Afirmação por Assata Shakur

“A negação é o que eles apresentam como nosso perfil”

Eu acredito no espectro

dos dias Beta e do povo Gama.

Eu acredito no brilho do sol.

Em moinhos de vento e cachoeiras,

triciclos e cadeiras de balanço.

E eu acredito que sementes tornam-se brotos.

E brotos tornam-se árvores.

Eu acredito na mágica das mãos.

E na sabedoria dos olhos.

Eu acredito na chuva e nas lágrimas.

E no sangue do infinito.

Eu acredito na vida.

E eu vi o desfile da morte

marchando pelo torso da terra,

esculpindo corpos de lama em seu caminho.

Eu vi a destruição da luz do dia,

e vi vermes sedentos de sangue

sendo adorados e saudados.

Eu vi os dóceis tornarem-se cegos

e os cegos tornarem-se prisioneiros

num piscar de olhos.

Eu andei sobre cacos de vidro.

Eu admiti meus erros e engoli derrotas

e respirei o fedor da indiferença.

Eu fui trancafiada pelos injustos.

Algemada pelos intolerantes.

Amordaçada pelos gananciosos.

E, se tem alguma coisa que eu sei,

é que um muro é apenas um muro

e nada além disso.

Ele pode ser posto abaixo.

Eu acredito no viver.

Eu acredito no nascimento.

Eu acredito na doçura do amor

e no fogo da verdade

E eu acredito que um navio perdido,

conduzido por navegantes cansados e mareados,

ainda pode ser guiado à casa

para atracar.- Mumia Abu-Jamal declama poema de Assata Shakur

Marielle Franco: A negação é o que eles apresentam como nosso perfil

Negação é o que eles (que somos nós) apresentam como perfil (delxs).

Negação é o que vomitamos depois de matar e devorar até a memória e história de vida do outrx.

Negação é o que somos, perante o que elxs são: a afirmação.

E mesmo como negação da negação, não somos mais do que uma contradição. Contradição que não consegue suportar o silêncio da sua impotência nem a voz da sua própria hipocrisia. E nossos pesares e condolências quando não são falsos e abutritos não passam disso: flores e homenagens que o inimigo pousa sobre a coragem de quem eles mesmos matam com suas balas. Drei brasilianische helden. Homenagens de exércitos de nazis a bravura de quem resiste a sua covardia. Essas são todas as homenagens que nós que não somos nem estamos vulneráveis como negros, favelados, homossexuais, mulheres, nem ativistas marcados para morrer podemos prestar para os militantes e civis que morrem na linha de frente do outra trincheira lutando contra os nossos privilégios e quem os defende até a morte. A homenagem que os protegidos pelo apartheid dos Estados de Direito e seus crimes contra a humanidade prestam a suas vítimas. A homenagem de apartheids de raça, classe, gênero e gene prestam aqueles que matam depois que tomam posse até da sua memória.

Apartheid? Sim. Apartheid. Até porque assim como nem todo regime criminoso legaliza seus crimes, nem toda sociedade precisa colocar na letra da lei seus costumes como regimes principalmente quando esses não estão só institucionalizados, eles são as Instituições. Quando já são o fundamento tácito de nosso pacto social que assim como o Estado de Direito nunca existiu senão como realidade para poucos e peça de ficção jurídica-política e midiática para os demais, cuja realidade é a privação e sua negação como ficção. Ficção feita para famintos comerem com olhos, e fartos se contemplarem como numa grande ceia de telenovela do século passado.

Contudo o “cidadão de bem” não tem com que se preocupar. Seu sono continua protegido. E um dia ele vai acordar com mais um bela data comemorativa e que sabe até um feriado celebrando todas essas mortes. E muita gente ainda vai ganhar muito dinheiro com tudo isso… muito provavelmente os mesmos que já estão ganhando agora mesmo com elas, cidadãos de bem.

