A Renda Básica contra o Populismo e Autoritarismo

Começa a surgir certo consenso que um dos maiores erros que permitiu a ascensão de Trump nos EUA, foi a falta de sensibilidade e vontade política para lidar com a questão do precariado e da exclusão social causada pela revolução tecnológica e informacional no trabalho.

Vou além, a forma titubeante relutante e tardia com que os governos ditos liberais e progressistas começaram a considerar a Renda Básica Universal como a solução necessária para os problemas do precariedade e da exclusão social das minorias foi um fator determinante para a ascensão da extrema direita. Não foi apenas uma oportunidade perdida por esses governos, foi um falha estratégica gigantesca que deixou um enorme contingente de pessoas vulneráveis e a mercê de serem recrutadas ao projeto de poder. E caso esse erro não seja corrigido em caráter de urgência mais sociedades livres cairão diante dessa onda reacionária.

E isso não é uma analise oportunista que tenta torcer a realidade e os eventos recém-ocorridos para uma interpretação que favoreça a causa da renda básica universal a qual sabidamente defendemos. Quem conhece os argumentos sobre os quais construímos nossas defesa nestes anos todos, sabe que é justamente o contrário: praticamente todos nossos escritos publicados e discursos proferidos foram um alerta para o perigo desta negligência. Para o risco de olhar para a adoção da renda básica meramente como uma avanço, e não sua falta como uma falha grave e perigosa para a democracia, a paz e a liberdade.

Seleciono aqui, alguns desse argumentos que defendem a renda básica como blindagem de proteção social, politica e econômica contra a ascensão de projetos de poder populistas e totalitários. Dos mais recentes, publicado a apenas alguns meses atrás, até os primeiros, que datam de 2012.

Espero que a advertência agora faça mais sentido e que ao invés de buscar testar essa solução social, os Estados-Nações ameaçados pela onda da extrema-direita, passam a considerar em caráter de urgência a implantação dos programas de renda básica universal que vão retirar da vulnerabilidade não apenas econômica, mas política as pessoa que hoje estão excluídas socialmente e a mercê do populismo.

Eis os trechos selecionados. Não todos há mais deles nos livros e papers do ReCivitas:

Não, não vejo uma renda básica para todos. Não todos nós. Não a vejo vindo ou sendo sequer pensada justamente para quem mais precisa dela. Para quem está morrendo ou sendo escravizado e alistado pela criminosa privação de nascer sem o básico para sobreviver. Não, não vejo a renda básica sendo paga para os que sofrem com a predação e extermínio dos recursos naturais e humanos. Não a vejo nenhum projeto de restituição deste direito onde sua foi e é a mais brutal e primitiva, tanto quanto pode ser a pilhagem da civilização sobre o bem comum dos povos e territórios colonizados ou ocupados. Vejo guerras, vejo invasões e refugiados. Mas não vejo projetos de renda básica universal.

O que vejo é governos indo às últimas consequências para controlar os recursos naturais e sobretudo humanos. E depois disto, o ápice da distopia global: a burguesia que vier a prevalecer desta batalha nos países ricos somada aos seus feitores nos país pobre desfrutando do direito ao ócio garantido pelo usufruto do seu bem comum e dos outros, e o resto dos povos do mundo convertidos numa grande senzala, num grande campo de concentração, onde a riqueza cultural e natural do mundo irá desaparecer numa velocidade ainda maior do que já acontece hoje.

Vejo uma renda básica sim, mas os todos de sempre. Apartados por fronteiras e preconceitos. Vejo rendas básicas vindo, mas não renda básica verdadeiramente universais, ou abertas a universalidade, mas rigorosamente nacionais, e fechadas às cidadanias nacionais e fronteiras territoriais. Uma renda básica conceitualmente tão presa e limitada por muros e cercas, tão cega e alienada da realidade do mundo, tão apartada da humanidade quanto nossas próprias nações.

A renda básica é, portanto, por oposição aos impérios e monopólios da violência, o pilar de fato dos verdadeiros contratos sociais dos Estados livres, tanto como direito natural quanto dever humanitário e social. Não é benesse, caridade nem assistência, mas dever mútuo entre todos de garantia de acesso a renda devida a cada um de uma propriedade natural. Não é um programa de governos assentados sobre a desigualdades de poder, mas o princípio factual de contratos sociais entre pessoas iguais em liberdade fundamental e autoridade sobre o bem comum.

