A facada em Bolsonaro, a Dissonância Cognitiva e Tempestade Perfeita que se aproxima

Dos desafios à ciência e consciência na era da hiperinformação

O episódio do ataque a Bolsonoro, tem muitas dimensões e implicações. Todas elas inseridas na onda de uma crise institucional sistêmica que não se restringe as fronteiras geopolíticas nem muito culturais de um só nação ou pais. É praticamente impossível analisar todos elas. Por isso, vou me ater apenas aos aspectos que considero os mais alarmantes e emergenciais desse problema complexo e global. Começo enumerando esses problemas generalizado de acordo com os níveis de comprometimento dos razão, juízo e valores partindo dos problemas consequentes para suas causas

  1. Perda generalizada de valores universais e fundamentais;
  2. comprometimento grave da capacidade de emitir juízos de valor;
  3. incapacidade completa de discernimento da realidade pelo estabelecimento de dúvidas razoáveis.

Tão grave, quanto o atentado em si, foram, portanto, as impressões e reações -que diga-se de passagem tem se constituído o padrão de comportamento. Padrão de comportamento que já vem se apresentando, e agravando a cada episódio e que é sintomático da complexidade e profundidade do estágio atual de alienação das massas. Uma população claramente confusa e transtornada, confundida e atormentada por uma realidade que não só possui estrutura nem instrumento políticos, econômicos, culturais, nem psicológicas para lidar; mais grave: não tem as estruturas e os instrumentos epistemológicos.

Não importa qual seja o caso, ou a questão… desde dos indivíduos que compram tudo que vê e ouvem na TV e Internet, aos que pelo contrário enxergam conspiração em tudo. Dos que aceitam tudo, não importa quão improvável as sincronissidades sejam meras coincidências ou acidentes; Aos que não aceitam nada, não importa o quão provável e evidente seja a natureza espontânea e livre arbitrária das ações e seus agentes como fator determinante dos fatos. Não importa. A abordagem e resposta segue cada qual o seu comportamento padrão. Padrão de leitura, processamento e resposta condicionados por essa realidade forçada e constituída da própria traumatização da inteligência: a falta e a perda do seu chão.

Assim, dos crédulos que acreditam que tudo pode ser regido sem nenhuma razão pela sorte, passando pelos incrédulos que duvidam de tudo exceto que nem tudo é regido por causas predeterminadas, até chegar aos absolutamente crentes que dão crédito a qualquer coisa desde que isso lhe de paz e conforto . Dos crentes e fanáticos que tem por realidade, e princípio a aceitação e obediência à visão de mundo alheia. Aos paranoicos que tem principio e realizada a abordagem contrária como condição e visão negativa de mundo. Dos que não se cansam de aceitar tudo sem duvidar de nada, ao que não desistem de procurar por causas e razões que desencadeiem ou comandem mesmos quando as evidências empíricas apontem para o contrário, para fenômenos ações e agentes completamente irracionais, inconsequentes e incontroláveis. Aqui eles estão e estamos. Perdidos, carentes, cegos, temorosos, e raivosos. Um universos de pessoas transtornadas e perturbadas a construir suas fantasiosas visões de mundo como castelo para protegê-las de uma realidade cada vez mais insana tóxica. Composta ela mesma de falsificações, alucinações e mediações espetaculosas dos fatos como dados completamente envoltos em fantasia, ficção e adulterações perturbadoras e grotescas vendidas como o banal e normal.

Perplexidade, paranoia, fanatismo, ansiedade, pânico, impotência, surtos neuróticos e psicóticos, mitomania, negação da realidade, cegueira e moralidade seletiva, estamos claramente diante de uma sociedade que está deixando a condição de transtornada para se tornar doente, que está perdendo sua capacidade de lidar com a realidade e verdade. E não só a realidade e verdade dadas como dados. Mas realidade por ele mesmo construídas com juízo e discernimento. Juízo para discernir o crível do incrível, o real da realidade mediada como verdade, e o verdadeiro (e falso)da realidade mediatizada como verdade — em todas as suas nuances de grau, e contradições.

Duas gerações completamente perdidas nesse novo ciberespaço.

Uma nova nascida imersa nessa cultura e tecnologia de informação e telecomunicação onde o real a ligação com o mundo está completamente mediada e intermediada por mídias e representações abstrata do concreto como projeção artificial sensível, audio visual e até táctil do mundo perceptível; signos sinais cujo significado e instituições se confundem cada dia mais com a realidade. Signos, sombras, reflexos e projeções artificiais que já parecem sensivelmente mais concretas e significativas e até mais reais e naturais que a própria realidade e sua natureza, e a natureza e sua realidade.

Outra engolida por transformações tecnológicas dos sistemas de produção e telecomunicação a qual como o índio que contempla a figura dentro de uma TV, ou uma foto, não consegue a principio discernir como as pessoa humana está presa lá dentro, exatamente como o velho civilizado que não entende como sua psique habita e já pertence as nuvens artificiais. Negando-se a mergulhar e entender esse novo universo, e por isso mesmo sem entender que já completamente submerso nele.

Duas formas distintas de se lidar como o processo de transformação, representação e manipulação da realidade, um de completa negação outro de perfeita conformação, ambos incapazes de fazer imergir a consciência que o real não é verdadeiro porque concreto ou evidente, nem o ideal irá se realizar ou ser realizado apenas porque é lógico verdadeiro, nem sequer natural. Uma condição de alienação não apenas psicológica, mas epistemológica. O ápice do poder simbólico, a pessoa natural completamente imersa, introjetada e perdida no labirinto de espelhos de signos e representações do ideal como real. A loucura e alucinação não como pesadelo acordado, mas como arquitetura de um novo domus, uma superestrutura virtual absolutamente concreta de um sistema que ainda tenta ele mesmo entender as dimensões operacionais do seu controle e poder de domínio, domesticação e programação sobre mentes e corações.

Um sistema de produção e comunicação em fase revolucionária de transformação. Um sistema de controle e domínio panóptico em construção que ainda não está completamente controlado e dominado, ou o que é a mesma ainda fora de controle e em disputa pelos novos paradigmas. Onde nem quem produz a nova sociedade do espetáculo consegue dirigir o show, nem o respeitável público consegue entender o plot da peça. E o que é pior, não consegue mais entender o que é parte do teatro e o que realidade. Ora confundido e duvidando de fatos com se fossem parte da representação e ficção. Ora tomando e pressupondo a representação, a fantasia e falsificação ideológica como o real.

