A nova batalha: as próximas eleições se é que haverá uma

Havendo eleição, votar ou não votar? Em quem ou no quê? II

Introdução

Não escondo que minha proposta não é essa. Mas como nem sempre podemos escolher as batalhas que somos obrigados a lutar, as vezes contra todos os exércitos. Vamos falar da transferência do Neymar: que jogada de marketing dos xeiques do Catar, hein? Não sou chato, vamos falar das eleições ano vem… repetindo sempre: supondo que haverá uma. Porque as articulações dos ratos no poder é forte, para que não haja uma , com ou sem o padroeiro da velha esquerda, afinal a saída desta gente do poder direto para a cadeia, embora perigo remoto, já até Moro condenou mas não prendeu, implica num belíssimo incentivo para tentar de tudo para permanecer nele inclusive golpes parlamentares, propriamente ditos. Afinal nem todos eles são ex-presidentes tem antepassado conde, barão, general ou coroné mesmo.

Já falei sobre essa questão em artigo anterior mas não custa repetir o coração do argumentos:

Eles não vão sair do poder enquanto não terminarem de implementar sua agenda criminosa e garantirem que saíram completamente impune disto, mesmo que essa rápida transição leve mais 20 anos, como a última ditadura, a militar.

Mas vamos lidar com a hipótese, que inclusive que o poder de fato estatal, as forças armadas não compactuem com esse golpe e não dêem o subsidio estatal cabal a esses aventura criminosa. Vamos supor com mais nada senão a fé que a parte que não está em conluio com o podridão, mais uma vez de forma discreta, apenas pelo poder da persuasão ponha um ponto final nessa ambição de uma venezuelização agora a direita do Brasil e tenhamos eleições. Haja fé. É com a hipótese dessa batalha que ainda considero a mais provável, embora os riscos da outra tenham aumento, como prova a desfaçatez dos atos de palavras dos gangsters na presidência e congresso que esse artigo trabalha e não com a outra onde depois de se institucionalizar partem novamente para perpetuação agora sem as máscaras da democracia.

O voto nulo versus o voto “útil”

Há uma discussão sempre muito forte dentro de algumas correntes libertárias acerca do voto nulo. Muitas vezes tomado como dever por questão de princípios por aqueles que consideram o Estado um roubo, e a democracia fraca ou representativa uma farsa. Outros consideram que essa postura é sempre um erro dado que os impactos deste tipo de voto não tem implicações nos resultados da eleição, desperdiçando assim um dos poucos elementos que o cidadão comum tem, ainda que limitados, para interferir nas disputas de poder, que no final das contas são as disputas sobre o seu destino, quer ele queira ou não. Em geral, esse segundo grupo prega o que se chama voto útil.

Voto nulo ou voto útil? Essa é uma polêmica da qual ninguém alfabetizado acima de 18 e abaixo de 60, querendo ou não, consegue se livrar, até porque mesmo a abstenção precisa ser justificada, pois ainda que seja mera pro-forma perante a “Justiça” eleitoral, a ausência do cumprimento desse direito imposto como obrigação implica em sansões legais. O que não impede que a maioria das pessoas simplesmente resolva esse dilema, com o mesmo desprezo de quem enfrenta a burocracia de um banco, simplesmente tentando se livrar da forma que lhe é menos penoso e inconveniente, seja votando em qualquer bosta que lhe pareça feder menos, ninguém, ou simplesmente viajando e justificando a sua abstenção.

Logo, o simples refletir sobre essa questão e até mesmo o tomar partido do voto nulo ou útil como um posicionamento constante, já é de certa forma tomar uma posição política digamos mais elaborada. Contudo, não acho que essa questão possa ou deve se resumir um posicionamento fixo ou predefinido, mas que pelo contrário deve ser constante objeto de reflexão e uma portanto uma possibilidade em aberto a tomada de decisão. Não acredito na portanto nem na utilidade ou nulidade do voto como algo predefinindo, mas sim completamente dependente das circunstâncias.

