Este artigo é uma crítica política composta de três “cartas abertas”: a esquerda, direita e a todos. É importante saber que eles já vinham sendo escrito a alguns dias, e por ser longos estavam já ficando velhos. Mas dada a infinita capacidade do governo em se complicar, renovada está a pertinência da publicação da autocrítica agora.

Os artigos foram escritos durante o tresloucado “interdição psiquiátrica da Dilma” que fala da anarquia do Capitalismo de Estado no Brasil. Contudo, depois das manobras no ministério da Defesa, parece mesmo que nem as maiores loucuras conseguem superar o realismo absurdo reinante. E dada a gravidade que o decreto sugere, desde estupidez à paranoia, passando por descarada sabotagem e conspiração, mais incredulidade e incerteza que só fazem retroalimentar mais paranoia, conspiração e histeria ainda prefiro não ser nem irônico. Afinal mesmo que não seja sabotagem, autogolpes ou contragolpes contra eventuais impeachment, bem ou mal orquestrados, mesmo que não seja nada absolutamente nada, decretos não são lugar para trote. Isto não foi brincadeira e a pessoa que adotar a postura clássica do brasileiro de rir das suas desgraças, não poderá reclamar depois se for tomada mais uma vez por corno e idiota. Há de haver no mínimo explicações, e convincentes por favor. O “me engana que eu gosto” não vai funcionar.

Até eu que já pedi pra os militares não obedecerem e não atirem contra a população que protesta não consigo acreditar. Não quero acreditar em aparelhagem tão insensata, desastrada ou tão descarada. Prefiro dar o benefício da dúvida, supor por hora a estupidez de subalternos. Não sei. Sinceramente, o que foi que aconteceu? O que é que vocês estavam pensando? Será que tem gente dentro do governo com desejos inconscientes e reprimidos de uma volta da ditadura? Desejos sadomasoquistas de derrubar ou ser derrubado?

E não venham cortar a cabeça dos mensageiros. Há despostas que pensam que quem alerta é inimigo, e quem se cala e esconde não trai. Calar ou enterrar a cabeça na terra, não faz as pessoas não verem o que você não vê, não quer ver ou tem raiva de quem fala. Esclarecimentos urgentes sobre o episódio, por favor. E sem julgar as pessoas por sua medida. Não subestimem pela enésima vez a inteligência do povo.

Ou não? Será que também estou ficando paranoico? Será que é tudo o contrário? Dizem que, um perfeito idiota mesmo se amarrado por um tempo infinito a um piano não é capaz de compor uma sinfonia. Pode até ser verdade, mas a de convir comigo é impossível que ele não acerte nada, nem que seja um único acorde ao acaso É, talvez o idiota maior seja eu que subestimo a inteligência dos lobos: não há esperteza maior do que aquele que se disfarça de tolo ou pastor para devorar as ovelhas. Não sei quanto a você, mas cada vez mais uma frase de Nelson Rodrigues não me sai da cabeça, algo do tipo tanta merda assim não se improvisa.

Conspirações? Onde? Quem? Imagina! Melhor deixar para lá. Como pude duvidar da honestidade e sanidade deles. Quem eu penso que sou? Com quem eu penso que estou falando para cobrar explicações? Esquece. Eles não são loucos, são santos. Eu sou louco, por não saber nem depois de velho me por no meu devido lugar. Melhor eu voltar pro meu mundinho das minhas cartinhas abertas: Eis a terceira.

CARTA ABERTA A TODOS

Dilma é o oposto de Lula. E o que a pequena burguesia odeia em Dilma não é o mesmo que ela odeia em Lula. Eles não odeiam ela no que ela é diferente deles, mas naquilo que ela é absolutamente igual. Eles odeiam Dilma porque ela é uma caricatura da pequena burguesia de gerentes, diretores e doutos incultos. Olhar para ela é como ter que encarar uma paródia da sua própria impaciência, arrogância, intolerância, prepotência. Seu pequeno poder é um escárnio de todos a sua pregação de superioridade sobre seus subalternos. Ver sua infinita incapacidade de reconhecer erros, sua mania de culpar subordinados, sua imensa tendência a centralizar tudo sem conseguir controlar nada, é como ver uma grande sátira da sua moral corporativa administrativa, uma piada de todos os burocratas e tecnocratas encarnando numa só comandante cheio de tiques tecnicistas e ignorância mal dissimulada que não consegue se reconhecer nem diante de um espelho. Dilma é inverossímil no papel que a colocaram. E a raiva e vergonha que sentem dela é a que não conseguem sentir deles mesmos.

