Ao Vencedor as Batatas: o juízo, a loucura e a ideologia

O juiz lunático e o lavrador sob a luz da Lua

Image for post
Image for post

Imagina, por exemplo, que eu não tinha nascido, continuou o Quincas Borba; é positivo que não teria agora o prazer de conversar contigo, comer esta batata, ir ao teatro, e para tudo dizer numa só palavra: viver. Nota que eu não faço do homem um simples veículo de Humanitas; não, ele é ao mesmo tempo veículo, cocheiro e passageiro; ele é o próprio Humanitas reduzido; daí a necessidade de adorar-se a si próprio. Queres uma prova da superioridade do meu sistema? Contempla a inveja. Não há moralista grego ou turco, cristão ou muçulmano, que não troveje contra o sentimento da inveja. O acordo é universal, desde os campos da Iduméia até o alto da Tijuca. Ora bem; abre mão dos velhos preconceitos, esquece as retóricas rafadas, e estuda a inveja, esse sentimento tão sutil e tão nobre. Sendo cada homem uma redução de Humanitas, é claro que nenhum homem é fundamentalmente oposto a outro homem, quaisquer que sejam as aparências contrárias. Assim, por exemplo, o algoz que executa o condenado pode excitar o vão clamor dos poetas; mas substancialmente é Humanitas que corrige em Humanitas uma infração da lei de Humanitas. O mesmo direi do indivíduo que estripa a outro; é uma manifestação da força de Humanitas. Nada obsta (e há exemplos) que ele seja igualmente estripado. Se entendeste bem, facilmente compreenderás que a inveja não é senão uma admiração que luta, e sendo a luta a grande função do gênero humano, todos os sentimentos belicosos são os mais adequados à sua felicidade. Daí vem que a inveja é uma virtude.

Para que negá-lo? eu estava estupefato. A clareza da exposição, a lógica dos princípios, o rigor das conseqüências, tudo isso parecia superiormente grande, e foi-me preciso suspender a conversa por alguns minutos, enquanto digeria a filosofia nova. Quincas Borba mal podia encobrir a satisfação do triunfo. Tinha uma asa de frango no prato, e trincava-a com filosófica serenidade. Eu fiz-lhe ainda algumas objeções, mas tão frouxas, que ele não gastou muito tempo em destruí-las.

— Para entender bem o meu sistema, concluiu ele, importa não esquecer nunca o princípio universal, repartido e resumido em cada homem. Olha: a guerra, que parece uma calamidade, é uma operação conveniente, como se disséssemos o estalar dos dedos de Humanitas; a fome (e ele chupava filosoficamente a asa do frango), a fome é uma prova a que Humanitas submete a própria víscera. Mas eu não quero outro documento da sublimidade do meu sistema, senão este mesmo frango. Nutriu-se de milho, que foi plantado por um africano, suponhamos, importado de Angola. Nasceu esse africano, cresceu, foi vendido; um navio o trouxe, um navio construído de madeira cortada no mato por dez ou doze homens, levado por velas, que oito ou dez homens teceram, sem contar a cordoalha e outras partes do aparelho náutico. Assim, este frango, que eu almocei agora mesmo, é o resultado de uma multidão de esforços e lutas, executados com o único fim de dar mate ao meu apetite. Entre o queijo e o café, demonstrou-me Quincas Borba que o seu sistema era a destruição da dor. A dor, segundo o Humanitismo, é uma pura ilusão. Quando a criança é ameaçada por um pau, antes mesmo de ter sido espancada, fecha os olhos e treme; essa predisposição, é que constitui a base da ilusão humana, herdada e transmitida. Não basta certamente a adoção do sistema para acabar logo com a dor, mas é indispensável; o resto é a natural evolução das coisas. Uma vez que o homem se compenetre bem de que ele é o próprio Humanitas, não tem mais do que remontar o pensamento à substância original para obstar qualquer sensação dolorosa. A evolução, porém, é tão profunda, que mal se lhe podem assinar alguns milhares de anos. Quincas Borba leu-me daí a dias a sua grande obra. Eram quatro volumes manuscritos, de cem páginas cada um, com letra miúda e citações latinas. O último volume compunha-se de um tratado político, fundado no Humanitismo; era talvez a parte mais enfadonha do sistema, posto que concebida com um formidável rigor de lógica.

