A verdadeira tragédia dos comuns: a perda do instinto gregário

Animais em risco de extinção atacam lavouras e rebanhos; ONGs buscam pagar prejuízos e mediar conflitos

É o paradoxo da preservação: o aumento da população de animais ameaçados afeta a rotina de comunidades locais que vivem ao redor de áreas de proteção ambiental. No Raso da Catarina, no sertão da Bahia, a população de arara-azul-de-lear, ave em risco de extinção, passou de 60 para 1,7 mil em quatro décadas. Com mais animais procurando comida e a seca afetando a produção do licuri, alimento das aves, as araras estão buscando outra fonte de nutrientes: os milharais. Os ataques levam ao conflito com os agricultores. (…)

Na zona rural das cidades de Jeremoabo e de Santa Brígida, no sertão da Bahia, os esforços de preservação da arara-azul-de-lear precisam transpor um desafio a mais frente à população: a ave é sinônimo de destruição de milharais.

“A gente vive um paradoxo mundial: um animal altamente ameaçado de extinção e que, localmente, é uma praga”, diz Kilma Manso, presidente da ONG Eco.

Com o aumento da população de araras, resultado direto da preservação, há maior busca por alimentos. No entanto, a região está enfrentando seca nos últimos anos.

A chuva, que já é escassa e só cai em três meses ao ano, está ainda mais rara. Com isso, as palmeiras que produzem o coquinho licuri, alimento preferido das araras-de-lear, não dão muitos cachos. As aves, então, se voltam aos milharais — em cerca de dois dias, uma centena de araras é capaz de destruir uma plantação de até 13 mil metros quadrados.

O agricultor fica sem o milho, que serviria de alimento para ele, para o rebanho e as galinhas. A alternativa que encontram é complementar o alimento dos animais com — veja só — as folhas da palmeira do licuri. Com menos folhas, a palmeira produz menos frutos. É o ciclo da escassez. (…) -Na zona rural das cidades de Jeremoabo e de Santa Brígida, no sertão da Bahia, os esforços de preservação da arara-azul-de-lear precisam transpor um desafio a mais frente à população: a ave é sinônimo de destruição de milharais.

“A gente vive um paradoxo mundial: um animal altamente ameaçado de extinção e que, localmente, é uma praga”, diz Kilma Manso, presidente da ONG Eco.

Com o aumento da população de araras, resultado direto da preservação, há maior busca por alimentos. No entanto, a região está enfrentando seca nos últimos anos.

A chuva, que já é escassa e só cai em três meses ao ano, está ainda mais rara. Com isso, as palmeiras que produzem o coquinho licuri, alimento preferido das araras-de-lear, não dão muitos cachos. As aves, então, se voltam aos milharais — em cerca de dois dias, uma centena de araras é capaz de destruir uma plantação de até 13 mil metros quadrados.

O agricultor fica sem o milho, que serviria de alimento para ele, para o rebanho e as galinhas. A alternativa que encontram é complementar o alimento dos animais com — veja só — as folhas da palmeira do licuri. Com menos folhas, a palmeira produz menos frutos. É o ciclo da escassez.

O agricultor Arnaldo Lima de Jesus, da comunidade quilombola da Baixa dos Quelés, já teve a lavoura destruída pelas araras. (…)- Animais em risco de extinção atacam lavouras e rebanhos; ONGs buscam pagar prejuízos e mediar…

Não. Não há um paradoxo mundial da preservação. Não existe qualquer contradição lógica interna, ou premissas passíveis de conciliação. Rigorosamente, não há sequer um ciclo propriamente dito. Não existe a menor possibilidade desta ordem de causas e consequências se alternarem com qualquer regularidade cíclica mesmo que nos limites da sobrevivência de nenhuma das partes. O que existe é um crescente de escassez dentro de uma espiral de autodestruição. Não é um progressão de escassez, mas de extinção de recursos, formas de vida e espécies. Uma destruição assegurada. E que só não é um DDD (“destruição mútua assegurada ”), porque para tal classificação ser válida, ambas as partes deveriam ser dotadas da capazes de tomar decisões racionais; e uma não é; enquanto a outra, mesmo sendo, e podendo, não usa.

Minto. Até usa, mas na perseguição obtusa de ganhos particulares que não levam em conta os custos nem os danos para o coletivo. Um raciocínio que no final das contas, (ou da falta delas) acaba por gerar, -evidentemente- mais perdas e prejuízos para todos, não só em geral, mas para cada um em particular- ainda que tais perdas não sejam tão evidentes ou que suas evidencias sejam mais tardias.

E estamos faltando aqui do ser humano em condições mais próximas da ideais; quando tudo tem e pode, para ser e se fazer mais racional, e mesmo assim, não faz. Que dirá, então, quando podem nada ou quase nada; e sua condição de vida, na labuta cotidiana, mais próxima está da luta pela sobrevivência dentro do chamado “estado de natureza” do que por qualquer tipo de acumulação de excedentes e riquezas dentro de fato (e não só direito) da proteção de um proclamado “estado civil”. Que se pode dizer sobre as possibilidades de tomada de decisão (mesmo as mais irracionais) quando não há de fato nenhuma possibilidade real ou condição, para qualquer tipo ação que possa propriamente denominada como fruto de uma “tomada de decisão”?

Dilemas, contradições, paradoxos, são problemas para quem tem liberdade e racionalidade para formulá-los e eventualmente resolvê-los, e não para quem não tem uma coisa nem outra. Ou uma sem a outra.

Se sequer quando há liberdade plena para criar por livre iniciativa e espontânea vontade suas próprias alternativas, a racionalidade necessariamente se manifesta nas decisões, como poderia ela ter qualquer chance de se manifestar quando não há então nenhuma liberdade básica como condição mínima para qualquer tomada de decisão?

Como a pessoa humana poderia resolver esses problemas, sem um mínimo de liberdade, enquanto o mínimo de dignidade? Mesmo sem jamais poder decidir de verdade, como, sem ao menos poder fazer escolhas entre alternativas, que mesmo sendo impostas (seja pela vida ou quem for)- sejam de fato possibilidades distintas e reais e não falsas alternativas ou escolhas impossíveis, como teriam qualquer chance?

Não. Não há, portanto, nenhum paradoxo nem contradição. Há uma tragédia dos comuns. E não só local, mas global.

Uma tragédia dos comuns, que longe de ser a historinha para boi dormir dos indivíduos racionais a perseguindo seus interesses particulares livre de controles ou limites exploram até esgotar recursos naturais de uma comunidade. É a verdadeira tragédia dos comuns: a histórica; onde depois de séculos vivendo em comunidades, mais ou menos sustentáveis, e em relativa harmonia com o meio ambiente, os comuns não só foram definitivamente privados da liberdade de explorar comunalmente seus bens comuns, como- ao contrário do que o prega a lógica destes privadores- a exploração e devastação destes recursos cresceu sobre o império de modelo de predação.

Um modelo fundado na expropriação do usufruto pacifico do bem comum em favor da posse privada por concessão e regulação proteção do monopólio da violência estatal que não só ampliou e acelerou a devastação ambiental, mas fez da expropriados do usufruto do bem comum, o principio de transformação desses homens em recursos humanos, na exata medida da privação dos meios ambientais e vitais a necessários não só a subsistência, mas a negociação minimamente livre e igual do fruto do trabalho sem a espada da carestia sob a cabeça de uma partes.

Um modelo que longe de preservar a natureza- até porque nem sequer foi pensado para isso mas justamente para otimizar a transformação dela em riquezas dos proprietários e nações- não conteve a exploração irracional promovidas pelos ditos agentes racionais em particular, muito pelo contrário, protegeu e subsidiou a formação e crescimento de monopólios e oligopólios, que sem os limites e obstruções naturais que tanto a livre competição quanto da livre cooperação impõe como autorregulação contra tal tipo de desigualdade e desiquilíbrio fatal tanto ao ecossistemas, não tornou apenas a natureza e todos seres vivos uma presa mais vulnerável a reifificação, esgotamento e eventual extinção, mas também as comunidades humanas, enquanto seres passíveis de alienação e redução a capitais, isto é, meros recursos a serem transformados em instrumentos de produção e enfim mercadorias.

Um modelo de tomada, ocupação e encercamentos armados que promoveu e ainda sustenta o crescimento extremamente desigual e a supremacia do poder politico e econômico de corporações privadas e estatais frente as comunidades e sociedades. Um modelo tão violentamente desigual que escapou de qualquer controle possível dos comuns, superando a força deles não só em comunidade mas mesmo em sociedade, subjugando tanto indivíduos quanto seus coletivos.

Um modelo insustentável a longo prazo, mas a curto imparável que forma um sistema retroalimentado onde a supremacia da violência garante o monopólio de territórios e bens comuns, e tal posse do espaços e bens fornece por sua vez os recursos naturais e humanos necessários para retroalimentar a supremacia desse monopólio e a divisão do butim entre os que titulares desse privilégios de proteção armada da posse hereditária, contra todo tipo de apropriação e usufruto pacífico, ou mais precisamente sem uma força armada superior capaz de proteger-se, a começar deles.

Um modelo que quebrou todos os limites naturais a simetria de força que tanto o equilíbrio de poderes quanto a igualdade de liberdade entre comuns, que já não eram mais tão livres, nem tão iguais, e propriamente uma comunidade, a não ser pela solidariedade na carestia do bem que já não era mais comum, não a todos. Um modelo de supremacia e monopólio violento que instaurou não só a desigualdade de liberdades fundamentais e autoridade sobre o bem comum, mas com ele a desigualdade de poderes e autoridade de uns sobre os outros.

Desigualdade que longe de ser meramente a desigualdade de classes, é a desigualdade entre indivíduos graduada e hierarquizada a razão não da diferença de suas propriedades e riquezas, mas da natureza estratégica dessa propriedade que se não for a posse e controle sobre os meios vitais e ambientais essenciais para para a subsistência dos demais não é o poder nem político, nem econômico, estrategicamente necessário para manter a assimetria de forças e desigualdade liberdades reais sobre o comum, mas tão somente riqueza.

Riquezas que se somam e que eventualmente podem de financiar a constituição das forças que de fato estabelecem domínios e poderes de fato, por subtração e encercamento do que indispensável para os demais, mas que enquanto não procedem e se constituem como tal, nada são além da riquezas de uma pessoa ou nação. Riquezas a serem separadas de seu dono pela requisição forçada como tributo ou expropriação, feita sempre a sombra da supremacia desse poder de fato, a violência que legitima a si mesmo pela supremacia da sua violência em favor dos seus donos e controladores de fato, mas pode chamar pelo nome próprio: Estado.

Donos e controladores estes sim, que podem ser chamados corretamente de classe, independente das suas diferenças, Não só porque estão de fato apartados e protegidos dos demais pela força de fato que garante e protege seus domínios, mas porque de fato estão constituído como organizações; que embora não sejam mais propriamente nem comunidades, sociedades, mas corporações, ainda sim são instituições que se comportam como competitiva e cooperativamente como coletivos. Já os demais, são por definição o resto desta somatória, não são propriamente uma classe, porque classe, quando não é a mera abstração de um classificador, e um coletivo, mas as plebes e o povo, não tem outra identidade ou propriedade que os defina que senão a exclusão e negação da participação no usufruto da liberdades fundamentais assim reduzidas a privilégios de posse e poder reservados a poucos.

Compartilham a solidariedade na privação e carestia e não os direitos, ou melhor, títulos de posse, poder, controle e autoridade sobre tudo que se assenta sobre os domínios da jurisdição sobre um territórios, inclusive as gentes, enquanto mais um objeto reservado as disputas políticas, econômicas, civis, comercial e legais (ou nem tanto) dos sujeitos que de fato definir direitos e obrigações, benefícios e malefícios, concessões e subsídios, crimes e castigos.

Um modelo que feito para quebrar definitivamente e quebrou todos os limites naturais da igualdade de força e poder entre comuns, que nunca foram iguais por sua posse coletiva regulada e controlada por um, alguns ou mesmo todos, mas pela liberdade individual de usufruto de cada um um regulada tão somente pela necessidade de negociação e conciliação entre suas necessidades e desejos tão comuns quanto os difusos e conflitantes.

Reguladas portanto pela necessidade que impunham tanto a cooperarão quanto a competição não como estratégias apartadas, mas conjugadas de forma a estabelecer uma cooperação competitiva, que ainda se manifesta instintivamente em situações extremas, como desastras naturais ou provocados por outros homens, como as guerras, onde aqueles que são vítimas se unem diante da adversidade para preservar o que lhe é bem comum, poder novamente competir dentro dos limites manter a unidade dessa cooperação e comunidade por tudo aquilo que sem pode e precisa ser possuído com exclusividade. De tal modo que essa regulação entre aquilo que precisa ser compartilhado ou preservado para manter a paz e união, e aquilo que como excedente pode ser objeto de disputa a apropriação, algo que varia conforme as circunstâncias (e adversidades), é feito naturalmente entre os indivíduos livres em comunidade, não por doutrina ou disposição normativa, mas por necessidade e resposta de seus instintos de sobrevivência. E claro possibilidade que tal liberdade proporciona, tanto como equilíbrio de suas forças individual entre cada um deles quanto supremacia da força de todos eles em sociedade contra qualquer um isoladamente.

Evidente que tal distribuição de força e poderes não impede que enquanto maioria a sociedade cometa atos estúpidos ou monstruosidades contra seu própria interesse comum, minorias ou indivíduos em particular. O que tal distribuição exige para que tal estupidez e monstruosidades ocorra é que esteja esteja disseminada em um número superior em número, organização e mobilizar do que o restante da sociedade para cometê-los; e logo previne justamente que poucas com posses e poderes sobre o que é estratégico a sobrevivência dos demais sejam capazes de obrigá-las pela força ou privação a submeter-se aos seus desejos e comandos contra a sua vontade. Ou seja, é uma estratégia que para uma comunidade leve a cabo até o final a destruição de tudo, que não alguns controlem e beneficiem predado, mas que todos, e que todos também sejam igualmente incapazes mesmo tendo o poder para tanto prever e querer frear tal autodestruição generalizada.