Até porque distinguir e mensurar são operações mentais inseparáveis, de modo que a separação do real do ficcional, longe de se constituir exclusivamente no raciocínio preconceitual de qualificação e desqualificação do que é falso e verdadeiro, consiste do dimensionamento e quantificação interdependente e simultânea do verdadeiro e verossímil, do falso e falseável literalmente como a própria razão ou mais precisamente a equação das possibilidades e certezas do real. Não é uma abstração preconceitual nem uma verificação ideológica de coerência interna, mas uma verificação empírica de proporções de possibilidades e impossibilidades, uma investigação probabilística do mais possível versus o menos improvável, a partir da observação do quer que seja. Embora eu quando criança tenha sempre preferido Agatha Christie e seu Poirot, heuristicamente e inconscientemente nossos cérebros são todos Sherlock Holmes, mesmo quando nossa ego quebrado não passa de um pobre e crédulo dr. Watson, ou pior um inspetor Lestrade.

“Uma vez eliminado o impossível, o que restar, não importa o quão improvável, deve ser a verdade.”

Com um pequeno ajuste, como físico-matematicamente não existe absolutamente impossível, mas sim a improbabilidade próxima, ao zero, e como quase na vida trabalhamos com esses níveis de certeza e incerteza, o que o aparelho cognitivo está inconscientemente a equacionar mesmo quando nos negamos a fazê-lo, mesmo quando drogado, alucinado, trancado em cavernas, ou retalhado química, emocionalmente e neurologicamente é equacionar qualitativa e quantificar dúvidas e certezas, possibilidades e impossibilidades, nem podem até ser convertidas em signos e símbolos , mas num primeiro momento são transmitidos de forma direta como sensações e impressões, noções e percepções instantâneas cuja diferença de gradação pode ser enumerada ou substantivada, ou simplesmente reprimida, mas já está constituída.

Seja as observações mediadas pela percepção e narrativa alheia, ou pelo nossos próprios aparelhos sensoriais naturais ou artificiais e interpretações; sejam os objetos observados ou os supostos ou declarados como reais ou da ficção, no final dessa operação mental, o que resta de certezas ou dúvidas razoáveis, o juízo do que é falso ou falsificável, verdadeiro ou verossímil será dada por essa noção e impressão, seja sobre a representação simbólica e mediada da realidade como discurso, seja diretamente sobre a própria observação. Um valor que dimensiona a quantidade de credibilidade e validade que atribuímos aos dados e informações como fatos, a definir a noção do que real ou ilusão, conscientes ou não disto. Qual o problema? Hoje temos de um lado gente que sabe operar nesse plano, manipulando o juízo e logo as respostas e comportamentos através da adulteração tanto dos dados quanto do seu processamento- mesmo sem saber ou sequer se importar em quais serão os efeitos colaterais disso. E do outro gente completamente vulnerável que não faz a menor nem da sua vulnerabilidade, nem de como ela é explorada e retroalimentada.

As reações que assistimos de todos os espectros de pensamento político nos 3 níveis de incapacitação descritos no inicio deste texto: (i) perda de valores fundamentais; (ii)incapacidade de emitir juízos ou raciocínios coerentes; (iii)falta de noção para distinguir fatos e dúvidas razoáveis de credos ou incredulidades cegas, corresponde a condição de transtorno que abordei na tese de Koyaanisqatsi, uma sociedade cuja psique da coletividade está doente. E cuja patologia já evolui da neurose para a esquizofrenia e os episódios de surtos psicóticos. Uma sociedade claramente beirando a loucura e desintegração enquanto submetida a uma cultura de liderança com traços psicopáticos que e usa e brinca com a cabeça (e os corpos) dos submetidos sem remorso, culpa, responsabilidade ou empatia. Apenas visando satisfazer seus desejos e manias de posse, poder e controle do alheio. E a reduzir as pessoas a isso: objetos reificados e massificados de seus fetiches e taras racionalizadas e banalizadas como normas e normalidade. A sociedade não só insandecida pela normose, mas como a própria fábrica da insanidade como ditadura de relação psicopáticas-psicóticos sublimadas enquanto normalidade neurótica presa no arcabouço desse inconsistente coletivo completamente acorrentado a esse desejos que longe de ser vitalistas e eróticos são patologicamente teráticos e necrófilos.

Não é o fetiche apenas ideológico materialista contra o idealismo a negar a espiritualidade, não é o fetiche apenas pela matéria, mas pelas matéria e natureza morta, que desprovida de anima, e vontade, é perfeitamente não só controlável mas passível de posse e controle. A natureza do poder, em sua forma mais explicita, morte; e morte como falsificação da vida, liberdade e natureza. O caos e destruição com falsa ordem, a se apropriar, falsificar e renegar a verdadeira ordem natural criativa: a vida e liberdade.

Um mal coletivo que não é exclusivamente de natureza psicológica, mas epistemológica. Já que a escalada e disseminação como epidemia mundial de alienação e imbecilização, não está mais restrita as relações sociais e produtivas de dominação, mas sim na revolução industrial, tecnológica e científica da produção e reprodução cada vez mais abrangente e automatizada desse sistema, invadindo o pessoal, o individual e o privado.

A manipulação do homem pelo homem como massas e manadas, não está mais só nas relações político-econômicas de trabalho e produção. Mas nas relação de produção e reprodução da própria vida pessoal. A ideia de precariado é uma ideia precária. De modo que não existe mais proletariado, porque não só a plebe não resta nem a controle sobre sua prole, não resta nem mais o controle sobre a propriedade material e imaterial que compõe sua identidade nem individual nem coletiva. Precariado? Até a ideia de precariado é uma ideia pobre e precária. Enquanto lutamos por trabalho alienado, e quiçá bem comum, vamos sendo alienados até mesmo da nossa vida privada numa luta assimétrica de poderes e informações. Onde a maior instrumento de libertação, a maior instrumento de legítima defesa, sobrevivência não só dos povos, mas de toda e qualquer espécie humana já foi minado: solidariedade. E minado em sua cerne enquanto capacidade sensível necessária e formadora da inteligência e consciência: a empatia.

A perda da capacidade de se colocar no outro, a perda do instinto gregário, a capacidade empática, não tem efeitos psicológicos gravíssimos sobre a senciência, mas sobre o desenvolvimento da inteligência e consequentemente da consciência que carece de ambas. A perda da capacidade de projetar sua percepção sensível para outras perceptivas e interpretar a descrição sensível de experiências cada vez mais estranhas e alheias a sua cognição, produz entes-bolhas, seres fechados em si mesmos, incapazes de estabelecer conexões naturais sem intermediação e condicionamento externo. Pessoas que em casos extremos se tornam completamente incapazes de processar qualquer entendimento ou compreensão sem doutrinamento e tutela, amputadas e incapacitadas até mesmo de chegar a conclusões ou fazer projeções não só de futuro, mas da realidade atual independentes de preconcepções e prejulgamentos.

As reações ao ataque a Bolsonaro, até mesmo por conta dos componentes de histeria coletiva envolvidos, levaram as pessoas a reagir sem filtros da cautela e comedição, reação cada vez mais frequente na medida que a crise dos sistemas e valores vigentes vai prejudicando sensação de segurança e o senso de normalidade junto com ela.