Reorganizada a sociedade pelo método dele, nem por isso ficavam eliminadas a guerra, a insurreição, o simples murro, a facada anônima, a miséria, a fome, as doenças; mas sendo esses supostos flagelos verdadeiros equívocos do entendimento, porque não passariam de movimentos externos da substância interior, destinados a não influir sobre o homem, senão como simples quebra da monotonia universal, claro estava que a sua existência não impediria a felicidade humana. Mas ainda quando tais flagelos (o que era radicalmente falso) correspondessem no futuro à concepção acanhada de antigos tempos, nem por isso ficava destruído o sistema, e por dois motivos: 1.° porque sendo Humanitas a substância criadora e absoluta, cada indivíduo deveria achar a maior delícia do mundo em sacrificar-se ao princípio de que descende; 2.° porque, ainda assim, não diminuiria o poder espiritual do homem sobre a Terra, inventada unicamente para seu recreio dele, como as estrelas, as brisas, as tâmaras e o ruibarbo. Pangloss, dizia-me ele ao fechar o livro, não era tão tolo como o pintou Voltaire.- Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis

Da fabricação dos juízos e juízes, reis e realidades e suas loucuras introjetadas e projetadas

Um dos mais interessantes mandamentos cristãos é o não julgarás. É muito difícil seguir esse mandamento, porque todo pensamento ocidental parece funcionar como um tribunal entre o bem e o mal, entre o verdadeiro e o falso. Há até quem use a palavra julgamento como se fosse sinônimo de pensamento, imagine que pessoa maravilhosa é esta se isto não for meramente um vicio de linguagem. Se ele de fato se comporta como monocrata ambulante. Você conhece vários, porque basicamente a cultura da hierarquia na qual vivemos fabrica seres para serem plugados nessa ordem piramidal: macho pra caralho com quem não pode nada, putinho de tudo com quem caga na sua cabeça. O poder e a violência são antes de tudo covardes. Mas isso é o assunto para um outro artigo.

Quero pegar o gancho do julgamento do juiz -do trabalho! (?)- que foi condenado por adiar a audiência do lavrador que usava chinelos.

Antes de mais nada. Nem interessa o nome do infeliz para critica. Porque a intenção deste artigo não é arrumar um bode expiatório, principalmente nas menores instancias do poder. Como se sabe bodes expiatórios não funcionam nem nas instancias superiores. O que quero apontar usando esse caso, é a demência da ideologia, irmã gêmea da idolatria e que não acomete apenas o infeliz magistrado, mas toda a nossa cultura de culto (um pleonasmo) de poder.

Para começar fiz questão de assinalar a natureza ritualística e mitológica das culturas, porque temos uma visão da cultura apenas como o repositório de hábitos, crenças, comportamentos, moral, conhecimentos de uma comunidade, imune as ideologias, ou mais precisamente apenas uma plataforma ou nome desse complexo ou rede epistemológica. Contudo como bem sabemos a arquitetura dessas redes não é neutra. Não é apenas um conjunto de nexos e conexões, mas a forma como essas ideias são compostas de acordo com a predisposição desse sistema altera não apenas o significado de cada um dos elementos que a compõe, altera toda a cultura. Talvez muito do antes do homem dominar o processo de preparar o solo a terra para o plantio e cultivá-la. Ele aprendeu a preparar outros outros homens, aprendeu a implantar suas ideias e conhecimentos nos outros. E não foi a cultura que assimilou o processo de produção e reprodução assistida pela homem das coisas naturais e depois artificiais, mas sim esse processo que se compôs a partir do domínio desse cultivo de formas de pensamento que não é meramente a simples transmissão de ideias ou sinais.

