveja fazia com que as pessoas entrassem em um estado de narcolepsia produzido tanto pela bebida quanto pelo estanho. Alguém que passasse pela rua e visse alguém neste estado podia pensar que estava morto e logo preparavam o enterro. O corpo era colocado sobre a mesa da cozinha durante alguns dias, enquanto a família comia e bebia esperando que o “morto” voltasse à vida ou não. Foi daí que surgiu o costume de beber o morto e mais tarde o velório feito hoje junto ao cadáver.

O Rei Henrique VIII, famoso por romper com a Igreja Romana e por ter se casado seis vezes, tinha mais de 200 empregados que lhe serviam como cozinheiros, carregadores, abanadores, etc. Mas os serventes com a pior das sortes eram aqueles que deviam cuidar das “necessidades” do rei: tinham que despiolhá-lo uma vez ao dia, limpar sua bunda depois que fizesse suas necessidades e lavar suas partes íntimas enquanto o rei permanecia sentado e inclusive, quando a rainha estava grávida e o monarca sentia certas carências, um dos serviçais -homem ou mulher- devia satisfazer suas necessidades.

No entanto, mesmo diante desta porquice toda, quando um nobre viajante ou qualquer membro da nobreza se apresentava ante o rei ou a rainha, devia inclinar em sinal de veneração, e se por acaso esta pessoa nesse exato momento tivesse a má sorte de deixar escapar um “peidinho” em frente do monarca, a pena era o desterro. Ele era enviado para longe e sem poder regressar por 7 anos, isso se o rei decidisse que podia voltar. (…) -A absurda falta de higiene da Idade Média (5 fotos) — MDig

O pecado do banho

A Igreja participou ativamente nesta mudança cultural: usou do seu poder perante o povo, que obedecia às regras lhes eram dadas como vindas do divino, para convencer toda a gente que o banho e o asseio eram luxos que abriam os portões ao mundo do pecado. Enquanto isso, os médicos afirmavam que o contacto com água quente deixava os órgãos mais frágeis e, portanto, mais vulneráveis às doenças. O melhor mesmo, diziam eles, era manter uma camada de sujidade na pele, que funcionava como barreira para os agentes patogénicos.

Durante muito tempo, a decência não estava em tomar um banho: estava antes em manter-se seco, principalmente durante o inverno porque nessa altura — dizia-se — o corpo estava mais exposto às doenças por causa do frio. O máximo que os adultos faziam era passar uma toalha húmida nas partes que ficavam expostas: todas as partes que ficavam debaixo da roupa não precisavam de grandes cuidados. Nem de pequenos, sequer.

A monarquia seguia as mesmas regras: a falta de banho era transversal a todos os estratos na sociedade. Consta, por exemplo, que a rainha Isabel de Castela só tomou banho duas vezes na vida: no dia em que nasceu e no dia anterior ao casamento. Pode imaginar-se então o ambiente dentro dos castelos e palácios da realeza, com o cheiro hediondo emanado pela roupa e pelos cabelos e perucas cobertos de bichos amantes da sujidade.

E a falta de higiene não era exclusiva do foro íntimo: as ruas eram um retrato do que se passava nas casas de banho (que de banho não eram) das casas mais pobres aos castelos mais ricos. As pessoas defecavam na rua ou então, quando preferiam o recato do lar, atiravam a água onde tudo tinha acontecido para a rua através das janelas, gritando “água vai!”. O cheiro das ruas era de tal modo insuportável que as igrejas usavam incensos para mascarar o odor que vinha lá de fora.

A partir do século XVII os hábitos começaram a alterar-se a um ritmo muito lento. Surgiram os banhos anuais, tanto para o povo como para os monarcas, que permitiam às famílias entrar em grandes tinas com água quente: primeiro o chefe de família, depois os restantes homens por ordem de idades, a seguir as mulheres e por fim as crianças, que se contentavam com água fria e suja. Por norma este banho acontecia em maio. Por isso é que os casamentos aconteciam normalmente em junho: o cheiro ainda era suportável e as noivas estavam autorizadas a andar com ramos de flores para disfarçar o cheiro.