A falta da renda básica, portanto não é uma falha do sistema, mas a perpetuação do roubo, alienação e retificação que compõe o extermínio do homem pelo homem por desigualdade e privação natural. Sua falta não é uma falha dos estados de paz, mas uma declaração perpétua de guerra dos protegidos contra os excluídos de um mundo que também é dele, sejam estes excluídos de outros povos, classes sociais, gêneros ou até mesmo gerações.

A demanda por caráter democrático e libertário às práticas e definições da renda básica não é, portanto, virtuosismo.

Não é de se surpreender que a renda básica nunca atinja a massa crítica de apoio popular. Como movimento ela já perde quando aceita as pressuposições de um jogo onde ela está condenada a ser uma utopia, ou a falsificação de uma conquista. Renegar a vocação cosmopolita e universal, tentar fazer palatável ao banquete de quem detém o poder, pode agradar os mestres, mas não vai colar com o povão. Porque ele não é o ignorante e incapaz que todo intelectual pressupõe que é. Ele apenas está privado desse outro capital que também se monopoliza como qualquer outro, para vender sua intermediação.

É neste sentido que as definições de renda básica carecem de potencial libertário e universal. Parecem não ter coragem de mandar o Estado e o Mercado juntos ao inferno de onde saíram e se assumir como é: instrumento de abolição e libertação.

A renda básica que não se conhece e não se manifesta como libertação não da falta de empregos ou empregos ruins, mas libertação do maldito trabalho forçado e a morte de quem nasce sem ter como sobreviver, não dispõe explicitamente contra servidão involuntária e escravidão assalariada. A segregação que nos divide e domina pode até ser renda básica, mas não é universal. Não conhece seu espirito libertário e humanitário, e em verdade sequer escapa da alienação geopolítica e cultural que se interpõe até mesmo a do princípio da incondicionalidade.

A renda básica que renega sua vocação, que não se concebe como libertação, não vai ao encontro dos marginalizados, carentes e expropriados do mundo, que não têm coragem de ir para a linha de frente da luta contra a exploração do trabalho e capital onde essa guerra contra a humanidade faz suas maiores vítimas inocentes, não é renda básica. É uma ideia mais velha quanto à religião e o Estado, é dizimo e esmola, e compra de alienados e fidelizados entre os escolhidos e protegidos. É instrumento de poder para os desiguais em autoridade sobre os privados de liberdades fundamentais. E sinto muito, isso já existe.

Não conseguimos, até agora, construir os sistemas que tanto carecemos em escala verdadeiramente universal, não escapamos ainda completamente da eterna utopia, não porque as massas estejam imbecilizadas, mas porque o ideal de universalidade é tão pobre e delimitado quanto as proposições e projetos que o manifestam. E me incluo nesta crítica.

Por isso faço questão de dizer de novo, com todos as letras:

Nenhuma renda básica nacional ou local, se fechada para o mundo, jamais será uma renda básica universal. E se não ficou claro, permitam-me continuar sendo repetitivo (até cair duro ou sairmos do lugar).

Não estou querendo afirmar com isso que os Estados não devam pagar a renda básica aos povos cuja propriedade e riquezas eles explora e detêm. Ou que pequenas comunidades não possam pagar nem receber renda básica inclusive uma as outras, mas justamente o contrário! Estou dizendo que os Estados, todos eles, têm a renda básica como obrigação e dívida com todos os povos do mundo.

O fato dos direitos universais não estarem restrito a nenhuma fronteira nacional não exime os estados-nacionais de dar cumprimento as suas obrigações humanitárias fora dos seus territórios, justamente o contrário, os obriga a cumprir dívidas e obrigações com todos os povos e pessoas, não importando sua cidadania, origem ou localidade.