Assim, mesmo considerando o pleito eleitoral apenas um farsa representativa, estrategicamente considero que tanto o voto nulo quanto o útil são alternativas válidas e úteis ainda que tenham diferentes propósitos. O voto nulo mesmo quando não é um movimento de protesto ou boicote, mas a manifestação particular de descontentamento generalizado, ou desaprovação ao sistema pode ter um impacto cultural na sociedade mesmo não tendo nenhum impacto nos resultados das eleições. Assim como o voto útil mesmo não tendo praticamente nenhum impacto cultural, ao menos não transformador, pode ser não só a melhor opção estratégica, mas até mesmo a única que nos resta como arma, seja para derrubar, seja para impedir a ascensão ou volta de determinados regimes autoritários e populistas ao poder. Da mesma forma que o próprio voto nulo pode se tornar a única opção se as alternativas entre aquilo que se considera o menos pior são simplesmente insignificantes e independente de qual seja o discurso ideológico na prática vão dar no mesmo mal seja mais a esquerda ou direita.

Particularmente considero o voto nulo, um instrumento valiosos de instigamento ao despertar da consciência e revolta quando a sociedade se encontra completamente letárgica e ufanista das plena liberdades de escolha entre merda e bosta nos pleitos eleitorais. E logo praticamente sem maiores efeitos quanto essa revolta e consciência já estão disseminadas. Ou seja: quando a abstenção é gigantesca, chegando a ser a maior vencedora das eleições; quando a maioria arrasadora da população considera todos o espectro ideológico corrupto, nutrindo por eles não só asco mas a mais profunda revolta; especialmente quando as próprias instituições inclusive eleitorais são objetos de desinteresse, descrédito e até mesmo desprezo; o voto nulo pode até permanecer como única opção na completa ausência de alternativas, mas seus efeitos são como chover no molhado, nada acrescentam de novo ao estado já configurado, apenas ajudam a mantém a resistência e sua persistência.

Se é o tudo o que temos e podemos e devemos fazer que seja. Porém quando o voto nulo já não faz grande diferença no estado revolta já instaurado entre a população, e a expectativa dessa revolta popular já não é mais encontrar pessoas revoltadas ou que reforcem essa opinião generalizada, mas sim soluções claras e imediatas para que colocar um fim ao estado revoltante das coisas; quando a revolta popular não está mais na fase do você não pensa como eu? vamos botar a boca no mundo” mas sim do “e agora, o que podemos fazer para por fim a esse problema?” o voto nulo mesmo não sendo jamais parte do problema, deixa de fazer parte do processo do seu elucidamento para se passar a ser visto, como mais um entre tantos elementos que não contribui para a solução cada vez mais sentida com algo urgente.

E aqui aqueles que defendem as mais velhas, primitivas e autoritárias soluções, inclusive as que apelam para a violência organizada ou melhor institucionalizada, ganham terreno no vácuo da ausência de proposições positivas. Porque por mais toscas absurdas e incoerentes que sejam, são propostas concretas e não mais “só” uma contestação das presentes. E podem inclusive se propor como solução até contra os protestos, quando estes estaguinam no permanente confronto como o sistema-problema que se quer superar. Sim, os mesmo os protestos que sem os quais não haveriam a visão do problema e as condições para a fratura do status quo, passam a ser tomados como sintomas da doença e não mais parte da cura. Os mesmos protestos que que abriram caminho para a libertação das velha alienação e consequentemente a proposição do novo e até objeto de desprezo popular. E por uma razão muito simples e justa: Onde está o novo?

É como se a população dissesse: ok, você me convenceu do problema, mas qual é a solução? Não apresentá-las é mais do que levantar a bola para outro chutar, em se tratando da extrema-direita, é levantar a bola para ser chutado junto com ela.

Sei, que existem diversas propostas mais do que suficientes para ocupar esse lugar. Mas a questão não é o simples haver, mas de estarem de fato ocupando seu lugar, e se propagando como as propostas autoritárias, populistas, descaradas de um Bolsonaro, ou mais maquiadas de um Dória. Oportunistas? Reacionários? Velharias travestidas e recicladas como novidade? Com certeza, tudo isso, mas repito a pergunta: onde estão as alternativas de novo? Lula, Ciro, Alckmin? E notem o tamanho do problema, perguntei por novas ideias e respondi com nomes, velhos nomes. Suponha que fossem novos, o que há de verdadeiramente novo, ou transformador em pedir por soluções e responder com salvadores?