Um condição de regulação comunitária que longe de ser a de a de qualquer estado autoritário socialista, ou totalitário comunista é a antítese de todos os estados autoritários e totalitários inclusos do outro espectro ideológico dos liberais aos fascistas. Até porque na prática as versões autoritárias socialistas e liberais, são a versão mais suave e bem maquiada em tempos de fatura da sua versão mais primitivas e brutais que emerge como sua outra face em tempos de crise. Versões mais ilustrada e modernas do mesma tirania e despotismo que tende para os velhos extremos dos fundamentalismos e absolutismos, e que narrativas e discursos fora, em ato e seus resultados são o mesmo sistema político-econômico, a predar e dominar e marcar seres e territórios para o emprego e consumo da classes que reinam como seus senhores e governantes, qual grupo irá governar esse reino para devorar tudo o demais, eis o objeto das guerra e suas disputa nos campos de batalha ideológico, jurídico, econômico, políticas e na falta de qualquer resolução os militares. Um sistema que quando emperra nunca deixa de se voltar para suas origens das suas fundações, e que em última instancia sempre que precisa volta a recorrer explicitamente a sua primeira: a violência.

Sistema, de dissuasão, imposição e repressão que só se autodestrói em conflitos internos, ou externos mútuos quando há uma extrema desigualdade de forças e poderes entre as partes. Que não precisa constantemente crescer mais que os demais, mas sobretudo impedir que os demais cresçam mais do que eles. Sistemas que portanto não podem se dar ao luxo de permitir o livre usufruto do bem comum, mesmo que pacífico e sobretudo produtivo de quem não esteja submetido como servo e tributário. Não pode deixar nem permitir que não só precisa superexplorar o bem comum, mas não pode permitir que ele seja explorado pelos demais, nem que para isso ele tenha que destruir esses campos e fazer dele desertos improdutivos devidamente cercados e desocupados, até porque toda a massa populacional precisa estar assentada, (para não dizer empilhada) e disponível para ser empregada- mesmo que não o seja- nos grandes centros de produção.

Um modelo portanto que não pode tolera, conviver, nem permite nenhuma forma natural de equilíbrio e autorregulação do usufruto do bem comum, por uma razão simples, ele não pode subsistir onde hajam limites cooperativos-competitivos de superexploração e predação das pessoas e natureza que alimenta sua supremacia. O fim do crescimento econômico não implica em equilíbrio ecológico, mas qualquer equilíbrio ecológico mesmo que temporário ou local representa obstáculo a sustentação desse poder. E como qualquer equilíbrio ecológico, é impossível sem a quebra da desigualdade de acesso aos recursos e capitais estratégicos, que sustentam a supremacias domésticas e internacionais, a começar pelos meios vitais e ambientais, não temos aqui, um paradoxo, mas um ciclo vicioso, mas locomotiva sem freios, que só vai parar quando descarrilhar.

Não. Não definitivamente há nenhum paradoxo. É uma tragédia global dos comuns.

Temos aqui, populações, tanto humanas de outras espécies, lutando contra a extinção; a disputar espaços e recursos, enquanto são empurradas para a margem de um sistema que não comporta nem a um nem a outro senão como mercadoria. Não comporta nenhuma possibilidade de equilíbrio ecológico, ou preservação da natureza, porque tal equilíbrio é implica justamente na progressão contraposta: a inanição e morte da sua fonte de alimentação e crescimento e expansão econômica.

Não há nenhuma contradição interna. Se não somos, no comportamos, em geral, como predadores. E não apenas carnívoros, ou canibais, mas onívoros, devoramos tudo que faz sombra, e a lógica dos nosso sistema é a predação. Um sistema que funciona perfeitamente para todos -leia-se, evidentemente, “todos” que não são a janta de hoje, ou os meios e recursos já de amanhã- desde que esses meios sejam infinitos, ou pelos os recursos se renovem e multipliquem em uma progressão superior a que os transformamos em capitais e devoramos.

Precavidamente, os privilégiados (aqueles que não são janta, mas jantam e pretendem continuar jantando o mundo, muito obrigado), sabem- ao menos desde quando o canalha do Malthus explicou- que se quiserem manter banquete em fogo brando e longe da sua própria carne, não podem devorar todo capital, nem destiná-lo só ao consumo, precisam também investir para transformá-lo em no conhecimento e tecnologia necessário para manter tal progressão malthusiana dentro da razão dos seus interesses.

Em outras palavras, precisam de uma revolução verde. Ou na falta de uma, de outros regimes de governo e políticas econômicas capazes de manter a divina arte da administração dos recursos escassos das massas da qual se extrai trabalho para a reprodução do capital. Até porque na falta de ambas, seja a falta de novas tecnologias ou velhas políticas capazes que sustentar e controlar o crescimento das massas dentro dos estados de paz, restará apenas o plano C: a mais velha e primitiva política de “cooperação mútua” entre Estados-Nações para o controle da natalidade e mortalidade das classes dispensáveis da sua populações: a guerra.

Guerras que não são um problema, mas solução final; um recomeço. Parte integrante e essencial dos processos que revitalizam e reiniciam o sistema. Com contas a pagar zeradas, e novas dívidas impagáveis a perder de vista, inscritas com sangue já na primeira página do livro caixa dessa contabilidade internacional. Guerras, portanto devidamente protagonizada e controlada por pessoas “civilizadas”, e não bárbaros selvagens. Guerras, portanto, devidamente mantidas e reguladas por Estados de modo que possam até mesmo ser eventualmente terceirizadas, privatizadas e funcionarem como devem a seus beneficiários: como uma industria- porque nesse negócio todo limão é uma limonada; e não nada que não se aproveite, nem que seja para fazer sabão.

Logo, um conflito dentro das regras que sustentam o sistema, onde tanto os criminosos quanto as vítimas dos crimes de guerra e contra humanidade, incluso os holocaustos, estão por exclusão devidamente restritas e descriminados aos “perdedores”, assim como durante os estados de paz, a não só a determinadas regiões, mas classes, e raças da população humana, de modo a resguardar, a liberdade, segurança dignidade, e riquezas, das demais, afinal ninguém é nascido e criado em berço de ouro para morrer trabalhando, nem muito menos servindo em fronteiras e trincheiras. Seleção “natural”, em termos modernos; ou “predestinação “divina” em termos mais tradicionais. Ou como diria o nazi-fascista, o monarca, a encíclica papal e o fundamentalismo ultraliberal: “se deus ou natureza não quisesse que um espécie, um povo, ou mesmo um sexo prevalecesse sobre o outro porque então daria a ele desde o nascimento a desigualdade de forças para manter sua supremacia? A guerra, assim como a pobreza fazem parte da ordem hierárquica natural. Uma questão que não é de direito, mas de mérito. Afinal que direito a vida, liberdade e propriedade tem um ser que não tem capacidade ou sequer condição de sustentá-las? Quem merece viver ou ser livre, se não for capaz de se sustentar?”

Mas volto a esta questão da semente e seu fruto, onde o cidadão de bem vira o protonazista antes mesmo de chegar sobremesa já, já… Não percamos o fio da meada. Para cada esgotamento de uma fase de produção de riquezas e consequente reinvenção revolucionária do capital, há uma demanda tanto por uma revolução verde quanto por justiça social que permita a sua universalização. E sem novas tecnológicas, incluso as sociais enquanto políticas e economias, de provisão e distribuição dos meios, recursos e condições vitais como garantia de fato do mais básico dos direitos a vida, a subsistência, nada resta a essas populações senão lutar por sua sobrevivência. Assim como, do outro lado dos muro e cercas, para aqueles que controlam esses recursos, resta apenas manobrar essas massas de carentes desesperados e seus conflitos; de preferencia jogando esses conflitos o mais longe possível das portas das terras e propriedades; e o mais importante: o mais longe possível não só delas, mas da sua singular pessoa. Afinal de contas, usando a mesma base de cálculo e lógica de exclusão nesse jogo de recursos escassos: noves (ideológicos) fora, a prova real é: senão umas contras as outras, e pelo resto da subtração, então, contra quem e pelo quê?

Assim, resta mesmo que esgotadas e falidas aos controladores de recursos, apenas a ampliação das velhas políticas de supressão e exceção dos direitos, como subsequente ampliação da carestia e privação e claro repressão de toda e qualquer reação dos excluídos. Políticas guerra e estados de pax para tempos de crise sistêmica que tanto caracterizam os regimes autoritários e totalitários que não por acaso historicamente precedem os estados de guerra total, tanto civil quanto entre nações.

Todo sistema necessariamente engendra seu fim, mas também suas sucessivas reinvenções antes de desintegrar-se não só pelos dilemas e contradições que gera, mas justamente pela perda da capacidade, ou as vezes das condições materiais (e ambientais) de se transformar. E se se por um lado mata o sistema, também não deixa de matar não apenas junto, mas não raro antes dele tanto os organismos vivos que encerra, quando o ecossistema, que esse corpo não apenas explora de forma predatória, mas literalmente parasita até as últimas (in)consequências.

Dito isto, voltamos para o problema do equilíbrio ecossistêmico local, das comunidades humanas marginalizadas empurradas competitivamente junto com toda vida natural e outras comunidades a disputar um palmo de terra e um lugar ao sol. Ou parafraseando o general da guerra civil norte-americana a esperar pelo seus “40 acres de terra” sem “mulas”. Seja morrendo esquecidos, atropelados pelo e para o progresso e crescimento. Seja definhando morrendo e desaparecendo lentamente, de forma quase invisível, ou rápida e brutal, caçados por quem os enxerga como presas ou pragas. Seja num holocausto lento rápido, o destino deles é o dos demais população: extinção.

Extinção. independe se eles saibam ou reaprendam a superar as contradições locais dos seus sistemas de produção e viver em harmonia com seus meio ambiente. Tal equilíbrio das comunidades local, freia nem protege contra o avanço sistêmico e global do capital, que não comporta outras contradições que não ser a suas. E não há nenhuma contradição interna no capitalismo a ser resolvida quanto a preservação. A preservação não é um dilema a ser conciliado nem resolvido; não é conceito; não é um valor; não é sequer um problema que exista, ou possa existir, ou, rigorosamente, um problema que possa a ser considerado com seriedade como existente. Mesmo que contraditória e incoerentemente assim o quisesse, não pode. A vida e sua preservação da vida, são fenômenos que sua lógica não consegue conceitar, processar e compreender, nem valorar sem necessariamente destruir seu valor, significado e mais sua natureza, como poderia preservar ou sequer compreender a preservação daquilo que não existe dentro do seu paradigma?

A vida e sua preservação, precisam ser valoradas, precificadas, precisam ser reduzidas a objeto de quantificação do seu sistema e portanto transformadas em meios recursos ainda que vitais e ambientais, precisam ser reduzidas e tornar-se uteis, empregáveis e competitivas frente as outras formas de capital, produzidos nada mais nada menos necessariamente transformação, da sua redução a mercadoria. Precisam inevitavelmente não só ser desnaturadas, mas valer mais em seu estado natural, do que o trabalhado pelo homem. Algo impossível, não só onde o valor de todos os seres objetivados mas sua propriedade dado pelo trabalho que “agrega valor”. Impossível. Um ser morto e empalhado gera um mercado. Um ser vivo escravizado como uma besta gera um mercado. Um ser vivo exibido num zoológico. Um ser vivos incluso o humano longes dos olhos, das mãos de outros seres humanos não. Aos olhos do crescimento econômico um ser vivo de qualquer espécie incluso um semelhante deixado completamente livre e em paz simplesmente não é um bom negócio, mas um desperdício de matéria-prima, mão-de-obra e portanto riqueza. Um ser natural, mas uma coisa completamente anti-econômica. Que não só em seu estado de natureza jamais conseguirá competir dentro desse visão de mundo (e da vida), mas mesmo em seus estados semi-desnaturados, jamais conseguirá ser suficientemente competitivo a sua forma perfeitamente capitalizada, máquina-mercadoria perfeita, matéria morta ainda que autômata.

Não há paradoxo. Há sim um sistema teratológico, que carece de fontes inesgotáveis de vida para alimentar seu teratos, sua lógica-pulsão de morte, igualmente insaciável. Há quem acredite que as revoluções que diminuem o custo e consumo dos processos de processos de produção possam chegar a zero, ou por outro lado que se possam produzir fontes de energia inesgotável para alimentá-los. Tais sonhos utópicos, em verdade, fantasias distopias, são para os sistemas econômicos baseados em predação, e seus defensores, o que foi o sonho do moto continuo da Física. E por sinal, não deixam de continuar ser versões em diferentes campos do saber de um mesma tara: a perseguição da máquina perfeita, aquela que não perde trabalho nem eficiência com entropia.

Assim como as possibilidades e promessas de futuro para plebe serva e escrava, também estão para economia como o paraíso para a religiões corporativas, a promessa de paz e descanso de paz feita para jamais ser cumprida. Ao contrário do que o profeta do New Deal disse, não, os netos que não precisam trabalhar apenas 3 ou 4 horas, mas não só trabalham o mesmo tempo como numa velocidade de produção absurda e por menos, mas agora terão que só trabalhar mais, durante mais tempo, e rezar para não se matar, ou serem morto de tanto trabalhar, isto se quiserem usufruir dos privilégios dos eleitos que habitam física e juridicamente os paraísos econômicos- e fiscais, claro.

Máquinas cada vez mais perfeitas, bem como fontes cada vez menos esgotáveis de energia não economizam tempo livre, nem diminuem trabalho, mas aumentam a velocidade de exploração e consumo dos outros recursos “mais” esgotáveis, incluso os seres humanos. E se esse fato não é uma consequência absolutamente inevitável, nem inerente do funcionamento dessas máquinas, mas outro sim do seu emprego em função dos interesses daqueles que as constroem, possuem, e operam. É ainda sim, a esses mesmos mesmos propósitos e não outros que essas máquinas se movem e pertencem.

