A responsabilidade solidária frente a cultura das renuncias e transferências de liberdades e responsabilidades

Nossa sociedade ou melhor sua ausência que nos mantém nesse estado de permanente alienação é em relações de transferências de responsabilidades. Onde para tudo existente sempre uma desculpa e um culpado, e claro punição para quem foge toma qualquer iniciativa livre e independente e foge desse normalidade neurótica, degredo, prisão, repressão e até intervenção via força bruta.

Para cada necessidade há uma instituição com a função de provê-la. E a transferência da responsabilidade como obrigação passível de punição. Não existem dispositivos nem disposições onde o acesso e a provisão são um direito, mas aparelhos onde as pessoas são obrigadas a submeter ainda que sejam completamente incapazes de cumprir sua função, e procedem exatamente da mesma forma, transferindo as responsabilidades que monopolizam, inventando desculpas e culpados para sua própria incompetência e degeneração. Uma sociedade onde os parasitas prevalecem eliminando e anulando quem ousa chamar a responsabilidade, semeando a impotência e alienação como desamparo e subserviência aprendida por hábitos e costumes mantidos tanto por privação quanto repressão.

Em 2013 foram os blacblocs os culpados, em 2018 serão os grevistas, quando seus atos são evidentes reações a uma condição que se perpetua e se agrava pelo mesmo fator determinante, a presença de uma oligarquia a governar o pais através da pusilanimidade criminosa de quem é colocado no poder por essa democracia fordista, onde você pode escolher quem você quiser desde que seja fabricado ou esteja vendido aos ladrões e grileiros dessa terra que não é um pais como somos uma sociedade, apenas no nome e na propaganda.

Fala-se que agora a greve é política. E? Quer dizer que um população é obrigada a se manter numa condição humilhante desde que a econômica esteja funcionando. Se o violentador pagar pelo estupro, não é estupro, e o violentado tem a obrigação de aceitar calada a curração, a sua eterna condição de coitado?Nem só de pão vive o homem, Dignidade é um liberdade como condição de vida tão ou mais fundamental. Por ela, ou mais precisamente para se livrar de quem a viola somos capazes de suportar privações e enfrentar riscos. Uma vida de joelhos, desprovida não só de dignidade, mas do direito de se levantar sem ser criminalizado, por criminosos é uma condição que se torna insuportável quanto acordamos um dia e finalmente vemos quem somos no espelho. No espelho da vida do outro.

Não adianta o eterno centro, intermediador e centralizador de tudo, constituída por crimes que não precisam estar em constituição para serem crimes, e que não deixam de ser crimes por força da canetada da lei fugir da sua irresponsabilidade e incompetência bases de sua pilhagem criminosa institucionalizada como aparelho estatal. Não é uma questão de justiça, ou da disputa ideológica do quer que isso seja entendido como, não é uma questão de preconcepções e controle da percepções seja como conformação ou esperança em salvadores inventados pelos senhores para monopolizar e trair esperanças dos servos assim imbecilizados. É uma questão de causas de consequências onde o advento da punição ou impunidade institucionalizada como poder e costume não altera a realidade, não anestia, nem permite a eterna fuga com argumentos de autoridade nem muito menos autoritários. É uma bola de neve que está a rolar. E elas não pára inventando culpados ou desculpas, nem narrativas mitológicas ou fictícias de uma responsabilidade que inexiste entre aqueles que a monopolizam e vivem de matá-la como sociedade entre o povo.

A democracia das falsas representações caiu. E ou se restitui constitui novas e verdadeiros e representativas instancias e dispositivos democráticos e republicanos, ou o que vai prevalecer pela absoluta omissão e estupides de todas as partes é mais tirania e ditadura, sem máscaras e disfarces nem sociais nem institucionais. A dinâmica do processo civilizatório tem leis próprias que não só vem primeiro, mas que sem as quais não existe estado de paz, o estado civil, para que que existe econômica e suas leis naturais quanto as artificiais adulteradas pela força das leis dos homens.

