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“O importante não é dar o peixe, é ensinar a pescar” — disse o dono da vara, que aliás nunca a empresta embora só pesque de tarrafa.

O Brasil foi o último país do mundo a abolir a escravidão, e no que depender dos donos das varas e senzalas só vai entrar século XXI, garantido liberdade real para todos em última instancia, ou melhor, de preferência, nunca.

Sinceramente nem sei mais dizer até onde esse discurso do dar o peixe é mera hipocrisia, resposta condicionada, ou a mais verdadeira expressão do pensamento de uma elite latino-americana acometida de secular complexo de identidade européia, e só não digo inferioridade porque embora natural da América se pensa “autentico europeu”. Muitas vezes diria até mais autentico do que a “plebe” que habita o velho continente hoje, pois não tem como referencial o homem europeu atual, mas sim seu ancestral em comum, como diria o paleontólogo, “o primitivo e agressivo homo europeus que colonizou as Américas.”

Como que dinossauros feudais, a elite brasileira, ou melhor do Brasil, por vezes até com os ares de nobreza, parece ainda se ver como senhores da Colônia a serviço da sua raça ou pátria-mãe, contingenciados neste fim do Mundo, o Sul das Américas. Esse lugar incivilizado, onde só estão a salvo de nós selvagens, primeiro graças a Deus, e depois, graças aos seus muros, cercas e, claro, armas. A salvo de nós suas bestas humanas, sempre a espreitá-los, sempre prontos a assaltá-los em cada quebrada (farol ou esquina). Nós, outrora índios, negros e até seus conterrâneos (obvio, a plebe), todos amalgamados em nosso “pecado da miscigenação” chamado povo brasileiro.

Como dizem, não devemos generalizar, porque “sempre existem os bons e os maus”. Nem todos esses espíritos colonizadores devem ser racistas ou eugenistas, nem todos pensam que a pobreza é a decorrência natural de nossa inferioridade genética. Acreditem, deve haver até os que crêem que somos potencialmente humanos, exatamente como eles, ou quase.

Graças a Deus, dizem que entre os maus há alguns bons colonizadores, tais e quais jesuítas, repletos da boa-nova e vontade para ensinar e civilizar os “selvagens ignorantes” de outrora, “o povo pobre e ignorante” de hoje, a como sobreviver, viver e trabalhar. Almas pias, prontas para empregar esses “inocentes convertidos” em suas missões e engenhos.

Aos maus nada há a dizer, para eles não somos gente. Em seu mundo o homem bem sucedido o dono da vara, o colonizador, trabalha e conquista porque sua ambição e vontade são superiores. Nada que ele receba lhe é dado, tudo lhe pertence de fato e de direito. A terra, os homens que ele compra ou paga (tanto faz), o produto da natureza ou do trabalho, tudo é seu e dos seus. Como crianças crescidas de mais de 50 ou 60 anos que nunca receberam um “não” põem e dispõem de tudo e todos.

Não; essa nobreza feudal brasileira, a elite, não recebe esmolas, recebe incentivo; a elite não tem privilégios tem direitos sobretudo os adquiridos. A elite não ganha seu sustento, a elite recebe subvenção. A elite não tem contrapartidas, tem isenções. A elite não se capacita, se forma. Tudo isso tem até sua lógica, afinal de contas eles são os únicos homens livres e suas ações fruto da livre iniciativa. Não precisam ser cobrados nem vigiados, porque sabem o que o bom, sabem o que é certo, sabem o que é melhor para eles e os outros. Antes de tudo e todos: são eles que sabem.

Afinal quem não quer por o filho na escola, quem não quer vaciná-lo, que não quer ser pai de verdade é o povo pobre e ignorante. Com sua vagabundisse sempre latente, o colonizador, sabe que esse “tipo de gente” se receber alguma coisa de graça, se pudessem viver de rendimentos levariam a bancarrota e a fome todo o mundo produtivo. De certo que se tivessem acesso ao capital viveriam de especular sem levantar um dedo para trabalhar, parariam até de beber cachaça, para acabar com seu uísque.

Definitivamente não há o que discutir, são eles que sabem, e de certo como os fundadores da democracia de Atenas também sabiam, só é cidadão aquele que pode de acordo com sua vontade desfrutar de tempo livre, ou pelo menos de tempo livre suficiente para viver e determinar a vida política da cidade. Sabem que um homem tratado como um animal, obrigado a lutar pela sua sobrevivência jamais terá a chance de exercer sua cidadania.

Mas não, pensando bem, não deve ser esse “peixe” que eles querem que seja pescado.

Definitivamente, não há nada a se dizer àqueles que não vem como iguais seus semelhantes. Porém sem ironia talvez haja ainda algumas pessoas cuja piedade seja verdadeira expressão de humanidade, e sua compaixão não seja fruto da soberba, mas da mais pura preocupação e identificação com seu semelhante. A estas que talvez nunca sofreram a humilhação de não serem olhadas nem tratadas como iguais, que atentem para o fato que o ato de dar dinheiro recebe sabiamente muitos nomes diferentes.