De modo que quanto mais perfeita é a máquina ou inesgotável a fonte de que a alimenta, maior e mais acelerado é o processo de predação e consumo dos demais meios e recursos esgotáveis e não o inverso. E se máquinas perfeitas ou alimentadas por recursos inesgotáveis existissem, sustentada e maximizada seria essa economia de predação até o esgotamento de tudo que não é renovável ou capaz de se renovar na mesma velocidade e progressão, e não qualquer preservação.

Ou em outras palavras, fontes cada vez menos esgotáveis de recursos, assim como máquinas que consomem cada vez menos recursos, não implicam na preservação de nada, exceto dos processos e recursos necessários para sua efetivação. Diminuem custos e ampliam a capacidade dos seus processos produção não dos demais. Não só porque continuam a visar e predar recursos não renováveis, como não podem deixar de fazê-lo, porque destes recursos e não só de fontes de energia continuam a depender não só como matéria-prima para reprodução desses processos, mas como objetivo material final e cumprimento a sua função econômica: transformar seres, tomados assim por recursos, em coisas mais “produtivas” e com maior “valor agregado”, coisas mais uteis para quem as toma e emprega, senão como sua própria ferramenta, então como de outros, e portanto, como seu objetos de troca, mercadoria.

Felizmente para ecologia, e infelizmente para economia, tanto máquinas quanto fontes de alimentação perfeitas não existem, nem podem vir a existir, porque salvo o próprio universo não existem motos perpétuos. De modo que mesmo havendo fontes inesgotáveis de força a materializar e manter constantemente o milagre da transformação do nada em tudo, essa fontes ou forças elementares , não são, nem estão, fisicamente acessíveis não como matéria prima nem energia infinita.

Ou em termos menos metafísicos e mais materialistas e economicistas: Uma coisa são as fontes de energia, outra completamente distinta são as máquinas necessárias para converter essa energia em força trabalho e enfim produção- ainda que o produto final do emprego máquinas como força de trabalho, seja a produção de mais energia para produção (e consumo) material.

Quanto mais perfeita for uma máquina, isto é, quanto menos desperdiça, ou consome energia na sua manutenção e produção menores são as demandas de recursos (e capitais) para realizar o trabalho da produção, mas não menores os gastos e consumo de recursos (e capitais) para sua fabricação e manutenção. Pelo contrário. O custo crescente para sua produção enquanto máquina, isto, enquanto sistema que transforma matéria e energia entrópica em trabalho ordenado e eficiente (leia-se, literalmente que não escapa da máquina, nem foge da sua finalidade) tende a uma demanda não só infinita, mas simplesmente impossível de ser atendida atendida, e por uma simples razão: forças elementares da natureza (ainda que infinitas) não se produzem nem reproduzem, por mais que o capitalistas sonhem com isso- em função de leis da oferta e procura; não como fontes de recursos que se criam, ou podem ser criadas pela demanda de consumo, nem em função do trabalho. E ainda que sejam reduzíveis e manejáveis enquanto fontes de recursos, tal redução e manejo se dá a razão e portanto no limite da sua natureza entrópica.

Nossas concepções das grandezas físicas matéria, energia, força trabalho, mais do que interligadas são definições circulares, ou literalmente formulas e equações matemáticas que nos permitem compreender e converter uma em função das outras. A energia se define em define em função da produção do trabalho, o trabalho das forças que movimentam e transformam a matéria, e essas força de trabalho, incluso como máquina, novamente em função da matéria e energia que consome e produz. Nada se perde tudo, se transforma, exceto uma propriedade, a ordem. Ou se preferir fazer uma outra leitura do mundo manter a regra sem abrir de fato absolutamente nenhuma exceção de fato nada se perde, tudo transforma incluso a ordem em entropia.

Considerando que o universo assim como sua explicações racionais ou cosmovisão não é feito de exceções, mas de justamente de leis por definições universais. A entropia não é meramente uma segunda lei da termodinâmica, mas uma lei ou se preferir um termo menos antropológico em favor de um mais cosmológico, uma força elementar e logo constituinte do universo, ou como diria Nelson Rodrigues da vida como ela é. E supor e confundir essas leis e forças naturais com as nossas artificiais é um erro fatal.

O universo é composto e se retroalimenta perfeitamente sua ordem da entropia. Sistemas artificiais, mesmo os capazes de compreender essa lógica não, que dirá então os que não. De tal modo que se houvesse uma máquina perfeita capaz de transformar matéria e energia em trabalho sem perdas entropicas teríamos um buraco negro, a devorar o universo absolutamente em todas suas forças e formas apenas para a manutenção e reprodução dos seus processos.

O que não é possível.

Não só os processos ordenados resultam inevitavelmente em entrópicos. Como eles só se produzem a partir de forças elementares da natureza que não existem sem entropia, são “entropia”. De modo que não importa que essas forças sejam infinitas, na medida que estão ou são ordenados como produto ou produção de mais trabalho e matéria, tem de forma inversamente proporcional menos energia potencial livre a sua disposição para manter não só sua dinâmica, mas estrutura. Tal que o sistema não a pará, mas se fecha e desintegra.

Não é só o universo que vai literalmente morrendo a medida que se esfria ou mais precisamente vai atingindo seu equilíbrio termodinâmico enquanto evolui do caos original para organizações cada vez mais complexas. Qualquer sistema. A organização não produz movimento ela o usa e consome sua potencia. É feita da delimitação do infinitos potencial caóticos de movimento em movimento finito e ordenados, e que quanto mais ordenados não produzem maior potencial dinâmico e estrutural, mais menor, até enfim atingir o equilíbrio termodinâmico onde as ligações e estruturas complexas de desfazem liberando suas estruturas em suas estruturas originais mais elementares não só relativamente mais entrópicas, mas geradoras da ordem, incluso a nova que literalmente explodem em cosmogênese criativa da nulificação da velha.

Um processo onde não só vida e morte, mas o caos e ordem estão intrinsecamente engendrados. Onde o teratológico não está portanto na morte natural, na dinâmica do decaimento e reorganização da matéria, mas no delírio de poder para perpetuar desnaturada e artificialmente uma determinada estrutura e dinâmica ao custo não só da destruição de todas formas de existência, mas sua capacidade de auto-organização, que sustenta toda existência, incluso a monstruosamente predatória e destrutiva- aos menos enquanto pode.

Assim mesmo que tivéssemos acesso a fonte de recursos inesgotável de matéria e energia precisaríamos de processos que não só se alimentassem, dessas fontes de recursos em todos as etapas do processo de produção, mas fossem capazes de “extrair” energia diretamente das forças elementares que constituem (e desconstituem) a materialidade, sem recorrer nem a matéria, nem aos processos que a estruturam e desestruturam. E eis que voltamos ao principio… onde ou fabricamos maquinas e processos perfeitas que não só consomem a matéria, mas são feitas da imaterialidade. Ou seja estamos falando aqui, de máquinas metafisicas, pois não só não consomem unidades de recursos concretos e logo finitas, mas são feitas e processam recursos livres das limitações particulares da materialidade e movimento da física. Energia infinita a alimentar energia pura capaz de produzir sem recorrer a matéria, mais energia pura e infinita, e claro mais matéria por que afinal de contas a máquina até pode ser só espirita, mas nós não, somos também corpo. Ou uma contradição de termos, ou da (falta de) lógica escondida pelos termos : produção de formas e movimento delimitados que não são delimitação de formas e movimentos.

Ou em termos menos físicos e metafísicos e mais materialistas e economicistas: Uma coisa são as fontes de energia, outra completamente distinta são as máquinas necessárias para converter essa energia em trabalho e produção- ainda que o produto final desse trabalho, não seja material, mas mais energia para sua produção.

Simplesmente é impossível construir máquinas que não param. Não só porque não existem tais máquinas perfeitas que não consomem nem perdem energia, mas porque, mesmo que existam fontes de energia inesgotável, não existem fonte de alimentação perfeitas que possam ser construídas ou funcionar sem alocar e consumir recursos que por natureza e definição são finitos, ou seja matéria- no caso, a prima.

A não ser, é claro, que essa máquinas fossem feitas de pura energia e não matéria, mas então não seriam máquinas; não seriam corpo; e não teriam… matéria. Matéria sem a qual não a energia não existe não como propriedade da matéria e está daquela, mas tão somente como ideia sobre um fenômeno transcendental. Ideia que,por sua vez, mesmo que não seja só uma ficção, e de fato corresponda a uma força elementar do universo, seria ainda sim uma ideia sobre algo real, uma realidade, que continuaria além de qualquer possibilidades acesso, apropriação, e não raro, cognição.

Em outras palavras é a ideia de um força por definição metafisica. Força que produz e reproduz em moto perpétuo a materialidade mas rigorosamente não pode ser objeto nem de produção nem reprodução, (ou sequer observação) desses objetos. É a velha ideia do primeiro motor aristotélico, bem mais anciente que os motores, ou mesmo Aristóteles. Uma concepção que não pode ser objeto da validação-invalidação fenomenológica- porque está, por definição, além; e pela mesma razão, também, não pode ser objeto sequer da observação(que dirá manipulação) daqueles que estão encerrados no espetro da percepção sensível da materialidade, da qual são composta (e delimitadas) não só suas noções realidade no campo de saber da física, mas sua própria existência concreta da física enquanto o campo do real perceptível.

De tal modo que tais concepções se não forem fantasias, são deduções, inferências a cerca de uma força que se real está longe de ser um motor aristotélico, está mais para o Apeiron de Anaximandro da filosofia ocidental, ou o Tao do oriental: não é só o intangível, é o imponderável, que só se “revela” (ou conhece) tão somente “pelas pegadas” que deixa na natureza.

Mas, como as pegadas do Tao, não pagam nem um cafezinho, quando mundo se vendem como autoajuda, porém não como a “ajuda mútua” voltemos ao flerte da ecologia com o eugenismo, o neomalthusionisma que enxerga o mundo como um barco, onde a galé como coelhos , a se reproduzir e devorar todos os viveres até afundar o Planeta visto como um barco, e logo precisam ser contidos, seja castrando, ou até mesmo jogando para fora do barco. A solução final para as tragédia dos comuns.

Uma visão na qual tais problemas como superpopulação e superexploração são tomados como se fossem consequências de falhas naturais que devem ser corrigidas artificialmente, quando são justamente o oposto: o produto tanto da desnaturação quanto da própria inversão que (como falácia) se autojustifica criando problemas e vendendo soluções para problemas que fabrica, como se os problemas fossem de ordem natural- ou pior, como se a natureza fosse o problema- e não produtos da degeneração artificial e sua banalização que se vende como normal como se fosse natural. A fabricação e banalização da anomalia pela norma, normalidade e normatização da monstruosidade como normal em negação, recriminação apropriação e enfim falsificação do natural.

Segundo Adam Smith, e os defensores do lasse far lesse paz o individuo enquanto agente racional a perseguir exclusivamente e competitivamente entre si para o incremento dos seus interesses particulares constrói a riqueza econômica que beneficia a todos. Já de acordo com a tragédia dos comuns, tal processo de modelo de produção da riquezas das pessoas e nações tem um grave defeito: a longo prazo, num mundo finito, de recursos finitos, inevitavelmente implica na destruição mútua assegurada de todos os agentes.

Nenhum das proposições está incorreta, não são contraditórios, mas complementares. o ser humano de fato perseguindo competitivamente os seus interesses particulares coopera (inconscientemente ou não) para produzir bens, serviços que incrementam como externalidades também a riqueza coletiva, porém ao custo da produção de outra externalidade: o consumo desenfreado dos seus meios ambientais e recursos vitais, cooperando competitivamente portanto também para uma destruição mútua assegurada, a autodestruição ecológica.

Uma ampliação do dilema hobbesiano do homem lobo de seus semelhantes, para o home lobo de tudo, o qual não se resolveria senão pela solução aristocrática: no qual os agentes racionais que só perseguem seus interesses particulares devem ser regulados e se preciso for reprimidos por uma inteligência coletiva maior, um máquina supostamente composta e conduzidas de homens com interesses coletivos maiores e claro supremacia da violência , para conter os instintos violentos e predatórios dos particulares sob sua vigilância. O leviatã, o Estado.

O problema dessa “solução”, é que esse aparelho estatal e seus homens não são feitos interesses exatamente da mesma matéria e interesses em particular como precisam alimentar alimentar um corpo cuja fome e tamanho e poder destrutivo superam o de qualquer interesse comum ou difuso. Ou seja, o problema dessa solução, é que ela não é solução, mas a amplificação e monopolização do problema como se fosse solução. Esses corpos artificiais não só precisam manter seu gigantismo, mas um crescimento constante que alimenta a hegemonia do poder de fato que sustenta a supremacia sobre os demais indivíduos em particular ou em sociedades. De tal modo que mesmo suas divisões em órgãos e poderes distintos além de serem incapazes de impor qualquer limite competitivo para sua própria cooperação à predação, impedem que qualquer limite seja imposto pela cooperação ou competição por qualquer corpo estranho. O que não é um erro de cálculo, é a maior vigarice da história.

Como a onipotência, onisciência e onipresença que compõe qualquer pretensão de poder total são uma contradição de em si mesma para qualquer ente ou entidade delimitada, essa máquina precisa ter olhos, e tentáculos em todos os lugares. Precisa não só de gente para compor sua cabeça e entranhas, mas também os tentáculos que formam a capilaridade que controle os recursos e seja capaz de prover seu sustento dos centros de poder. Precisa terceirizar. Precisa de corporação privadas que funcionem como braços, olhos pernas em todos os lugares- incluso os territórios fora da sua jurisdição- tanto explorar recursos quanto fagocitar os indivíduos e comunidades em unidades corporativas suficientemente grandes para serem engolidos, manejados, e obrados.