Mesmo depois de surgirem os primeiros perfumes, usados nos corpos já malcheirosos para tentar (sem grande sucesso) disfarçar o fedor, as mulheres tinham regras mais apertadas a seguir: não podiam lavar os genitais, porque isso podia conduzir à infertilidade. E também não podiam tomar banho enquanto estavam menstruadas. No entanto, elas foram quase sempre as protagonistas dos primeiros anúncios a produtos de higiene.-Fotos. O que unia ricos e pobres no passado? O medo do banho

E para não dizer que não espaço para o contraditório…

“o brilhantismo da gloriosa história do cristianismo”

(…) De fato, no início da era cristã, havia um costume bastante difundido em Roma de usar locais públicos para tomar banho. Nestes locais, reuniam-se homens e mulheres nus ou seminus para se lavarem. A isto se conhecia como “banhos públicos” e era costume social.

A Igreja não demorou em perceber que os banhos públicos eram às mais das vezes ocasiões próximas de pecado. Por essa razão, a maioria dos padres e bispos admoestaram os cristãos contra essa prática. Com o passar do tempo, na medida em que a sociedade foi-se cristianizando progressivamente, a prática dos banhos públicos viu-se bastante reduzida. Salvo engano, São Jerônimo advertia que mesmo as mulheres não deveriam tomar banhos conjuntamente, dado que uma mais maliciosa ou experiente poderia compartilhar com a outra, conversas e contatos indevidos.

Outra preocupação da Igreja é com relação ao uso do banho para o simples prazer. Desde sempre os cristãos preocuparam-se com a prática de sólidas virtudes e com o senhorio de Deus sobre todas as coisas criadas. Do mesmo modo que tomar os alimentos para satisfazer aos prazeres da carne e ocasionar deleite configura o pecado da gula, também os banhos podem produzir semelhantes prazeres desordenados e, deste modo, tornam-se moralmente maus.

É bom lembrar, no entanto, que o ato mesmo de tomar banho, no sentido de higiene corporal, nunca foi condenado pela Igreja católica e nem recomendados, por outro lado. Isso porque é um ato moralmente indiferente, ou seja, não é nem bom nem mau. Pode tornar-se bom ou mau, entretanto, dependendo das intenções e circunstâncias em que é praticado.

Prova de que a prática de lavagem do corpo ou banho era comum mesmo entre os clérigos é o encontro de banheiras em mosteiros construídos no tempo da Cristandade. Todavia, em algumas ordens religiosas, segundo consta, os monges resolveram instituir uma regra de tomar banho apenas duas vezes por ano, sendo uma no Natal e outra na Páscoa. Esta regra, contudo, tinha caráter de penitência e mortificação e nunca foi aplicada à vida dos fiéis em geral. Adicionalmente, o simples fato de que a abstenção de banhos era considerada uma forma de penitência pode demonstrar que os banhos eram mais freqüentes do que podemos pensar.

Com o chamado Renascimento, quando a sociedade começou a virar as costas para a Igreja, se difundiram costumes anti-higiênicos. Além disso, também a peste bubônica, epidemia que se alastrou por toda a Europa dizimando grande parte da população, causou confusão e transtornos, mesmo entre os médicos que, desconhecendo a forma de transmissão (nem sequer se conheciam os microorganismos), passaram a recomendar a diminuição do número de banhos, pensando que com isso a transmissão da doença seria menor.

O que deve ficar claro, no final das contas é que a Igreja católica não considera e nem considerou nunca o banho, com a finalidade de limpar a pele, como pecado ou desordem moral. Na verdade, o modo com que os banhos eram tomados, isto é, em público e sem separação de sexos, ou então, demoradamente a fim de produzir prazer, é que tornava o ato imoral. A Igreja cultivou mesmo entre os clérigos a prática do banho, como demonstram mesmo a arquitetura medieval dos mosteiros. Somente alguns religiosos evitavam o banho, mas não por motivo de pecado, mas apenas para mortificação e penitência. Essa é mais uma lenda negra com que se tenta diminuir o brilhantismo da gloriosa história do cristianismo.-A Igreja proibiu os banhos na Idade Média?

