A hierarquia é o “mecanismo”?

Ou tudo que pode ser representado como uma grafo é uma rede?

Marcelo Maceo, em recente artigo para a Trend sobre a série o Mecanismo de José Padilha, assim como nestes comentários defende uma tese interessantíssima que reproduzo parcialmente e recomendo a leitura na integra:

Não é o mecanismo, é a hierarquia, maluco!

Nosso problema não é o mecanismo da corrupção, o qual o personagem do Selton passa até mesmo por uma certa epifania ao descobrir como ele se replica em todo e qualquer tipo de instituição.

O que o Padilha talvez não tenha se ligado é que se existe um tal “mecanismo” presente em tudo, é porque existe uma estrutura capaz de permitir a reprodução deste mesmo “mecanismo”, esta sim, comum a todas nossas instituições (até porque, outra falha é generalizar e dizer que ele se replica em todos os lugares e com todas as pessoas, quando temos vários exemplos de instituições e pessoas honestas, que não roubam).

O verdadeiro mecanismo que permite esse esquema todo é a hierarquia. E esse é o principal problema da nossa sociedade. Não só porque existe uma correlação entre o modo de organizar (mais hierárquico ou mais distribuído) e o modo de regulação (mais autocrático ou mais democrático), mas também porque a sociedade atual é muito mais dinâmica, conectada e interativa que a sociedade do tempo em que estas mesmas instituições foram criadas.(…) — O mecanismo dentro do mecanismo

Concordo com Marcelo que a hierarquia é dentro de um grafo -a representação em rede de determinado objeto de estudo, seja fenômeno ou abstração- a característica determinante daquilo que é “uma espécie de matrix: a hierarquia”. Concordo também com ele quando alerta para a distinção entre os grafos e a redes, pois de fato se por tudo é, ou por ventura pudesse ser, representado como rede (grafo), não significa, nem prova, que tal objeto de estudo seja uma rede- ou mesma sequer exista para além dessa abstração conceitual, isto é, como fenômeno.

No entanto discordo em 3 pontos, dois com ele e um mais com Padilha:

De Padilha discordo que a corrupção não é a cerne do mecanismo. Engrenagem fundamental, mas não determinante: elimine a corrupção e o sistema vai se regenerar e reconstruir e reproduzir as células da corrupção e seus organismos. Do Marcelão discordo:

que a hierarquia seja conceitual ou fenomenologicamente o mecanismo do mecanismo.

e que a estrutura que constitui a arquitetura das redes e relações de poder, a hierarquia, ou as estruturas ou organizações hierárquicas sejam o maior problema do Brasil e do mundo.

É por isso que do ponto de vista organizacional nunca me considerei nem um anarquista, nem um adepto da teoria de redes, embora compartilhe muito das suas abordagens criticas e soluções de ambos pensamentos. Embora concorde que a arquitetura das redes e logo que as estruturas das organizações que formam tais sistemas podem constituir um mal e alimentar problema, não sendo portanto só um sintoma, mas parte do problema, dentro da cadeia de causas e consequências não considero que a hierarquia seja nem sua gênese histórica nem sua fonte permanente de preservação. Não acredito que o problema esteja em si nas formas de organização das redes, mas na plasticidade e movimento das redes, rigorosamente falando a dinâmica das redes, que não pode ser captada por grafos que são apenas a fotografia da da distribuição espacial dos seus componentes num determinado período de tempo nesta matriz, e não a representação gráfico matricial da rede em movimento ao longo do tempo.

Uma vez introduzido o tempo não mais como uma constante, o recorte da observação, e sim como variável na representação, podemos observar algo que sinceramente não sei se Padilha sacou ou não no mecanismo, mas creio que chegou perto, é que o sistema não está na forma, mas no fluxo. O mecanismo é representado ao longo da série como fluxograma dos esquemas de corrupção, que embora aponte para as redes formadas não constituem propriamente um grafo. Logo não representa nem o retrato da estrutura (hierárquica como Marcelo bem apontou) e suas conexões, nem muito menos o fluxo. Mas ainda sim intuitivamente aponta para o fato que esse mecanismo não é uma abstração, mas forma de organização orgânica que pode não ser uma entidade física ou metafísica, mas não é uma abstração e sim um fenômeno. O que é puta duma sacada, afinal de contas, o Mecanismo não é só uma série de ficção, mas uma série de ficção comercial! e Padilha é um um contador de histórias ou se especialista em criar de narrativas, um diretor de cinema e televisão de internet, e não um teórico ou analista de redes ou sistemas!