Pode-se dizer neste sentido que a política como arte de dominação e alienação do homem pelo homem, se efetua não pela guerra, mas pela formação dos exércitos, pelo cultivo de ideias especialmente em crianças para a colheita de adultos fieis e servis e infantilizados. Não é a toa que escolarização e aculturamento andem de mão dadas e consequentemente os movimentos emancipatórios e libertários tenham a desescolarização como instrumento fundamental da empoderamento e libertação dos alienados.

Mas a desescolarização não é suficiente para a humanização e cosmopolitização. Porque a educação para a servilidade é apenas um dos instrumentos pelo qual o sistema de domesticação humana se processa. Tanto que antes das escolas, já havia o homo domesticus. E mesmo sem elas, ele prevalecerá fanático por ídolos e ideologias de poder e violência enquanto a cultura que sustenta a educação servil estiver presente como mentalidade. Veja que nem mesmo um processo de desculturalização, de rompendo como os ritos e costumes como valores supremos, superiores as direitos naturais e universais a vida e liberdade libertária o homem. Porque enquanto a mentalidade, a inconsciência coletiva for a mesma, vida e liberdade serão tomadas primeiro por ícones, depois por ídolos e no final como base a mesmo ideologia que sustentará a idolatria em seu nome.

A questão não é a concepção sobre a qual se constrói uma cultura, essa cultura sempre pode decair em culto fanático independente do objeto que é tomado por ícone: mesmo quando não é o poder e violência, na prática ela se perverte nestes ritos. E novamente estão lá as famílias a idolatrar e sacrificar suas crianças aos pés do deus da morte e da guerra agora com outros nomes e supostos significados. Chame seus ídolos de Moloch ou Baal, de Deus ou Estado, de Todo Poderoso ou até mesmo Liberdade a ideologia é a mesma. Os tempos, o nome os ritos e os dogmas são outros, mas literalmente na prática o culto é exatamente o mesmo.

A piscose é a mesma. As capacidades de racionalização de aritculação das ideais as tecnologias podem não ser a mesma, mas a mentalidade, a tara a mesma. Faça um abajur de gente ou cão de duas cabeças em nome da ciência, ou em nome de Satã ou jesuis, corte, torture, mate, pratique o sacrifício dos seres humanos o que você tem é gente dominada por uma inconscienciosa coletiva insana e perversa e pervertida. Gente doente que só não é considerada como tal porque banalizaram a vida institucionalizada como esse hospício do holocausto toleráveis dependendo da ordem e cultura vigente.

É por isso que a ideia de espirito do tempo, os zeitgeists são uma armadilha. Tempo não tem espirito quem tem espirito, anima e força de vontade para materialização e transformação do mundo para o bem e para o mal é são os entes que compõe o universo como seus espaço-tempo. È aquele famosa piada (de nerd da filosofia) sobre Santo Augostinho, quando perguntaram para ele o que Deus fazia antes de criar o mundo. A qual ele teria respondido “preparava o inferno para quem faz esse tipo de pergunta.” Hoje após a relatividade einsteniana alguns cientistas tem respostas um pouco menos autoritárias e ameaçadoras, mas que dizem mais ou menos a mesma coisa: o tempo é uma propriedade do universo, das coisas e não as coisas um elemento dentro ou parte do espaço-tempo. O matéria e suas forças elementares não altera “a forma” ele a constitui como propriedade da sua existência singular e portanto relativa.

Não dominamos o pensamento simbólico, não dominamos nossas representações do universo. E por isso constamento somos assombrados pelos fantasmas que nós mesmos criamos e que tomam sim formas bastante reais quando emprestamento nossa força e energia seja como arquétipos que povoam nossa inconsciência. sejam como monstros construídos por legiões de insanos que se comportam como os braços e pernas sem vida própria deste delírios encarnados coletivamente.