Sim, isto foi uma defesa.

E sim, isto era o Ultrage a Rigor. Provando que algumas coisas de fato no passado eram melhores. Vamos dizer assim, nem tudo melhora necessariamente piora ou melhora com o simples passar do tempo, não para todos. E o mais importante, algumas coisas simplesmente não mudaram , não em sua essência. E como comentário é sobre um texto que fala do trabalho e da mentalidade que o constitui como o conhecemos e reconhecemos, nada melhor do que fechar esse complemento, com uma profissão que não mudou em nada:

o limpador oficial da bunda dos reis

Qualquer um que tivesse ambições políticas na Inglaterra do século 16, período do reinado de Henrique 8º, deveria aspirar a uma das mais preciosas — e degradantes — posições na corte do rei: limpador do traseiro da majestade.

Na autocracia do período conhecido como Casa de Tudor, a arena política da Inglaterra não era o Parlamento, e sim a corte real. Tornar-se um cortesão, e não um deputado, era um começo para ascender dentro da família real.

Com os contatos certos, que podiam ser cultivados sendo primeiro um “cavaleiro da comarca”, era possível que um oficial camareiro da corte chegasse ao posto de cortesão.

Assim, uma pessoa que fez um trabalho de baixa categoria poderia impressionar o rei ou alguma das “facções” que trabalhavam para ele. Esses grupos tendiam a ser protestantes (radicais) ou católicos (conservadoras) e eram liderados por homens como Thomas Cromwell e Thomas Howard, duque de Norfolk.

À época, um cortesão poderia representar a majestade do rei. Esse cargo também era um trampolim para alçar voos mais altos, como a chefia do condado de origem ou mesmo de um órgão nacional.

Quanto mais íntimas e próximas eram as relações com o rei, mais facilmente o cortesão virava um alvo importante das facções que queriam influenciar a coroa.

Todo esse molho poderia aumentar as chances de ascensão no império.

Na cova com os leões

Qualquer que fosse o palácio usado por Henrique 8º, o centro da corte era sempre sua “câmara privada”. Os “cavaleiros da câmara” eram pagos para servir e serem amigos do rei. Havia outros súditos mais íntimos que, além de “amigos”, também ajudavam Henrique 8º a se vestir.

Mas havia outros níveis de proximidade: os “senhores do corpo” tinham acesso ao quarto do rei. Eles o acordavam às 8h e tinham o controle de quem entrava e saía do aposento durante a noite. Também o ajudavam a comer e a trocar o colete e as calças.

Mas a posição mais próxima do rei era conhecida como groom of the stool — em tradução livre, o “serviçal do banquinho”, em referência ao móvel usado pelo rei para fazer suas necessidades. Em outras palavras, esse cuidador era responsável por limpar partes íntimas do rei após ele evacuar.

Mais tarde, depois do banquinho ficar obsoleto, a expressão foi substituída por algo como “garçom das fezes”.

Henrique 8º confiava tanto nessa figura que eles eram chamados de “os principais cavalheiros da câmara”.

Desde o tempo de Henrique 7º, quem ocupava esse cargo também gerenciava as finanças pessoais do rei. Ou seja, ele praticamente era responsável pela política fiscal da Inglaterra.

No final do reinado de Henrique 7º, foi decidido que a corte real precisava de mais dinheiro. Para isso, vários planos foram criados para retirar dinheiro da nobreza (a rica “nobreza inferior” composta de cavalheiros, descendentes não cavalheiros, e fazendeiros cavalheiros).

Em particular, alguns direitos feudais do rei, muitos deles esquecidos, foram aplicados para arrecadar mais dinheiro. Foi decidido que a aristocracia seria fortemente multada por delitos leves, por exemplo.