Parte da direita grita é um plano dos malditos petistas! Parte da esquerda é fake ataque de falsa bandeira! Outros que não! Não há facada, é tudo parte de um grande complô! Da Esquerda! Não! Da direita! Não do Sistema!!! Não do anti-sistema para incriminar o sistema, e dá-lhe paranoia e teoria conspiratórias a correr solta entre fanáticos crédulos dispostos a acreditar em qualquer mito ou mitomania incluso, claro, teorias paranoicas e conspiratórias. E assim caminha a humanidade, como manada. Cada grupo a abraçar ou repudiar e reforçar a afirmação ou negação da realidade que seja mais confortável ou menos ofensiva aos castelo das suas convicções sem questionar o quão solidas são as dúvidas ou certezas, negações ou afirmações, não importa.

Há narrativas e imagens, teses e antíteses a gosto do freguês. Veja grita um: “Há imagens que comprovam os fatos”. É verdade! gritam seus seguidores. Há imagem que comprovam a manipulação das imagens!- gritam outro. É mentira! Replicam agora os seus. E por aí seguem os seguidores dos seguidores, como imagens que comprovam a manipulação das manipulação das imagens das imagens. Há as notícias. Os checadores de noticias. E em breve os checadores dos checadores de notícias. Pois é. Quando a informação é poder, o paradoxo clássico: quem vigia os vigilantes, passa da vigilância das pessoas e seus atos, para a vigilância dos fatos e versões.

Na era da informação o poder precisa ser mais do que o olho que tudo vê, ele precisas ser o olho que vê o que todos veem e dita o que todos podem e como devem ver- nem que para tanto tenham que furar todos os olhos. Uma guerra de informação, contrainformação e desinformação, que vai arrancando o chão de populações que dentro ou fora da escola, não são ensinadas a investigar por conta própria os fatos e verdade e construir suas visão de mundo, mas justamente a matar essa capacidade substituindo-a pela reprodução de comandos e mandamentos de autoridade.

A terra é redonda, e o homem não foi feito da costela de Adão. E pessoas que se julgam cultas e ilustradas riem dos terraplanistas e criacionistas, mas não peça para os esclarecidos explicar porque a terra não é plana ou como funciona e a seleção natural, porque como crentes e fanáticos não fomos educados para entender, provar ou deduzir por conta própria o que falamos e acreditamos, mas apenas para repetir como papagaios o que as figuras de autoridade nos contaram. Não importa que 3x5 sejam 15. Poderiam ser 16, se assim o professor ou calculadora mandasse. Não sabemos porque é 15, decoramos como quem decora os versos do Corão ou da Bíblia. Somos crentes do cientivismo. Analfabetos funcionais da vida, incapazes de interpretar ou investigar qualquer fato ou narrativa sem a coleira mental das soluções e conclusões fácies e prontas. As pílulas mágicas, regimes para emagrecimento da moda, facas ginsu ou o osso da perna de Santo Procópio. A tecnologia e fachada político cultural, e econômica é moderna, mas a cabeça, o comportamento e o ambiente da sociedade ainda são tão vulneráveis e encabrestadas quanto no períodos ditos mais ilúcidos da humanidade.

Os mais ilustrados criticam o pensamento cartesianismo e mecanicista, mas assim como desigualdade social, se esquecem que a maioria da população, não escapou ainda da idade das trevas da miséria e pobreza. Assim como também não escapou, e nem poderia da ditadura da bestificação. Incluso quem se acha culto e ilustrado, mas respira e transpira a mesma imbecilização e no final produz razões e raciocínios tão servis quanto o escravo ou o cão que beija a mão do mestre que o alimenta.

Rene Decart, em suas Meditações pregava a dúvida absoluta para que do absoluto ceticismo e incerteza pudesse deduzir através da razão o real, enquanto (des)ilusão com as meras percepções; deduzir literalmente que por trás do mito e ficção do minotauro haveria de haver uma realidade da qual a mentira era composta, o homem e o touro, assim como do erro e engano, e alucinação, haveria uma realidade da qual a mentira ou verdade seria composta. Uma realidade da qual tudo seria composto e derivado, incluindo o próprio nada e a suposta criação do Universo, que sendo por definição o surgimento de tudo a partir do absolutamente nada, poderia até não ter causa anterior, ao menos não cognoscível, mas ainda sim existiria, e por existir deixaria suas rastros e pegadas.

E assim, através da certeza da existência, deduzida do fato de ele pensava e logo existia não importava se dentro de um sonho, ou de uma farsa, ele ainda sim existia, mesmo que tudo fosse uma ilusão, existia como fenômeno e isso era um fato que não precisava do intermédio de nenhuma autoridade senão a do sua próprio senso e razão para averiguar e validar dessa verdade: ele existia porque pensava. E assim a partir desse ponto de apoio autodeterminante e libertador da consciência Decart firmaria não só o seu chão, mas alavancaria a sua ciência de mundo, mas de todos que vivessem entender o que significava a descoberta e modelo epistemológico para o aquisição e produção do conhecimento, experiência e compreensão da realidade, podendo para o bem e para o mal discernir por conta própria o real da ilusão mediada que sensorial.

Modelo cartesiano por sinal ultrapassado. O que não quer dizer que ele esteja errado e que a primitiva visão de mundo crente e servil esteja correta. Muito pelo contrário, quer dizer que não só a sensorialidade tem suas limitações como também a racionalidade. De modo que ambas carecem e devem ser aprimoradas como conhecimento, cognição e volição, como capacidade auto-afirmativa e inteligente: ciência, consciência e fé . Sim fé. Fé na razão e sensibilidade como manifestação do livre arbítrio como vontade própria. Manifestação do livre pensar, agir e sentir como livre vontade. Liberdade e consciência.

Se não pensamos, ao menos não por conta própria, logo não existimos, ao menos não como seres com liberdade e consciência própria. Nem mesmo sequer dentro dessa limitada e cartesiana visão de mundo que dirá dentro de uma conexa, integrada e ecossistêmica.

A rede da vida não é um corpo um organismo que reproduz sua células. A rede da vida é universo produzido pela força elementar de cada nó e átomo constituinte do seu nexo e arquitetura como sistema. “Nós”, não como uma abstração coletiva. “Nós” como cada pessoa dotada de autodeterminação, proprioconcepção e livre vontade, que no universo complexo da mente produz a singularidade do fenômeno que caracteriza a potencialidade daquilo que denominamos por humanidade: consciência. Um estado de dúvida e questionamento permanente sobre as certezas do real. Mas não dúvidas arbitrárias, niilistas ou paranóicas, mas sim as razoáveis. Dúvida que não é produzida como resposta reflexa, automática ou condicionada, mas como principio de incerteza que produz a possibilidade de julgamento, juízo e a razoabilidade.

A produção de conhecimento como certeza é a arte da produção de dúvidas e questionamentos. Mas não dúvidas e questionamentos arbitrários, e sim os razoáveis.