Uma simbiose entre parasitas, entre corporações privadas e estatais, que formam um único sistema, a resguardar a posse, exploração e consumo do bem comum do usufruto dos assim excluídos, como exercito de ambos. Matéria-prima e mão-de-obra. Terra e escravos. A galé do mundo reduzido a seu barco por eles capitaneados; a ser reproduzida ou eliminada. Ou mais precisamente o mundo e seus seres reduzidos, a veículos, instrumentos e recursos de interesses privados e estatais travestidos como se fossem representações de interesses público e particulares quando de fato são a farsas e negação da individualidade e coletividade. Uma máquina artificial não só obstruir a cooperação e competição natural que a limita sua capacidade de desnaturação, mas a expropriar a posse e usufruto de liberdades, que enquanto propriedades são absolutamente vitais, os bens comuns.

Um artificio engenhoso constituído como corpo artificial parasitário monstruoso a desnaturar e capitalizar instintos de preservação, tanto egoístas quanto gregários que regula o alheio a apropriação e usufruto dos sujeitos expropriados e reduzidos a seus objetos, ao mesmo tempo que constrói assim a supremacia que coloca sua predação fora e acima de qualquer possibilidade de autorregulação natural. Um modelo que não só não trouxe nenhuma solução para os problemas da superexploração e extermínio nem da natureza, nem das populações excluídas , mas que pelo contrário aumentou o progresso a escala e velocidade da predação e enriquecimento das tribos mais bem armadas dessas máquinas artificiais, frente as nem tanto.

Mais do que um processo de extermínio da natureza, é sobretudo um processo de expansão de um determinada gene (e genes) pelo extermínio e predação das demais. Um processo onde outras formas de vida, tanto como populações vegetais e animais ou mesmo humanas são literalmente consumidas em holocaustos ao progresso e crescimento dessa outras populações e formas de vida tanto no plano cultural, quanto biológico. Antes de ser o extermínio de todo a natureza enquanto os meios e recursos necessários para sustentar seus sistema, incluso como reprodução de poder e riqueza, é um processo de extermínio da diversidade natural e humana que efetiva a evolução e logo perpetuação da vida, tanto de uma determinada espécie quanto do ecossistema que a sustenta. O progresso que se confirma e racionaliza e justifica como profecia entrerrealizada, desde que jamais faça duas perguntas fundamentais: progresso de quem ou a custas de quem? e até onde ou quando?

O crescimento da predação e superpopulação de uma espécie, incluso a humana, nunca é feito dos povos, animais e biomas que foram jantados, mas daqueles que são reduzidos a janta futura dos que jantam. Tome por exemplo o crescimento da população humanas, riqueza econômica e qualidade de vida da população do mundo depois do descobrimento do dito novo mundo. Tal desenvolvimento e enriquecimento é irrefutável assim como é irrefutável que tal progresso tenha implicado não só no extermínio da vida natural, mas da vida nativa. Há um processo onde as clãs e tribos humanas que compartilham a mesma gene, e logo similaridade genética, não só aumentam sua riqueza, mas não raro o grau de distribuição e universalização dela diminuindo a pobreza em geral, inclusive crescendo em população. Mas isso é feito através da exploração e extermínio das formas geneticamente menos semelhantes de vida, onde os excluídos e marginalizados vão sendo eliminados explicita e positiva ou silenciosa e negativamente.

Não é uma mera progressão da desigualdade. mas literalmente um holocausto. Um extermínio devidamente mascarado por uma comunhão da espécie na prática, onde evidentemente os mortos não contam, como os progressivamente excluídos marginalizados e futuramente exterminados, vão a medida que sua população vai diminuindo em número até desaparecer, até não “somar” nenhuma pobreza, miséria ou desigualdade as demostrações e projeções do sistema.

Em outras palavras o crescimento global não só da miséria mas da desigualdade vai se tornando insignificante na exata medida que as populações miseráveis e marginalizadas vão progressivamente diminuindo não por inclusão, mas por exclusão definitiva. Assim há evidentemente duas formas de sumir com a miséria e pobreza. E ambas são empregadas, uma eliminando a marginalização, outra eliminado os marginais. E tais processos são empregados em conformidade com a razão das proximidades e similares de origem, como propriedades herdadas natural e artificialmente- genética e cultural que por sua tão bem estão ligadas e se reproduzem (ou são apartadas e destruídas) na medida da mesma semelhança da gene hegemônica.

Nesses modelo ditado pela gene e hereditariedade, quanto maior a proximidade genética, quanto maiores forem os laços de sangue maior é a probabilidade da solidariedade, cooperação ajuda mútua e ou mesmo uma distribuição igual e universal entre os seres que compartilham uma mesma gene, sejam como irmãos, ou primos mais ou menos distantes. Da mesma forma que logo quanto mais distantes são esses primos e suas origens, maior é a probabilidade de competição, conflito, guerra e exclusão, escravização e eliminação das famílias, clãs e tribos, nações subjugados pelas dominantes.

60 milhões de nativos americanos mortos, não tem nenhuma influência nos cálculos de desigualdade e desenvolvimento atual. Pelo contrário, não só essa eliminação permitiu que outra muito mais próxima se fizesse mais rica e até eventualmente menos desigual. De tal modo que em ultima instancia a gene cultural e até mesmo genética que subsististe absorvida pelos miscigenados e aculturados, tende também progressivamente a insignificância e extinção, na medida que os primos diferentes e distantes da população hegemônica são agora eles. E serão eles que a ser sacrificados pelo bem maior da sobrevivência de “toda” “humanidade”.

E eis que novamente em um nova geração da população feita dos decentes e herdeiros dos mesmos patriarcas, enquanto filhos legítimos e bastardos a ampliar teratologicamente sua população cada vez pela predação de todos seres e formas de vida menos próximas e semelhantes. E se na disputa dessa primogenitura dessa herança fazem isso entre irmãos e primos mais próximos, porque não o fariam com descendentes de ancestrais mais distantes que não formam outras tribos, clãs e nações de uma mesma espécie, mas a diversidade de outras especies?

Se então consideramos as concepções eugenista em voga, o do gene egoísta, temos uma máquinas que embora não sejam perfeitas, são extremamente eficientes em efetivar seus verdadeiros propósitos, espalhar o gene de seus controladores tanto genética quanto cultural por todo o espaço que puderem tomar e se disseminar. E isso que assusta no nazi-fascismo ele só é a forma moderna e mais aperfeiçoada de uma máquina que criamos, mas tão somente uma máquina que reflete radical e ostensiva os paradigmas e processos que seguimos, de modo, a não a termos o espaço nem o tempo absolutamente necessário para encobrirmos nossos rastros explícitos da progressão de um extermínio congênito.

Não é toa que o cientista George R. Price, um dos principais pela proposição desta teoria onde o instinto gregário e logo a empatia, compaixão, solidariedade estão reduzidos a mero egoismo “mais inteligente”, tenha depois de acreditar sem um enviado de Jesus, e acolhido mendigos em sua casa, cortado seus pulsos com uma tesoura, ao chegar a tal conclusão que o altruísmo não existia, senão como ampliação de uma programação egoísta da sobrevivência de um código genético a rodar em um cada individuo. Um altruísmo como mero egoismo mais ou menos ampliado da esfera do eu para o conjuntos universos mais amplas do nós, mas nunca para qualquer possibilidade de solidariedade genuína possível como os outros e demais, o eles. E logo ainda sim predestinado ao fatalismo da autodestruição certa.

É, portanto, compreensível o desespero que levou a morte esse altruísta.

Se de fato o que guia o amor pela prole, ou mesmo a coragem e solidariedade daquele que põe em risco ou mesmo sacrifica sua vida pelo próximo e semelhante, ou nem tanto, é meramente um erro ou acerto de cálculo utilitário, determinado tão somente do saldo bancária final dessa contabilidade genética então exatamente onde não queria; se o produto do fracasso ou sucesso “evolutivo” de um ato fosse dado pela quantidade dos genes e memes a sobreviver em um número maior de seres humanos do que aqueles que irão morrer ou serão mortos, não haveria diferença final entre salvadores ou genocidas; Temos então uma contabilidade utilitária que vai muito além da fascista do matar uns poucos para “salvar” ou preservar outros tantos mais. Mas a confirmação das bases biológicas, para o calculo racional da lógica eugenista nazista. Onde a solução final do problema não é dada pela eliminação de alguns em prol da salvação de outros, mas a eliminação de todos os outros para a preservação desse nós enquanto gene (e gênese) egoísta.

Uma lógica onde todos os que não suficientemente iguais em sua gene, ou por demais degenerados e impuros, não são gente, nem sequer servem como escravos na nesta hierarquia, mas são pragas a ocupar e consumir os espaços e recursos vitais e que portanto onde onde não basta apenas ser impedidos de procriar ou acessar o bem comum, devem ser exterminados; tanto para preservar sua gene, definida como raça por sua pureza dada pela maior proximidade e semelhança da herança genética, quanto para garantir a sua expansão populacional e territorial de sua raça pelo Planeta.

Se a ratio que guia a humanidade é a semelhança a mera preservação de códigos hereditários similares, essa mera proximidade entre os semelhantes laços hereditários, que não diferencia um Messias de uma Besta, um Cristo de um Hitler, aquele que se sacrifica pelos demais, ou o que sacrifica os demais em holocausto, desde que no finas literalmente das contas a gene dos “salvos” for superior em número e qualidade genética dada; e o salvador de um população é a besta de outras tantas. então realmente sério problema na gêneses da nossa vida como predestinação ao apocalíptico.

Mas não se desespere, nem se precipite. Não é preciso desistir da humanidade, nem da razão.

De fato, o salvador de um povo não raro é a besta de muitos outros. E o contraste ou mesmo oposição entre eles não faz nem de uns de outros, nem santos nem mostro, não muda o que são, nem relativiza seus atos. Mas justamente por essa mesma razão, não retira do nosso senso comum a capacidade tanto de determinar sua mesma natureza quanto distinguir em graus, a gravidade de seus atos e condição.

Não estamos falando de seres constituídos por substâncias distintas, mas rigorosamente da mesma, onde toda e qualquer tipo de discriminação e classificação não é uma completa fantasia, é meramente a indicação das diferenças de grau de uma de uma substancia, que mesmo quando atinge o ponto de mutação da matéria, ainda sim permanece por definição da essência da substância, elementarmente a mesma. Estejamos falando do estado físico a composição molecular da água ou dos seres vivos e humanos.

E segundo não estamos falando de anjos nem demônios, heróis e vilões, mitos e arquétipos, mas de seres e fenômenos e sobretudos pessoas reais, comuns que constituem a humanidade não como sonho utópico ou pesadelo distópico, ainda que concreto, mas antes de tudo, como ela é, ou mais precisamente como veio a se tornar tudo que pensamos que ela seja ou pode ser.

Se a razão que guia a preservação da vida tanto egoísta quanto altruisticamente fosse de fato em sua gene e gênese determinada dada qualitativamente pela proximidade dos código genético compartilhados e quantitativamente pelo número da indivíduos de uma população geneticamente semelhantes a perpetuar esse código as custas do extermínio positivo ou negativo dos demais, então não só extinção seria um fim inevitável, mas a própria evolução do fenômeno da vida teria tido sequer qualquer possibilidade. Se tais pressupostos fossem verdadeiros antes da autodestruição ser certa, não existiria nenhuma forma de vida, sequer como possibilidade quanto mais como de existe, em todo sua diversidade.

E se o princípio que guia as ações que levam um ser vivo a estender sua ajuda compaixão e solidariedade e altruísmo para além da segregação ou descriminação dos estranhos, diferentes e distantes fosse o mesma gênese do egoismo monstruoso que leva extermínio dos apartados, discriminados, discriminados, diferentes, ainda que próximos e semelhantes fosse meramente a mesma: a perpetuação e proliferação dos seus genes; de modo que no final, a única diferença entre entre assassinos eugenistas ou verdadeiros altruístas fosse a qualidade e quantidade dos semelhantes geneticamente ele salva e preserva mesmo que com o sacrifício ou holocausto de outras tantas vidas que nem somadas (que dirá por si só) tem o mesmo valor que a preservação desses genes não haveria sequer uma gênese para haver qualquer possibilidade de apocalipse, seja ele o da autodestruição ambiental ou nuclear.

Quando portanto estamos falando aqui em “apocalipse” estamos nos referindo propriamente ao que em teoria de jogos se denomina “destruição mutua assegurada”, um equilíbrio de Nash, onde nenhuma das partes tem nenhum incentivo em particular para mudar sua estratégia unilateralmente ainda que isso leve a todos no final a morrer ou se matar. Logo, o problema presente não só nas tanto na tragédia dos comuns, ou nas corridas armamentistas, mas em toda e qualquer estrategia de sobrevivência incapaz de compreender e desenvolver comportamentos cooperativos suficientemente eficazes não só para superar tais dilemas da preservação da vida, e manter qualquer equilíbrio ecossistêmico, mas por essa mesma razão, explicar como foi que a vida foi capaz de evoluir até agora sem se autodestruir.

Não é por acaso que fracasso tanto na resolução desses problemas, quanto na explicação dos fenômenos, acompanhe justamente a incapacidade de compreender e explicar (e aplicar) os comportamentos solidários e altruístas. O fracasso tanto teórico quanto prático dos paradigmas egoístas dos modelo de agentes individuais exclusivamente competindo por seus interesses particulares, seja biologia, economia ou ecologia, ou cultura não só se explica, mas é causado pela completa ignorância e desprezo pela comportamento solidários, pior, pela pressuposição prepotente que a supressão desses emoções produzem a racionalidade, reduzida a ausência do passional, quando em verdade produzem a patologia do pensamento psicopático desprovido de respostas empática, e inteligência suficiente para produzir o ethos, de uma consciência. O paradigma apologético de uma pathos sem ethos, consistido como se fosse uma ratio quando em verdade é o o tanos e taratos, não a força constituinte, mas desintegradora da vida.