É inegável que a analise dos grafos aponte para as estruturas hierárquicas como a forma predominante que as relações de poder se organizam, e olhando para os grafos devidamente construídos observando a teoria de redes, podemos identificar elas seus membros e suas conexões, mas o que a existência sugere é a existência de mal, um doença ou câncer para usar os termos que não é meramente conceito, mas um organismo um fenômeno real. Erra ao tomar a sua forma mais explicita ou em voga, a corrupção, como sua essência, quando é produto e componente ignorando uma camada mais profunda que produz esse mal: a estrutura hierárquica. Mas se considerarmos que a dinâmica e as forças elementares que constituem os elementos não são só abstração, mas antes referências a fenômenos que tentam compreender, também vamos observar que não só a hierarquia, ou anarquia não são a essência da formação das matrizes, mas as formas e estruturas são assim como a matrizes produto do fluxo e logo do controle, obstrução ou monopólio dos canais e meios de formação e informação. Daí a força dos elementos produtores de nexos e intermediadores das conexões dai a luta feroz pelo controle da narrativa e mídias, e o poder de séries como o mecanismo para formar ou conformar não só visões de mundo, mas para estruturar ou desestruturas redes especialmente em sociedades ditas da informação.

Assim deixando de lado a série, e me atendo exclusivamente agora a teoria de redes, rigorosamente a discordância quanto a hierarquia deriva portanto da abordagem das redes, as quais atento menos para arquitetura e mais para a dinâmica. O que quero dizer com isso?Quero dizer que quando olho para as redes, estou mais atento para:

a plasticidade, a sua capacidade de mudar de forma. Quão mais rígidas e cristalizadas, ou por outro lado mais adaptáveis e mutáveis são suas estruturas, tanto autopoieticamente, quanto ambientalmente. Ou seja tanto a vulnerabilidade a desintegração e degeneração, quanto a forças e movimentos contrários que tanto integrar e regeneram quanto por outro lado suprimem a transformação ou mesmo emancipação dos seus componentes sobretudo quando dotados de força própria ou volição.

e colonização: manifesta tanto pela capacidade de expandir e espalhar quanto replicar, integrar ou desintegrar outras redes, absorvendo ou mudando tanto sua estrutura quanto seu potencial de modificação: a plasticidade. Capacidade de interação e intervenção que como me referi não se dá pela estrutura das sua conexões, mas pela de multiplicar, se apropriar ou monopolizar canais e conexões por onde fluem os nexos, as partículas-onda elementares da matriz, ou para ficarmos só dentro da sociedade, o capital especialmente na forma que ele pode viajar e ser trocado hoje a velocidade da luz: como informação.

Dentro dessa outra abordagem não só estruturas hierárquicas podem não ser maléficas, como as estruturas absolutamente horizontais ou perfeitamente em rede do ponto de vista estático dos grafos, podem igualmente perniciosas a evolução e sobrevivência e pior a livre co-significação existencial da vida quanto as mais hierquizadas.

Poderia se contra-argumentar que estruturas dinâmicas ou cuja liberdade de movimento seja como integração ou desintegração, tendem a produzir canais e conexões igualmente livres e consequentemente uma espécie de paraíso fraternal compartilhado por socialistas, anarquistas e cristãos onde todos somos iguais, no sentido de que ninguém está acima ou abaixo de ninguém por poder ou autoridade. Mas não há principio teórica, ao menos não dogmático ou evidencia empírica que aponte que a liberdade nas relações produz necessariamente organismos só redes, mas também corpos ou organizações corporativas, onde uma célula está submetida a um organismo, e determinados órgãos e funções não só por coerção, ou relação de poder, mas por livre associação ou relação.

Mas não estariámos falando de uma mesma coisa? Marcelo define muito bem o conceito de hierarquia:

É importante esclarecer que a palavra hierarquia aqui é usada pelo que realmente quer dizer, e não pelas várias resignificações errôneas que fazemos do seu uso.

A palavra hierarquia tem sua origem no grego ἱεραρχία (hierarchía), de ἱεράρχης (hierarchēs), que é a pessoa encarregada de presidir rituais sagrados. Hiereus é sacerdote, da raiz hieros que é sagrado. E este significado se junta com arché, que é poder, governo, ordem, princípio (organizativo).