Você pode chamar de estado quântico do gato de Schoderer, ou se preferir de sabedoria popular do caipira que ainda não encabrestado que de trouxa-que- se-acha-esperto não tem nada, ou seja, confia desconfiando. O caipira que entente ainda como funciona a natureza, acredita e trabalha com a experiência que tem, onde ser ou não ser, é a questão que ele também conhecem, mas nem por isso se perde nela, pelo contrário se guia na incerteza, desconfiando até da sua desconfiança. Por essas e por outras cientistas e intelectuais como um Monteiro Lobato, acabam vire a mexe embarcando nos barcos furados do espírito do seu tempo, entusiastas do higienismo e eugenismo, mas o seu Jeca Tatú mesmo desnutrido e ignorante não, não enquanto desencabrestado.

A mente é uma estrutura ainda mais frágil e vulnerável do que a verdade. E a realidade, e sua narrativa, sempre foi manipulada por quem domina os meios de comunicação e registro dos fatos como dados. Sempre foi manipulada por quem controla as noticias, história, segredos de Estado, meios de comunicação, pelos produtores e reguladores da formação e transmissão da informação. Sociedades hierarquias sempre foram idiocracias. E idiocracias são foram pirâmides de idiotas. Porém, o atual estágio dessa manipulação e escala de produção dessa imbecilização em massa para as massas atingiu níveis onde a imbecilidade do topo se tornou insustentável até mesmo para as mais anestesiadas, alucinadas e resignadas bases de alienados.

Até porque não é uma questão de vender ou comprar ilusão. É uma questão de perda de conexão completa e discernimento minimamente necessário da realidade tanto como certeza inquestionável quanto como dúvida razoável, ambas se disseminando numa profusão incontrolável de incoerência que tornou a convivência não mais só uma reprodução do velho diálogo entre cegos e surdos, mas já agora entre cegos, surdos e loucos. O mundo girou de modo que que os polos opostos acabaram no mesmo lugar o manicómio ideológico, um zoológico de insandecidos expostos aos seus comerciantes e traficantes muitos além do que eles mesmos se expõem em suas redes sociais e facebooks. De modo que o denominador comum entre o fanático que aceita ou nega toda e qualquer fato por obediência cega a autoridade alienada, e o paranóico que renega todo fato ou reafirma e propaga toda sorte de teoria conspiratória deram uma volta completa na sua insanidade contraditória radical para terminar no mesma arcabouço manicomial: negando e renegando fatos e cantando em verso e prosa as mesmas fantasias; um por credulidade e obediência cega ao doutrinamento, outro por paranoia e manias persecutórias e conspiratórias. Um como efeito direto do condicionamento outro como colateral de fuga e resistência, mas ambos como produto da violação dos suas mentes e corações, por quem faz deles alvos, objetos ou meramente baixas civis da sua guerras.

Veja, não há problema nenhum em ter credos ou dúvidas como princípios. Ou sabiamente ambos a disposição da sua pessoa, seja para efetuar raciocínios, investigações ou guiar sua vida em situações cuja complexidade e dificuldade e imediatismo, a maioria das circunstancias da vida, exijam. O problema é perder, ou jamais ter condições para sequer tomar a consciência de que essas concepções não são a realidade, nem seu retrato, mas hipóteses e teses, crenças e descrenças como possibilidade de verdade ou falsidade, representação e mapa do real como ideias, e não a real como fenômeno. Certezas ou dúvidas baseadas em crenças de uma ingenuidade pueril, ou nas mais complexas teorias conspiratórias não são um problema em si, mesmo que matematicamente beirem a probabilidade zero. O ponto não é esse. O ponto é não ter noção disso. Não ter noção que se está a espera de um milagre, que se está apostando do altamente improvável. Não ter ideia de qual a dimensão da possibilidades, nem muito menos de qual a percepção alheia das mesmas. Não ter noção que a certeza da realidade não é binária, mas sim uma gradação de possibilidades mais ou menos prováveis, já não ajuda. Mas tomar esse ou aquela abordagem ou conclusão binária como a verdade absoluta e imutável, isso é o tipo de inconsciência que produz a insanidade perigosa. Ou seja aquela que não compreende e não raro admite o que lhe não é igual e semelhante, mas acaba por perseguir o que é estranho, incompreensível e diferente, tomado como contrário e até mesmo ofensivo e agressivo a sua visão de mundo simplesmente por existir!

Do atentado a Bolsonaro (como já por sinal já havia ocorrido no assassinato de Marielle) é possível verificar todos níveis de racionalização do absurdo, negação da realidade até a reelaboração das realidades fantásticas. Das acusações de um plano montado pela esquerda, até de um ataque de falsa bandeira de Bolsonaro, com direito é claro a cumplicidade da Globo, Cia e até Mossad. Suspeitas sobre o infame Centrão, e o investigado e suspeito de sempre, o governo Temer… teorias que iam desde um ferimento milimetricamente calculado até mesmo uma orquestrada falsificação da própria facada com direito a atores e atuações dignas de novela.

Na maioria simplesmente um grito automático sem nenhuma outra prova, que senão a impressão, diga-se de passagem nada injustificada de que tudo que é transmitido se não é uma completa farsa, é suspeito até que se prove o contrário. Ou seja baseado no memorial de farsas e manipulação algumas inclusive históricas e já publicamente assumidas que não só retiram toda a credibilidade instantânea da grande midia, mas que a tornaram para muitos sinônimo de informação falsa e descrédito. Outras tosca e nitidamente manipuladas, que dentro da guerra de informação, mais parecem ruído propositalmente inserido nas teorias para torná-las mais absurdas e risíveis do que propriamente argumentos que poderiam ser levados a sério. Uma hipótese que seria altamente plausível se a hipótese contrária, isto é, a probabilidade de ter sido produzida por gente ignorante que acha esperto e todo mundo otário, não fosse ainda mais provável.

Vou ilustrar esse analise com um exemplo:

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É de supor que tal montagem de tão mal feita não seja nem oficial nem “intriga da oposição”, mas uma piada. Não é nem piada, nem intriga mal feita. É a postagem de gente cuja montagem que prova só de uma coisa: somos governados por gente que acha que todo mundo é idiota como eles. Não somos. Somos mais. Percebemos que eles são limítrofes inclusive moralmente, mas mesmo assim continuamos a nos manter submissos a eles por uma questão de hábitos e costumes. Eles estão mal acostumados a achar que todo mundo é trouxa, e nós a deixar que nos tratem por tal. Não há outra manipulação da realidade senão a da nossa indignidade, não pela foto, mas pelo nosso adestramento de povo-hiena, comemos bosta e ainda damos risada.