Além disso, crianças e adolescentes que herdassem propriedades seriam arregimentados e transformados em pupilos da coroa. Isso significa que a coroa podia administrar propriedades para seu próprio benefício até que os jovens se tornassem adultos — e eles eram incorporados aos serviçais da corte.

Esse “terrorismo fiscal” fez com que a coroa inglesa e, portanto, o governo, ficasse imensamente rica. E quem administrava essa riqueza era o “garçom das fezes”.

Então, trocar a roupa do rei ou fazer um trabalho menos “edificante”, como limpar as fezes de seu traseiro, poderia tornar uma pessoa muito poderosa mas também era um serviço perigoso: podia custar sua cabeça. -O grande poder dos homens que limpavam o traseiro do rei inglês Henrique 8º

Que o digam, os ministros, secretários e chanceleres, enfim os garçons de fezes de qualquer latrina governamental :

Moral da História: merda é merda, não importa se a bunda seja progressista ou conservadora, sempre haverá gente disposta a se prestar ao papel higiênico de limpar a bunda real de quem estiver sentado no trono.

Verdade seja dita, o pior mesmo é obrigado a engolir. Mas não se preocupe não há males desse mundo que uma meia ungida, ou um osso não cure…

Ou talvez não…

As oito e meia da noite eu já estava na favela respirando o odor dos excrementos que mescla com o barro podre. Quando estou na cidade, tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludos, almofadas de sitim. E quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo”. Foi assim que Carolina Maria de Jesus descreveu no seu diário a favela do Canindé (São Paulo), onde morava. O dia do registro: 19 de maio… de 1958.

Essa data chama a atenção porque, 59 anos depois, os relatos de Carolina permanecem tão atuais quanto negligenciados — eles inclusive viraram, em 1960, um livro chamado Quarto de despejo: diário de uma favelada. E o impacto desse cenário reverbera profundamente na saúde, como mostra a primeira série abrangente de pesquisas científicas sobre o elo entre a vida nas periferias e o bem-estar físico e mental.

Esses documentos destacam, logo de cara, o chamado efeito de vizinhança. Ou seja, a alta densidade de seres humanos por metro quadrado, associada a um saneamento básico precário, potencializa a dispersão de variados problemas de saúde. “A contaminação da água pelo esgoto é um problema comum, que faz proliferar doenças infecciosas”, justifica Waleska Caiaffa, epidemiologista da Universidade Federal de Minas Gerais e uma das autoras dos estudos do The Lancet.

Por outro lado, o tal efeito de vizinhança pode se converter em uma ótima oportunidade para ações positivas afetarem bastante gente. Ao propiciar uma remoção adequada e frequente de lixo na favela, você livra milhares de brasileiros de enfermidades como a leptospirose, espalhada pelos ratos, e a dengue, transmitida pelo mosquito Aedes Aegypti. Ao fomentar o saneamento básico, combate a diarreia.

Trocando em miúdos, não dá mais para ignorarmos essa população sob o pretexto simplista de que ela vive ilegalmente. Defender esse pensamento é exigir que um indivíduo suba na vida e se afaste de suas origens para ter acesso a direitos que são garantidos a todos pela Constituição. De acordo com o levantamento, uma boa solução seria agir diretamente na favela em vez de tentar tirar toda essa gente dos barracos para só então oferecer a ela cuidados básicos.

Outra conclusão da pesquisa é a de que, nesse ambiente, as crianças são especialmente vulneráveis. Segundo os especialistas, a combinação recorrente de desnutrição e diarreia leva a um crescimento atrofiado e provoca efeitos em longo prazo sobre o desenvolvimento cognitivo dos pequenos. Carolina, que era negra assim como a maioria das pessoas que habitam as favelas brasileiras, tinha três filhos: Vera Eunice, João e José Carlos.