A dimensão da e-volução e re-volução tempo histórico, em relação ao tempo de uma vida, produz a impressão sempre foram como são e assim ficarão, até que o paradigma de rompe de vez como status quo, e o retrocesso ou progresso irrompem das ruínas desses velha ordem.

Não adiante raciocinar no plano da alienação como as coisas deveriam ser, porque entre o que deveria e o que é, só existe uma força capaz de produzir essa projeção ideal como real, a vontade transfigurada não em querer, achar, julgar e culpar, mas como assunção de responsabilidade na exata medida da capacidade como livre iniciativa. Quem não governa é governado, e quem não sabe governar o seu destino, ou os dos outros cai seja pela desgoverno, seja pela governo de quem não foge ao que considera sua responsabilidade não porque esteja obrigado ou não, mas porque simplesmente a chama para si. E isso que se chama vácuo de poder, é na verdade um vácuo de liberdade como responsabilidade antes de tudo social, onde se erguem o caos e a tiranias oportunistas ou premeditadas que se alimentam dessas carência como carestia de pão, tanto do corpo quanto da alma: dignidade. Que mais do que um sentimento é a condição que ela se ergue seja com indignação ou revolta ou como o orgulho de ser quem se é, e viver onde se vive.

Temer e sua gangue não vai renunciar, não de livre espontânea vontade, porque vermes e parasitas não tem vontade, tem apenas fome de poder e um estômago que não se sacia estomago insaciável. Não importa que seu nome tenha se tornado um estigma, para sempre marcado na testa como um como bandido e vacilação, que seus filhos carregarão quando ele que se acha eterno finalmente cair. São viciados em poder, covardes demais para assumir qualquer responsabilidade, seu negócio, seu pacto, é o de vender o futuro das próximos gerações apenas para prorrogar seus poderes, privilégios e imunidades. As qualidades que por sinal o levaram justamente ao poder como espantalho de quem de fato manda no pais, e agora pagou caro pela sua agenda sem noção que gente não é número em planilha nem mercadoria e recurso humano no seu mercado. Pagaram caro, mas ao que parece não o suficiente para renunciar a sua prepotência, assumir seus erros e corrigi-los em tempos não para fazer justiça, que isso não existe para eles, mas preservar seus ganhos e domínios sem o risco de mais uma vez simplesmente seus burros de carga pararem, ou mesmo empacarem de vez. Até porque cada dia cada vez mais gente descobre que não nasceu para ser animal doméstico ou de carga de ninguém.

O mundo não está mudando, o mundo já mudou. E os dinossauros que não se adaptarem estão fadados a desaparecer sejam eles Estados ou sociedades. Sociedades e estados que se encastelam mais e mais estão destinados a governar sobre um mundo feudalizado, imperar na miséria e ruínas de um passado glorioso que nunca existiu tão rasteiros, ricos e ignorantes quanto pode ser senhores feudais. No fundo a história do Brasil e sua ilusão que ela nunca encontrará um fim, seja ele qual for. Não só uma questão de assumir erros e corrigi-los, mas fazê-los em tempo hábil, uma noção que o vício do ócio e irresponsabilidade dos encastelados atrofiou de vez.

Notem portanto que meu discurso não está dirigido a libertação ou libertários, mas aos autoritários e autorialidades de fato, escondidas atrás dos tronos. Aquelas autoridades que mandam as favas o teatro das representações, seja no mundo subdesenvolvido ou dito desenvolvido, e colocam seus paus mandados, tecnocratas, na expectativa de manterem o status quo, de Brasília a Roma. Até impérios caem quando o custo da sua manutenção e expansão superam os ganhos como sua rapinagem e pilhagem. E colocar a culpa nas invasões bárbaras, pode servir para controlar a narrativa da história e sustentar a alienação em momentos de normalidade, mas não substituem os fatos em tempos de crise, onde a contabilidade dos tributos dos centros do mundo não fecham mais nem mesmo com o aumento da pilhagem dos territórios ocupados, ou tributação das províncias e periferias já devidamente aculturadas. E se impérios caem quando viram dinossauros, que chega que dirá os burgos e seus muros. Quando os recursos são menores que a barriga e o mundo muda mais rápido que o tempo necessário para informação chegar a cabeça ou voltar as pernas, o corpo está morto e ainda não sabe, seja uma galinha ou dino sem cabeça. Que dirá então quando o corpo é gigante e a cabeça minuscula, e ambos cheia de vermes e as presas desse tiranossauro rex cada vez mais magras.