Sabendo que o bug, não está na fotografia, mas no aparelho sensor e processador, os nossos olhos e vontade de ver o mundo. Voltemo-nos para o episódio em questão, a facada no presidenciável. Das teorias conspiratórias apresentadas a prova mais interessante que tudo não passava de uma farsa, é a ausência cuidados básicos durante o operatório e pós durante a emergência. Vejam:

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Falta de luvas, máscaras e etc… Novamente, tal poderia até ser considerado uma evidencia substancial de um complô com direito a farsa midiática com produção B. Uma indicio relevante de que a foto não condiz com a realidade… com a realidade da Suiça. Já no Brasil, um país onde médico mata paciente fechando a barriga de coitado com gaze e tesoura dentro, amputa dedo trocado, receita e aplica 100 ml de dipirona na criança ao invés de 10 e foda-se. Não me surpreenderia se tivesse um gato de estimação ou alguém fumando, ma goteira, principalmente se o paciente não fosse um Bolsonaro. Desconfiado ficaria de tudo tivesse no lugar, fosse novo e pintadinho. Médico e enfermeiro faz milagre em pronto atendimento e maluco fica dizendo que ele sequer existe. Um nova estágio de negação da realidade absurda e miserável. Enquanto um luta outra diz que a luta sequer existe. Ele não existe.

Logo a questão não é o debater ponto a ponto o retrato de uma realidade, por isso em si já é entrar literalmente na doidera. O ponto central não é este ou aquele argumento em si, mas a ideia como um todo. Como as pessoas passaram a acreditar que uma trama que necessariamente envolveria uma quantidade gigantesca de pessoas em cumplicidade sem cometer nenhum erro, tem mais probabilidade de dar certo do que trabalhar de antemão como simples e mais provável fato houve um atentado? E a partir dele iniciar as suas divagações, quem? porquê? sozinho? Que diga-se de passagem também não faltam suspeitos para as mais incoerentes (ou nem tanto) hipóteses. Notem que a questão não é se há ou não inconsistências, mas sim como facilmente nossa atenção é roubada por detalhes e esquecemos da grande figura a qual permite nortear nossa juízo sem precisar se perder em intermináveis detalhas de teorias conspiratórias.

Use teoria das probabilidades. Qual é a chance dos suspeitos em questão, que reputadamente não conseguem se coordenar para construir nem preservar nada, nem que se tivessem toda a riqueza e tempo do mundo, conseguirem ao vivo produzir uma farsa dessa proporção? Teoria conspiratória por teoria conspiratória é mais fácil A NASA conseguir falsificar e filmar do pouso na Lua, do que a Globo e cia fazer esse novela 8 do zero. Notem que são níveis de perda de noção não só da realidade, mas sobretudo do que é realidade alheia. Uma coisa é acreditar que Elvis foi assassinado. Outra é que Elvis não morreu. E uma terceira que ele foi abduzido por extraterrestres. Suponha que você acredite em qualquer dessa hipótese. Mais suponha que Elvis não só está vivo. Mas que você é Elvis. Se você já não for um maluco, ou um maluco beleza, você não só vai falar que Elvis não está vivo, como não vai dizer que você é Elvis.(exceto no programa da Lucia Gimenez) A menos que você tenha perdido a noção de quem você é para o outro, ou mais precisamente da expectativa folclórica do público sobre você versus o você é na real, e como como um Raul Seixas acaba como ele surrado pela multidão como o sósia tentando se passar por si mesmo!(?).

Crianças que são muito mais inteligentes do que os adultos, constantemente deixam de contar as suas pais o que elas sofrem porque não sendo ainda suficientemente alienadas, rapidamente entendem mais rápido como funcionam a cabeça desses loucos do que eles mesmos, simplesmente não contam ou só falam o que eles querem ouvir porque sabem que eles não vão acreditar no que (e quem) querem acreditar. O desafio consciente e performático dessa loucura é uma coisa perigosa, mais ainda mais perigoso é insana perda do senso de perigo do desejo por uma conformidade e normalidade mórbida.

Claro que há quem tenha explorado dessa vulnerabilidade, dessa falta de discernimento para dimensionar as certezas e dúvidas razoáveis, para aumentar o nível de insegurança e dissonância cognitiva e consequentemente vender ainda mais suas soluções baseadas na mais desonestas das mensagens proféticas do tipo: “ acredite no que eu estou dizendo e me siga porque é o que você quer desesperadamente acreditar”. Entretanto há também pessoas que sinceramente se perdem honestamente no credo das suas próprias hipóteses como verdades.

Um bom exemplo de como as dúvidas e suspeitas razoáveis enquanto hipóteses podem conduzir a conclusões tomadas como certa sem fundamento é a supracitada famosa teoria conspiração da viagem a Lua. Existem n incoerências apontadas e mal refutadas pela própria NASA. Mas nenhuma delas em si é prova de que houve uma farsa. É prova de que há dúvidas razoáveis as quais permitem a pessoa manter fundamentadas as suas razoáveis suspeitas, mas não fundamentar seu descrença ou dúvida (porque crer ou não, assim como ter certeza ou dúvida continua sempre sendo uma sentimento pessoal e não um juízo- como certeza razoável de descrédito, quanto mais prova de que os EUA nunca forma a Lua. Um exemplo que merece as mais altas suspeitas: o video que tantos alegam ser uma montagem foi perdido. A NASA que teve a competência para chegar a LUA, não conseguiu manter um cópia da filmagens dos feito. É como aquele amigo que não só viu um ET, mas filmou um final de semana com ele na nave, mas e aí? cadê o video? “Ah, se não vai acreditar, a minha filha gravou o video da Anita em cima.” Pois é não vou mesmo. Com certeza se todas as provas da NASA se resumissem a esse embaraçoso episódio, ela merecia menos crédito que o seu amigo, enquanto caçador amador de ETs. Versus ele a Agência Espacial Norte-Americana no quesito desculpa esfarrapada ganha disparado. Por sorte (da credibilidade dos gringos), o case não é composto só deste dado.

Ademais para encerrar esse exercício de raciocínio paranóide. Suponha que por ventura fosse comprovada a falsificação da filmagem, isso implicaria a abertura de n possibilidades; n hipóteses a serem verificadas, entre o pousar e não pousar na Lua, que vão da completa fraude do feito, até a mera falsificação só dos registros para fins espetaculares e históricos. Ou seja o pouso pode ter ocorrido e a filmagem ter sido fake. A viagem pode ter ocorrido e a só a filmagem do pouso fake para fins de show. A desqualificação da prova não invalidade as possibilidades em contrário, ela abre o caminho para as dúvidas e suspeitas razoáveis, de modo que o juízo independente se quem irá emiti-lo acredita ou não. E isso não só é relevante, deve ser relevante, do contrário não só o juízo, mas a investigação estará prejudicada por credos e crenças tomados por preconcepções.