O dinheiro que o filho recebe do pai não é esmola. O dinheiro que o voluntario recebe do doador não é esmola.

O dinheiro que a assistência estatal dá ao cidadão não é esmola. E sobretudo, o dinheiro que o cidadão vier a receber pelo simples fato de ser gente, por estar vivo ou melhor para não morrer por não ter o suficiente para se viver, não é esmola, é o direito a uma renda básica de cidadania.

Não estamos falando de sustentar os parasitas sociais que enriquecem às custas do trabalho alheio, não estamos falando de sustentar os pobres, estamos falando em garantir o básico para todos, para que independente das circunstancias do pais ou pessoais jamais nos vejamos obrigados a cair na barbárie, a como animais termos de lutar, as vezes ate uns contra os outros, para não morrermos de fome, frio ou doença.

Dizem algum que só merece a paga quem trabalha, mas o que é trabalho? é apenas o emprego que nos oferecem? Não trabalha a mãe, o pastor, o voluntario? Ou mesmo o artista ou inventor que ninguém manda trabalhar? Será que só trabalha quem tem patrão e obedece? Bem sabemos que nem sempre quem está empregado trabalha, ou que todo emprego é Trabalho.

Quem não tem a priori o básico não tem trabalho, tem sustento; não tem profissão, tem ocupação. O homem que não pode escolher o que quer fazer, produzir, não é livre, é escravo. Todo homem que é obrigado a trabalha para sobreviver, e mesmo o homem que é obrigado a trabalhar para manter seu padrão de vida em verdade é escravo. É escravo todo homem que não pode seguir sua vocação porque precisa sobreviver ou manter seu estatus. A pior das chibatas é feita da omissão.

Feliz do escravo que pelo menos pode ver sua prisão e sentir o peso de suas correntes, porque hoje somos todos “pretos da casa” felizes pelos favores do patrão. Feliz do homem que consegue trabalhar sem precisar esperar pagamento, pois em verdade este homem já recebeu sua paga: é um homem livre. Feliz quem colhe o fruto do trabalho de um homem verdadeiramente livre, pois recebe o fruto de um trabalho feito com boa vontade.

E que não me ofendam chamando de Marxista, porque não estou defendendo igualdade material, mas de direitos, real liberdade para todos. Igualdade material é premissa para uma ditadura da mediocridade só mantida por coerção e violência; pelo contrário a garantia desta liberdade material é a base para uma sociedade justa e pacifica, democrática e competitiva.

A propriedade privada não é nem nunca foi a raiz da exploração do homem pelo homem, mas sim a privação da propriedade. O homem que não tem detém os meios necessários a sua sobrevivência não é um homem livre, é instrumento dos homens que retém seus meios de sobrevivência. A Paz não reside no fim da luta de classes, mas no fim da luta pela sobrevivência, pois todo o progresso da humanidade se fez e se faz na produção do novo que logicamente não poderia ser antes necessário.

Um bilionário disse certa feita que se ele distribuísse igualmente todo seu dinheiro aos pobres esse dinheiro acabaria por retornar a sua mão. Pois desafio este homem que cumpra suas palavras se tiver coragem para acreditar nelas, advertindo-o porém, que nestas circunstancias a única falência possível se faz debaixo da terra.

Se ele ainda sim tiver essa coragem, descobrirá o que premio Nobel da Paz, Yunus não cansa de afirmar “Os pobres não são pobres por serem analfabetos ou pouco educados, mas porque não são podem conservar os lucros de seu trabalho — e isso por não terem acesso ao capital(…)”; “O fato de os pobres estarem vivos por si só prova essa capacidade. Eles não tem necessidade de que se lhes ensinem a sobreviver(…)”

Descobrirá enfim o que Euclides da Cunha observou nos sertões, que “o sertanejo é sobretudo um forte”. Em condições de privação similares as que Euclides da Cunha presenciou, hoje 1 sexto dos seres humanos tem sido capaz de sobreviver com menos de 4 reais por dia e não diria que os 300 mil seres humanos que morrem por ano, em decorrência da pobreza, a maioria crianças,sejam fracos.

Quem duvida do mérito e capacidade inata destas pessoas que sai do mundo do papai e da mamãe, do conforto de seus lares e vá viver no mundo real. Sai da casa grande e vá viver na senzala. e ai, da tese a pratica, venha nos contar quem foi que ensinou quem a pescar.

É muito fácil falar para não se dar o peixe, quando se é o dono da vara, da rede do barco e até do lago. Entre os hipócritas e gente como Yunus, Sen, Suplicy fico com estes, porque o negocio não é nem dar o peixe, nem ensinar a pescar, é dinheiro mesmo. Com dinheiro se comprar o peixe, vara, e quem sabe o barco, ou até mesmo um bom curso de pescaria, com dinheiro se podes até mesmo contratar os pescadores para trabalharem por você.

Ou será que o governo deveria parar de dar incentivo em dinheiro e passar a dar curso de capacitação também para os empresários?

Originally published at mvbrancaglione.blogspot.com.br on June 28, 2009.

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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