Ideologia é propaganda para idiotas. Porque nos momentos derradeiros não importa de as bandeiras são azuis ou vermelhas, sociedades ou Estados, quando o custo da sobrevivência mesmo a alienada supera os ganhos até da trabalho alienado, o sistema já era. Algo que tanto anarquistas quanto hierarquistas. libertários ou autoritários sabem quando não se deixam hipnotizar por suas próprias doutrinações. General ou guerrilheiro ambos sabem: tropas militares ou massas civis, onde não há provisões do básico não só a guerra e o campo estão perdidos, mas a própria moral que mantém a ordem unida. A deserção é fatal, seja como falta de solidariedade muta e espontânea seja como obediência a autoridade estão feridas de morte. E quem quer que venha a pedir o paredón e a guilhotina para as cabeças, venha da direita ou esquerda ganhará o apoio dos que perderam suas alternativas. Se é canto e a prosa do radical de direita de um Bolsonaro que encanta com suas ideias de fuzilamento dos parasitas e não mais de um Chê, isso é irrelevante como bem sabia Vargas e todos os ditadores de esquerda ou direita, até porque não jovem revolucionário, progressista ou conservador que na velhice não se converta no reacionário, ondem o progresso ou conservação não passam de versões demagógicas de uma mesmo proposito a disputa pela perpetuação no poder tomado. Uma farsa, que se mantém não só pela capacidade de vender seu espetáculo como se fosse a única realidade possível, mas por não perder a noção do que é uma farsa, e que não se mantém apenas da venda de ilusões periódicas de 4 em 4 anos, mas da provisão de fato do mínimo vital ao seu público cativo, não só para mantê-lo em tal condição, mas simplesmente para manter qualquer coisa seja um cativeiro ou território livre. Assim quando o tirano passa a crer que a cenoura no rabo ou na frente, pode manter seu burro carregando-o, sem morrer ou derrubá-lo antes, ele de um jeito ou de outro ficará literalmente a pé, ou a mercê de quem quer que domine as estradas e suas quebradas.

Tem gente que estava com medo do abastecimento chegar aos presídios. Mais medo de um salve geral do que uma greve geral. Santa tolice, quando as privações dentro de um sistema de juridição e regulação fazem do seus recursos vitais, o próprio presidio a seu aberto onde o condenado a pena de vida de trabalhos forçados até a morte sem descanso nem mesmo da velhice, é a pena que seu filhos inocentes estão condenado antes mesmo de nascer, o estado pré-revolucionário não é produto de doutrinadores radicais, mas da inadimplência e incompetência de quem regula esse sistema minimizando suas responsabilidades para maximizar seus privilégios. E assim como não há propaganda libertária ou autoritária que instaure esse estado onde essa pré-condições não existem, não há propaganda ou repressão do poder estabelecido que medie ou remedie esse estado, só a restauração da provisão do básico, seja para manter o velho ou construir o novo. Seja pelo acordo e dialogo seja pela força e imposição.