E não é raro encontrar passagens em seu livro que versam sobre moléstias que os acometiam. No dia 17 de julho de 1958, Vera estava febril e vomitando: “Eu fui no Seu Manuel vender uns ferros para arranjar dinheiro. Estou nervosa com medo da Vera piorar, porque o dinheiro que eu tenho não dá para pagar médico. (…) Hoje estou rezando e pedindo a Deus para a Vera melhorar”.

Sua filha melhorou, mas a angústia de Carolina se estende por décadas. Várias outras mães (e avós, e tias…) ainda sofrem com uma falta de assistência quando seus familiares ou elas próprias estão de cama. No dia 15 de julho de 1958, Carolina escreveu: “Supliquei para o Padre Donizeti para eu sarar. Graças a Deus que atualmente os santos estão protegendo. Porque não sobra dinheiro para eu ir no médico”.

A favela como protagonista

Em outubro deste ano, líderes mundiais foram a Quito, no Equador, para participar da Terceira Conferência das Nações Unidas sobre Moradia e Desenvolvimento Urbano Sustentável (Habitat III). O objetivo principal do evento era discutir os desafios enfrentados pelas cidades e seus processos de urbanização, e elaborar um plano de ação comum a ser seguido. Foi então que surgiu a “Nova Agenda Urbana”, uma lista de metas que valerão pelos próximos 20 anos.

Entre propostas como a criação de um sistema de transporte mais ecológico e de uma gestão mais sustentável dos recursos naturais, o documento enfatizou a urgência de olhar para as condições de habitação em áreas urbanas. De acordo com o relatório, 40% de todo o crescimento urbano hoje ocorre em favelas.

Há quase um bilhão de pessoas morando em assentamentos informais ao redor do globo. Por aqui, 12 milhões de brasileiros estão nas periferias, segundo dados do livro “Um país chamado favela”, da Central Única das Favelas (Cufa) e do Instituto de Pesquisa DataFavela. “Nestas áreas, intervenções simples, mas eficazes, tais como telhados com isolamento e iluminação e aquecimento solar de água podem melhorar o nível de vida e reduzir os impactos de ondas de calor e condições meteorológicas extremas”, aponta o documento da Organização das Nações Unidas.

O estudo publicado no The Lancet traz diversas perspectivas dos perigos à saúde de quem reside em favelas. Separamos essas ameaças para você ter uma ideia do quanto esse ambiente influencia no bem-estar de seus moradores.

Doenças infecciosas

Diarreia e pneumonia, quadros muitas vezes atrelados ao ataque de vírus, bactérias e fungos, são as maiores causas de morte entre crianças com menos de 5 anos. E os experts dizem não haver dúvida de que os pequenos estão em risco maior dentro dos assentamentos informais.

Por quê? A superlotação, característica típica desses locais, contribui para a disseminação veloz de moléstias infecciosas. Além disso, os moradores de favelas são uma população mais jovem e altamente móvel, o que contribui para a maior incidência de doenças em geral, e em especial as sexualmente transmissíveis. Tanto que a incidência de aids é superior nesses lugares.

De acordo com os pesquisadores, na recente epidemia de ebola na África Ocidental, as condições de vida nas favelas daquele continente amplificaram a propagação da doença.

Câncer, diabetes, hipertensão e afins

Existem poucas informações sobre a incidência das chamadas doenças crônicas não transmissíveis entre essa população — o que já é um problema por si, uma vez que dificulta a tomada de atitudes públicas e denota uma falta de interesse em incrementar a saúde nas favelas. (…)

Desnutrição e subnutrição

Os indivíduos que passam sua vida em favelas têm uma desvantagem nutricional. Não raro, dependem de vendedores ambulantes de alimentos e têm sua dieta baseada em comidas pré-cozidas de baixa qualidade, que obviamente não suprem as necessidades de vitaminas, minerais e outros nutrientes.

