Catalunha: a independência simbólica e a batalha pelo simbolismo

Os patriotas, nacionalistas, e anarquistas e seus signos

O segredo dos planos do governo em face do plenário foi alterado ontem por declarações do coordenador de seu partido, PDeCAT. Marta Pascal explicou à BBC que o líder catalão optará por uma “declaração simbólica”. Com ele, Puigdemont reconheceria ante a Câmara a validade do resultado do referendo, que ele entende como um mandato legítimo, mas não faria uma declaração formal de independência. “O CUP criticou essa abordagem”, disse ele em uma entrevista por telefone com a embaixada britânica em Londres. Existe uma possível declaração retórica antes dos dois milhões de votos defendidos com o corpo em 1 de outubro. Seria se render -Espanha depois da grande manifestação pela união: Pressão máxima sobre Puigdemont

Patriotas ou nacionalistas?

Os protagonistas deste ressurgimento rejeitam o rótulo de “nacionalistas”, que preferem reservar aos separatistas catalães, preferindo “patriotas”.

“Nós diferimos do nacionalismo, que tem uma tendência de acreditar que alguns são melhores do que outros em função das ideias ou dos seus locais de nascimento”, explica Espinosa. (…)

Para Espinosa, da Fundação DENAES, o espanholismo permaneceu em silêncio por anos por razões históricas.

“A esquerda na Espanha teve poucos sentimentos patrióticos desde a Guerra Civil, e a direita sofreu, desde 1975, um terrível complexo de associar patriotismo, negligentemente, com tempos de opressão”, responde Espinosa, aludindo à ditadura de Francisco Franco (1939–1975).

Para o presidente do governo espanhol, Mariano Rajoy, não há nada perturbador neste fervor, segundo explicou ao jornal El País. As manifestações pró-Espanha hoje “são pacíficas”, disse ele.

“As pessoas têm o direito de dizer ‘eu sou espanhol, tenho orgulho de ser e estou orgulhoso da minha Constituição’. Parece-me certo”, disse Rajoy.

A associação entre o nacionalismo espanhol e o franquismo — e a amálgama com elementos folclóricos, como touros e o flamenco — fizeram com que os nacionalismos que se opunham à ditadura — o catalão e o basco — fossem percebidos como mais progressistas. (…)

Para o historiador Carlos Gil Andrés, autor da “História da Espanha no século XX” e “De Cuba para a Guerra Civil”, não há “nenhuma” diferença, disse ele à AFP.

“Os nacionalistas espanhóis pensam que não o são. Eles acreditam que o nacionalismo catalão é ruim, mas que se sentir espanhol é o ‘normal’”, acrescenta o historiador.

Para Gil Andrés, “a identidade nacionalista está latente” e sempre esteve. “Ela não reaparece, se mobiliza. Todos os nacionalismos se alimentam entre si, se constituem em torno de um ‘nós’ por oposição a um ‘eles’”. -Onda patriótica espanhola em resposta aos separatistas catalães

Tradução do espanholismo castelhano para catalanismo catalão “Somos todos iguais, e devemos permanecer unidos, mas que nós os espanhóis somos autênticos patriotas e vocês são meros nacionalistas e traidores, isso nós somos, e isso é o que vocês são”. Se a união da espanhola depender da propaganda dos seus patriotas melhor chamar a guarda nacional porque a Catalunha vai se tornar uma nação.

Isso sem falar da incoerência, um discurso radical contra o nacionalismo na boca de uma anarquista clássico faz todo o sentido embora eu discorde Afinal ele é pela abolição de todos os Estados-Nacionais. Mas vindo de assumidos patriotas soa como um católico a pregar contra o direito de credo dos protestantes, ou melhor, pregando a favor do direito de credo de todos desde que sejam católicos. Mais totalitário impossível.

Ainda bem, que a Catalunha quer virar uma república e não um reino senão veríamos o que? Os súditos do rei da Espanha a protestar contra o males das monarquias??? Monarquias não, reinos. Porque monarquia é o governo com rei dos outros o nosso é democracia moderada pelo poder real.

Anarquistas, uma posição que merece uma objeção sem ironias

Veja não é que eu discordo da abolição dos Estados-Nacionais ou seja a favor da sua instituição. O ponto central é que se você quer um mundo livre sem Estados ou você destrói violentamente todos os estados, mesmo onde as pessoas querem viver em Estados, o que lhe faz não um movimento de abolição das tiranias mas de ditadura do não-estadismo. Ou então coerente com os princípios de respeito a liberdade e tolerância, você convive pacificamente com as pessoas e seus Estados mesmo aquelas que querem ter lideres ou reis, ou ídolos, desde que não queiram impor seus governos e reinados e credos a você, vivendo em paz na sua cultura. Essa segunda posição seria a única posição coerente para o anarquismo se ele não quiser se degenerar na prática como o comunismo. Se por outro lado ele tivesse compreendido que não há sociedade sem controle ou propriedade do território que habita de modo que o povo possa viver em paz de acordo com seu forma de vida e regime anárquico ou hierárquico.

