Acabei de ler. A proposta é boa. Mas, não tenho muito a comentar mais sobre política no Brasil. Simplesmente não acredito que seja possível se resolver o problema brasileiro através da política nem do Estado, nem mesmo como meio, porque eles não fazem parte da solução, mas do problema. Vou fazer uma analogia com a computação das antigas. Não adianta trocar o software ou colocar anti-virus, o Brasil nunca vai sair da tela azul. Só reformatando o sistema. Porque o problema não é que o computador esteja cheios de vírus, o problema é que o sistema operacional é O Virus.

Em outras palavras, o problema do Brasil é de arquitetura do sistema. É estrutural e institucional.

Pode desinfestar o quanto quiser, que em 6 meses a casa estará de novo infestada, porque para se livrar se dos ratos vai ter que se livrar do porão onde eles se escondem. Mas se você tentar se livrar do porão, a casa cai, porque seus pilares não estão só nos porões, seus pilares são o porão. O Estado brasileiro não é uma casa construída com um porão para abrigar os ratos. É um porão de ratos que levantaram uma casa só para disfarçar sua toca. Você pode limpar… pode reformar, mas não consegue resolver jamais se livrar do problema, porque quem manda na casa não é o dono, mas sim os ratos e o que as pessoas chamas de problema e corrupção os ratos de porão chamam de solução e normalidade institucional. Eleições, parlamento, justiça, governo… não fazem mais que trocar inquilinos, pintura, mobília, porque problemas de projetos e fundação geram falhas estruturais e institucionais, que se corrigem com novos projetos e mas não de reforma, mas de arquitetura e fundação.

É preciso tomar coragem, derrubar o que está podre e torto e erguer de novo, que nunca foi feito nem em pilares sólidos nem fundamentos concretos e honestos. Porque como disse a casa sequer passa de uma mera fachada.

É possível fazer isso? Claro que é. Mas não é nem essa questão.

A questão é: as pessoas querem fazer isso? O que as pessoas querem, eis questão.

Deixe eu formular melhor…

O que elas querem pode parecer obvio… afinal ninguém (senão os ratos de porão) querem viver numa nessa casa governada por ratazanas. Mas a grande questão é: as pessoas estão derrubar as estruturas podres e mofadas e dispostas a enfrentar as ratazanas? Estão dispostas a erguer como suas mãos uma nova casa que seja realmente sua? Ou será que elas se contentam em esperar que alguém faça isso por elas? Que um “grande líder” faça ou melhor as obrigue fazer -mesmo sabendo que ele fará (de novo) mais por ele que por elas mesmas? Talvez não queiram uma coisa nem outra. Talvez nem se incomodem em viver com os ratos e a sujeira, e só queiram também possam ter uma parte do bolo, ou as migalhas…

Quem sabe? Eu não sei. E essa é a grande questão. Ninguém sabe, não com certeza senão por si e nunca pelo ou no lugar do outro. Não é portanto o que você, eu, ele, nós ou os outros querem ou planejam, mas essencialmente o que a cada um quer e esta disposto a fazer um pelo outro, o que define o destino de todo a coletividade. E portanto essa é a grande questão: o que afinal de contas os os brasileiros querem? Por que é isso o que conta.

Essa foi a maior lição que uma ativista de 82 anos me deu. Eu tentava desesperadamente colocar a renda básica no lugar onde eu vivia porque sabia que as pessoas precisam desesperadamente de uma renda básica. E ela me pergunta derradeira: “mas quem afinal de contas quer a renda básica: você ou eles?”

Neste ponto você pode cruzar os braços.… ou buscar quem realmente quem queira se levantar, sair dessa condição e construir uma nova. Não demorei muito a encontrar quem quisesse. Havia parado de procura por um lugar que não existe para poder encontrar as pessoas por quem procurava. Porque o que não falta no Brasil é brasileiro com vontade querendo uma chance para construir uma nova condição. Gente que não quer não precisa, e sequer pode ficar esperando que os outros acordem, façam ou queiram mudar de condição. Gente que não quer, nem pode ficar esperando que um pais inteiro desperte para consertar a sua casa, a sua rua, a sua escola, ajudar a sua vida e a dos seus vizinhos, ou mesmo estranhos desde que eles queiram ajudar e serem ajudados. E não ficar clamando por um novo salvador da pátria, ou a volta do Dom Sebastião.

Uma nação não é um Estado, não é sequer a sociedade, o Brasil não É o povo, o Brasil SÃO os brasileiros. As diversas tribos, raças, famílias, gentes capazes de co-habitar em paz uma mesma terra. É por isso que não acredito em projeto de Brasil. O Brasil sempre foi pensado enquanto Estado-Nação, e não como povo e pelo próprio povo. E como Estado nunca foi uma casa, mas uma senzala condenada desde a construção a cair na cabeça dos escravos quando eles não puderem mais trabalhar para sustentar os senhores das casas grandes e brancas. Minha preocupação não está portanto em salvar as senzalas, nem muito menos as casas-grandes, mas sim os escravos, não todos, mas os que como eu querem, lutam e imploram desesperadamente para escapar desses condição. Não querem ficar nem salvar seus Estados-Senzalas mas se salvos e salvar quem puderem deles. É em tirar esses que querem sair dessa condição antes que essa senzala desabe de vez com todo o peso sobre eles que me preocupo. Com os que querem ficar por sua própria vontade não posso fazer nada, senão respeitar sua decisão. Até porque não sou o dono da verdade. E talvez elas estejam certos, e ficar na mesma condição seja a decisão mais acertada... Não sei.

Só sei que certo ou errada nem eu nem eles não tem o direito de impor a decisão um sobre o destino do outro sem consentimento, e esse é todo o problema. Quando estamos falando de projetos que passam pelas velhas soluções estatais, estamos falando, querendo ou não, de impor soluções. E isso é justamente a essência de todos os problemas não só do Brasil, mas do mundo… e a principal razão da minha certeza de que esse não caminho não leva a lugar nenhum, ou pelo menos a nenhum lugar que já não tenhamos nos perdido antes.

Enfim, depois de 40 anos de Brasil não tem jeito, não tenho mais como dar a desculpa do beneficio da dúvida: não acredito em soluções políticas, estatais, nem muito menos partidárias e eleitorais. Mas, repito essa é a minha visão. Nada contra seu projeto de Brasil pelo contrário ele é bom, o problema não é o projeto, o problema é que realmente não vejo qualquer coisa parecida com um coletivo de brasileiros, não para chamar verdadeiramente de Brasil. Em suma, é um objeção de ordem dos fatores. não acho que nos falte projeto de pais. Acho que nos falta é tomarmos de volta nosso pais para aí sim podermos ter projetos. para ele, e para nós.

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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