Portanto, a hierarquia é um poder sacerdotal que possui um direcionamento vertical e cria, sempre artificialmente, uma falsa necessidade da intermediação por meio de separações (entre superiores e inferiores). (…)

E correlaciona historicamente a hierarquia com a gênese de Deus e o Estado, na melhor das tradições anarquistas clássicas:

Aí o que acontece quando você cria esta intermediação ou separação, e essa escassez artificial? Duas coisas:

a) Os intermediários passam a ser as únicas pessoas capazes de interpretar corretamente a vida, são aqueles dotados do conhecimento que os colocou diante do trono divino. Logo, este sacerdócio cria inevitavelmente o ensinamento. Veja que se inventa o ensino, mas não a aprendizagem, uma vez que o homem vem aprendendo há mais de 200 mil anos, mas somos ensinados a apenas seis milênios. E o ensino aqui tem um objetivo claro, a reprodução de um estamento, sem o qual o modo-de-vida hierárquico não tem continuidade. Sim, os sumerianos inventaram a escola, o ensino e os professores, tudo ao mesmo tempo. E replicamos isso em tudo na nossas vidas, seja na família ou em empresas, sempre há a reprodução deste mesmo comportamento: um burro que acha que sabe, quer ensinar e mandar no idiota que acha que não sabe.

b) Só há poder se há hierarquia. Sociedades de dominação são todas, sem exceção, hierárquicas. Quando, na Suméria, se instalou o protótipo da cidade-estado-templo, iniciou-se o patriarcado com seu modo guerreiro de regulação de conflitos. Justamente porque a verticalização da organização social cria um comportamento de luta, uma espécie de guerreiros da luz contra os guerreiros das trevas. Fica instituído o inimigo e a guerra como modo de organização social.

Creio que analisando esses trecho fica mais explicar os pontos de concórdia e discordância.

Partindo da definição de hierarquia a qual não discordo, um poder ideológico de característica sacerdotal, não se pode inferir que a origem das sociedades de dominação ou patriarcado surja da invenção dessa ideia de seres superiores e inferiores e seus intermediários; ainda ou que as sociedade de dominação sejam exclusivamente caracterizadas pelas presença de tal discriminação, intermediação e alienação ideológica.

Explico. É inegável que a invenção da hierarquia, do poder supremo total, todo-poderosos no seu e na terra e seus representantes constitui a base de uma forma de dominação e exploração dos servos e fiéis mais sofisticada e eficiente que perdura até hoje através do processo de alienação uma forma de dominação dos povos, o estadismo. Autores que usam uma abordagem anarquista tendem a identificar o Estado e a religião, em sua o poder com a origem dos males da civilização. Socialistas por sua vez com o advento da propriedade. Alguns Ecologistas com a própria origem do homem. Dentre eles o mais interessante é o anarco-primitivista Jonh Zerzan, que dentro da analise que remonta a origem da dominação do homem pelo homem a separação capacidade de separar coisas reais para vender re-ligações, a própria invenção ou desenvolvimento do pensamento simbólico. Radical Zerzan afirma que no dia que o primeiro homem das cavernas pintou um arte rupestre ele criou o poder intermediador da realidade, ou em outras palavras a caverna de Platão não seriam sombras desenhadas na parede da caverna, mas pintadas pelo primeiro homem a descobrir o poder das ideologias e logo suas falsificações.

Particularmente acho uma injustiça com o primeiro artista ou contador de histórias. Ao analisar a origem da alienação, exploração e dominação do homem pelo homem acho fundamental o subsidio da pesquisa arqueológica, histórica e paleo-antropológica, mas não creio que vamos encontrar nenhum fenômeno extra-humano ou extra-terreno nas origens desse mal. Vamos encontrar exatamente o que somos ainda hoje um bando de macacos falantes a se matar e a mostrar seus dentes, a mostrar os dentes mostrar os paus mijando para marcar seu território e se necessário quando não prazeroso matando e estuprando para manter a posição dentro do bando, ou só para manter o hábitos e costumes mesmo. Ou seja, Darwin explica. A diferença que a invenção da supremacismo, a arte de convencer o outros de que somos deuses, espécies raças ou classes gene ou gêneros superiores introduziu foi econômica, ou mais precisamente a economia de tempo e energia, do mais forte para extrair trabalho e servidão do mais fraco, ao invés de porrada ameaça e pilhagem do banditismos ordinário, o amestramento e domesticação da vítima que deixa de oferecer resistência as imposições e passa a contribuir e servir fielmente. Se portanto eliminássemos as relações supostamente mais civilizadas de poder, se por um milagre os homens perdessem a capacidade ou os meios de amestrar crianças para formar suas buchas de canhão e mão-de-obra, o mundo não viraria uma grande festa hippie, nem todo homem e tribo sem exceção retornaria a condição idílica do bom selvagem de rousseau, mas os violentos voltariam a tomar terras e pessoas e acumular excedentes pelo método que no fundo não abandonaram completamente exterminando, estuprando e escravizando as tribos mais fracas ou só menos violentas.