Jânio Quadros dizia que ser corintiano era ser brasileiro duas vezes. Ser petista então é ser brasileiro ao quadrado, e dilmista ao cubo. Somos todos petistas, porque somos sempre vítimas, nunca erramos, e ai de quem falar o contrário. Não temos complexo de vira-lata, somos bipolares, disfarçamos nosso complexos de inferioridade com tendências autoritária quase megalômanas. Não? Você não é assim? Ok, então você é uma pessoa aberta a autocríticas sobre o Brasil? Então escute:

Todos sabem (ou pensam que sabem) que Lula ganhou o Brasil com o bolsa-família. Mas como ele poderia ter ganho o Brasil distribuindo dinheiro se o povo não fosse pobre? Lula não ganhou nada, Lula tomou posse. O social no Brasil era tratado exatamente como a questão latifundiária, grandes áreas cercadas e privadas por poucas famílias, mas completamente improdutivas. Lula e o PT não precisaram fazer nada além de ocupar um espaço público propositadamente deixado improdutivo para a especulação política. Lula não precisou derrubar nada, porque não havia nada. Os donos da terra não foram capazes de proteger seus domínios e interesses do populismo paternalista garantindo o mais básico do básico para seus dominados: o mínimo vital. O Lula não é apenas mais esperto do que nossas “zelites” letradas. Ele sem solidariedade nenhuma, dando com uma mão o pão para exigir a obediência em contrapartida com a outra, conseguiu tomar o que eles com anos de estudo não conseguiram defender. Com trocados, tomou o poder, porque no Brasil quem tinha muito mais do que trocados nem isso foi capaz de dar para receber.

Não somos nem nunca fomos um país pobre. Somos um país desigual. E se não somos desenvolvidos, o que nos falta portanto não é riqueza mas inteligência para defender nossos interesses. O egoísmo extremo, a falta de solidariedade, a esperteza burra e carnívora que devora os espertos, e os devora entre si não é apenas imoral ela é absolutamente estupida. Lula não se elegeu com o Bolsa-Família porque só tem gente ignorante no Brasil, qualquer populista conseguiria um pouco menos fora das bolhas centrais do poder, um pouco mais por dentro da realidade periférica do país, se pudesse venceria aqueles que se consideram a nata da intelectualidade de direita ou esquerda, cega para o óbvio que sem o necessário para se viver o ser humano tem que vender o rabo, senão para patrão para o governo.

Tocqueville dizia que o que deu origem ao que um dia foi lá atrás a imperfeita democracia norte-americana foi um tipo especial de inteligência, não a egoísta pseudo-libertário randiana tão na moda, mas uma inteligência liberal clássica mesmo, a qual chamou de “inteligência altruísta”. Uma inteligência que não era nem patriótica nem escolarizadora, mas simplesmente solidária. Inteligência responsável pela formação de uma sociedade civil forte e proativa. O anarquista Kropotkin viu este mesmo altruísmo como fruto de nenhuma cultura ou nacionalidade, mas da inteligência humana, do desenvolvimento do nosso instinto natural de ajuda mútua, um princípio solidário fundamental não apenas a espécie e evolução humana, mas a vida.

E se tanto o pensador liberal quanto o anarquista estão certos, o que nos faltou nunca foi gene ou cultura, mas liberdade para desenvolver uma sociedade civil, liberdade para desenvolver nossa inteligência altruísta e ajuda mútua sem um estado e uma oligarquia tão patrimonialistas e monopolistas. Nossa cultura cartorial burocrática é apenas o sintoma da idolatria implantada por todos nossos colonizadores: um culto a divina trindade do pai-pátria-patrão que conseguiu atrofiar nosso instinto natural solidário e toda livre iniciativa até o limite insuportável do mito da falsa cordialidade e da subverniência. E não estou falando de gente pobre não, estou falando de gente rica e culta que se preciso for chupa até a ferida do rei para manter seus títulos e privilégios. Aliás, dizer que falta inteligência altruísta para a elite brasileira é apenas uma forma elegante de dizer que ela é estupida demais para ganhar compartilhando. O individualismo da nossa sociedade não é egoísta, é obtuso. E todo esse poder e corrupção, clientelismo, ocupa o vazio de uma sociedade civil.

Acredite em mim, não permite que ninguém, ninguém mesmo use da violência nem para tirar nem para impor propriedades, proíba de fato toda forma de violência e coerção inclusive estatal, e você verá não quantos bandidos pequenos vão desaparecer, mas os grandes. Por isso, senhores, se são incapazes de apreender com seus próprios erros aprendam com os dos governantes. Quem é burro não é o povo, é quem tem dinheiro. Custaria muito menos inclusive economicamente para quem é rico pagar uma Renda Básica do próprio bolso do que pagar para ver a ascensão do populismo. E custaria menos ainda se mandassem seus políticos pau mandados tornarem essa Renda Básica um direito constitucional de fato. Mas ele não tem medo do Lula, ele tem medo do povo livre. E não por causa da vagabundagem, mas por interesses inconfessáveis: A verdadeira pergunta que eles não têm coragem de fazer é: mas se todo mundo puder trabalhar apenas para si, nas costas de quem eu vou ganhar o meu? E nesta covardia, neste crime é que cresce o parasita da política clientelista e assistencialista. Devolva o direito natural de cada pessoa ao dividendo sobre suas propriedades públicas e naturais, e todos usurpadores políticos e econômicos cairão. Devolva o direito igual de decisão das pessoas sobre o que é comum e a ordem e justiça se restituirão, não as fictícias, mas as naturais.

Isto é o que eu defendo, uma Democracia Plena: uma Renda Básica libertária e constitucional somada a democracia direta digital. Nesta ordem. Até porque a isonomia na participação política exige a garantia de direitos econômicos básicos e liberdades plenas e associação, senão quem tem mais recursos econômicos terá mais poder político, não por acaso exatamente como é agora.

Governe-se.

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