Os Estados Nacionais e suas corporações transnacionais não só têm a obrigação de pagar esse dividendo social na razão necessária para que todos vivam livre, em paz, dentro do território natural onde controlam política e economicamente estes recursos, mas como também a corresponsabilidade humanitária com todos os povos do mundo de restituir esse direito natural a cada habitante do planeta. E esta é uma obrigação diretamente proporcional a exata medida aos privilégios e riquezas naturais que extraem com a exploração da privações primitivas do bem comum das populações e monopólio violento desse meios ambientais e vitais, seja como tributos, seja como capitais privados e transnacionais.

Em suma, se quisermos que a renda básica se espalhe pelo mundo na velocidade inversamente proporcional que os povos e fronteiras do mundo estão se fechando e entrincheirando uns para os outros, vamos ter que ampliar nosso entendimento para compreender o quão abrangente é a universalidade da renda básica. Seja para convencer o precariado, seja para iniciarmos uma experiencia, devemos primeiros nos convencer e estar convencidos do que realmente queremos fazer e o que queremos com isso. Uma vez respondido isso resta apenas uma questão: estamos nós, que defendemos a renda básica prontos para tomar a frente e dar esse passo, independente se a outra parte vai ou não se mexer? Eis a questão.”

O mal não representa nenhum perigo a sociedade, quando não tem força nem poderes desiguais para aterrorizar ou reprimir os inocentes. Pelo contrário são eles que estão a mercê das pessoas de paz quando é sua sociedade de proteção mutua que prevalece e não a supremacia de nenhum monopolista.

O nosso problema não é portanto como eles são. Nosso problema é como nós somos e reagimos a eles. Não estamos só vulneráveis aqueles que se comportam como predadores estamos completamente submissos a eles, ou mais precisamente a supremacia da sua violência. E logo se o problema é onde eles estão e onde nós estamos, é porque fomos nós que nos colocamos nestas posições em relação a eles.

A violência e predação fazem parte da vida natural. Seu culto não. A violência em si não é um mal antinatural, já o culto ao seu monopólio e supremacia, são a própria fabricação dessa perversão. E um ecossistema onde tais comportamentos e culturas estão industrializados está condenado a se consumir irracionalmente, até o limite da sua desinteligência e insolidariedade.

Nosso problema é que nos achamos seres muito especiais e evoluídos, mas ainda não passamos de uma espécie primatas territorialistas que abaixa a cabeça para o macho mais violento do bando. Ainda não superamos e repetimos as solução mais primitiva que nossos antepassados encontraram. Soluções primitivas e ultrapassadas que hoje são os nossos problemas.

Fechar os olhos para a falta, a garantia de uma Renda Básica nas áreas mais vulneráveis do mundo onde pessoas são escravizadas por empresas transacionais, aliciadas por governos populistas e autoritários, organizações criminosas ou fundamentalistas culturais e ideológicos, é pedir para que exércitos de fanáticos, nacionalistas, racistas e religiosos se proliferem em troca de pão. É pedir que os fugitivos destes demônios e seus infernos venham bater a sua porta.

Melhor do que ter que combater líderes fascistas e genocidas e seus militantes crentes e fanáticos, é impedir que mais deles surjam pelo mundo afora blindando os estados de direito democrático destes populistas autoritários e irresponsáveis, protegendo profilaticamente as pessoas e sociedades de fato com as garantias de liberdade de fato como Renda Básica incondicional senão como direitos internacionais, ao menos através de sistemas de transferência de renda de pessoa para pessoa, sem fronteiras. Sistemas onde o controle do recurso não passem nem perto das mãos destes estadistas canalhas e mentecaptos e possam cumprir seu intento: empoderar as pessoas que carecem, se libertar mais ainda da pobreza e armadilhas políticas do que das econômicas.

Por isso denuncio que Estados-Nações especialmente os que se comportam como estados policiais dos povos a começar pelo seu próprio povo, ou melhor, os povos que habitam seus territórios. Denuncio estes governos que primeiro mantem as pessoas sob a tutela de programas sociais, e depois sob a custodia de sistemas prisionais, ambos institucionalizadores desumanos e por definições campos de concentração e exploração do trabalho e despopulação das etnias e classes e indivíduos não suficientes predispostas a serem aculturados

Quando um povo ou classe não tem mais direito de apropriação pacifica dos meios vitais, a falta de uma renda básica, pode se configurar tanto como crime governamental de subsidio a escravidão assalariada, quanto até crime de extermínio daqueles que sequer dispõe de trabalho servil ou assistência compensatória para subsistir. Porém a falta de uma iniciativa de renda básica independentes de fronteiras e políticas nacionais, a falta de programas internacionais de provisão do mínimo vital às populações carentes sem a intermediação nociva de governos corruptos e sistemas financeiros corrompidos é no mínimo um erro estratégico que chamam para si a responsabilidade da promoção garantia e defesa das liberdades e direitos humanos para si.