Cabe lembrar que não estamos falando puramente de satisfazer a quantidade de calorias necessárias para manter o corpo em movimento, mas de garantir o aporte de substâncias que afastam o risco de diversas enfermidades, a exemplo da anemia. (…)

“Como é horrível levantar de manhã e não ter nada para comer. Pensei em suicidar. Eu suicidando-me é por deficiência de alimentação no estômago. E por infelicidade eu amanheci com fome”, relata Carolina, no dia 24 de julho de 1958. Esse desabafo nos leva a outro âmbito observado na pesquisa do The Lancet: o bem-estar psíquico.

Saúde mental

Os autores estimam que distúrbios neuropsiquiátricos são a principal causa da perda de anos de vida por problemas de saúde, incapacidade ou morte precoce em todo o mundo. E a as condições de vida dos moradores de favela predispõem a esses distúrbios até por causa do estresse. Ainda assim, a principal constatação do levantamento sobre esse aspecto é do que há poucos dados sobre a saúde mental na periferia.

Ao longo de Quarto de despejo, fica claro quanto a ansiedade e a melancolia estão presentes no cotidiano dos moradores. “O povo da rua percebe quando eu estou triste. Ganhei 36,00. Voltei. Não conversei com ninguém. Estou sem ação com a vida. Começo a achar a minha vida insípida e longa demais. Hoje o sol não saiu. O dia está triste igual minha alma. […] O que observo é que os que vivem aqui na favela não podem esperar coisa boa deste ambiente”, lamentou Carolina no dia 9 de julho de 1958.

Acidentes e violência

Em um estudo realizado na África, 22% das mortes em favelas decorreram de lesões — mais da metade são consequência de assaltos. Fora isso, uma revisão sobre a saúde da criança relatou que queimaduras são mais frequentes nas periferias do que em áreas urbanas ou rurais.

Em seu diário, Carolina relata diversas ocasiões em que há brigas na favela em que habitava. “Ouvi vozes alteradas. Fui ver o que era, percebi que era briga. Vi o Zé Povinho correndo. Briga é um espetáculo que eles não perdem. Eu já estou tão habituada a ver brigas que já não impressiono”, escreveu em 27 de julho de 1958.

Mudança de cenário

O objetivo principal da pesquisa do The Lancet, segundo os autores, é contribuir para tornar as favelas mais visíveis aos que tomam decisões políticas e reforçar a necessidade de realizar outras investigações a respeito da saúde dessa população. “Geralmente, as pessoas vêm para as cidades buscando oportunidades melhores na vida. Mas nem sempre conseguem”, lamenta Waleska.

De acordo com o Relatório Global das Nações Unidas sobre Assentamentos Humanos, de 2003, aqui no Brasil as favelas são consequência do rápido processo de urbanização, que nunca seguiu políticas públicas de habitação, saneamento, educação e saúde. Mas também é resultado dos altos níveis de desigualdade social que caracterizam o desenvolvimento do país.(…) -A saúde de quem vive em favelas

Canudos, Escravidão, Favelas e a Revolta da Vacina

Dois fatores históricos importantes contribuíram para as primeiras ocupações na região: o grande número de soldados vitoriosos da Guerra de Canudos, que desembarcaram no Rio em 5 de novembro de 1897 sem moradia, e a grande concentração de negros que lotavam a cidade após a abolição da escravatura.

Com a lei do ventre livre em 1871, a cidade do Rio se encheu de ex-escravos em busca de trabalho. Nessa época começam a surgir uma grande quantidade de cortiços na região Central, que até então era considerada área nobre da cidade e se tornou uma importante região de concentração de trabalho com a construção da Central do Brasil, em 1858.

Mansões que não tinham mais como se sustentar sem os escravos foram transformadas em casas de cômodo. Na mesma época, na segunda metade do século 19, surgiu o maior e mais famoso cortiço da cidade, o “Cabeça de Porco”. “Era um cortiço monumental, com quatro mil residências. O local exato onde ele ficava é onde existe hoje o Túnel João Ricardo, ao lado da Central do Brasil”, ressalta o historiador Milton Teixeira.

O Cabeça de Porco foi destruído em 1893 por ordem do prefeito Cândido Barata Ribeiro, fazendo com que muitas famílias fossem para a travessa Felicidade. Justamente nessa região teve início a primeira comunidade, então denominada “Morro da Favela”.

