A onda “conservadora”, não é uma onda…

A pesquisa do Datafolha que mostra uma reversão da onda conservadora e certo retorno de ideias e comportamentos mais identificados com o que a política convencionou chamar de esquerda parece repetir um padrão que também se verifica no restante do mundo. Embora seja impressionante que o eleitorado americano tenha pensado diferente a ponto de elegê-lo, o fato é que a histrionice e a excentricidade do topete laranja de Donald Trump nos Estados Unidos parece de alguma forma ter assustado o resto do mundo e desautorizado tentativas semelhantes em outros países. A extrema direita perdeu as eleições na Holanda e na França. Não foram eleitos nomes de esquerda, mas de centro. Um pouco na linha do que a pesquisa do Datafolha parece mostrar prevalecer também por aqui: a opção por evitar os extremos.

(…) Por aqui, a onda conservadora vinha de vento em popa, rebocada pelas manifestações de protesto contra as administrações petistas, que acabaram no impeachment de Dilma Rousseff. Ainda que tal pensamento não chegasse a prevalecer na sociedade, a onda conservadora fez com que saíssem do armário ideias que desde a redemocratização andavam envergonhadas. Viúvas de militares pedindo a esdrúxula “intervenção” para resolver os problemas do país — não se iluda: intervenção é eufemismo para golpe. Crescimento de ideias conservadoras no campo da moral, como oposição ao aborto, à união homossexual, pena de morte, etc. O que culmina com o crescimento do nome de Jair Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto.

Na verdade, o que a pesquisa mostra é que há certo empate no momento nesse embate ideológico. E isso é mais um fator a mostrar que o cenário para as eleições presidenciais do ano que vem é totalmente imprevisível. (…)

A pesquisa mostra mesmo que a reversão da onda conservadora vem acompanhada de um grande grau de desencanto sobre o momento do país. É por tudo isso que o quadro para 2018 vai ficando cada vez mais imprevisível. Os brasileiros parecem estar indo para a festa da democracia com disposição de velório. — Esquerda, direita e uma eleição imprevisível em 2018, Rudolfo Lago |

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“O que mais me chamou atenção nesse universo de políticos, fazendeiros, barões do café, jornalistas e outros é o quanto as suas visões de mundo se refletem no agronegócio de hoje, no cinismo dos políticos atuais, na hipocrisia de certos jornais e na insensibilidade com a dor alheia. A retórica conservadora é praticamente a mesma, sempre baseada na chantagem e na disseminação do medo”, afirma Juremir, em entrevista para o blog da editora.

A repressão da polícia ao movimento abolicionista, a justificativa estapafúrdia de que a abolição acabaria com a economia do país, os pedidos infundados de indenização por proprietários rurais e a disseminação de preconceitos contra os negros não foram suficientes para barrar o movimento abolicionista. O autor destaca o papel da imprensa independente e também o papel dos próprios escravos, que costuma ser relegado, na luta pela sua liberdade.

“A abolição foi uma conquista dos negros e dos seus aliados que se deu em três frentes: a rua, o parlamento e a imprensa. Por uma vez na vida, tivemos, em paralelo com a imprensa conservadora, uma profusão de jornais abolicionistas que conseguiram disseminar os valores da abolição numa sociedade de maioria analfabeta. Foi uma façanha. Não houve concessão da Coroa nem abolição por exclusiva pressão inglesa ou por imposição pura da dinâmica capitalista. A luta dos homens e das mulheres foi decisiva para desmontar um discurso de naturalização da escravidão”, ressalta.

O livro traz à tona o papel de abolicionistas menos conhecidos e elogia intelectuais abolicionistas famosos como José do Patrocínio, Joaquim Nabuco e Rui Barbosa. Ao transcrever os discursos dos políticos, mostra como o romancista José de Alencar, que votou contra a Lei do Ventre Livre, era um “conservador renhido, escravocrata convicto, sempre pronto a sofismar em nome da sua crença”.

Num dos trechos mais chocantes, reproduz trechos da “Lenda da criação do negro”, ficção publicada num jornal do Espírito Santo cheia de clichês racistas, que ainda persistem no imaginário brasileiro racista. “Raízes do conservadorismo brasileiro” mostra que ainda estamos longe de reconhecer e pagar a dívida com a escravidão. “Nesse sentido, ainda somos os mesmos e vivemos como no século XIX”, conclui o autor.

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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