Mas saíamos do mundo da Lua e voltemos ao mundo dos lunáticos. O Brasil dos fanáticos a esfaquear segundo a polícia “em nome de deus”, “por razões que ninguém entenderia”, e uma série de ilações tiradas tanto dessas afirmações quanto de suas filiações partidário ideológicas, que servem para abrir linhas de investigação e não para tirar conclusões precipitadas sobre ações supostamente premeditadas- agora já saindo das fantasias menos aceitas pelo cidadão mediano para as banalizadas e tomadas como certas ou normais. A saber:

a. Bolsonaro colheu o que plantou. Tese evidentemente encampada mais pela militância esquerda e para alguns surpreendentemente até por formadores de opinião e lideranças mais parvas. Surpresa! falsa… como se o fanatismo, a imbecilidade e desonestidade tivessem dono e não apenas mudasse de CEP e endereço dos ídolos e ideologias.

b. Claro foram os aloprados de sempre da esquerda. Termo imortalizado pelo próprio grande líder do PT, e que acabou colando a essa velha esquerda, que como o anarquismo de outrora também ficou marcada por seus erros. E reconheça-os ou não, inocente ou não, vai ser no imaginário de muitos e por muito tempo não só o mordomo de plantão, mas inimigo público número 1, o eterno suspeito e bode expiatório perfeito. A esquerda como um todo e em especial os grupos já vai pagar pela sua reputação, ou seja vai pagar por tudo que lhe foi reputado e lhe será reputado tenha feito ou não. Não interessa se a reputação foi assassinada, ou se matou, o fato é que ela está morta. E as pessoas e grupos pagam por isso mesmo quando não tem culpa, não devem, ou já não devem mais.

O erro na segunda tese “de quem tem fama deita na cama” pouco interessa, não tem mistério nem complexidade. Sua natureza falaciosa é simples. Atribuir suspeitas e suspeitos ou eliminá-los não por fatos, mas por reputação, já é a base de investigação tosca que escolhe arbitrariamente os culpados, e vez em quando acerta, afinal de vez em quando há culpados, e se quem aponta algum como quem joga na loteria não importa se o faz as cegas ou em superstições, nada impede que eventualmente acerte. Mas o acerto não confirma a superstição nem o preconceito, apenas os reforça, até levar ao erros em geral com perdas e consequências ainda maiores.

Já o erro e a estupidez da primeira tese é ainda pior. É o tipo de superstição moralista religiosa cármica de culpas e méritos, contida na ideia de quem planta colhe que mais interessa. Não só porque essa falácia está presente em todos os espectros da mentalidade, dos mais extremistas a esquerda e direita passando pelos mais moderados ao centro, mas porque ela é o tipo de proposição cujo defensor tende a buscar a confirmação da validade universal do seu discurso com a intervenção na prática através de seus atos particulares; buscando provar que esta certo obrigando quem ele acha que plantou a colher, e as vezes entregando a força ele a colheita. Um tipo de doido, nada perigoso, não…

Essa falacia é um pouco mais elaborada por que ela está baseada em fato que pode ser observado pela experiência, é facilmente comprovado estatisticamente, e intitulado heuristicamente: violência gera violência. Paz gera paz, riqueza gera riqueza e por aí vai… Ora então onde está o erro? se violência gera violência, e Bolsonoro prega a violência contra a violência, porque ele não colhe o que plantou? Por que necessariamente não colhemos o que plantamos. Não existe uma relação de causa e efeito obrigátorio, nenhuma lei natura e cósmica. Não só quem não plantou nada, muitas vezes colhe o que outro plantou de bom ou de ruim como quem planta nem sempre colhe, mas outro. Uma criança pode levar uma bala na cabeça de um ou receber carinho atenção e educação de outro. Isto sem nunca ter feita nada para receber nem uma coisa nem outra. Isto sem ser culpada de nada para sofrer as consequências dos atos alheios. Nem muito menos desmerecedora de receber tudo que possamos dar ela sem que ela precise plantar, trabalhar para ter que fazer nada para merecer o que já é dela por direito.

Violência gera violência e paz gera paz, mas essa relação que se espalha como o polen ao vento, é difusa. De modo que não raro a paga não só da criança inocente quanto da pessoa adulta de paz é um tiro no peito, tenha ela defendido se armar até os dentes e reagir, tenha ela jamais defendido ou sequer esboçado a menor reação, até mesmo para legitimamente se defender. A clássica mentira construída sobre a observação de um verdade. Que por sinal não faz dessas ideias filhotes das doutrinas de predestinação uma meia verdade, mas rigorosamente o emprego incorreto ou desonesto de um dado verdadeiro para racionalizar e justificar o irrazoável e injustificável.

Parte do toda a construção da justiça artificial humana fundada no punitivismo e meritocracia está fundada para corrigir essa “falha da natureza”, assegurar que quem plantou (e só quem plantou) colha, seja pagando pelo erro, seja usufruindo das suas propriedade e produção. Já na natureza não é só o sol que brilha sobre a cabeça dos justos e injustos, mas as chuvas e tempestades também. A lei da natureza para o bem e para mal é inversa da lei dos homens que inventou o bem e o mal. Ela distribui tudo de graça, como graça e desgraça. E a nuvem e o discurso tóxico liberada em um lugar, que não escapa dessa lei da physis não raro mata em outro.

São evidentemente posturas distantes que ora parte da esquerda ou parte da direita adota conforme os interesses, alternando as posições de advogado de defesa a acusação. Na tese do plantou o que colheu, busca-se inverter os papéis, entre quem sofreu o ataque e quem atacou. Tese de falsa predestinação encampada pelos mesmos loucos fundamentalistas furiosos, entrincheirados em todas fileiras e enrolados na bandeiras das instituições manicomiais adversárias. Embora infelizmente já encontrem também cada vez mas respaldo entre a população por motivos óbvios. Já que de um lado o discurso de Bolsonaro de apologia da violência. Do outro a folha corrida da velha esquerda. Novamente notem que nem uma coisa nem outra justifique coisa alguma, pelo contrário, é só a motivação usada para racionalizar os absurdos de parte a parte. E que portanto se fazem parte da parte da explicação racional de alguma coisa é da falta de juízo e irracionalidade desses tipo argumentos e seus propagadores e propagandistas.

Mas não estamos falando de forças na natureza, estamos falando de pessoas. Não estamos falando de pedras ou fenômenos da natureza, mas de seres e organismos dotados não só de anima mas senciência, inteligência e consciência, não importa o quão desenvolvidas ou comprometidas.

Se nas relações de causas e efeito entre fenômenos consideradas inanimados, ou seja as forças da natureza desprovidas de vontade volições, a grande dificuldade para prever e controlar, em suma predeterminar o comportamento do sistema é a sua complexidade. Quando falamos não só de gente, mas de qualquer ser dotado anima, ou seja dotados de força de vontade, a dificuldade para efetuar esse prepotente (e perigosa) suposição de predeterminação dos comportamentos está justamente no fato de que o fator determinante tanto para a ação quanto a reação não reside na mera condições ideais de temperatura, pressão ou tensão, mas nessa força capaz de alterar destinos e quebrar teorias de predestinação: a vontade. Uma força elementar tão justa quanto a luz que vem do Sol, e que serve para fazer ou não fazer um monte de bosta, serve para fazer ou não fazer outra infinidade de coisas, vejam só até mesmo criativas, construtivas e até mesmo solidárias.