E se eu um bosta um zé ninguém panarquista sei, e quem detém o poder político e econômico não sabe não quer saber e tem raiva de quem sabe, ou pior sabe mas prefere apostar que o caos e a tirania que o sucede não virá. É porque ou erra no calculo ou aposta na guerra e ditaduras como único futuro possível para a manutenção de seus vantagens em tudo, ainda que esse tudo seja o reino de miséria e ignorância governado por óbvio pelos mais ignorantes e misérias, não como condição de vida, mas como estado de espírito repugnante e desprezível. E não há lei, ou supremo tribunal, juiz que mude tal senso comum de repugnância, desprezo e revolta, porque o fedor de podre emana de seus corpos e espirito de porco e não da capacidade de sentir de quem ainda insisti apensar de tudo em continuar vivendo e querendo viver como o mínimo de dignidade concreta política e econômica que lhes foi roubada como bem comum antes mesmo de nascer.

Não há hoje no Brasil e quiça no mundo descortinado pela revolução industrial da informação quem não saiba o que deve ser feito, com quem para quem, o quê. Até mesmo o como não é nenhum grande mistério. Mesmo com toda a guerra e sabotagem da desinformação e contrainformação.

Sabemos que precisamos de mais democracia, mais direitos, dispositivos e espaços de participação popular direta, e maior controle da coisa pública e sua gestão e gestores pela sociedade. E temos tecnologia de telecomunicação e informação para isso.

Sabemos que precisamos de uma distribuição de posses e rendas, que façam dessas populações cidadão de fato, participes da sociedade e não marginais ou marginalizados ou meros adultos tutelados e mal disfarçadamente semi-escravizados. E também temos experiência e tecnologia social e financeira para isso.

Sabemos o que devemos fazer e o que podemos fazer cada um dentro do limite das suas capacidades. O que nos falta é a vontade de fazer o que podemos. E o que não podemos fazer quanto ao que deveríamos mas não fazemos hoje, é inevitavelmente o que teremos que fazer amanhã, querendo ou não, devendo ou não como a necessidade e carestia que plantamos como transferência de responsabilidade e inação.

Felizmente os militares aprenderam com seus erros, tem razão e mais juízo que muitos civis ao se negarem em intervir num problema que não é da sua competência, formação, nem responsabilidade funcional. A degeneração patológica das classes e categorias que detém o poder político e econômico e se proclamaram legalmente como castas criminosas donas da lei e da ordem já ultrapassou todos os limites do exploração parasitária, atingiu o nível da mania, fantasia e demência característica das estatopatias que acabam por matar vermes, hospedeiros e muito mais gente inocente. O charlatão não cura ele mata, principalmente quando a doença mental não é que está sendo operado por ele, mas no charlatanismo da sua falsa profissão. A doença da sociedade é sua submissão e esperancismo cego, que a impede de ver que a solução não no outro, mas em nós, enquanto sociedade civil solidária e organizada perante um mesmo mal a devorar nosso bem comum.

Não há possibilidade de sociedade democrática nem republicana sem a união das burguesias produtivas e até mesmo rentistas com a população trabalhadora contra o rei e os amigos do rei. Nem que seja para trair a plebe depois de tomar o poder. Não é toa que a divisão entre direita e esquerda e direita veio depois das revoluções. Quando quem não detém o poder de fato, está divido entre os mais favorecido, ou completamente desfavorecidos o poder constituído se mantém até o final, ainda que esse final seja o desgoverno e conflito generalizado. A falta de solidariedade ou sua traição antes do tempo, resulta na derrota e derrotismo que nos caracteriza como nação que perde antes ou sem nunca sequer ter a chance de entrar em campo.

As classes médias e remediadas tem inteligência ou brio para isso?

As burguesias de esquerda tem vontade para sair do discurso demagógicos e projetos de poder e ir a prática e assumir a distribuição de renda incondicional e desenvolvimento de dispositivos de democracia direta como sua responsabilidade antes de tudo pessoal e não demanda sobre o alheio que por vezes é ninguém menos que o próprio espoliador?

As burguesias de direita tem qualquer lampejo de sanidade para entender que eles não pertence a sociedade? Não a alta sociedade dos que fazem as regras para os outros obedecerem e eles burlarem? Tem qualquer noção de que o que os sustenta na medida que quanto menos vivem subsídios tributários e fiscais, mais dependem dos acordo com os trabalhadores e não com a pilhagem e insegurança deles que inevitavelmente também são as suas na exata medida dessa protecionismo e exploração?