A origem do termo surgiu após a Guerra de Canudos, onde ficava o Morro da Favela original, graças a uma planta conhecida como faveleira, farta no local. Alguns dos soldados, ao regressarem vitoriosos ao Rio em 1897, não receberem o prometido soldo e foram invadindo uma antiga chácara, com o apoio de um oficial, no Morro da Providência, que ganhou então o “apelido” referente a Canudos.

“Depois de uma confusão em que tentaram matar o prefeito, estabeleceu-se um caos, uma grande desordem. Em função disso, os soldados foram desmobilizados. Eles saem do Ministério do Exército desempregados e sem ter como viver. Atrás dali tinha o Morro da Providência e eles ocupam esse morro”, lembra Milton, ressaltando que nessa época a região já estava lotada de cortiços.

Mas foi com a total abolição da escravatura que a cidade ficou cheia e sem ter moradias para todos. “Todos os escravos do Vale do Paraíba — 200 mil — invadem a cidade do Rio de Janeiro. Aqui eles não tinham onde morar, começam a surgir os primeiros mendigos e o conceito de multidão”, explica o historiador.

O morro da Providência se tornou o local ideal para abrigar as famílias de baixa renda. Cercado de um lado por uma pedreira, fábricas e pelas linhas da Estrada de Ferro Central do Brasil, e tendo do outro um cemitério de protestantes e a região portuária, os terrenos estavam, então, bem desvalorizados e livres.

As primeiras casas da Providência começaram a ser construídas na parte baixa do morro, com o mesmo formato das casas existentes em Canudos. Atualmente, nenhuma dessas residências existe mais, pois essa parte do morro começou a ser explorada para a extração de pedras para as obras da região central da cidade.

“Aquela era a única favela autofágica do mundo, pois consumia o próprio morro onde estava. Os moradores trabalhavam na pedreira que destruía o morro onde eles moravam”, afirma o historiador, lembrando que a pedreira foi explorada durante décadas até que, em 1968, uma explosão inesperada soterrou 36 pessoas. Os corpos dessas vítimas nunca foram localizados”, conta o historiador.

Em 1904, o governo tentou a primeira remoção da favela da Providência, frustrada por uma revolta popular batizada de “Revolta da Vacina”, onde muitos favelados participaram combatendo as tropas do governo. Depois disso, a situação se acalmou. O próprio governo percebeu que aquela população era fundamental como mão de obra barata para trabalhar na pedreira, nas obras públicas, no cais do porto e nas fábricas e usinas da região. (…) — Conheça a história da 1ª favela do Rio, criada há quase 120 anos

“Aquela era a única favela autofágica do mundo…”. Curiosa observação vinda de um historiador. Não conheço nenhum assentamento humano que não pratique a antropofagia, e que não se volte para devorar a si mesmo, na falta de outro para canibalizar. Neste sentido não deixa de ser uma ironia de mau gosto que soldados subam de tempos em tempos novamente o morro das favelas, para “limpar” um território que nasceu da sina das ex-soldados e ex-escravos, das buchas de canhão e mão-de-obra servil que perderam literalmente sua utilidade e emprego.

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Aliás ironia, não… História. Ou como diria o groom of the stool tupiniquim: é a mão (armada) da providência divina…

Ou seria do Estado?

Na verdade tanto faz. Ao contrário da parábola cristã onde era impossível servir a dois senhores, aos olhos dessa ideologia não há dois senhores, mas Um, Deus e Estado são apenas faces de só um mesmo ente sagrado todo poderoso. Faz sentido. As roupas dos ídolos e ideologias mudam junto com os sacerdotes, mas o culto a supremacia é o mesmo, e há de ser para permanecer e prevalecer. Afinal de contas, quem disse que a loucura não tem sua razão para além dos credos? Assim como seus surtos tem sua lógica e método, inclusive como moda dos hábitos e costumes do que as pessoas entendem como seu tempo.

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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