A paz e liberdade exigem não apenas que nos neguemos a servir os violentos seus projetos de guerra e poder; exige que nos levantemos ativamente com contraviolência contra eles. Precisamos esvaziar o poder financeiro que alimenta estes chantagistas e genocidas em potencial, ao mesmo tempo que aumentamos o nível de liberdade como empoderamento dos e pessoas de paz do mundo.

Em outras palavras precisamos reduzir o poder dos despostas e tiranos libertando as pessoas não apenas distribuindo liberdades de fato garantidas, mas garantido igualdade de autoridade como poder de fato.

Precisamos eliminar todas as formas de alienação politica econômica e controles e condicionamentos sociais que alimentam os exércitos de fanáticos nacionalistas e religiosos garantindo ao mesmo tempo as condições básicas e o direito a de participação politica direta em tempo real igual para todos.

Precisamos eliminar as armadilhas da pobreza politica e econômica garantindo tanto a renda básica incondicional que permite um ser humano dizer não aos exploradores e criminosos de todas as espécies: políticos econômicos militares ou religiosos.

Precisamos de direitos políticos e econômicos plenos ou democracia direta capaz de eliminar as desigualdades não de posses mas de poderes e autoridades que de cidadania plena e permitem os governantes sem limites constitucionais jogarem sues povos em conflitos uns com os outros para se sustentarem no poder.

Talvez ainda paire a duvida se as pessoas são ou não capazes de governar a si mesmas. Mas se não são, saiba isso não é causado pelo “excesso” de liberdade, ou falta de autoridade. mas falta de garantia de liberdades fundamentais e igualdade sobre o bem comum. É um mal desnecessário causado pela desintegração, redução e privação de direitos políticos, econômicos e culturais. Saiba: o empobrecimento e a ignorância não estão geopoliticamente conectadas por acaso nem proliferam onde existem privação de liberdade e desigualdade de poder por coincidência. Riqueza se gera a partir da liberdade, como a maximização de direitos fundamentais para todos. Porém poderes ao contrário se mantém com a pobreza alheia, se reproduz pela privação das necessidades mais básicas.

As pessoas não precisam portanto de lideres, salvadores, nem de governos fortes que as guiem, elas precisam se ver livres de todos os poderes e fanáticos políticos econômicos e culturais que usurpam a plenitude dos seus direitos civis e as impedem de exercer sua cidadania livre e em comunhão de paz. Eles precisam portanto justamente do oposto: mais paz e liberdade e menos monopólio e violência. Não precisamos de poderes e poderosos, mas liberdades garantidas para nos livrar definitivamente deles e suas guerras apartheids, holocaustos e cultos supremacistas e alienistas.

O poder político é afirmativo, mas a liberdade política é meramente negativa e um estado de paz não é feito por nossas forças de reação aos ataques mas sim por nosso poder de prevenção e neutralização dos inimigos. Nossa liberdade depende não só da nossa capacidade reativa de neutralizar os projetos de poder e violência, mas da nossa capacidade preventiva de extinguir todas as circunstanciais que nos deixam vulneráveis ao mal do poder.

Sem meias palavras, a paz como estado de contra-violência depende da nossa capacidade em findar a pobreza como privação de liberdades fundamentais sobre as quais o poder se funda para depois se perpetuar em combate eterno contra uma pobreza que ele alimenta e se beneficia como estado de ignorância, dependência e alienação política e econômica.

Não que os governos sejam um problema, pelo contrário se livres devem existir de acordo com a voluntariedade de seus responsáveis e o consentimento dos comuns afetados por eles. Devemos constituir estados não apenas de defesa, mas estados de contra-violência que mantenham não apenas a desigualdade de poderes banida, mas a privação das liberdades fundamentais de fato (a privações dos meios vitais) banida como meio de aliciamento alienação ou servidão. E não se iluda estes estados de paz, não vão existir sem estados sociais de liberdade básicas como garantia incondicional do mínimo vital. Sim Rendas Básicas incondicionais.