Não. Quando as relações de causa e efeito de ação e reação não são cálculos mecanistas de pedras e roldanas. Uma outra força está presente alterando a trajetória e a história dos objetos, que portanto não são objetos mas seres e sujeitos. A vontade. A força que não só torna os seres livres, mas também responsáveis por seus atos, porque ao contrário da chuva e do sol, temos o poder de decidir o que vamos ou não dar ou tirar uns dos outros. E se não houvesse tal força, tal possibilidade, nenhum ser jamais seria responsável pelos seus atos; seriam robôs, agindo conforme a vida nos programou e ensinou, respondendo como o sistema nervoso de um mesmo organismo, reagindo por mera resposta ambiental e comportamento reflexo, não raro condicionado. Não seriamos indivíduos independentes dotados da capacidade de realizar comunhão e formar coletivos e uniões, seriamos meramente células nervosas de um grande organismo aberto. A fantasia erótica e teratológica de muito dementes predeterminstas totalitários. Erótica para a tara eles, teratológica para nós.

Logo mesmo onde a relação entre a ação e reação é direta e ato continuo, entre por exemplo uma provocação e uma agressão, entre quem xinga ameça ou gospe na cara de alguém e quem dá um soco, uma facada, uma paulada ou tiro. Nenhuma delas está obrigatória ou necessariamente ligada a outra.

Quando falamos em direito a legitima de defesa, ou seja de uma pessoa reagir para conter uma ameaça inevitável, ou já em andamento-sempre lembrando de forma proporcional , como último e único recurso restante- a palavra direito não é empregada com enfeite. Não existe nem uma reação certa, nem sequer nenhuma reação obrigatória, o que consideramos justo é uma pessoa se defender para salvar sua vida, e não que isso vá acontecer, ou que a pessoa tenha o dever de fazê-lo.

Imputar o dever de reagir, implica em jogar a responsabilidade do evento a quem não consegue fazê-lo, é criminalizar quem está sendo subjulgado e aterrorizado. Argumentos típicos de violentadores e estupradores, incorporado por assassinos em massa como os nazis: você poderia reagir e não reagiu, logo merece o que lhe aconteceu.

Toda a ordem de raciocínios fundamentados na falácia da predestinação, e que é usado para justificar o injustificável isto é inverter os papéis entre a vítima e algoz, é uma excrecência monstruosa e perigosa. Uma eterna faca de gumes. Quando se diz que a apologia a violência de Bolsonaro que o discurso de um é o culpada e responsável pela ato alheio, está se criando por meio dessa relação fantasiosa a relação do mentor intelectual. E quanta gente já não foi condenada pelo atos de extremistas que tomam sua palavras como bem entendem. Mal ou bem interpretadas, tomadas ao pé da letra, ou distorcidas, pouco interessa, se o gêneses amaldiçou a mulher e diz que para o homem pisar no seu pescoço, quem pisa no pescoço responde pela que fez, quem disse para pisar pelo que fala. Nem a ordem seja de quem for absolve ou atenua o ato voluntário, nem o fato do discurso não ter relação com a ato, elimina a autoria e logo a responsabilidade a ser assumida por quem fala. De modo que o Bolsonoro disse ou não disse, não desagrava o ato, nem o ato ter ocorrido contra a pessoa dele elimina a responsabilidade de tudo que ele tenha falado. Responsabilidade que existe e continua existindo quer houvesse ou não houvesse o atentado. E o atentado seja contra ele, seja contra outro não é portanto prova alguma de que seu discurso é criminoso, ou pelo contrário de que sempre foi a vítima. Houvesse ou não houvesse o atentado, a natureza do discurso de apologia a violência seria e continua sendo mesma — assim com da violência do atentado contra a vida.

O discurso de Bolsonoro jamais será responsável pelo ato do outro, assim como o ato outro, jamais servirá de justificativa ou poderá ser tomado como exemplo de ato que provoca seus discursos. É a eterna transferência de responsabilidade de atos e palavras. Ninguém é responsável por nada, e outro é sempre culpado tudo, logo tudo é uma grande tragédia e acidente sempre onde o clima é o culpado pelo nosso comportamento e cultura. É o sistema, como se o sistema não fosse feito de pessoas.

Quando dizemos é o sistema. É o mecanismo, estamos dizendo que essa superestrutura que predetermina as condições e destino das pessoas, incluso como falácias ideológicas, apresenta padrões de comportamento e reprodução como se fosse um organismo, como se fosse um entidade ou ser dotado de força de vontade e autonomia para preservar suas funcionamento e anatomia. Estamos apontado para uma força que permeia nossas relações pessoais e sociais, que está introjetada na nossa mentalidade, comportamento e instituições como padrões involuntários e inconscientes, e que vai minando e amputando nossa consciência tanto individual quanto como identidade coletiva, minando o desenvolvimento da nossa livre vontade como responsabilidade. E não que somos o produto natural ou desnaturado dessas condições, incapazes de genuína autodeterminação e tomada de decisão individual ou coletivo por concórdia ou discórdia.

A relação entre a cultura que nos faz e a cultura que nos fazemos e idêntica e correspondente a relação parental de gene. Somos herdeiros dos genes, hábitos e mentalidade de nossos pais. Ela constitui o que somos. Mas num dado momento da vida -aquele em que deixamos de ser crianças, deixamos de nos pensar como mero apêndices deles (o que nunca fomos)- já não é mais nossa herança genética, cultural e patrimonial que determina mais quem somos; sim essa herança irá constituir e delimitar nossas possibilidades como os braços e pernas que por ventura temos ou perdemos formam e limitam nossos corpos, mas não mais conformam e muito menos predeterminam os destinos nele presentes. Porque no momento em que deixamos de ser pessoas tuteladas, sobretudo em mente, não é mais o que foi feito ou fizeram conosco (ou de nós) que faz o que somos, mas o que nós fazemos ou não com isso, ou melhor ainda, independente de tudo isso que passa a autodeterminar o que somos, e portanto o grau de consciência e responsabilidade por nossos atos.

O que nós faremos- não importa as circunstancias, condições ou contrapartidas- o que faremos independente do que tenha sido feito ou não para nós ou por nós, é o que determina quem de fato nós somos. Ou em outras palavras, não é o que fomos ensinados, obrigados, constrangidos, convencidos, induzidos, manipulados a fazer, não é o que fazemos porque deram ou deixaram de dar, ou porque esperamos que nos façam ou não façam em troca; não é o que fizeram conosco que determina quem nós somos, mas o que fazemos aos demais, não como reação, mas como ação pura, voluntária e gratuita. A ação que não é retribuição nem do mal nem do bem recebido. A ação pelo valor da ação em si, autodeterminada. E que a imagem e semelhança da vida que não precisa ter causa nem função, nem explicação. Seu valor está em si mesma. E é sagrado.