Hoje o fascismo e apologia da violência chocam, mas em breve quando ela for banalizada como a própria violência estatal, as guerras, e a fome, quando tudo isso for naturalizado por força não apenas da pregação nas escolas, igrejas empresas e púlpitos governamentais, quando tudo isso for repetido a exaustação, acharemos tão normal e tolerável esses crimes contra a humanidade quanto já achamos os que estão em curso. E se ao invés de pelo de rato na maionese passarmos a achar pelo de gente ainda sim vamos estaremos preocupados com isso. Porque nosso corpo pode habitar esse mundo real, mas nossa consciência quando nos tornamos adultos habita o das representação simbólica, onde não existem fatos que não se deem sem a intermediação dessa inconsciência coletiva, essa fábrica de juízos e loucuras.

Não é a toa que as religiões em suas origens proíbam a idolatria e consequentemente a representação simbólica dos deuses e divindades, santos e profetas para prevenir que sejam tomados por ídolos. Na tradição judaico-cristã deus era o deus seu nome e no centro do templo de Salomão não havia senão o vazio. Na tradição muçulmana até hoje a representação iconográfica do profeta ou de deus é uma blasfêmia. Claro que não funcionou. Como sabemos pela história inclusive recente. Pelo contrário nenhum dos dois dogmas impediu a idolatria, pelo contrário foram eles próprios usados como codex para justificar as barbaridades cometidas em nome do sagrado inclusive a não-idolatria.

Por que?

O signo que não promove a religação com os fenômenos, não é um signo, mas uma abstração, que aprofunda ainda mais o estado de inconsciência do seu mundo como representação. Ao invés de promover o acesso ao desconhecido ou permitir a materialização das inovações, ou a rememoração do que não está mais presente. O signo e o mundo simbólico passa a ser tomado como a coisa que basta em si mesma, ao mesmo tempo uma fantasia e perversão na exata medida que deixa de ser um mero construto mental para compressão e projeção da realidade não-presente ou insensorial e passa a ser tomada como o real absoluto. E ao invés de ampliar a compreensão e a ligação interpessoal para além do presente e o sensorial passa a desempenhar o papel oposto enquanto sua falsificação ideológica.

Divinizar ou demonizar o pensamento simbólico ou ausência dele. É ignorar que o nexo como fenômeno não é produzido pelo significado atribuído das coisas, mas justamente o contrário, o significado das coisas que se constitui pela ligação do concepção ao nexo, seja ela simbólica ou intuitiva. A simbólico é apenas uma forma de cognição que completamente isolada de todo o complexo sensorial, emocional e intelectivo que compõe a cognição compõe essa afeção da pisque, ou o grande mal da civilização: sua normose, a loucura tomada por normalidade quando a cosmovisão passa a ser reduzida a essa abstração pobre e não raro pervertida do sentido natural e original.

A reificação é portanto nada mais do que a loucura que a ideologia projetada sobre o mundo. Porque não é a suposição dos seres como coisas, mas rigorosamente da ideia das coisas como seres ou nos estágios mais avançados como se fossem seres. Projetando sua ideia como realidade como absoluto no lugar da diversidade.

Pobre do homem que acredita na pessoa, das pessoas das pessoas jurídicas porque perdeu completamente a noção da anima das coisa. Vive como paródia de si mesmo, sem entender que aquela outra piada que pobre é maluco, rico é execêntrico e maluco com seguidores mais doidos que ele é salvador desse ou pior do outro mundo.

E a porra do juiz com isso? Por que é que eu peguei o juiz para “cristo”?

De juiz e louco todo mundo tem um pouco

Image for post

Vamos as palavras do magistrado:

“realizar esta audiência, tendo em vista que o reclamante compareceu em Juízo trajando chinelo de dedos, calçado incompatível com a dignidade do Poder Judiciário”.

A “dignidade do Poder Judiciário”. Repito: a “dignidade do Poder Judiciário”. As emoções da minha coca-cola, a empafia da minha cueca e as vozes do amiguinho imaginário Johnny, meu dedinho. O baguío é doido, véio. E sabe porque é doído? Porque o figura acredita mesmo nisto e sóbrio. Tem doido que acredita mesmo nas dignidades das togas e perucas, no poder das coroas e cetros. No olho mágico de Thundera. Seria engraçado se não trágico e perigoso. Porque para provar o poder que suas entidades existem e tem propriedades ele é capaz de dar um ou mandar seus doidos de dar uma porretada em nome da dignidade do sua entidade e propriedades ficitíneas que ele atribui a sua fantasia emprestadas das coisas reais, estas sim dotadas dessa propriedade e demanda por dignidade como o lavrador.