Repito portanto com todas as letras o mantra do que tenho pregado como chamamento ao ativismo internacional. Precisamos com urgência urgentíssima de uma rede de solidariedade entre os povos baseada em garantia de minimo vital para todos, porém em consideração aos nossos escaços recursos dirigida estrategicamente para os povos e pessoas mais vulneráveis.

Os testes e experiencias quanto a renda básica não são apenas dispensáveis eles são contra-produtivos frente a necessidade inclusive geopolítica de blindagem dos povos e comunidades carentes que estão a mercê desses ideólogos do terror de Estado.

Para mim falar da renda básica e sua universalidade sem abordar inclusive epistemologicamente os direitos econômicos e políticos não é apenas produzir estudos pobres sobre a pobreza, mas reproduzir a pobreza pela manutenção dos dogmas alienadores de direitos fundamentais dos povos e pessoas livres. Se a renda básica não é recurso capaz de restituir e reintegrar os direitos a vida, liberdade e identidade dentro de uma verdadeira democracia como um mesmo direito civil inalienável, ela é só mais programa social e não um direito constitucional garantido de fato.

Um benefício que não só corre o risco de ser subtraído, mas ser instrumentalizado por regimes populistas, autoritários, e até mesmo totalitários. Ou alguém acha mesmo que se um governo como o da Coréia do Norte implementasse uma renda básica incondicional, não haveria mesmo nenhuma condicionalidade implícita exigida perante as autoridades?

A transição dos experimentos da fase utópica da Renda Básica representados por comunidades como Quatinga Velho e Otjiviero Omitara, para a fase científica é importantíssima e deve não só ser efetuado, mas apoiada por toda a sociedade, mas não sem os próprios cidadãos interessados protagonizando estas iniciativas. Porque dos controles sociais é a democracia direita, o controle de fato de pessoa livre a forma mais segura de garantir que tais experiências sejam legítimas, ou seja, estejam de fato dirigidas para responder aos seus anseios, os interesses dos povos e sociedades e não dos governos e mercados.

Sinto muito, mas as pessoas naturais, aquelas que não representam interesses governamentais ou corporativos, não estão à espera de nenhuma prova empírica se a renda básica é ou não boa para sua vida, eles precisam e esperam apenas que se efetive o acesso incondicional ao mínimo vital. Aliás, não é só pressuposto autoevidente a necessidade dos meios vitais e ambientais e portanto o benefício da sua garantia aos carentes, mas é pressuposição teórica fundamental a própria definição da renda básica e estado de paz a necessidade de garantia mútuas dos mínimos vitais.

Como um povo se mantém um povo dominado? Pão e Circo? Que novidade há nisso?

Nenhuma, e por isso mesmo os estadistas do populismo deveriam saber que essas coisas se dão juntas e não separadas, ou o que é a mesma coisa, liberdades materiais e espirituais se não forem subtraídas pelo mesmo dominador, precisam estar devidamente combinados entre eles, a divisão da pilhagem dos servos e dos feudos.

Lula deu o pão, mas esqueceu ou confundiu a propaganda estatal com o próprio circo. E não é a toa como o próprio trabalhismo petista reconheceu que foi sobretudo pelo flanco da mídia que os velhos feitores retomaram seu cavalo.

Se o populismo é a “arte” de distribuir de graça os frutos das propriedades a quem não pertence em troca de obediência, então ele não é senão um filhote do liberalismo, a “arte” de distribuir propriedades e liberdades naturais como se fossem favores de poderes artificiais. De fato a dependência de uma autoridade não é gerada pela liberdade que ela primeiro reprime e depois desproíbe, mas pelos bens que ela redistribui, via doses gigantes de ilusão paternalista, seja liberal ou populista, tanto faz. Pois o que é dado de dia com alarde como presente, em verdade é o que foi tirado às escuras no passado durante a noite. Porque as coisas antes de serem tomadas como objetos da graça ou cobrança dos poderes usurpadores e dadas as corpos artificiais das suas entidades jurídicas foram um dia propriedades e liberdades de pessoas naturais.