Para entender as soluções, é primeiro preciso entender exatamente a qual problema elas se propõem de fato a resolver. E a pergunta que eles se propõe a resolver é basicamente a seguinte:

Como foi/é possível emergir a cooperação e o altruísmo entre os individuos movidos por definição por seus interesses particulares?

(…)Vista de longe, a seleção natural de Darwin parece uma simples disputa por recursos. Se um guepardo nasce correndo mais rápido que os demais guepardos, ele acaba caçando mais presas, impressionando mais fêmeas e, em última instância, tendo mais bebês — com a mesma vocação para Usain Bolt do pai. Assim, com o tempo, guepardos rápidos se multiplicam na população, e os lentos desaparecem. Após alguns milhões de anos, o resultado é um felino que alcança 100 quilômetros por hora. O engenheiro dessa Ferrari? Ninguém: a mãe natureza faz o serviço sozinha.

É aí que começa o problema: uma ação altruísta, na letra fria do darwinismo, é melhor para o indivíduo que recebe a ajuda do que para o indivíduo que presta auxílio. Um animal que gasta energia e se põe em risco para ajudar outro acaba sendo morto mais rápido. O hábito de ajudar, então, não deveria ter vingado na natureza. Mas não: o altruísmo existe na vida selvagem. O próprio Darwin admitiu essa contradição em A Origem das Espécies — não por coincidência, foi na hora de discutir formigas, famosas por sacrifícios admiráveis como o do começo da matéria. E agora?

Para encontrar a explicação, era preciso dar mais um passo. Foi o que biólogos como William Hamilton e John Maynard Smith fizeram na década de 1960. Na interpretação deles, o que a seleção natural seleciona não é uma formiga ou um guepardo. O que ela seleciona são os genes que dão vantagem à formiga ou ao guepardo. Recapitulando: o seu corpo é construído a partir de um manual de instruções — o DNA — que fica guardado no núcleo das células. Esse manual tem “páginas”, os genes. O que se dá bem na competição, portanto, não são as instruções do guepardo inteiro, só as páginas que contêm os passos para construir pernas mais longas e músculos de contração rápida. É esse o trecho de material genético que será bom para os filhos.

OK, mas isso muda alguma coisa? Sim, muda tudo. É só seguir o raciocínio: não existem dois indivíduos idênticos — cada um é uma combinação única de genes. Mas todo mundo compartilha alguns genes. Se você tiver olhos azuis, por exemplo, é garantia que você tem pelo menos um pouquinho de DNA igual ao de algum russo de olhos azuis, mesmo que vocês não sejam parentes. Se vocês forem mesmo parentes, aí o compartilhamento de genes é severo: seus primos têm 12,5% do material genético igual ao seu. Seus tios, 25%. Seus pais e irmãos, 50%. É mais gene repetido que figurinha da Copa.

Agora suponha um conjunto de genes que o tornem mais propenso a atitudes altruístas — como fornecer alimento a pessoas próximas. Ao dar comida para seus irmãos e filhos, você colabora com a sobrevivência de gente que carrega seus próprios genes. Sendo bom com seus parentes, você é bom consigo mesmo. Não existe almoço de graça: uma atitude altruísta do ponto de vista do indivíduo ainda é interesseira do ponto de vista do DNA — são só bases nitrogenadas se preocupando com as cópias delas que vivem nas células de outro ser vivo.

É sempre bom reforçar que material genético não tem consciência nem intenções — a explicação acima é metafórica. Não tem molécula nenhuma “decidindo” ser bacana com suas sósias. É só uma questão de lógica. Pedaços de DNA que tornam seus donos propensos a ajudar acabam se espalhando pela população justamente porque têm o efeito colateral curioso de zelar pela própria sobrevivência em outros corpos. E é esse o segredo das formigas: elas são uma grande família. As operárias de uma colônia são todas filhas da rainha. Têm 75% do DNA idêntico, ou seja: são mais próximas entre si que irmãos humanos. Coloque outros fatores na ponta do lápis — como o fato de que a Megaponera analis tem baixa taxa de natalidade, o que torna difícil repor o exército — e fica fácil concluir que qualquer comportamento altruísta é mais vantajoso ali que o egoísmo. Cada soldado conta.

Algo parecido vale para os humanos. Na Pré-História, como as formigas, saíamos em grupos para caçar presas que se defendiam com violência. Quase todos os membros desses bandos eram parentes próximos — o que, por si só, já justificaria a ajuda mútua. Os que não fossem, porém, não eram necessariamente menos importantes: o cálculo de custo-benefício também leva em consideração o reforço que os companheiros podem dar em caçadas futuras.

Olho por olho

O macaco africano Chlorocebus pygerythrus tem meio metro de altura, rosto preto, pelo cinza e muitas semelhanças com o ser humano: vive em grupos de 10 a 50 membros, sofre de hipertensão, pode se viciar em álcool e, acredite, sabe falar. Tudo bem, “falar” é bondade: sua língua tem quatro palavras: leopardo, águia, cobra e babuíno. Não dá para formar frases, mas serve para avisar os colegas que qualquer um dessa lista está se aproximando.

O que leva a outra pergunta: por que um macaco, em sã consciência, daria um grito ao ver um animal ameaçador se aproximar? Fazendo barulho, o primata acaba atraindo a atenção do predador para si — arrisca virar comida para salvar seus iguais, em vez de sair de cena sorrateiramente e deixar a cobra ou águia pegar um desavisado. “Em princípio, é uma adaptação ruim, você está dizendo ‘olha eu aqui!’ para o predador”, diz Shigeru Miyagawa, linguista do MIT. Uma das explicações vai na linha das formigas: ao avisar o bando, o macaco salva seus familiares. Outra é mais política: ao fazer isso, ele age como um líder e ganha respeito. “Logo, as fêmeas se sentem mais atraídas pelo macho que dá o grito.”

A essa altura, você já deve ter percebido que arriscar a pele de propósito, só para mostrar quem é que manda, também é um típico hábito humano. E não é só no trânsito. Algumas tradições indígenas da América do Norte são famosas por uma cerimônia chamada potlatch. Nela, os membros mais ricos da tribo dão um banquete enorme, em que distribuem comida e todos os seus bens materiais. Se há uma disputa por poder em andamento, espera-se que outros indígenas com prestígio social respondam com uma festa à altura. Ao final dessa gincana de comilança, o derrotado vai à falência, mas o vencedor também sai na penúria. Não interessa: o que vale é o status.

Outra faceta egoísta do altruísmo, um pouco mais óbvia, é a troca de favores. Essa é mais velha que andar para frente: Heródoto, historiador da Grécia Antiga, relata uma cena que é reproduzida por livros didáticos até hoje. Às margens do Nilo, no Egito, crocodilos supostamente manteriam a boca aberta para que pássaros limpassem a carne que sobrava nos seus dentes. Tudo indica que é mentira: nenhum biólogo contemporâneo jamais conseguiu fotografar ou filmar a cena.

O que não quer dizer que outras espécies não tenham adotado protocolos parecidos. Pegue o exemplo dos morcegos-vampiros (Desmodus rotundus), típicos da América do Sul. Como eles só se alimentam de sangue, é preciso sair à noite para encontrar um animal doméstico de respeito, como um porco, mordê-lo sem que ele perceba e depois torcer para a presa não fazer nenhuma besteira — como mudar de posição durante o sono, esmagando o pequeno drácula no processo. O metabolismo desses mamíferos voadores é rápido e eles não têm reservas de energia: se a caçada der errado duas vezes seguidas, a morte por inanição vem em no máximo 70 horas.

A solução, então, é colaborar. Os que se deram bem na busca e estão de barriga cheia regurgitam parte da refeição na boca dos famintos. Geralmente esses vômitos nutritivos são passados de mãe para filha: de 110 colaborações registradas em um estudo de 1984, 77 foram entre familiares próximos do sexo feminino. Mesmo assim, os morcegos também investem tempo e energia em manter vínculos — essencialmente, amizades — com outros membros do grupo com que não têm nenhum grau de parentesco. Elas servem de plano B: na ausência da mãe ou dos irmãos, os agregados podem fornecer comida, sempre na expectativa de que o favor seja retribuído um dia.

Os morcegos isolados, que não têm paciência para fazer amizade, se dão mal: quando estão passando fome, ninguém aparece para salvá-los. Sem essa “lista negra”, a estratégia de cooperação seria instável. Qualquer traidor que recebesse sangue sem dar nada em troca engordaria mais às custas dos parceiros, quebrando a estabilidade econômica do grupo.

Além do DNA

O gênero humano, durante a maior parte dos seus 2,4 milhões anos de existência, encarou muitas situações em que indivíduos altruístas — pelo menos na definição biológica da coisa — teriam se dado melhor que os egoístas. (…)

Da mesma maneira, os genes que incentivaram o homem pré-histórico a sentir empatia não têm como saber quem é ou não da família na hora de oferecer ajuda. Eles são programados para dar uma mão a quem está próximo, seja lá quem for. Afinal, em uma tribo isolada, a chance de que seu vizinho seja um parente próximo é muito grande. Dá na mesma. O efeito colateral disso é que hoje sentimos vontade de doar água e comida a vítimas de tragédias em outro país, mesmo que elas não tenham parentesco nenhum conosco, nem possam devolver o favor um dia. O mundo mudou, o DNA ainda não — ele é um altruísta interesseiro, mas que pode ser (e é) enganado. A biologia, afinal, explica o mundo como ele é, mas não diz nada sobre a maneira como ele deveria ser. — As origens egoístas do altruísmo

Em outras palavras a teoria do gene egoísta fornece uma explicação porque e como surge a cooperação entre os indivíduos próximos e semelhantes, ou mais precisamente entre os indivíduos suficientemente próximos e semelhantes geneticamente. Mas não explica, o altruísmo onde o risco e sacrifício não implique em tal preservação dos genes, tomando tal por um engano, enganação, ou mero efeito colateral, de cálculo de risco segundo o interesses mal feito onde aquele que se sacrifica não está a preservar o seu gene, mas o alheio. Se considerarmos que a pressuposição de erro, assim como do acaso, são os coringas que colocamos no quebra-cabeça quando não conseguimos explicar plenamente um fenômeno ou simplesmente negar sua existência, de modo a sustentar uma explicação, mesmo quando ela falha. O que temos rigorosamente é uma teoria que explica parcialmente os fenômenos, mas não completamente. Ou seja, o mistério do altruísmo genuíno e desinteressado rigorosamente permanece? Porquê?

Sem apelar para a explicação fácil, ou melhor, a não-explicação de que os acometidos desse sentimentos erram ou são imbecis porque trabalham contra seu próprio interesse, afinal de contas a pergunta permanece porquê? Qual é a origem e o propósito de tal instinto e fenômeno: a solidariedade?

UM DOS GRANDES ENIGMAS no estudo da evolução humana é a tendência que temos de nos indignar com abuso de poder. Por que consideramos correto ajudar os indefesos que sofrem assédio e extorsão por parte dos mais fortes? Por que às vezes alternamos nosso instinto egoísta de sobrevivência por essa índole altruísta? Essa discussão, que ainda está longe de ter consenso entre biólogos e antropólogos, acaba de ganhar uma teoria matemática mostrando como o altruísmo pode surgir de puro egoísmo.

Se a seleção natural beneficia os indivíduos que obtém mais recursos para sobreviver, alimentar-se, reproduzir-se, etc, por que alguns arriscam sua pele para proteger outros mesmo quando não obtém benefício direto? Por que não se concentram apenas em atuar em benefício próprio?

A evolução dá aos seres vivos, claro, incentivos para defender seus descendentes e até mesmo parentes mais distantes. Isso significa, em resumo, garantir a propagação de seus próprios genes –”genes egoístas”, nas palavras do biólogo Richard Dawkins. Mas por que um ser ajudaria um estranho só por sentir pena? Por que, em última instância, desenvolvemos o sentimento de pena?

Em 1962, o zoólogo inglês V.C. Wynne-Edwards propôs a ideia de que a unidade submetida à evolução seria o grupo, e não o indivíduo, criando o conceito de “seleção de grupo”. Essa teoria permitiria explicar a emergência do altruísmo, pois um grupo que coopera entre si seria mais apto a sobreviver do que um grupo sem sinergia. Essa ideia, porém, acabou saindo de moda na década de 1980 após ser atacada por Dawkins e outros biólogos.

O principal defeito da “seleção de grupo” é que ela não explica como os indivíduos que investem esforço em nome do altruísmo se tornam mais propensos a deixar descendentes. Mesmo que o grupo sobreviva para superar outros grupos –para “evoluir” enquanto grupo–, a tendência inata a ajudar o próximo não seria passada à frente, pois o indivíduo que se arriscou para ajudar o grupo não obteve vantagem pessoal com isso.

Uma teoria interessante desenvolvida agora pelo biomatemático Sergey Gavrilets, da Universidade do Tennessee em Knoxville, sugere como contornar esse problema. Em um estudo na edição de hoje da revista “PNAS”, ele mostra como um indivíduo pode obter benefícios pessoais ao evitar que alguém poderoso tome recursos de um fraco (por “recursos”, entende-se principalmente alimento e fêmeas).

Se o indivíduo mais apto à sobrevivência é o que detém mais recursos em comparação a outros, aquele que vai em auxílio dos menos aptos contribui para que a distribuição de recursos no resto de seu grupo seja mais homogênea. Isso diminui a probabilidade de que esse outro indivíduo tirânico o ultrapasse na competição por recursos. [grifo meu]

A ideia é relativamente simples, mas esse tipo de interação tem um bocado de complexidade quando se leva em conta o tipo de reação e a evolução de comportamento dos déspotas. Gavrilets, porém, conseguiu desenvolver um modelo matemático completo para explicar como a “síndrome igualitária” –a porpensão de um indivíduo a ajudar um outro contra abuso dos poderosos– evolui. Seu estudo indica que essa tendência se fortalece com o tempo de evolução, e ainda pode ser “turbinada” por práticas culturais.