O problema no brasil não está nos problemas, ou na (falta) de solução dos problemas, mas na matemática brasileira. Aqui a solução do problema 2+2 não é =4. A solução do problema 2+2 é = a incógnita “chama-o-peixe-que-ele-resolve-por-mim”. Se o peixe for pequeno 2+2 viram 3 porque 1 foi para ele; Se for peixe grande, 2+2 é = ZERO e -5, zero para você e menos cinco divido entre todo mundo. Porque 2 foram pra ele; 2 pro partido; menos 4 para sociedade, sobe um 1 pros compadres… resultado: zero pro zé povinho e mais 5 de dívida pro pais. Resposta para o problema? Ninguém sabe, só eles. E esse é o verdadeiro problema, a própria solução entregue a matemática deles.

Sem essas alternativas, e com a prevalência da defesa desse tipo de calculo político, sem a menor sombra de dúvida que esse tipo de solução da incógnita nominal vai continuar a prevalecer, porque na ausência de novas propostas e insistência no que já está completamente saturado e marcado pela corrupção e rejeição popular, qualquer um mesmo até mesmo o macaco tião, é capaz de se eleger por contraste. Algo muito parecido com o que ocorreu, nos EUA, com o establishment apostando que qualquer um se elegeria contra Trump, até mesmo uma Hillary, ignorando a via de duas-mãos, onde o inverso também é possível, aliás como o foi com até mesmo um Trump conseguindo se elegendo contra alguém ungindo pelo status quo como uma Hillary.

Evidente que esse novo, jamais em sua plenitude dentro dessa política partidária, mas entre a imperfeição e o lixo mais abjeto não somos tão tolos para ver que a distancias abismais. Por exemplo dentro das esquerdas uma das coisas mais importantes que ocorreu, nos últimos tempos foi o derretimento do Petismo e seus satélites que constituam para esquerda os bolcheviques representavam para a revolução russa. Perseguindo, bloqueando, monopolizando, sabotando, ameaçando e o pior de tudo vendendo a população no balcão que ele tomou para si no balcão corrupto do capitalismo de compadrio e presidencialismo de coalizão. Se livrar dessa falsa esquerda e poder enfrentar o inimigo sabendo novamente que ele não é o aliado, que Sarney, Maluf, Kassab e cia, não são “companheiros” não tem preço. Ir para luta conhecendo seus inimigos para levar um tiro na cara, e não uma facada das costas, pode parecer uma diferença nula, mas só para quem não foi a luta, principalmente nas linhas de frente. Mas a pergunta é: e daí? Que adianta se livrar desses velhos traíras se o novo não ocupar os espaços? E não estou falando dos espaços políticos partidários, mas o dos movimentos sociais que jamais deveriam ser cooptados por partidos, mas suprapartidariamente definir suas próprias agendas populares que essas e outras instituições teriam que ouvir, isto é claro, se quisessem ser ouvidas.

Quando portanto falo de alternativas, pela ordem, não estou falando de alternativas partidárias, pois essas organizações quando não são desde um principio um mais 171 institucionalizado, são o mero produto consequência desses movimentos de base, que via de sempre se deturpou para e quando se chega ao poder. Mas não é por isso que devemos cair no fatalismo da inação política. Porque uma vez reconhecendo a natureza inerente corrompedora que a mera alternância ou divisão dos poderes não cura, podemos sim estabelecer outras formas ou aprimorar as organização políticas, criando dispositivos capazes de programaticamente agir de forma disruptiva sobre esse mal, não só de fora, mas a partir de dentro dele. Eu acredito mesmo nisto? Não. Mas respeito, em quem sinceramente acredita.

Mas independente de credo, isso é possível? É possível alterar o sistema de dentro dele?