Logo o anarquista pode até dizer que seus territórios não tem fronteiras, mas tem porque não só essas fronteiras acabam porque onde começa qualquer outro território alheio que viva sob outras normas. Como sequer existe fora da jurisdição fora dos limites naturais que eles são capazes de ocupar pacificamente (e proteger) de espaço territorial necessário para viver em liberdade. Você pode chamar esse território onde uma sociedade de paz vive por outro nome que não Estado por não se valer da imposições da força e violência. Mas ainda sim se existir um dia em algum lugar, para todos os efeitos de relações internacionais com os povos dentro da cultura estatal dentro da sua linguagem e entendimentos uma nação. E a menos que não se queira passar esse tipo de mensagem totalitária, o meu credo é a meu regime é o verdadeiro e o seu falso, há que se admitir que de fato não deixa de sê-lo enquanto condição igual de direitos de cada comunidade conduzir sua vida em paz de acordo com seu entendimento do que é melhor para ela. E não o do outro.

Um anarquista assim como um libertário por definição não prática o cultos aos governos, mas também não prática o culto ao seu próprio credo querendo impô-lo a força a quem não quer segui-lo mas tão somente viver em paz sem impedi-lo de praticá-lo ou forçando a crer e viver como ele. Não podemos impor um mundo pertencendo a todos, como os comunistas ou pertencendo a ninguém em particular ou coletivamente como os anarquistas, nem muitos menos impor um mundo que pertence a quem pegar e cercar primeiro como os capitalistas. Porque todos os 3 regimes exigem a violência contra quem quer viver de outra forma. Ou toleramos que cada pessoa viva como ela deseja desde que não tire dos outros as possibilidades de também poder viver como quer, ou seja impondo e monopolizando todos os recursos e espaços e relações. Ou não viveremos em paz. Não podemos impor nossa ocupações, nem tão pouco deixar de ocupar o que carecemos para viver tanto em particular quanto como socialmente. Seja portanto um povo sem estado, ou povo que sente parte ou oprimido dentro de um estado. Todos tem o direito de um terra, um território para poderem viver de acordo com seu estilo de vida. E se já possuem esse território pertence a eles, e ninguém de fora da sociedade ou comunidade que ocupa essas terras a soberania para definir como viverão nelas e desde que seu estilo de vida e cultura não cause prejuízo a mais ninguém, a nenhuma vida ou liberdade humana. Ninguém tem qualquer jurisdição ou direito de intervenção nele. É a isso pode se dar o nome que quiserem até mesmo de um república libertária que se existir em algum lugar onde quer que seja por definição não será mais uma utopia. Um dia sonharam isso em Barcelona. E pelo jeito não conseguiram adulterar de todo o que havia de libertário nesse sonho. Não é libertário, mas ainda sim é autenticamente popular, progressista e antiautoritário, e concreto, não basta, mas é muito. E como é muito…

Podem me chamar de liberal se quiserem, mas se há governos não sou necessariamente contra, mas se há liberdade de povos e comunidades estou sempre a favor. Embora não negue que historicamente, via de regra, uma coisa é quase sempre a mesma que a outra. Mas esse é o ponto. No dia que não mais for, poderemos dizer seja lá que qual for o nome do regime que as pessoas naquele lugar que ainda não existe são completamente livres. E o Nobel Vargas Llosa que me perdoe mas ele com ativista é um excelente escritor. Ainda bem que é o de Literatura e não o da Paz.

Naquele país de maioria budista, e onde a política é dominada por budistas nacionalistas, o Estado de Myanmar recusa-se a reconhecer aquela minoria étnica. Esta segunda-feira, o alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Zeid bin Ra’ad, acusou Myanmar de estar a fazer “uma limpeza étnica” dos Rohingya.

“O Governo de Myanmar deve deixar de alegar que os Rohingya estão a puxar fogo às próprias casas e a dizimar as suas aldeias”, disse Zeid bin Ra’ad, sugerindo que aquele estragos são provocados por “operações militares” aprovadas pelo Governo. “Esta negação total da realidade está a causar grandes danos à reputação internacional de um governo que, até há pouco tempo, contava com uma imensa boa vontade.”

À medida que tudo isto se desenrola, um facto destaca-se: o silêncio ensurdecedor de Aung San Suu Kyi. Desde o atual êxodo dos Rohingya, que teve início na última semana de agosto e que já terá levado a que pelo menos 270 mil pessoas fugissem em direção ao Bangladesh, a líder da Liga Nacional Democrática não teceu nenhumas considerações em público sobre o tema. Esta opção pode ser justificada com a dependência de Aung San Suu Kyi dos nacionalistas budistas no parlamento, cujo apoio seria fundamental para conseguir alterar a Constituição de Myanmar no sentido de lhe ser permitido subir à presidência do país. (…)

Porém, as acusações de o Governo de Aung San Suu Kyi ser responsável por uma limpeza étnica não são novas — e em abril deste ano, numa entrevista à BBC, a Nobel da Paz já tinha recusado esse cenário. “Não acho que esteja a acontecer uma limpeza étnica”, disse. “Acho que limpeza étnica é uma expressão demasiado forte para referir aquilo que está a acontecer.” -Aung San Suu Kyi, de “Nelson Mandela da Ásia” a cúmplice de limpeza étnica?

Só para lembrar, as duas formas que são construídas as fés e identidades nacionais mundo afora. A libertária através das independências e emancipações. E as autoritárias e totalitárias através das repressões e perseguições. Que relembram os nacionalismos coloniais e imperiais de outrora, ainda mais do que as bandeiras e discursos do patriotismo espanholista de agora.

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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