Se em 2008 tais problemas e soluções, apresentadas como argumentos e projetos soavam como paranóia e loucura hoje é a a dissonância cognitiva a persistência nesse estado de negação frente ao que é um dado perante uma crise que não é conjuntural mas evidentemente sistêmica tanto nacional quanto mundial. De modo que ou providenciamos em caráter emergencial essas soluções que deveriam ter sido objeto da provisão e previdência para preservar imediatamente as condições mais básicas ou nem o palco para nossas disputas mais fúteis e egoístas, promessa vazias, falsidade ideológica e representações falsetas teremos. Ou paramos com esse me engana que eu gosto, vai que eu fico. Ou largamos desse associativismo como peleguismo e federalismo como coronelismo disfarçado. Ou passamos a garantir mutuamente as bases para qualquer civilização com o que tivermos e pudermos política e economicamente, ou o que vamos disputar é as ruínas do que nunca foi, as ruínas do maior elefante branco brasileiro, sua sociedade civil. Uma nação feita de direito de papel e cartinhas para o povo e mercados. E não de contratos sociais de fato entre pessoas iguais livres de tiranos e parasitas porque estão livres da carestia. E livres da carestia porque estão livres dos parasitas e tiranos que se mantém seus privilégios de riqueza e poder do empobrecimento e ignorância que eles mesmos plantam e cultivam nesse grande fazenda chamada Brasil, onde se você não está no palácio, então meu amigo, achando ou não muito livre e rico está pastando bem ou mal currado, alegre ou triste no seu curral. Isso é claro enquanto os senhores dessa terra e não acabarem como os pastos de vez… Uma questão não mais de se, mas agora de quando.

E já que a metáfora é o mundo animal fica a lição dos cães africanos.Reproduzo na integra:

Desde que sabemos que o homem é o lobo do homem, as metáforas animais para descrever a política humana tiveram grandes marcos, como os líderes machos alfa, os enfrentamentos entre falcões e pombos ou os porcos da Revolução dos bichos. E os especialistas em comportamento de animais não deixam de oferecer oportunidades para popularizar novas. Por exemplo, ficaria bem dizer que “na Europa votam como os mabecos”? E que tal dizer que “esse conselho de acionistas funciona como uma reunião de cachorros selvagens”?

Os mabecos, uma espécie selvagem da família dos cachorros que vive na África, são animais muito sociáveis que saem em grupo para caçar. Como em bandos de outras espécies, os mabecos contam com líderes que, depois de capturarem a presa, conquistam a hierarquia que lhes permite alimentar-se antes dos demais. Mas os mabecos, considerados os canídeos mais sociáveis e os de maior êxito nas caçadas, desenvolveram um sistema muito peculiar para impedir que o poder absoluto dos membros dominantes do grupo se imponha.

Os cientistas que os estudam em Botsuana se perguntaram durante muito tempo quais seriam os mecanismos ativados nas vibrantes reuniões que congregam os mabecos antes de começarem a se movimentar em grupo ou saírem para caçar. Essas reuniões, qualificadas por eles de “energéticas” e “altamente ritualizadas”, têm uma importância social enorme, porque servem para representar a unidade como bando desses cachorros selvagens africanos. Mas havia um mistério que intrigava os pesquisadores que acompanham seu comportamento: apenas um terço das reuniões terminam com o grupo saindo, e não se sabia explicar por que isso acontecia.

Os cientistas da Botswana Predator Conservation Trust monitoraram exaustivamente 68 desses encontros, em cinco bandos diferentes, para chegar a esses sinais ocultos. E depois de revisar as gravações e cruzar dados com o resultado das reuniões, surgiu uma conclusão que, dizem, lhes pareceu inacreditável. Os mabecos se reúnem em forma de assembleia: votam se estão de acordo com partir ou se preferem ficar mais tempo ali.