As criticas que li a respeito da matéria, se centram no fato do juiz apesar de ser um magistrado do trabalho não ter a menor noção de qual são as condição de vida e trabalho do trabalhador. Um tipico tecnocrata burguês alienado, do tipo: “não tem pão come brioche”. Mas quem dera fosse só isso. Ou se o grande mal da nossa sociedade fosse apenas a alienação e preconceitos declarados ou inconscientes.

Image for post
Image for post

O juiz é um esquizofrênico. Ou melhor mais um entre tantos.

Mas louco mesmo somos nós que entregamos e pagamos as armas e forças armadas a esses insanos e seus seguidores dos seus cultos e ritos.

Se ele fosse um mendigo a se indignar porque as transeuntes adentram o seu reino imaginário seria objeto de riso pena ou mais provável perseguição, até porque os outros donos das fronteiras do imaginário não curtem competição.

A visão deste loucos indigna quando não enfurece esses monarca, porque a sua loucura ainda que inconsciente expõe e a deles, literalmente ferindo a sua dignidade da dua realidade como realeza. Afinal não é coincidência que as duas palavras tenham a mesma raiz.

Quando um adulto sem noção interrompe a brincadeira das crianças, as suas representações para explicar que tudo aquilo não passa de uma representação, e a criança olha com aquela cara de “que esse idiota está falando?” ou “quem disse que eu não sei que meus soldadinhos de chumbo não são gente?”, esse adulto esquizofrênico não está conversando com a criança mais com as projeções do superego que por acaso e infelicidade da criança caíram nela. Que bom seria se ele fosse mais doido e conversasse com paredes, ou acredita na dignidade dos duendes verdes, ou bandeiras dos ducados dos Reinos da Fubulândia ou do Corinthians. Ainda sim ele poderia ser tornar um louco perigoso, mas talvez não com tantos outros fanáticos seguindo suas manias, vestidos e investidos da mesma dignidade, enrolados na mesma bandeira.

Não é a toa que cada vez tanta gente imbecilizada odeie ver crianças brincando, e queira introduzi-las o mais cedo possível em seus jogos, aquilo fere a sua dignidade, ou traduzindo para fora do seu mundo simbólico: a brincadeira da criança como um artista performático transtorna sua pisque perturba.

Sua preocupação como o comportamento ou destino da criança, lavrador ou o mendigo, não existe. O que ele quer é compulsivamente as coisas nos devidos lugares dentro da sua fantasia de mundo. Porque sem ela, a sua existência já não tem mais significado.

Ele vive dentro de um mundo simbólico tão apartado da realidade que não é um hipócrita, mas de fato alguém que acredita nas suas loucuras pelo simples fato que é capaz de representá-las mesmo que a força. Imagine o dia que os publicitários ou os CEOs de empresas passarem a acreditar que suas marcas tem mesmo “personalidade”. Que suas corporações tem mesmo comportamento. Pois bem, meus amigos elas terão, pela força volitiva emprestada dos malucos que emprestarem sua energia e sua prestarem sua vida para isso. Essa é a diferença entre o mendigo louco que se julga rei e o juiz que se faz rei: a quantidade de malucos dispostos a brigar por e contra quem não vê as seus mantos invisíveis.