E é pela propaganda da falsa história que nada faltará aos submissos, e tudo perderá os que se levantarem contra a servidão ao grande pai-pátria-patrão que vai se apagando da memoria humana a lembrança do estado natural e se implantando a ilusão da falsa contraposição de que: tudo ou é gratuito; ou nada é de graça. As duas faces da mesma moeda que sustentam a dialética dos estados distópicos, onde a liberdade está reduzida ao que não está proibido e a propriedade a concessão do poder central.

O que se vende em qualquer sistema político-econômico fundado em estados de poder, liberal ou socialista, não são propriedades, mas liberalidades. O que gera a riqueza dos poderosos deste sistema não é o seu enriquecimento, mas o empobrecimento dos outros. A verdadeira riqueza dos estados de poder, não são os campos produtivos, mas os campos de concentração não da riqueza, mas dos pobres. A verdadeira riqueza do poder é a pobreza. Seus territórios são os latifúndios primordiais da privação e incerteza da vida. Os territórios da incerteza quanto a segurança da vida e da liberdade fundamental, e a cultura e cultiva do medo e do terror são o próprio campo dos domínios do estado de poder.

Não é a toa que regimes populistas e autoritários, caudilhos ou imperialistas, se reforcem com desastres, guerras, crises, pobreza e todo tipo de privação que cause insegurança quanto à vida e liberdade. O medo existencial, a incerteza sobre a vida livre é o terror primordial, é o curral onde os alienadores de propriedades básicas e liberdades fundamentais plantam suas ideias e cultivam seus coitados para extrair sua servidão. Pobreza não é meramente a falta de propriedades, mas o estado de incerteza, dado pelo binômio liberal-estatal do que é gratuito ou cobrado, do que é liberado ou proibido, quanto ao que outrora fora propriedades naturais e que compõem as liberdades fundamentais e de fato.

O Estado de Poder é o estado de exceção dos direitos e liberdades naturais, o estado de espírito materializado como a própria incerteza quanto às liberdades mais fundamentais: quanto ao acesso aos bens comuns; ao direito a informação e ao direito a livre associação e dissociação. E se este estado nasce do desequilíbrio circunstancial provocado pela privação natural, é pela sistematização forçada deste desequilíbrio circunstancial como condição social permanente desde o nascimento que ele se perpetua como o mito do único mundo possível. E é assim, não só pelo medo da sede nestes desertos artificiais que se troca ouro por água, mas pelo medo dos sedentos plantados à porta das cercas que os donos da sua casa entregam as chaves para os tiranos. É pelo medo cultivado pelo próprio culto à supremacia segregacionista que se entrega em tributo não apenas propriedades, mas as próprias liberdades. E o que ontem era propriedade natural é hoje concessão de poderes centrais. E um dia até a luz do sol não mais será vista como algo naturalmente, mas como o objeto de graça de um tirano ou cobrança, os dois lados da mesma moeda.

Assim, o que a direita odeia nos déspotas de esquerda, a sua vontade de garantir positivamente direitos sociais com tributos, a esquerda odeia nos fascistas de direita que impõe os custos da proteção de sua propriedade à força contra aqueles que nem sequer têm meios para se sustentar. É por isso que os ditadores populistas fascinam tanto as massas mais pobres; por mais ditadores que sejam, quanto mais às pessoas são destituídas da liberdade fundamental de sobreviver mais facilmente são reduzidas à condição de massa. Por não ter a condição de exercer sua livre vontade são presas para se tornarem fãs e fieis de corporações estatais ou privadas que provem ao menor custo suas necessidades e desejos, neste mercado onde a liberdade negativa não é garantida positivamente. Nestes estados o escambo da obediência política se torna um bom negócio e as ditaduras prosperam provendo com as rendas mínimas condicionadas, o que as corporações perderam a capacidade de fazer com sua escravidão assalariada. E detalhe: paga com seus impostos recolhidos da própria exploração do trabalho assalariado, o exercito dos dependentes e submetidos diretamente ao condicionamento do poder central. Em outras palavras, as ditaduras populistas crescem na cegueira insolidária do culto da exploração da pobreza e do trabalho forçado não pela falsa esperança de libertação do trabalho servil, mas pela gratidão servil pela inclusão no seu projeto de poder.