Esse fenômeno, porém, só ocorre sob algumas condições. “O efeito é mais forte dentro de grupos pequenos e que tenham hierarquias pre-existentes mais rígidas”, escreve o cientista. “Quanto mais confiável é a avaliação da força [alheia], mais provável é o comportamento de ajuda.”

O contexto social em que a síndrome igualitária pode ter evoluído é bastante similar àquele em que vivem alguns tipos de macaco, diz Gavrilets. Possivelmente os ancestrais humanos que começaram a moldar nosso comportamento milhões de anos atrás também eram grupos pequenos com hierarquias rígidas. O tipo humano de altruísmo já foi observado em chimpanzés, nosso primos-primatas mais próximos, e é plausível que uma inteligência maior contribua para fortalecer o efeito da síndrome igualitária.

O que chama à atenção no estudo de Gavrilets é que, se sobreviver ao debate científico no futuro, sua implicação deve ir além do conhecimento sobre a evolução em si. A síndrome igualitária, afinal, é apenas um nome técnico para explicar alguns valores cristãos que fazem parte de nossa percepção inata de justiça. Essa perspectiva humanista não depende de religião, claro, mas a biologia ainda não sabe explicar de maneira completa a origem dos nossos valores morais.

“Identificar a dinâmica dos instintos sociais igualitários controlados pela genética e suas raízes evolutivas é um passo necessário para compreendermos melhor a origem do senso de certo e errado que é único aos humanos”, afirma Gavrilets. — Altruísmo Egoísta ou Egoísmo Altruísta?

Embora confesse que a ideia da “seleção do grupo”, onde a distribuição mais igualitária dos recursos emerge da congruência mais inteligente entre os interesses particulares e coletivos em oposição e proteção contra a tirania ou o egoismo estúpido, por embasar muito do que escreve e prático, e sem dúvida amplie a explicação para além dos laços de parentesco e vizinhança e origem, ainda sim, é uma teoria que não explica, os os riscos e sacrifícios que vão além dos interesses do individuo dentro do seu grupo. Mesmo que o grupo de forme de laços dos solidários, isto é, da adesão a estratégia cooperativa, ainda sim, e a teoria explique como a solidariedade se fortalece como ajuda mútua através dos ciclos virtuosos de confiança e reciprocidade. Ela ainda sim, não explica, como nem porque um ente inteligente é capaz de se sacrificar por outros que não pertencem a seu grupo, ou jamais serão capazes de retribuir ou contribuir para sua preservação nem como indivíduo, nem como grupo.

Se a teoria do “gene egoísta” explica (ou se preferir reduz) a solidariedade as relações de gene e parentesco. A teoria da “seleção de grupo”a explica (ou reduz) as relações mutualistas de grupo. E nenhuma delas explica as origens de sentimentos humanistas universais, nem muito menos cosmopolitas. Na verdade não explica porque, não só eventual ou instintivamente, mas sistematicamente como estratégia evolutiva enquanto hábitos, costumes e princípios, não só indivíduos, mas grupos inteiros simplesmente não abandonam nem eliminam aqueles que não cooperam, não produzem, ou são completamente incapazes de fazê-lo,pelo contrário repudiam esse comportamento, não raro ao risco e sacrifício das suas vidas, salvando ou mesmo se dedicando a ajuda e cuidado independente de quaisquer espécie de discriminação, incluso até mesmo dos sabidamente inimigos ou predadores.

Como eles podem fazer isso? Como podem apresentar tal comportamento sem ferir seus interesses particulares? Como poderiam ter desenvolvido tal solidariedade (sem que ela seja meramente um erro) a partir dos seus interesses como individuo? Eis a questão. Não podem. O que não quer dizer que essa solidariedade não exista de fato, ou que seja meramente um erro de calculo dos instintos passionais ou racional. Quer dizer que esse modelo de pensamento simplesmente não pode compreender plenamente a solidariedade.

Na verdade pouco importa se os proposito era o de salvar o paradigma ou de fato superar contradições e limitações; é inegável o avanço na teorias evolucionárias da vida, empreendido pelas chamadas teorias de altruísmo egoísta, sejam as genéticas ou de grupo na tentativa de entender esse fenômeno até então incompreendido (para não dizer convenientemente ignorado). Porém seja na resposta dada pelo modelo do “gene egoísta” ou da “seleção de grupo”, a contradição permanece insuperável.

A cooperação como estratégia de sobrevivência seja completamente restrita a mera competição individual, ou dela derivada não é capaz de explicar-se, nem para dentro da seleção natural darwiniana nem do liberalismo socioeconômico que por sinal pertencem senão como teorias como ideologias ao mesmo paradigma do individualismo materialista, por uma simples razão, não é a solidariedade que tem um problema, mas os pressupostos o logo os questionamentos que não conseguem compreendê-la nem em suas respostas, nem no que ela significa enquanto resposta.

Em outras palavras, a questão, ou melhor, a pergunta fundamental, não é como a cooperação emerge da competição pelos interesses particulares, mas sim inverso: como o egoismo emergiu da solidariedade? Os interesses particulares são bunda, não há mistério, todo mundo tem uma, desde que seja alguém. A pergunta é como esse “eu”, essa entidade em particular e sua diversidade emerge e se difunde a partir do universal, ou mais precisamente do um universo que antes de ser uma rede ou um conjunto formado por elementos, é rigorosamente uma unidade una mais simples que se multiplica em diversas. A pergunta portanto não é como surgem e se processam essas ligações gregárias mas como elas se especificam, ou até mesmo se perdem na medida que nos distanciamos de nossa origem em comum.

Logo o problema é que o modelo mental de projeção do real, do universo, está invertido, está preso na armadilha ou ilusão gnostica do ego. As ligações empáticas não podem ser deduzidas nem reduzidas de interesses particulares, porque elas não se formar a partir destes, mas não só estes a partir destas, mas antes a própria existência dos seres e grupos em particular a partir da sua diversificação e discriminação. A empatia é um instinto gregário, uma gene e código genético inscrito na formação dos seres. Ela não se cria, mas se liga, desliga e re-liga. A ordem dos fatores é inversa: embora se retroalimentam sistemicamente, não é da competição que surge a cooperação, mas das bases cooperativas que surge toda e qualquer possibilidade de competição, seja como condição, ou capacidade.

A empatia está presente na formação do “eu”. O ser, ou mais precisamente a mente não nasce com uma concepção predefinida não só do que é, ou o que é, mas sequer nasce com uma noção completamente formada e distinta do que é exclusivamente ele e o mundo, de onde termina um e começa o outro, ou o que é um e outro. Essas noções que formam o eu e o outro, o individualidade, a coletividade, de um conjuntos do qual é elemento que faz parte e é distinto, é produto de ligações em rede vão se sendo moldadas pelo uso e desuso, pelas conexões que se ligam ou desligam durante o desenvolvimento que resultam na criação do nexo do eu, do eles, e do nós.

Um nexo que é produto de sensibilidade preexistente como capacidade não-delimitada, mas cuja arquitetura forma a visão e noção do ser sobre sua identidade com maior ou menor nexo com tudo que não meramente a cerca, mas a forma, uma percepção que depende de como esse sentido foi estimulado ou podado. E o fato de nos surpreender com a empatia sem nenhum interesse egótico que um ser pode sentir por outro tão distante, diferente, tão inútil ou mesmo contrário aos seus interesses e propósitos, a empatia capaz de gerar um gesto genuíno de altruísmo completamente desinteressado, apenas reflete o quanto nesse processo de formação do eu, esquecemos suas origens, ou se preferir de onde realmente viemos e para onde verdadeiramente vamos. Esquecemos que está faltando alguma coisa, que perdemos ou nos foi tirada, e que sem a qual sequer existiríamos não só como coletividade, mas como indivíduos.

Dai a monstruosidade, a psicopatia, o pathos desse modelos onde a necessária formação do ego, e do egoismo, perde completamente seu equilíbrio empático. De tal modo que ao tentarmos deduzir a empatia e altruísmo do egoismo, estamos tentando racionalizar e justificar o impossível, o altruísmo não é uma forma amplificada de egoismo, mas o egoismo uma forma reduzida de empatia, ou mais precisamente de instinto gregário, que em seus estados mais extremos não só não consegue sentir nada senão por aquilo que identifica como seu eu, ou sua propriedade dele, mas no estado mais absoluto de completa desconexão não consegue sentir compaixão nem por si mesmo, se torna um superego, um completo alienado a atacar não só o outro, mas a si mesmo, um prisioneiro de uma lógica que não só impede de ver e destrói seus interesses comuns menos óbvios ou imediatos, mas até mesmo seus particulares mais urgentes e evidentes. Um mero hospedeiros de vontades alheias, e não das sua próprias sejam elas mais egoístas ou altruístas. Um ser desprovido dos instintos de preservação, e constituição do nexo que lhe dão sentido próprio a existência tanto particular quanto universal, como singularidade integrada.

A introdução da cooperação e altruísmo dentro dos modelos de explicação dos fenômenos do antigo paradigma egoísta e competitivo, ainda que seja para “salvar os fenômenos” (leia-se salvar os antigo paradigma), tende a levar suas contradições para outro níveis, caracterizando a fase de transição, onde um novo paradigma emerge. São epiciclos desta cosmos. Os cálculos complexos que serviam para ir ajustando os resultados dos cálculos aos dados observados, de modo a salvar o velha visão antropocêntrica da terra no no centro do universo (pelo menos do conhecido até então), até se tornarem complexos e inúteis demais frente a razão e explicação mais simples, porém menos satisfatória ao ego e vaidade e prepotência humanas: é a terra gira em torno do sol.

A introdução da solidariedade e cooperação ainda que não como o genuíno altruísmo, e instinto gregário particularmente desinteressada, que vai além até mesmo da ajuda mútua descrita por Kropotkin, mas que já compreende as estratégias e comportamentos cooperativos do chamado altruísmo egoísta, ou particularmente interessado, descrito por Tocqueville, não é a revolução do paradigma, mas é contradição disruptiva que enseja sua transição e superação revolucionária.

Revolução que antes de ser politica, cultural, cientifica ou mesmo psicológica é epistemológica, e portanto não se dá nas novas soluções, mas nas novas proposições, que não perdem tempo em desatar nós górdios, mas os cortam, colocam os problema e o mundo de cabeça para baixo. Não são as respostas que estão erradas, mas as perguntas. Ou mais precisamente os pressupostos e preconcepções que as ensejam.

Eis a verdadeira revolução constante e atemporal do pensamento e comportamento que não só é capaz de dar em precisar de nada em troca nem como incentivos nem recompensas, nem nesse outros mundos, e que em seus manifestações mais extremas é capaz até dar tudo absolutamente de si, para o que em nenhum aspecto é a continuidade da sua existência, mas justamente a negação dela em uma outra completamente distinta ou nova que há alguns causa perplexidade a outros admiração seja na forma de paixão ou consciência ou ambas. A empatia em sua forma mais universal, pura e completa se assemelha a própria lógica da vida, a lógica da dádiva pelo sacrifício que não somente preserva a vida, mas gera, mas do amor altruísta.

Quando num modelo pressupomos que todas as pessoas buscam maximizar seus interesses particulares, ao invés de nos perguntar o que as leva a tal, estamos

Não nos perguntamos porquê uma pessoa luta para preservar sua vida, porque uma pessoa em estado normal de espirito ao acordar de manhã ao invés de cortar seu pescoço, mas ao invés disso se alimenta. Ou até mesmo porque em condições extremas de competição elas são capazes de cortar os pescoços uma das outras. Sobrevivência é a resposta. Ninguém explica o que leva as pessoas, a querer ou ter vontade de se sobreviver, porque isso é um pressuposto, é fruto de um instinto básico que sem o qual não haveria vida. Pelo contrário, aos nos depararmos com a falta ou descuido com esse princípio básico, imediatamente procuramos o motivo, o problema ou mesmo patologia que acomete esse ser.

Entretanto quando a questão é o altruísmo, a cooperação e a solidariedade, parece perfeitamente “natural”perguntar porque as pessoas se ajudam, mesmo sabendo que sem tal ajuda não sobreviveriam. Imediatamente, buscamos quais são os interesses particulares por trás disso, já que de acordo com nossa visão e modelação do mundo, é impossível que existam tais ações desinteressadas, ou o que é mesma coisa qualquer ação ou volição movida por instintos gregários, dado que esses ou não existem, ou existem como mero efeito colateral dos egoístas. De fato uma previsão que tende a se autoconfirmar, na exata medida que se natureza tanto a patologia da falta de empatia, quanto esse paradigma patológico que constitui a sua apologia.

A verdadeira questão não portanto “como seres egoístas desenvolvem empatia?”, ou como “seres empáticos a perdem?” Minto, nem é essa a verdadeira questão, porque isso faz parte da formação natural dos eu e dos grupos, com maiores ou menores empatias a partir das experiências de vida que constituem as ligações passionais que formam essa razão, que como diria Pascal até mesmo a própria razão desconhece. Mas sim como na formação da identidade e suas propriedades em esferas que vão do que é mais particular e individual ao mais universal e geral essas ligações empáticas que são a base dessa constituição podem ser completamente extirpadas resultando de um ego doente completamente desconexo e fechado em si mesmo, tão obtusamente fechado ao ponto de perder a noção que sem a empatia jamais sequer se desenvolveria? Em outras palavras, como o ego se degenera num egoismo doentio de uma personalidade completamente desprovida das ligação empáticas sequer suficientes para manter preservados seus instintos gregários mais primários, capazes de manter seu equilíbrio e sanidade não só físico e mental, mas evolutivo com a natureza?