Ah, Machado de Assis…

“Foi a comadre do Rubião, que o agasalhou e mais ao cachorro, vendo-os passar defronte da porta. Rubião conheceu-a, aceitou o abrigo e o almoço. — Mas que é isso, seu compadre? Como foi que chegou assim? Sua roupa está toda molhada. Vou dar-lhe umas calças de meu sobrinho. Rubião tinha febre. Comeu pouco e sem vontade. A comadre pediu-lhe contas da vida que passara na Corte, ao que ele respondeu que levaria muito tempo, e só a posteridade a acabaria. Os sobrinhos de seu sobrinho, concluiu ele magnificamente, é que hão de ver-me em toda a minha glória. Começou, porém, um resumo. No fim de dez minutos, a comadre não entendia nada, tão desconcertados eram os fatos e os conceitos; mais cinco minutos, entrou a sentir medo. Quando os minutos chegaram a vinte, pediu licença e foi a uma vizinha dizer que Rubião parecia ter virado o juízo. Voltou com ela e um irmão, que se demorou pouco tempo e saiu a espalhar a nova. Vieram vindo outras pessoas, às duas e às quatro, e, antes de uma hora, muita gente espiava da rua. — Ao vencedor, as batatas! — bradava Rubião aos curiosos. Aqui estou imperador! Ao vencedor, as batatas! Esta palavra obscura e incompleta era repetida na rua, examinada, sem que lhe dessem com o sentido. Alguns antigos desafetos do Rubião iam entrando, sem cerimônia, para gozá-lo melhor; e diziam à comadre que não lhe convinha ficar com um doido em casa, era perigoso; devia mandá-lo para a cadeia, até que a autoridade o remetesse para outra parte. Pessoa mais compassiva lembrou a conveniência de chamar o doutor. — Doutor para quê? acudiu um dos primeiros. Este homem está maluco. — Talvez seja delírio de febre; já viu como está quente? Angélica, animada por tantas pessoas, tomou-lhe o pulso, e achou-o febril. Mandou vir o médico, — o mesmo que tratara o finado Quincas Borba. Rubião conheceu-o também; e respondeu-lhe que não era nada. Capturara o rei da Prússia, não sabendo ainda se o mandaria fuzilar ou não; era certo, porém, que exigiria uma indenização pecuniária enorme, — cinco bilhões de francos. — Ao vencedor, as batatas! concluiu rindo. (…)

Poucos dias depois morreu… Não morreu súdito nem vencido. Antes de principiar a agonia, que foi curta, pôs a coroa na cabeça, — uma coroa que não era, ao menos, um chapéu velho ou uma bacia, onde os espectadores palpassem a ilusão. Não, senhor; ele pegou em nada, levantou nada e cingiu nada; só ele via a insígnia imperial, pesada de ouro, rútila de brilhantes e outras pedras preciosas. O esforço que fizera para erguer meio corpo não durou muito; o corpo caiu outra vez; o rosto conservou porventura uma expressão gloriosa. — Guardem a minha coroa, murmurou. Ao vencedor… A cara ficou séria, porque a morte é séria; dois minutos de agonia, um trejeito horrível, e estava assinada a abdicação.” — Quincas Borba, Machado de Assis

Pobre juiz alienista. Mas na hierarquia mundial dos insanos e suas insanidades estatizadas e subsidiadas ele no fundo é um dos menores.

Image for post
Image for post

Dizem que os loucos vivem sob o signo da Lua, são Lunáticos… que injustiça com a Lua. A Lua não é um símbolo, e conhecer o signo da Lua não leva ninguém a loucura. Pelo contrário dominar os signos que compõe o mundo das ideias ao invés de ser dominados por suas próprias invenções, é o caminho da libertação do ente que tomou ciência que quando olha para lua não olha para o astro, mas para o amigo nem tão imaginário da sua alma.