“Já que parece que cada coração que pulsa pela liberdade não tem direito a outra coisa que a um pequeno lingote de chumbo, peço minha parte. Se me deixas viver, nunca vou deixar de chorar por vingança.” — Louise Michel

Nota:

Artigo 7o

Crimes contra a Humanidade

1. Para os efeitos do presente Estatuto, entende-se por “crime contra a humanidade”, qualquer um dos atos seguintes, quando cometido no quadro de um ataque, generalizado ou sistemático, contra qualquer população civil, havendo conhecimento desse ataque:

a) Homicídio;

b) Extermínio;

c) Escravidão;

d) Deportação ou transferência forçada de uma população;

e) Prisão ou outra forma de privação da liberdade física grave, em violação das normas fundamentais de direito internacional;

f) Tortura;

g) Agressão sexual, escravatura sexual, prostituição forçada, gravidez forçada, esterilização forçada ou qualquer outra forma de violência no campo sexual de gravidade comparável;

h) Perseguição de um grupo ou coletividade que possa ser identificado, por motivos políticos, raciais, nacionais, étnicos, culturais, religiosos ou de gênero, tal como definido no parágrafo 3o, ou em função de outros critérios universalmente reconhecidos como inaceitáveis no direito internacional, relacionados com qualquer ato referido neste parágrafo ou com qualquer crime da competência do Tribunal;

i) Desaparecimento forçado de pessoas;

j) Crime de apartheid;

k) Outros atos desumanos de caráter semelhante, que causem intencionalmente grande sofrimento, ou afetem gravemente a integridade física ou a saúde física ou mental.

2. Para efeitos do parágrafo 1o:

a) Por “ataque contra uma população civil” entende-se qualquer conduta que envolva a prática múltipla de atos referidos no parágrafo 1o contra uma população civil, de acordo com a política de um Estado ou de uma organização de praticar esses atos ou tendo em vista a prossecução dessa política;

b) O “extermínio” compreende a sujeição intencional a condições de vida, tais como a privação do acesso a alimentos ou medicamentos, com vista a causar a destruição de uma parte da população;

c) Por “escravidão” entende-se o exercício, relativamente a uma pessoa, de um poder ou de um conjunto de poderes que traduzam um direito de propriedade sobre uma pessoa, incluindo o exercício desse poder no âmbito do tráfico de pessoas, em particular mulheres e crianças;

d) Por “deportação ou transferência à força de uma população” entende-se o deslocamento forçado de pessoas, através da expulsão ou outro ato coercivo, da zona em que se encontram legalmente, sem qualquer motivo reconhecido no direito internacional;

e) Por “tortura” entende-se o ato por meio do qual uma dor ou sofrimentos agudos, físicos ou mentais, são intencionalmente causados a uma pessoa que esteja sob a custódia ou o controle do acusado; este termo não compreende a dor ou os sofrimentos resultantes unicamente de sanções legais, inerentes a essas sanções ou por elas ocasionadas;

f) Por “gravidez à força” entende-se a privação ilegal de liberdade de uma mulher que foi engravidada à força, com o propósito de alterar a composição étnica de uma população ou de cometer outras violações graves do direito internacional. Esta definição não pode, de modo algum, ser interpretada como afetando as disposições de direito interno relativas à gravidez;

g) Por “perseguição’’ entende-se a privação intencional e grave de direitos fundamentais em violação do direito internacional, por motivos relacionados com a identidade do grupo ou da coletividade em causa;

h) Por “crime de apartheid” entende-se qualquer ato desumano análogo aos referidos no parágrafo 1°, praticado no contexto de um regime institucionalizado de opressão e domínio sistemático de um grupo racial sobre um ou outros grupos nacionais e com a intenção de manter esse regime;

i) Por “desaparecimento forçado de pessoas” entende-se a detenção, a prisão ou o seqüestro de pessoas por um Estado ou uma organização política ou com a autorização, o apoio ou a concordância destes, seguidos de recusa a reconhecer tal estado de privação de liberdade ou a prestar qualquer informação sobre a situação ou localização dessas pessoas, com o propósito de lhes negar a proteção da lei por um prolongado período de tempo. — DECRETO Nº 4.388, DE 25 DE SETEMBRO DE 2002 ( Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional)

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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