Há portanto um delimitação fatal nesses modelos que delimitam seriamente suas capacidades de entendimento, eles estão errados. e estão onde não poderiam estar de acordo com suas pretensões: nos princípios. Estão invertidos. Tomam por mero efeito o que é fator determinante na constituição dos fenômenos que tenta compreeder, não só os cooperativos, mas competitivos, aliás determinante e onipresente, ao menos naqueles que não decaem em processos de predação autodestrutiva: a empatia.

Porém, isto que deveria ser óbvio seja pela presença das próprios instintos gregários, seja pela próprio inferência racional da evolução não só biológica mas cosmológica onde cada elemento em particular são formados pela ligação entre partículas ainda mais fundamentais, assim como o todo universo da ligação entre todas elas. De tal modo que tentar deduzir o funcionamento de qualquer objeto em particular nesse modelos, sem a empatia é o equivalente a tentar explicar porque o mundo gira, ou as maças caem sem a gravidade, ou em outras palavras deduzir forças elementares constituintes não só do movimento, mas da própria unidade da matéria da relação ou ligação que as constitui, e as mantém unidas.

A pergunta é portanto onde é que deu merda. onde foi que esquecemos e perdemos essa noção ao ponto de patologicamente consideram absolutamente esse estado normal acreditar que o individuo e seu ego poderia se desenvolver essa capacidade de sentir e responder ao mundo, sem estar previamente possuir essa ligação que o constitui em todas as esferas que ele definem seus particularidades e afinidades?

A empatia é uma capacidade instintiva tão básico que não ele não se desenvolve apenas por seres, mas por coisas, incluso as imaginárias. De tal modo que não é a empatia definida propriamente por qualquer semelhança ou dissemelhança, proximidade ou distancia, mas pelo contrário, tais discriminações constituídas a partir das ligações empáticas que se formam a partir do contato experimentado e sua natureza. O ganso criado por patos não sabe que é ganso, mas apenas pato, se feito ou bonito isso depende como é tratado. E assim como o naufrago que pode fazer de uma bola seu único amigo, ou o milionário seu iate, o burguês seu carro, e o prisioneiro sua imaginação, o internauta um perfil desconhecido, a empatia como a própria vida brota de forma natural ou desnaturada, simplesmente floresceste como e onde pode, nas frestas e se move e arrasta como um animal amputado com as patas que lhe restam.

Perguntar ou onde até onde vai a empatia de um ser gregário é como perguntar até cresce uma arvore ou uma floresta, porque ela não para de crescer neste ou naquela fronteira imaginária, se não é uma pergunta retórica é o sinal de um triste degenerescência. Sinal de perda de capacidades empáticas. E eis a verdadeira tragédia dos comuns, a perda da empatia. A perda dos instintos gregários absolutamente necessários a evolução e preservação.

Da formação do sentimento de pertencimento, ao sentimento que as certas coisas lhe pertencem tanto em comum quanto exclusivamente como a inviolabilidade do seu corpo; da formação da noção da noção de identidade particular as diferentes camadas que compõem as coletividades até o universal, tanto o egoismo quanto o altruísmo se constituem como os polos de uma mesmo instinto gregário de preservação. São padrões de conexões neurais que refletem o grau de ligação empática, e que nestas relações emocionais formam a distinção e discriminação racional dos seres em objetos, tanto como entidades singulares quanto partes e elementos de conjuntos.

Rigorosamente a forma como educamos e aprendemos e transmitimos a nossa forma de ver e conceber e tratar o mundo, o outro e a nos mesmos é dada pela forma como é construída nossa concepção destes e suas relações, um produto estrutural da arquitetura formada pela rede conexões neurais formadas de a partir de nossas ligações empáticas e seu desligamento. Sem elas não a signos, nem sinais. Não há bases para a formação de nenhum concepto. Não agregamos nem discriminamos coisa alguma, nem para formar a ideia de um eu nem de um não-eu como outro, ou mundo, que dirá para modular e sincronizar com gradações mais ou menos correspondentes a experiência nossos níveis de relação e entendimento.

A empatia pode ser entendida portanto como uma forma de sensibilidade ainda mais sensível e complexa que as dos demais sentidos. E os sentidos as formas mais simples e primitivas de ligações empáticas, na medida que permitem não só saber o que está acontecendo fora da nosso pensamento, mas constituem e alteram nosso pensamento a partir da sua percepção, não só recebendo dados mas sobretudo provocando respostas, impressões como as qual construímos nossas concepções. Ver, por exemplo, mais do que um produto do sentido da visão, é um produto da sensibilidade a luz, isto é, um produto não dos dados apreendidos, mas dos dados processados como respostas não só dos dados ópticos, mas do cruzamento de dados tanto dos demais sentidos, quanto da própria memória sobretudo afetiva. O dado processado e memorizado não é portanto uma imagem, mas literalmente um complexo codificado pelas respostas emocionais que provoca, uma código das afeições que provoca correspondente a uma ligação mais ou menos empática, na exata medida que este traduz ou corresponde as afeições e emoções transmitidas por pressuposição da sua existência enquanto tal. Sim uma pressuposição como qualquer outro signo- mas que nem por isso deixa de ser alta probabilidade de valida em crescente progressão conforme vai sendo reforçada pela própria confirmação da experiência.

Em suma a empatia, é uma forma mais complexa de sensibilidade que permite fazer leituras, processamento e projeções mais e sobretudo adaptações do pensamento e comportamento que levam não só levam em consideração, ou são capazes de prever ou responder as ações, mas também as volições, como as emoções — incluso as que sequer ainda foram expressadas em gestos ou sinais. Ou seja é a base da formação da possibilidade da comunicação e inteligência, enquanto a capacidade de entender através destas pressuposições o que os outros seres intentam comunicar ou fazer.

O chamado egoismo, isto é o estado de ausência de empatia de outras ligações empática para além daquilo que é considerado pelo como si e seu, não é senão uma forma patológica de instinto gregário de preservação gregário a sua menor unidade possível: o individuo em particular. O que não faz dos sentimentos mais egoístas em si um problema, mas somente se forem a totalidade da capacidade empáticas manifesta e sobretudo potencial do individuo. A presença de sentimentos mais egoístas ou particulares, leia-se mais restritos a um conjunto universo progressivamente menor é proporcional a gradação/degradação dessas ligações (empáticas) que os constituem, mas não é necessariamente excludente por completo. Tais sentimentos gregários maiores ou menores que constituem a unidade por grau de identidade e comunhão, não só convive dentro do mesmo organismo, em particular ou coletivo, como o equilíbrio mantido por uma presença suficiente de ligações empáticas dentro de cada unidade em particular e delas em rede em entre si, é o que mantém a integridade e integração do todo como sistema. Ou em outras palavras o egoismo, assim como só é um problema justamente quando é equilibrado por altruísmo. Da mesma forma que formas mais restritas de solidariedade por obvio também são um problema, mas solução, que só causam problemas quando não existe nenhuma solidariedade universal minimamente suficiente para contrabalancear esses comportamentos. Uma questão da presença dessa sensibilidade empática.

Se formos traduzir isso, numa linguagem, ou cagação de regra ética, podemos dizer da seguinte forma: não há problema nenhum, só solução em amar a si mesmo, ao próximo, ao semelhante, desde esse amor em cada uma dessas esferas não resulte na completa perda de ligação empatia com o nem tão próprio, nem tão semelhante, nem tão próximo: o diverso, diferente e distante. Que lindo! Mas não nos esqueçamos: tais discriminações são produtos das ligações empáticas e não o inverso, de modo que não adianta nada cuidar do seu regramento e racionalização, mas sim da sensibilidade e experiências que o constitui tais relações como fato e ato independente de normas, termos e signos da sua representação ideológica.

Não há portanto contradição alguma no altruísmo genuíno ou desinteressado, ele é simplesmente a expressão de ligações empáticas mais generalizadas e universais, em suas formas mais extraordinárias em completo sacrifício e detrimento das formas mais egoístas ou particulares do instinto de preservação, mas não necessariamente em contradição ou paradoxo com esse principio fundamental e natural, certamente fruto de experiências emocionais e e impressões cognitivas que necessariamente produzem uma afeição e afinidade onde a sensibilidade empáticas está mais ligada que ao mundo do que ao eu, mas ainda sim, mesmo nesta forma mais ampla e generalizada um produto do mesmo principio inato de preservação de toda vida: o instinto gregário.

O que não inutiliza completamente os modelos teóricos que deduzem a cooperação a partir do egoismo. Na verdade, eles são a demostração que mesmo nos estágios mais precários e limitados de empatia, onde os instintos de preservação gregária estão reduzidos ao egoismo absoluto onde só respondem aos estímulos das recompensas e punições particulares, novamente a cooperação emerge como estratégia mais eficaz, quando não a única de preservação da vida.

E não há trabalho mais rico dentro dessa linha de cooperação deduzida de bases puramente egoístas do que o Robert Axelrod.

Desde quando foi aplicado pela primeira vez — lá pelos idos de 1950 -, o Dilema dos Prisioneiros causou estranheza aos seus inventores e ao próprio John Nash, cuja tese dos pontos de equilíbrio era alvo principal dos problemas apresentados aos seus jogadores. Melvin Dresher e Merril Flood criaram esse modelo de jogo com a intenção de gerar uma situação paradoxal para a ideia de que havia um ponto de equilíbrio em jogos não-cooperativos. O Dilema dos Prisioneiros foi repetido por cem rodadas sucessivas entre duas pessoas racionais, mas que nunca tivessem ouvido falar em pontos de equilíbrio. O resultado foi a emergência da cooperação entre os agentes — que repartiam igualmente os prejuízos -, contrariando a previsão de que deveriam aplicar suas respectivas estratégias dominantes — sempre desertar -, atingindo assim o ponto de equilíbrio do jogo. Na época, Nash já teria sugerido que o resultado contraditório obtido devia-se ao fato dos jogadores estarem participando de um autêntico superjogo, no qual vários movimentos repetem a mesma condição de escolha das estratégias (1).

A previsão da teoria dos jogos e do equilíbrio de Nash era que agentes racionais egoístas optassem sempre por sua estratégia dominante quando esta existisse, independente do que o outro fizesse. No Dilema dos Prisioneiros, as duas partes possuem estratégias desse tipo e o resultado esperado é a deserção mútua e a punição com a condenação dos dois presos pelo crime mais grave, ao invés de uma pena leve relativa ao delito pelo qual foram capturados. A partir da interface policial montada por Albert Tucker, logo se compreendeu que o Dilema dos Prisioneiros poderia ser a estrutura simplificada de uma série de interações entre pessoas, empresas e até mesmo nações, em larga escala.

A despeito do jogo ter sido elaborado para refutar a teoria de Nash, o Dilema dos Prisioneiros Iterado logo se mostrou uma importante ferramenta de análise da possibilidade de cooperação entre os agentes racionais egoístas, sem que fosse necessária a intervenção de uma autoridade exterior que impusesse um acordo entre as partes. Jogado em um só movimento, não haveria como os participantes colaborarem entre si, caso não tivessem tido a chance de combinarem uma conduta prévia — a mítica honra entre ladrões, por exemplo. Para que isso acontecesse, teria de haver várias rodadas de conversação anteriores à fase de ação — conforme o modelo de longas conversas baratas, de Aumann e Hart (2). Fato que alteraria muito a modelagem do dilema, transformando-o em um jogo falado, onde a comunicação exerce uma função crucial (3).

Em sua formulação original, jogado apenas de uma vez, esse tipo de situação serve como exemplo contrafactual à hipótese de Adam Smith (1723–1790) de que uma “mão invisível” conduziria a distribuição equilibrada dos bens necessários à vida, entre ricos e pobres (4). Seres egoístas e racionais agiriam como os fazendeiros imaginados por Hume e não colaborariam uns com os outros (5). Por outro lado, experimentos iniciais com o Dilema dos Prisioneiros Iterado mostraram que a cooperação poderia surgir entre os participantes, ao longo de vários movimentos repetidos.

Evolução da Teoria da Cooperação

Em 1984, Robert Axelrod apresentou, no livro The Evolution of Cooperation, uma descrição da maneira pela qual o Dilema dos Prisioneiros Iterado, repetido por várias rodadas, pode privilegiar a escolha da cooperação, mesmo em seres irracionais tão simples como bactérias e, aparentemente, sem nenhum aparato linguístico. O projeto começou tentando responder a questão sobre quando as pessoas cooperam ou são egoístas umas com as outras nas interações entre elas. O Dilema dos Prisioneiros parecia então ser um modelo que representava adequadamente tal interação. Para explorar em detalhes o comportamento estratégico que poderia ser adotado aí, teóricos ou especialistas de cinco disciplinas afins — matemática, economia, ciência política, sociologia e psicologia — foram convidados a participar de um torneio de computador, programado para executar o Dilema dos Prisioneiros. Ao lado de uma regra randômica — que colabora ou deserta metade das vezes -, foram submetidas ao teste virtual 14 estratégias diferentes.

A estratégia vencedora foi TIT FOR TAT (OLHO POR OLHO, ou o literal ISTO POR AQUILO, também traduzida como PAGAR NA MESMA MOEDA), [proposta por Anapol Rapaport] um comando simples que começava o jogo cooperando com o adversário e repetindo depois a mesma ação que o outro jogador tivesse feito no movimento anterior. Após o conhecimento desse resultado, Axelrod propôs um novo torneio ampliando a participação a todos os interessados, incluindo professores de biologia, física, ciência da computação e fanáticos por jogos eletrônicos. Especialistas de seis países participaram do segundo campeonato, apresentando 62 programas diferentes que disputavam com RANDÔMICA em cinco rodadas, cuja média de movimentos era de 151 lances, pois o jogo dessa vez não tinha um limite determinado para seu encerramento, que no máximo chegava a 308 movimentos. Mais uma vez, OLHO POR OLHO (OPO) venceu a competição.