Na verdade, tanto faz se a pessoa jurídica que impõe seus custos ou lucros em relação aos setores produtivos da sociedade as pessoas naturais e suas associações são privadas ou estatais à medida que quem sustenta seus ganhos ou custos são os demais e ele obtém os seus ganhos da relação com o poder central, na exata medida do centro à periferia em que este poder distribui os benefícios das relações de poder. Todos os custos subsidiados por tributos geram vantagens indevidas àquelas pessoas jurídicas literalmente mais próximas e afins ao poder central e que subsidiadas por ele tanto dentro, quanto fora de seu território esmagam as pessoas e as suas associações naturais produzindo a expropriação tanto de sua propriedade quanto liberdade, não é, portanto uma luta entre trabalhadores e empresários, entre proprietários e não proprietários, ricos ou pobres, mas sim entre pessoas que impõe seus valores de poder e privilégios por meio da violência e reprodução da pobreza contra aqueles que produzem a riqueza.

Assim por mais que um expropriador profissional, um déspota, chefe privado ou estatal descarnadamente usurpe de liberdades reais e potencias e cobre na verdade servidão e obediência cega, ele devolve a liberdade mínima necessária a sobrevivência através das suas concessões, vende-se sobrevivência em troca de dignidade. O negocio dos ditadores são exatamente o mesmo negocio do mercado, só que sobre o monopólio ainda mais centralizado sobre o monopólio estatal. Mas talvez você brade, mas foi o próprio Estado mesmo que tomou estas liberdades! Corporações são entidades juridicamente constituídas e seus privilégios são gerados e mantidos pelas concessões executivas e legislativas!

E daí? Para quem sofre com a privação, pouco importa se o único meio de sobrevivência vem de volta das mãos de quem o subtrai mediante sequestro e chantagem, ele é o único meio de sobrevivência, e é que está a base primitiva reiterada de todo o controle. É nisto que ditadores e populistas são mais pragmáticos ou menos eugenistas que os avarentos, eles não acuam os excluídos até que eles morram de fome, ou os ataquem desesperadamente como animais acuados, eles sempre deixam não bem uma porta de saída para seus programas de renda condicionada, mas uma porta de entrada sempre aberta ao totalitarismo.

Assim não basta só se negar a servir o poder quando se tem condições de fazê-lo; é preciso garantiras mesmas condições aos demais. Sem essa garantia, um populista de qualquer nação ou corporação, pela simples exploração oportunista da desigualdade natural entre os homens, pode se fazer tirano no vácuo deixado pela falta de solidariedade social. O que os defensores da liberdade precisam entender é que campos de concentração podem ser construídos em fábricas fechadas ou a céu aberto sem muros, apenas com fronteiras imaginárias ou geopolíticas, ou então pela simples proibição de se colher um fruto de uma árvore. Para os mais pobres desprovidos das liberdades fundamentais reais toda a retórica libertária e centavos não compram um pãozinho na padaria- e é por isso que os primeiros liberais nunca foram conservadores, mas revolucionários.

A democracia só blinda contra o totalitarismo a sociedade que tem a cidadania plenamente garantida como liberdade político-econômica. O que blinda a sociedade contra a emergência de poderes populistas e autoritários e sua distribuição de pão e circo em troca de culto e obediência das pobres almas alienadas que alimentam a seu corpo artificial é a superação da vulnerabilidade social pela liberdade universal. Democracias plenas ao contrário das escravagistas e imperialistas que se alimentam das liberdades dos segregados e do medo seus próprios cidadãos não se estabelece da desigualdade de diretos e liberdades fundamentais nem muito menos da assimetria ou supremacia do poder pelo poder bélico, democracias plenas se estabelecem pela garantia universal da liberdade como direito humano sem discriminação ou segregação, a democracia como princípio federativo onde toda pessoa ou sociedade disposta a assumir o compromisso de proteção da paz e liberdade de acordo com suas capacidades é um signatário soberano deste mundo livre. — Renda Básica Libertária, 2014

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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