A origem e perpetuação da dominação não reside portanto na invenção da alienação ideológica, mas na supremacia pela violência e violação, da agressão e privação antes de tudo dos corpos e recursos vitais e depois das idéias e sua expressões. E não precisamos remontar a antiguidade ou a nossa natureza primitiva para verificar como o processo de dominação tanto endógeno, quando alienígena, se processa: basta observar os processos de colonização de povos alienígenas contra indígenas, quanto do homem em relação a mulher, o primeiro escravo do homem, e ainda o escrava dos escravos.

O pátrio-poder a origem do patriarcado é muito mais antigo, animalesco e primitivo do que a invenção da religião dos estados. Ele é simiesco. Antes de divinizar ou idolatrar seu pênis ou sua brutalidade assassina como uma divindade o homem, fez do estupro e da morte sua fonte de poder e supremacia. E não é preciso olhar para as relações homem e mulher para descobrir a libido da violência e violação como origem dessa perversão do poder, basta olhar para uma prisão cheia de homens ou mesmo mulheres do mesmo sexo, para observar como quando presos num mesmo espaço ou território duas estratégias evolutivas contrárias e concorrentes despontam por necessidade de adaptação e sobrevivência. O domínio por violência e violação entre os bandos que literalmente se hierarquizam fodem e sendo fodidos uns pelos outros, e a solidária entre os literalmente mais coitados nesse curral e fazenda de gente domesticada pela luta para domesticar uns aos outros.

Não é de se espantar que esses bandos dedicados a foder e pilhar uns aos outros rapidamente esgotem seus recursos, ou exterminem sua própria população e que portanto careçam migrar ou sair a captura e roubo de mais gente e recursos. Nesse processo a invenção dos Estados está portanto ligada a própria criação de castas e classes, que descobrem que melhor do que invadir e matar para pilhar de tempos em tempos suas vítimas, é melhor ocupar a terra, e mantê-las tanto manter nativos quanto sequestrados sob o terror da chibata, da fome, ou da morte trabalhando e lutando sob seu comando. E para poucos dominar e extrair o trabalho forçado de muitos não é necessário converter os submetidos a religião dos dominadores, basta aplicar o modelo perverso do campo de concentração nazistas ou de escravos: se todos se levantarem matam o capataz, mas não sem ele matar quem estiver na linha de frente, quem se dispõe a morrer na vanguarda para salvar a retaguarda, quando tudo que todos querem é apenas poder sobreviver? A dominação ideológica a domesticação, a dita educação, diminui o risco de levante e logo os custos de vigilância e repressão, permitiu que as sociedades violentas se expandissem e predominassem de forma avassaladora, mas não eliminou nem a necessidade da brutalidade como primeiro meio de dominação quando da invasão e ocupação, nem de repressão quando a alienação cultural falha em manter a conformação.

Na verdade a hierarquia nada mais é que uma forma que o assassino, estuprador, ladrão encontra para convencer sua vítima de que ela deve entregar seu corpo, sua terra, seus filhos em sacrifício de morte e vida a ele como ser divino, superior ou seu representante legal, real, ou sacral dele. Mas não se engane se o maior 171, da história da humanidade não funcionar, vai no tiro na cara ou facada nas costas mesmo.

Assim se gênese histórica e presente da dominação continua a ser a violência e violação, isto é a imposição da vontade A contra a de B a força seja ela simbólica ou de fato. A guarde problema não é o poder ideológico, mas o poder de fato. De modo é a relação sádica-masoquista entre alienado e alienador, ou idiotas e idiocratas o problema, não são as relações de poder e submissão o problema, mas a ignorância ou desrespeito a consensualidade o respeito mútuo da livre vontade, como elemento não só de paz e libertação, mas de humanização. De modo que não temos direito para impor hierarquias nem quebrá-las seja como generais ou missionários, onde não é da nossa conta, não pertence a nosso juízo, julgamento ou jurisdição as formas que as pessoas consensualmente estabelecem de relação, comunhão ou organização. É prepotência supor que todo aquele que queira se ajoelhar para um senhor ou ídolo o faz porque sofreu lavagem cerebral e autoritarismo e imperialismo achar que podemos impor até mesmo a democracia a quem não quem quer continuar chorando e gritando pelo grande líder. É por isso que toda invasão alienígena resulta em genocídio e etnocídio de povos nativos, povos pacíficos nunca acreditam que exista uma forma de organização ou cultura tão boa que lhes de o direito de impor a ninguém, nem mesmo a democracia. Até porque a verdadeira democracia no exato instante que deixa de ser voluntária e precisa ser imposta, já não é mais democracia, ao menos não para os escravos da polis.