O sucesso de OPO provocou o desdobramento da pesquisa para um cenário evolutivo, onde se procurou interpretar a execução das estratégias em contextos não cooperativos, com diversos tipos de rivais empregando suas respectivas linhas de ação, sendo que a melhor destas deveria ser resistente a invasões em seu território. Das estratégias apresentadas, OPO mostrou-se passível de ser adotada por aqueles minúsculos organismos por causa de sua simplicidade e clareza. Mostrou-se também vitoriosa na maioria das circunstâncias e no enfrentamento da maior parte de estratégias concorrentes, privilegiando a formação do equilíbrio de Nash (6).

Os motivos para a tendência cooperadora prevalecer num ambiente de pura competição, como é a natureza, devem-se a certas condições circunstanciais que contribuem para o êxito de OPO. A proximidade entre indivíduos, ainda que egoístas, e as interações repetidas permitem que a reciprocidade das ações surja num segundo momento, desde que os organismos sejam dotados com aparelhos capazes de fazerem a marcação, rotulagem, e o posterior reconhecimento desses rótulos. Assim, é possível discriminar no instante seguinte aqueles que antes cooperaram ou não. A reunião de indivíduos em grupos de cooperadores/retaliadores proporciona a formação de uma vizinhança resistente a invasões de oportunistas/exploradores. Fenômeno tão próximo de cada um que mal é percebido: o sistema imunológico composto por células que rotulam, identificam e atacam os vírus e bactérias que a todo momento invadem os corpos dos seres vivos (7). OPO evita conflitos desnecessários, enquanto todos agem de modo recíproco, respondendo de imediato às deserções não motivadas, mas logo esquecendo as provocações passadas após o retorno à cooperação. A transparência das intenções e, por conseguinte, a facilidade de identificação do padrão de conduta dos agentes estimulam o cumprimento dos “compromissos” assumidos, assim, tacitamente, através de um consenso implícito (8).

A facilidade do reconhecimento e a simplicidade de execução de estratégias recíprocas, com características de gentileza (nice), retaliação, clemência (forgiving) e clareza, fazem de comportamentos como os prescritos pela estratégia OPO uma linha de ação robusta, estável e viável em circunstâncias onde a comunicação atua na sua forma mais rudimentar, na transferência de informações mínimas (bytes). Basta apenas que os agentes sejam capazes de reconhecer em contatos repetitivos as ações amigáveis ou não e responder adequadamente cooperando ou desertando daqueles que no passado imediato foram rotulados como cooperadores ou desertores. A consolidação desse comportamento com o tempo acaba por gerar um processo de “aprendizagem” que nos seres irracionais se dá com o sucesso evolutivo da proliferação em gerações futuras dos genes “retaliadores”, aqueles que “sabem” aplicar OPO e, por conta disso, sobreviveram em maior número de indivíduos.

Importante notar que os arranjos dos torneios originais que propiciaram a vitória de OPO permitiam somente lances em que cooperar © e desertar (D) eram escolhidas em estratégias puras, deterministas, isto é, sem variação da probabilidade que promovesse estratégias mistas. Axelrod delineou os confrontos deixando de lado a ocorrência de erros ou ruídos na escolha entre C e D. Supôs também que era indiferente as rodadas serem executadas de maneira simultânea ou alternada. De todo modo, a comunicação anterior aos lances estava vedada, sendo cada movimento realizado silenciosamente. Os jogadores tomavam conhecimento das escolhas de seus oponentes imediatamente após elas terem sido feitas. (…)

Outro fator que preponderou na escolha do Dilema dos Prisioneiros como matriz básica da teoria da cooperação foi o fato de sua estrutura ser tão simples que, a rigor, não era essencial que os participantes fossem racionais ou tivessem consciência das escolhas que estavam fazendo. Nem sequer precisariam tentar maximizar suas recompensas, bastando apenas que fossem capazes de aplicar um padrão de comportamento, procedimentos, hábitos, instintos ou imitação como faz a maioria dos seres vivos. Nesse sentido, as ações implementadas podem ser executadas sem que o processo deliberativo seja compreendido pelo agente. Assim, no âmbito mais amplo, a teoria da cooperação poderia envolver pessoas, firmas, nações ou bactérias, em uma teoria geral dos jogos evolutivos, nos quais as estratégias vitoriosas são passadas às gerações futuras pelo sucesso, ou não, de um programa genético, que determine as ações dos indivíduos (10).(…) -Axelrod e seu Livro

A despeito do nome, que lembra a lei do Talião, a estratégia TIT-TAT lembra muito mais a filosofia cínica clássica de Diógenes de Sinope:

Certa vez, Alexandre o encontrou e exclamou: “Sou Alexandre, o grande rei”; “E eu”, disse ele, “sou Diógenes, o cão”. Perguntaram-lhe o que havia feito para ser chamado de cão, e a resposta foi: “Abano a cauda para quem me oferta qualquer coisa, ladro para os que recusam e mordo os patifes”. -O exemplo vivo do cinismo de Diógenes — Filosofia, Política e Educação

Salvo, que no dilema do prisioneiro iterado ladrar ou mostrar os dentes está fora de questão, a comunicação não existe, ou precisamente, a leitura, e previsão dos comportamentos é efetuada a partir de um sistemas de marcas, ou em outras palavras reputações de memória curta (sempre o último movimento), nas quais emerge e se estabelecem de forma estável as relações de cooperativas baseadas em confiança e reciprocidade, contra os “espertos” e a esperteza que devora a todos. E não usa porque não precisa, já que esse acordo é tácito. Aliás não precisa ser racional, nem sequer ter interesses particulares, apenas precisa rodar esse algorítimo. Porque tudo o que esse algorítimo precisa para funcionar perfeitamente é que o sistema não tenha ruido. Isto é, tudo que cada tomador de decisão precisa para que essa estratégica baseada em reciprocidade funcione é que tenha acesso perfeito a informação seja para cooperar ou retaliar. E é exatamente aí que o modelo na real dá pau.

Primeiro que o dito dito “ruido” é constante, o risco de retaliar por uma marcação errada, é crescente. E se levarmos em consideração que uma decisão tomada com base um dado incorreto, não deixa de ser do ponto de vista da informação uma ampliação do próprio ruído, a tendência dentro de uma sistema determinista que não trabalha com a natureza incerta e probabilística da informação é aumentar ainda mais a instabilidade propagando conflitos ao invés de acordos de cooperação.

Segundo, e mais importante do que isso, o dito ruído não só é parte constante da informação, mas a informação na realidade é basicamente ruído transformados em sinais por sistemas de pressuposições de significados. De modo que mesmo incluindo a estocástica para solucionar ou reduzir problema, ele ainda sim permanece em sua essência. A cooperação não emerge sem a capacidade suficientemente de leitura do mundo, mesmo que reduzida no jogo ao comportamento do outro jogador, para processar as marcações e tomadas de decisão. No modelo em questão não existe a necessidade de nenhuma sensibilidade ou inteligência empática que efetue a construção dessa informação, porque a matriz do jogo desempenha essa função de ligação de forma perfeita: A está perfeitamente ligados em sintonia B, porque compartilham uma mesma base de dados, não só como se vissem e sentissem a mesma coisa, mas concebendo uma mesma ideia distribuída para dois terminais, como dados iguais e não concepção diversa. Na verdade não é um modelo de falta de empatia mas de perfeita empatia, não nas respostas, por óbvio, mas nas entradas. Novamente não posso deixar de assinalar o paralelo com a psicopatia: onde o individuo tem preservadas sua capacidade de detectar e prever as volições (e emoções) do outro, mas isto não afeta nem produz nenhuma afeição, não afeta sua volição e emoções (isto quando justamente sua contrariedade não perversamente sua satisfação).

Assim é um sistema que parte de uma sintonia empática tácita perfeita onde está simulada uma sensibilidade e percepção dos agentes é perfeita, ou um mundo ideal onde tal não é requerida porque somos meramente terminais de uma mesma matriz informacional. E o problema é que em nenhuma instancia ou circunstância da vida nem mesmo nas formas mais simples, ou eventos mais simplificados, tal demanda desaparece, nem muito menos se materializa do nada. Mesmo modelos simples precisam compreender e inscrever esse ratio em sua lógica, ou do contrário, não há evolução nem estabilidade, mas sim estagnação e decaimento.

A empatia, tanto como sensibilidade ao externo, quanto capacidade de adaptação e modificação da lógica interna e portanto do comportamento é absolutamente fundamental a origem e progressão do sistema. Tanto como capacidade complexa formada pela percepção e cognição para literalmente compreender tudo que não é o eu, do outro ao mundo, e cada um destes e propriedades e pertencimentos a partir dessas discriminações das relações, quanto capacidade de constantemente alterá-la e adaptá-la conforme se processam as relações reiteradas.

O desenvolvimento da sensibilidade e inteligência empática tanto como instinto gregário quanto como consciência, é a base da evolução não só da inteligência, mas da vida e qualquer pretensão de construção de vida e inteligências artificiais ou restauração, preservação e evolução da vida inteligência natural que não compreendam em seus fundamentos elementares o principio gregários, está fadada a engendrar seu fim e a revolução do seu paradigma.

A competição é um jogo para privilégiados. Um jogo para aqueles que por mérito ou não, estão assentados sob uma base cooperativa que os permite dar o luxo de competir sem colocar em risco a sobrevivência de ambos, ou esmagar o outro sem nenhum risco, mas aí já não propriamente mais falando em competição e sim em outro jogo, o da predação.

Está claro que nem a competição desenfreada nem o freio autoritário são a solução para a autodestruição da vida, mas partes e causas de um mesmo problema. E não são solução para a preservação da vida em toda sua diversidade, porque não são sequer explicação alguma da sua origem e evolução da vida tal com é se formou: diversidade. Uma evolução que longe de ser a feita da mera adaptação dos indivíduos ao meio ambiente, foi feita da união dos mais inaptos para não só alterar seu meio, mas transformar sua gene pela superação dos limites da sua forma e existência. Uma mutação que longe de ser aleatória, ou errática é fruto desse processo integrado de ação e reação entre o ser e o mundo que quando não mata transforma os “últimos” nos “primeiros”.

Mas isso embora seja o mesmo assunto já é um outra reflexão. O que interessa aqui entender as limitações da dissuasão, retaliação, e até mesmo o perdão, enfim de todas as propriedades isoladas ou combinadas em estratégia cooperativa baseadas exclusivamente na reciprocidade, ou mutualismo, para explicar a evolução dos organismos e ecossistêmicos em equilíbrio, ou mesmo a própria evolução da cooperação e solidariedade fundamental para sua sustentabilidade. São sem dúvida estratégias eficientes, perante a mas dentro do alcance da sua ação, ou melhor reação. São sistemas reativos, e não proativos., incapazes de superar problemas ou conflitos pois não tratam de suas causas mas sim consequências. Uma questão que antes de ser de tratamento é um de abordagem, que sequer pode tratar de uma matéria que não se impõe nem como problema nem solução: a empatia.

Quando lidamos com sistemas mais amplos e complexos não só com diversos agentes competindo e cooperando, e onde o grau de incerteza e previsibilidade dos comportamentos decaí na exata medida que aumentam o custos de tempo e recursos para efetuar as discriminações e marcações, torna a redução das eventuais perdas desse “capital”, a empatia, derivadas de erros causados por ruídos do que identificar e eliminar corretamente os desertores. Na verdade os ganhos tanto com a eliminação do ruído, quanto com a ampliação da cooperação precisam superar essas perdas causadas tanto pelos traições quanto punições, de modo a tornar sua incoerência decrescente até a relativa irrelevância e insignificância que de fato torna o sistema invulnerável a parasitismo, oportunismo, predação e tirania.

Isoladamente a estratégia de provisão e perdão universalizadas estão evidentemente fadadas ao fracasso frente a indivíduos ou grupos onde prevalece o predação e parasitismo, mas não quero ser pessimista onde a predação e o parasitismo não é mais exceção, mas regra, não é a estratégia universalista que fracassou, mas essa forma de vida. Esquece, se tiver para onde foge, se não enfrenta… se puder, porque já era. É basicamente como estar preso numa ilha com canibais, não é mais um jogo de cooperação ou competição, mas o pesadelo do estado natural imaginário como estado de guerra e luta pela sobrevivência projetado, que de natural não tem nada, mas é a por definição a desnaturação e desintegração da vida e natureza.

O fato é que quanto mais ampla e indiscriminada, quanto mais universal for a estrategia de distribuído são dos riscos e sacrifício individuais assim como os ganhos comuns não apenas se formam fortalece os laços empáticos, mas se ampliam a coesão e dimensão do grupo. Lembrando é claro que tal laços são frutos dos sacrifícios e ganhos voluntários e não dos impostos pelas partes umas as outras, que não agrega mas aparta e desintegra os elementos e o sistema, na exata medida que os custos, sejam dos incentivos e recompensas, ou repressão e punição, aumentam proporcionalmente conforme nas relações reiteradas que A precisa obrigar ou pagar para que B jogue com ele, ou o jogo dele, diminuindo progressivamente não só seus ganhos, mas a possibilidade se manter o jogo. Ou em outras palavras, como todo jogador sabe, é preciso perder ou deixar ganhar de vez em quando para poder ganhar, porque quem ganha tudo e sempre, tende a pagar um preço que tende ao infinito e impossível para obrigar ou incentivar os demais a jogar com ou mesmo contra ele.

Assim os sistemas, assim como seus modelos de projeção e simulação tanto da realidade quanto da inteligência dos mais simples aos mais complexos falham ao não compreender as bases gregárias universais e universalizantes da vida o fundamento da sua organização e evolução, Um erro não apenas de formulação que não equaciona a empatia como fundamento da sua lógica do seu sistema. Mas de abordagem que não trata, não cuida, mas simplesmente ignora esse potencia gregária, essencialmente libertária, ou de absoluta liberdade, de associação voluntária e espontânea que move os entes particulares e grupos para muito além dos sua forma e fins atuais por razões que a razão até pode conhece, mas não precisam dela enquanto razão para serem e se moverem como o logos e a anima que são.

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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