Contracultura, antipsiquiatria e negação dos modelos tradicionais de tratamento

Diante das tantas atrocidades cometidas pelos agentes do saber médico-psiquiátrico, um grupo de psiquiatras contrários aos tratamentos convencionais começou a questionar a validade desse saber. Foi nesse contexto que surgiu a antipsiquiatria, em defesa das vítimas da incompreensão de outrem e dos diagnósticos equivocados. Em defesa do ser humano e em respeito a seu sofrimento psíquico, a antipsiquiatria configurou-se numa corrente cuja característica principal, além de negar a psiquiatria tradicional, era promover formas alternativas de tratamento do sofrimento psíquico. Supunha a inexistência de doenças mentais e acreditava que a nosologia médica psiquiátrica não passava de um conjunto de rótulos apropriados apenas para invalidar os sujeitos. A antipsiquiatria, portanto, pregava o fechamento dos estabelecimentos médicos psiquiátricos alegando que as práticas de assistência ao doente mental, naquele contexto, pautavam-se pela violência constante e desumana. Em seu Dicionário de psicanálise, a psicanalista Elizabeth Roudinesco (1998, p.25–26) fornece a seguinte definição desse movimento:

“Embora o termo antipsiquiatria tenha sido inventado por David Cooper num contexto muito preciso, ele serviu para designar um movimento político de contestação radical do saber psiquiátrico, desenvolvido entre 1955 e 1975 na maioria dos grandes países em que se haviam implantado a psiquiatria e a psicanálise: na Grã-Bretanha, com Ronald Laing e David Cooper; na Itália, com Franco Basaglia; e nos Estados Unidos, com as comunidades terapêuticas, os trabalhos de Thomas Szasz e a escola de Palo Alto de Gregory Bateson.”

Segundo o psicólogo João Francisco Duarte Júnior (1983), a antipsiquiatria decorreu de estudos revolucionários sobre o comportamento humano. Reiterando as ideias de Roudinesco, Duarte Júnior mostra que ela surgiu no final da década de 1940 e se desenvolveu na seguinte, inicialmente nos EUA (Gregory Bateson) e depois na Europa (David Cooper, Franco Basaglia e Ronald David Laing).

Em poucas palavras, a antipsiquiatria negava praticamente tudo o que a psiquiatria tradicional afirmava a respeito da doença mental. Por isso mesmo, o fundamento da ideologia antipsiquiátrica era a total extinção dos manicômios e a eliminação da própria ideia de doença mental. Não obstante, nunca houve verdadeira unidade nesse movimento. Embora tenha sido iniciada por David Cooper, psiquiatra sul-africano radicado na Inglaterra, as ideias e os itinerários de cada um de seus pensadores devem ser estudados em separado. Além do mais, foi justamente por constituir revolta e insurreição contra as práticas exercidas pela psiquiatria e psicanálise tradicionais que a antipsiquiatria teve, ao mesmo tempo, duração efêmera e impacto considerável no mundo todo. Segundo Roudinesco (1998, p.26): “Ela foi uma espécie de utopia: a da possível transformação da loucura num estilo de vida, numa viagem, num modo de ser diferente e de estar do outro lado da razão, como haviam definido Arthur Rimbaud (1854–1891) e, depois dele, o movimento surrealista. Por isso é que se interessou essencialmente pela esquizofrenia, isto é, por essa grande forma de loucura que havia fascinado o século inteiro …”.

Por defender direitos previstos na Declaração Universal dos Direitos Humanos, publicada em 1948, e a garantia de mais liberdade, sua ideologia propagou-se por áreas afins, encontrando adeptos nos movimentos de contestação dos anos de 1960 e 1970. Seus conceitos encontraram espaço também no Brasil, em um contexto histórico marcado pela política autoritária dos militares no poder, o que ser explicado pelo fato de a antipsiquiatria analisar a fabricação da loucura do ponto de vista político, como sugere Duarte Júnior (1983, p.31): “A antipsiquiatria acredita que a loucura é fabricada por razões e mecanismos políticos e propõe soluções coerentes e possíveis, porém ameaçadoras à ordem estabelecida. Os antipsiquiatras sabem que a existência do que se convencionou chamar de ‘loucura’ é utilizada pelos sistemas autoritários como forma de perseguir seus heréticos e contestadores”.