Bem, se não for, considerando que a vida brasileira é completamente burocratizada e estatizada a unica alternativa que nos resta realmente concreta é a da via revolucionária clássica. Que não é uma via como qualquer outra, não é uma mera alternativa, mas o ultimo recurso valido apenas diante de circunstancias que se configurem como absoluta necessidade do emprego da força de fato em legitima defesa. Uma regra que não é apenas valida para autoridades, mas que deve ser estendida e igualmente respeitada por todos sem exceção- isto é claro se não quisermos sofrer a punição natural desse desrespeito que recai igualmente sobre todos: guerra. E quem acha que isso é uma realidade completamente impossível, que olhe para nossa vizinha Venezuela.

Logo, não é propriamente por uma mera questão de escolhas, não podemos descartar as alternativas, ainda que não acreditemos no seu sucesso, ou não sejam aquelas que não queremos nem vamos tomar a frente, sem antes dar uma chance para que elas sejam aplicadas, obviamente que não aquelas que já foram experimentadas e produziram o que produziram, mas sim as novas propostas que jamais tiveram chance de ser sequer tentadas.

Esse vácuo precisa ser ocupado por essas novas propostas, porque se não for ocupado por elas serão ocupadas pelas velhas apenas maquiadas e recicladas. Contudo não adianta esperar que esse novo apareça. E não estou querendo dizer como isso que devemos tomar parte dessa política que está aí. Diria que não só podemos interferir mas até mesmo que devemos aprender a fazê-lo na condição simples cidadão. Precisamos usar as poucos e parcos instrumentos que temos para definir diretamente qual deverá ser os programas e agendas não só deste ou daquele partido, mas de todos como uma especie de critério geral tácito.

Os procuradores da Lava-Jato, por exemplo, seguindo a senda aberta pelos movimentos da sociedade como o Ficha-Limpa espera que já a partir desta eleição terá conseguido difundir importante mudança cultural, que deveria ser evidente, mas não é: não eleger criminosos, gente que precisa primeiro se resolver na Justiça primeiro para depois querer governar. Contudo, todo libertário sabe que a mera moralização do aparelho estatal não fara com que o Estado deixe de ser um inimigo da sociedade a expolia-la, que dirá um instrumento a seu serviço.

Mas a questão é: sobre que bases e propostas concretas os libertários estabelecem os critérios com os quais irão se posicionar nestas eleições? E essa é uma decisão absolutamente individual, mas que pode ser composta deliberadamente de alguns fatores em comum, para formar consensos e movimentos espontâneos. Por exemplo:

Supondo que você creia que possa haver, qual seria este conjunto de qualidades e propostas que poderia levaria a votar em algum candidato? Haveria uma conjuntura onde mesmo na ausência destas qualidades e propostas, ou ainda no completo descrédito que elas existam com autenticidade, que você optaria por este e não por aquele? Ou ainda o contrário em que hipótese mesmo que porventura aberto a dar seu voto a alguém, qual seriam as pessoas e propostas que levaria a recusa absoluta de todas e anular seu voto?

Proponho portanto que essas decisões sejam tomadas através não de proposições prestabelecidos , mas de juízos elaborados de acordo com critérios que observem objetivos estratégicos, mas objetivos estratégicos devidamente fundamentados por princípios. Nem portanto por princípios tomados como dogmas fundamentalistas, ou decisões que mandam as favas esses princípios fundamentais e adotam decisões estratégicas ditas pragmáticas baseadas em raciocínios meramente utilitaristas.

Princípios sem objetividade faz até dos mais realista alvos fáceis dos poder, Fins sem princípios faz dos pragmáticos não só presas fáceis das armadilhas do poder. Mas a nova horda dos predadores conversos. E mais: o novo nunca está nos principios e finalidades. Todo mundo sabe é preciso ser feito no Brasil, e o que se deve ou não agir para fazer o que é preciso. A questão é o como? A proposta do novo, está nos meios.