“O sistema de votação usado é o que os humanos chamam de voto aberto (não respeitam as garantias que oferece o voto secreto), mas um tanto peculiar: com uma forte exalação pelo nariz, um tipo de espirro sonoro, que serve para manifestar sua posição. De todos os gestos e circunstâncias que acontecem nessas reuniões rituais na quais se cumprimentam, correm juntos, grunhem e levantam nuvens de pó, só o número de espirros ouvidos em uma reunião era indicativo de seu resultado. Já se tinha notícia de que outros canídeos, como coiotes, cães domésticos e chacais, arfam, roncam e bufam para se comunicar.

Votam, sim, mas não é um sistema de sufrágio universal no qual a cédula espirrada por um valha igual para todos. Essas assembleias começam quando um membro da manada a convoca, com gestos ritualizados (cabeça baixa, boca aberta e orelhas dobradas para trás) que podem ser traduzidas como “proponho que comecemos a andar”. E não é a mesma coisa se quem sugere é alguém com alta patente na hierarquia social ou um dos mabecos que não tem direito a comer como os primeiros.

“Descobrimos que a probabilidade de sucesso de uma reunião aumenta conforme a hierarquia de quem a inicia, e exige-se mais espirros dos iniciadores de menor patente para que tenham sucesso”, afirmam os autores do estudo publicado na revista científica Proceedings of the Royal Society B. Como dizem os cientistas políticos, os mabecos dominantes do bando têm mais poder de barganha, mas esse sistema de votação oferece um contrapeso político para que nem sempre imponham seu critério (falham um quarto das vezes) e para que a classe baixa mabeca possa ter sucesso em suas convocatórias.

Democracia animal e ciências sociais

“Quando o macho e a fêmea dominantes estavam envolvidos na reunião, o bando só teve de espirar algumas vezes para que se movessem”, explica a primeira autora do estudo, Reena Walker, da Brown University, em uma nota. “No entanto, se o casal dominante não estava envolvido, eram necessários mais espirros para que a manada caminhasse”, explica Walker. Na verdade, um mabeco qualquer precisava do triplo de votos favoráveis do casal alfa. Algo assim como o voto ponderado dos países da União Europeia, que exige uma maioria qualificada no Conselho para tomar as decisões. Se Alemanha e França agem como casal dominante, têm grandes possibilidades de prevalecer, mas a aritmética permite que os países menores vençam pelo número.

“Em conjunto, esses dados sugerem que os cachorros selvagens usam uma vocalização específica (o espirro) junto com um mecanismo de quórum variável no processo de tomada de decisões”, concluem os pesquisadores. Os mabecos não são os únicos animais que votam. Os gorilas de montanha se valem de um sistema parecido, usando grunhidos, para optar por deixar o ninho. Os suricatas também precisam que haja quórum para que todo o grupo decida se mover em busca de comida, do mesmo modo que os sinais das abelhas melíferas e os trinados dos macacos-prego são necessários para que haja saídas coletivas.

A mesma revista científica que publica esses resultados dedicou uma monografia há alguns anos para comparar o sistema de tomada de decisões de um grupo de humanos e do resto dos animais. Em suas conclusões, afirmava que a observação que mais chama a atenção é que nessa área das ciências naturais estavam “reinventando a roda” que os cientistas sociais já conheciam há tempos. “Muitos conceitos e ferramentas matemáticas que estiveram disponíveis de forma avançada e sofisticada nas ciências sociais durante um tempo estão sendo redescobertos, às vezes de forma ligeiramente diferente, pelos naturalistas”, afirma na publicação da Royal Society, propondo que os especialistas em animais se deixem ajudar por sociólogos, porque as semelhanças são importantes. -Os cachorros selvagens que votam em assembleia

E de quebra do cachorro domesticado que entendeu melhor nossa patética civilização do homem domesticado pelo homem que nós mesmos.

Ricardo e Marx explicam? Não Darwin e Kropotkin mesmo.

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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