Quanto ao tratamento, a grande crítica da nova corrente dizia respeito à tendência, própria da psiquiatria e da psicologia, de isolar o indivíduo das relações sociais. Para os pensadores Laing e Cooper, seria justamente o procedimento inverso que devia ser buscado. Os comportamentos considerados ‘doentios’ de um indivíduo deveriam ser compreendidos a partir das relações que ele mantém com os outros. Nesse sentido, seria mais correto, segundo a antipsiquiatria, dizer que uma relação está doentia do que qualificar como doente o indivíduo que participa dessa relação. Os sintomas da doença mental representariam, assim, uma tentativa, por parte do indivíduo, de evitar o desprazer advindo dessas relações. Ignorar o mundo em que esse indivíduo se insere e do qual faz parte é descartar suas possibilidades de reajustamento. Vivemos em constantes relações, caracterizadas pelo exercício permanente de poder no qual são forjados significados e definidos valores, na tentativa de estabelecer e manter uma certa ordem. A desestruturação de uma psique, digamos assim, revela a existência de algo maior, social, que se encontra também desarranjado.

Em resumo, para a antipsiquiatria os sintomas manifestados por um indivíduo têm origem nas relações que ele mantém; relações ‘doentias’, portanto, se refletem nos indivíduos, que então passam a ser considerados, eles próprios, ‘doentes’. A idéia-chave é, pois, a de relação. O pressuposto é que não há seres humanos isolados, mas apenas em relação com os outros; nossa vida se dá e se define a partir dos relacionamentos que mantemos nos diferentes grupos sociais a que pertencemos. Por isso, tudo o que se passa com uma pessoa não se passa apenas com ela; se estende àqueles com os quais ela mantém algum tipo de relação. Daí a preocupação em focalizar o caráter político da vida humana. Todavia, é preciso considerar que, de acordo com a antipsiquiatria, a ideia de política transcende aos limites das instituições. Como Foucault, considera-se que a política permeia todas as relações em que há algum processo de interação humana. Como espectro ubíquo e onipotente, o poder se espalha pela teia social atingindo todos os indivíduos, sem distinção. No entanto, lembremo-nos de que, no exercício do poder, algumas variáveis acabam determinando quem pode mais e quem pode menos.

Duarte Júnior (1983, p.31) fornece clara definição desse conceito, na antipsiquiatria: “Política, na antipsiquiatria, diz respeito a desdobramento do poder em quaisquer instituições sociais, desde famílias até sindicatos e partidos. Diz respeito ao poder que temos sobre o próximo, ou o poder que o próximo tem sobre nós. Tal poder pode nascer de injunções estabelecidas socialmente, formalmente, ou pode nascer de simples relações afetivas, a dois” (grifo do autor). Como transparece nessas palavras, a ênfase da antipsiquiatria recai sempre sobre as relações entre os homens. O que importa não são as características de um indivíduo isolado, mas como tais características brotam de seus relacionamentos sociais. Nessa medida, ela procura compreender as relações humanas, desde aquelas que são travadas a dois até as mais gerais, entre entidades, comunidades, instituições e grupos maiores de pessoas. Mesmo porque todas as relações que estabelecemos com o outro estão inseridas em uma perspectiva macro e não podem ser separadas do contexto social, afetivo, político e econômico em que vivemos, uma vez que, diferentemente dos animais, o ser humano se desenvolve dentro de culturas e é a partir desse lócus que ele se percebe e, ao mesmo tempo, percebe o mundo a sua volta.

Contra uma psicologia que toma o indivíduo em si mesmo, isolado de contexto mais geral, a antipsiquiatria propõe, então, a compreensão desse indivíduo naquilo que ele tem de singular, mas em função do inter-relacionamento social que mantém. “Não há homens em si, apenas homens-em-relação” — acrescenta Duarte Júnior (1983, p.31).

O grande salto da antipsiquiatria foi perceber que relações de poder são travadas em todos os instantes e em todos os lugares, daí decorrendo as neuroses e psicoses individuais. Os indivíduos são sujeitos sociais transformados constantemente pelo meio em que vivem, e, nessa perspectiva, é exatamente da relação estabelecida com os outros que os indivíduos constroem suas próprias referências. — A fabricação da loucura: contracultura e antipsiquiatria, William Vaz de Oliveira, 2011

Written by

X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store