Mas que acima de tudo estabelecemos esses critérios não como expectativa mas como demanda, manifesta como expressão clara das nossas exigências. Que invertamos sem esperar a adesão ou apoio de outras pessoas, mas deixando em aberto nossas demandas como simples cidadão, não só para aqueles que pretendem ganhar nosso voto saibam exatamente o que exigimos deles, mas sobretudo para que outras pessoas possam literalmente fazer o mesmo, seja pela mesma causa, seja para outras que são suas. Entretanto não é apenas uma questão de dizer o que queremos, mas exatamente como queremos, pois quanto melhor definido estiver a forma como queremos atendidas nossas exigências, para votar neste, naquele, ou então em ninguém, mais concreta, crivéis e exequível terão que ser as propostas e soluções por apresentadas pelos concorrentes.

Em geral a política durante as eleições vira um grande quadro de procura-se emprego, onde o candidato de volta para a sociedade para publicitar através da propaganda o que ele tem a oferecer. A exemplo dos movimentos anti-corrupção, precisamos inverter essa relação de oferta e procura. Nós é que devemos como indivíduos cidadãos mesmos sem maiores pretensiosamente de formar grandes coletivos ou movimentos, nós é precisamos dizer, afixar muito claramente nesse quadro público o que queremos e não queremos. É o único momento que podemos fazer com alguma efetividade isto. E mais com a internet, os celulares, as redes sociais enfim todas as formas de telecomunicação interativa temos enfim um lugar para fazer isto, que antes jamais tivemos antes com os antigos meios de comunicação.

Em outras palavras estou propondo não queimar uma bala que é o protesto da anulação do voto de antemão, pois embora ela não tenha maiores implicações legais, qualquer político eleito que não por uma maioria, mas pelo contrário sem o apoio da maioria absoluta que não elegeu ele é empossado, mas não governa, e não só já começa o mantado com alto riso de sequer conseguir terminar como se por ventura conseguir pode pagar o preço de nunca mais poder sair na rua, não sem seguranças.

Essa é a dinâmica atual da politica na era da informação, a dinâmica que irá se manter até que a democracia representativa evolua para a direta. Vivemos esse período de evolução e precisamos saber utilizar os instrumentos a nossa disposição até mesmo se não quisermos ser privados também destes dispositivos.

Apoia a causa ambiental? Social? qual é a sua demanda? Deixe-a bem claro e em aberto, na internet; da forma mais detalhada possível de como você quer. E não como um pedido, mas como uma exigência e aviso muito claros de quem não tiver sequer esses atributos mínimos não vai levar seu voto, mesmo sendo ele obrigatório. Publicite e compartilhe sua vontade soberana, para que outras pessoas tomem consciência que não só são soberanas da sua vontade pública, mas que o esse exercício dessa soberania chamada cidadania exige delas a responsabilidade de se manifestar publicamente suas exigências e negociá-las como o demais, tarefa que supostamente deveria ser a dos representantes políticos.

É tempo de nós definirmos proativamente a composição dos programas, causas e obras que queremos que sejam representados, da agenda do Brasil de acordo com nossos interesses e não esperar que eles vendam os deles para nós. Esperar para escolher o lixo que eles vão servir para nós como se isso fosse o máximo da liberdade de escolha, é perder. Para tanto devemos aproveitar estrategicamente as oportunidades. Até porque depois de finda a eleições, voltamos a situação insana condição de viver cobrando, vigiando e protestando contra quem é pago para fazer o serviço. Escravos de quem deveria nos servir. É claro que isso é o que precisa ser mudado. E o será elegendo ninguém para fazer isso por nós, na sociedade.

O que leva a pergunta: que diferença isso faz então? Tanto quanto o próprio voto, muito provavelmente nenhuma. Porém, no momento em que pararmos de orientar nossas ações para quais serão seus resultados, o que vamos ganhar ou perder, e passarmos a agir inclusive estrategicamente por uma questão de princípios- de direitos e deveres, de necessidades e responsabilidades- os resultados vêm como devem vir: como consequência desta atitude, porque a transformação que tanto precisamos já terá ocorrido no proceder, a cultural. Afinal liberdade não se dá nem se toma, se conquista pelo chamamento e exercício voluntário da responsabilidade.

Não temos plataformas, programas, nem leis e dispositivos legais que garantam a verdadeira democracia nem a cidadania plena de modo que sempre tenhamos a primeira e ultima palavra seja na escolha de quem irá governar, seja na escolha do que faz ou desfaz? Ok. Mas o que armas temos para nos libertar desse arcabouço que vivemos? O voto? O protesto? A desobediência civil? A greve? Os projetos sociais?