Ademais a eliminação da dominação cultural, do culto ao poder, e idolatria aos todo-poderosos, a eliminação da desigualdade simbólica de autoridade de poder, não promoveria nem adesão a desefa ou provisão da igualdade de liberdade de fato como força sobre os meios, nem muito garantia que pessoas livres voltassem a tentar dominar pela violência, nem que outras passagem a cultuar e idolatrar os violentos em troca de favores, basta ver quanta gente que não acredita em nada, nem passa por necessidade se submete as condições indignas e faz os trabalhos perversos ou mais desumanos apenas em troca de uma vida confortável, alfafa, netflix e controle remoto é seu reino, onde não é a vontade de foder, ou ser fudido que move, ou melhor faz esses reis da sua casa não moverem uma palha, mas o botão do foda-se. Em outras palavras menos chulas, a mera ausência da solidariedade ou empatia sem necessariamente a presença de nenhum traço de tesão por posse, poder, violência violação ou roubo, em suma de psicopatia, mas aquele gostosa sensação da Montanha Mágica de ter uma bela poltrona para mover encostado. Quantos Estados e governos não caíram ou se mantiveram por saberem ou não administrar essa divina arte da difusão generalização da impotência, sem precisar inventar ou impor nenhuma superioridade ou inferioridade entre os submissos pelo credo inverso o de que somos e vivemos todos universalmente em igualdade de poderes e liberdades.

Não acredito portanto que o problema esteja nas estruturas hierarquizadas não acredito sequer que o problema seja estrutural, mas falta ou obstrução a evolução e revolução dos sistemas, de liberdade para transformação seja por integração ou desintegração das estruturas. Acredito que o problema está na perda da plasticidade, capacidade de adaptação, e impotência (ou sensação de) para autogerar suas própria forma e formas de vidas. Na prevalência controle que preestabelecem e predeterminam a reprodução e disseminação das mesmas estruturas em detrimento da criação, movimento e transformação. De tal modo que para mim tão totalitária e destrutiva quanto um um estrutura completamente hierárquica que impede e conforma seus componentes visando a eternização da sua existência enquanto forma, é a anarquia e socialismo que se estrutura para se eternizar e disseminar de forma absoluta inclusive sobre as redes, canais e conexões e seres vocacionados a criação de nexos (dotados de anima) contra a sua vocação e força de vontade constitutiva e criativa ainda que essa vontade seja a estabelecer uma relação de servidão.

Trocando em miúdos não tenho nada contra quem quer viver em regimes hierárquicos ou anárquicos, ou em qualquer meio termo entre eles, tenho sérios problemas qualquer um deles que queira me impor a adesão ou constringir a minha dissenção pela força, ameaça, manipulação principalmente pela privação dos meios e canais que careço para constituir minhas próprias formas de vida e relações ou mudá-las ou abandoná-las por para criar outras quando e com quem bem entender. E é por isso que me defino como anarquista e não anarquista, não me importo com as formas das redes ou sistemas, mas sim com a capacidade deles de co-existirem sem precisar dominar ou replicar visando a totalidade ou melhor o totalitarismo.

Emfim pode-se dizer que não considero que o mal esteja na hierarquia, porque simplesmente não considero que as estruturas sejam boas ou más em si, mas a estruturação desse bem ou mal produto força elementar que é a gênese tanto construtiva quanto destrutiva de sua concretude: a liberdade como fenômeno. Não acredito que as estrutura sejam as redes nem como principio constitutivo, nem fenômeno constituído, nem sequer como melhor representação conceitual. Acredito que tanto as redes quantos sua estruturas, e características estruturais como a desigualdade de poder ou corrupção, ou fidedignidade e igualdade de liberdades, são produtos tanto da comunhão quanto da difusão, dos choques e harmonizações desses movimentos volitivos autodeterminados a formar esses complexos autopoiéticos, as redes. Que podem dar forma a entidades com ego e consciência como os seres humanos quanto formar essas egrégoras ou inconscientes coletivos que como um sistema operacional na nuvem estabelecem a programação destas mesmas pessoas reduzidas a terminais burros. E neste sentido não são um caldo cultural abstrato, mas um fenômeno que embora imaterial não deixa de ser uma força bem pouco metafísica.

Assim para não fugir a metáfora boa a metáfora: o mecanismo seria essa inconsciência coletiva e o mecanismo do mecanismo o controle do fluxo da sua significação simbólica e material, ou simplesmente a alienação se preferir a imbecilização do despertar e libertar da humanidade como ente e essência: a consciência.

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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