Que façamos então uso destes instrumentos, mas lembrando que já estamos na fase, da construção do novo, porque é o disto que precisamos com urgência se queremos não lutar para não perder, mas para ganhar.

Com a palavra Spooner:

“Na verdade, no caso dos indivíduos, seu voto atual não deve ser tomado como uma prova de consentimento, mesmo para o presente. Pelo contrário, deve ser considerado que, sem seu consentimento ter sido solicitado, um homem se encontra cercado por um governo ao qual ele não consegue resistir; um governo que lhe força a pagar dinheiro, prestar serviços e abdicar do exercício de diversos de seus direitos naturais, sob a ameaça de punições pesadas. Ele vê, também, que outros homens praticam essa tirania sobre ele através do uso das urnas. Ele ainda vê que, se ele acabar por usar a urna, ele tem alguma chance de se aliviar dessa tirania dos demais, ao sujeita-los à sua própria. Em suma, ele se encontra situado de tal forma que, sem seu consentimento, se ele usar a urna ele poderá se tornar um mestre; se ele não usá-la, ele se tornará um escravo. E ele não possui outra alternativa senão essas duas. Em autodefesa, ele escolhe a primeira. Sua situação é análoga àquela de um homem que foi forçado a entrar numa batalha, na qual ou ele deve matar outros, ou ser morto. Pelo fato de que, para salvar sua vida numa batalha, um homem tenta tomar as vidas de seus oponentes, não deve ser inferido que a batalha é de sua escolha. E nem porque em disputas com a urna — a qual é um mero substituto para a bala — pelo fato de ser sua única chance de preservação, um homem a usa, deve ser inferido que a disputa é uma na qual ele voluntariamente entrou; que ele voluntariamente apostou seus direitos naturais contra aqueles dos outros, para ganha-los ou perde-los pelo mero poder dos números. Pelo contrário, deve ser considerado que, numa exigência, na qual ele foi forçado pelos outros, e na qual nenhum outro meio de autodefesa foi oferecido, ele, como questão de necessidade, usou a única deixada a sua disposição.” — Lysander Spooner, Sem Traição

Sim, ser obrigado a lutar de acordo com os termos do inimigo já faz de mais essa batalha uma batalha perdida, daquelas que mesmo saindo vitoriosos sempre perdemos mais que ganhamos e não avançamos nada. Porque muito mais importante do que vencer, é definir o que está em disputa, e nesta guerra o inimigo ganhando ou perdendo sempre prevalece porque é ele que controla os resultados não porque conspire, mas porque simplesmente predefine sem contestação as regras e os prêmios. É por isso que estamos sempre lutando em tempos ruim para ou para reduzir as perdas e tentar impedir o retrocesso, ou então no máximo nos dias bons por avanços que não são mais do que a consolidação de ganhos devidamente conformados aos interesses estratégicos do inimigo. Nunca tivemos a pretensão de plantar o bem, ou acabar com as causas, mas tão somente reduzir os males, pobreza, não é uma luta proativa, não é sequer as vezes uma luta reativa. Nunca tomamos a iniciativa social e construímos nosso jogo. E quem não faz seu jogo, só joga com cartas marcadas já perdeu, antes mesmo de começar porque não é sequer jogador é peça. Prova disso é que toda essas batalhas pelo Brasil não são uma luta por democracia plena nem por trabalho livre, mas por um trabalho menos alienado e forçado e uma cidadania mais participativa e menos tutelada. E a vitória em nenhuma dessas frentes derruba o inimigo, apenas o faz recuar momentaneamente em suas ambições. Contudo, essa é a realidade agora, e que não deixa de ser uma oportunidade para descobrir e compor nossas forças. Afinal o povo que não consegue aprende vendo e antevendo, pode perfeitamente apreender levando, aliás tem quê. Porque quando a coisa chega nesse estágio já não é mais uma questão de gostar ou querer, mas de necessidade. Mas isso já não é mais uma questão social é só natural mesmo. Darwin explica.

Written by

X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store