Por isso quem tem a cabeça minimante ainda no lugar, que reze para Bolsonaro não ter complicações e morrer, senão pelo respeito que toda vida humana merece, pelas consequências que a imbecilidade deste atentado insano e covarde ensejam muitos mais pela vontade humana de fazer valer suas doutrinas retributivas, do que pela lógica e natureza da vida. Pois, não há nada dentro da lógica da vida que diga que serão os plantadores de ódio dos dois lados das trincheira a pagar, mas como estamos a assistir todos os dias, mais provável novamente algum inocente no meio do fogo cruzado.

Quem defende a vida humana não pode fazer distinções. O respeito a vida humana não é uma política de diplomacia e guerra regida pela reciprocidade. Ela é regida por princípios incondicionais e indiscriminados. Quem atenta contra uma vida humana, não atenta contra um símbolo. Atenta contra a pessoa, e alimenta o que ela representa, o mito. Quem confunde o que as pessoas encarnam como o que elas são, não entendem nem o valor dos símbolos, nem muito menos da vida. Nem a lógica da natureza nem dos signos. Ao ataca o corpo achando que está destruindo um ídolo e dispersando um culto, o idiota útil martiriza o que é humano alimentando ainda mais a alma que une esse culto. Não foi Lula que cresceu com a prisão, foi o lulismo. Não é Bolsonaro vai crescer ainda mais com o atentado contra sua vida, é o que ele representa.

A doutrina Bush resolveu combater o terrorismo caçando cabeças, ampliando programas de grampos e vigilância onde todos eram suspeitos até que se provasse o contrária, e lançando ataques preventivos contra potência ameaças. Criou o Estado Islâmico, e o trumpismo. Não, é o responsável pelos atos dele, mas pelos seus. Fomentou as condições de violência ideal onde os fundamentalistas puderam propagar seu extremismo. Violência gera violência? Não, violência assim como pobreza gera as condições onde a violência e pobreza se dissemina e propaga. Mas ela não é o vetor de si mesma. Porque o ser humano, não é uma pedra, que é regida apenas pela lei da ação e reação. O ser humano é um ser dotado de força de vontade própria, livre vontade, que dentro das possibilidades e oportunidades que lhe restam determina as suas ações por menores que elas sejam. Para que a violência alimentar-se da violência, era preciso que ou o ser humano não tivesse absolutamente nenhuma anima, nenhuma vontade própria, fosse um robô, ou que as possibilidades para o exercício da sua capacidade de tomada de decisão fossem uma só: a violência. Tal condição infelizmente ocorre eventualmente, mas essa condição só ocorre onde e quando não existe mais nenhuma outra alternativa para preservar a sua vida e liberdade frente a uma ameaça. E tal condição se chama legítima defesa, que não se configura pela mera ofensa, ou mesmo ameaça, mas somente e tão somente enquanto persiste a ausência privação de outras opções.

E quando estamos falando de agressão contra a vida, estamos portanto falando de uma condição que não tem remédio, nem reparação. Se um vizinho vem até você e diz vou te matar, e quando ele estiver distraído e indefeso, você vai até ele por via das dúvidas, o mata. O nome disso não é legitima defesa, não é ataque preventivo, é assassinato. Porque entre o ficar acuado e escondido e pagando para ver se ele vai ou não cumprir a ameça e atentar contra sua vida, há uma infinidade de outras alternativas, mesmo quando não existe a possibilidade de diálogo a serem tomadas, antes da pessoa se fazer policia, juiz e executor tirano e sumário. Entre o discurso e ação existe uma distancia infinita, entre a violência simbólica e real, idem. E equipar uma outra, apenas leva a perda do discernimento da gravidade e extensão de ambos. De modo que ao elevar retoricamente a ofensa e agressão verbal ao mesmo patamar da física, isso não só não agrava tais crimes, como relativiza os ainda mais graves.

Hiperdimensionar a violência simbólica, o discurso de ódio, e a apologia a violência, e pior reprimir de forma desproporcional, não só não conscientiza como pelo contrário aumenta ainda mais a libido dos frustrados, como relativiza e minimiza a violência de fato como difunde e aumenta a perseguição dos autoritários e violentos como toda a liberdade de expressão, incluso dos que pregam contra o ódio tanto como discurso quanto prática. Novamente a lógica dialética é o mesma, não é o feitiço virando contra o feiticeiro. Não é discurso politicamente correto a produzir a reação do politicamente incorreto, mas é ele a fomentar as condições contraditoriamente que tenta eliminar. E o raciocínio que vale para o politicamente incorreto, também vale para o politicamente correto. No plano da fomentação, promoção de disposições e condições necessárias ao bem que buscava realizar de forma impositiva, abriu o flanco para a infiltração das mais belicosas ideias muito mais afeitas a hospedar e reproduzir nos ambientes autoritários. Seu projeto de poder e legalismo impositivo dos seus valores gerou portanto o ambiente autoritário, não o autoritarismo, nem muito menos os autoritários do outro lado que agora os perseguem. Não existe geração espontânea, a sujeira não produz ratos, atrai.

Não, ninguém vai colher o que planta, até porque de concreto não está se plantando nada. Porque se a palavra mudasse o mundo e não os atos, o discurso de amor teria o mesmo poder. E ninguém sai dando refugio, alimentando os que tem fome, dividindo o pão, nem mesmo o mais fanático dos fieis o faz. E quem já viu alguém sair da relação demagógica para se tornar ator e agente social como mera pregação e doutrinação, e não agente da doutrinação e pregação que atire a primeira pedra. Ah, se discursos que saem da boca para fora fossem capazes de mover sozinhos os homens, viveriam num paraíso da verdade e ações e não num inferno de mentiras e omissões. Se cada palavra sem compromisso de amor ou solidária fosse uma pedra filosofal capaz de transmutar cada palavra nem do outro, mas do próprio falante em ato. Nem existiram mais atentados.

O poder da palavra é também a sua aparente fraqueza. Palavras não tem o poder de atingir seja para o bem seja para o mal quem não pode ou não quer ser atingido. Boas ou ruins entram por ouvido saem pelo outro dependendo da boa ou má vontade do ouvinte. Mas a violência não. Quer queira o ouvinte quer não queira, você terá que fazer algo se não quiser ser atingido. Não existe invulnerabilidade. Ouvidos e mentes podem eventualmente ser a prova de merda. Gente não é a prova de balas, e a ideia de que ideias são a prova de balas e mandamento para bucha de canhão.

Entretanto em favor da palavra há que se dizer que essa fraqueza é só aparente. Porque quando o ouvinte se movimenta não porque foi obrigado ou manipulado, mas porque essa é a sua vontade, o seu entendimento e não de quem buzina na sua orelha. Temos duas forças distintas, uma que se move como uma pedra que vai para onde a chutam ou empurram, ou no máximo um burro a perseguir cenoura e fugir do pau, no outro temos sujeitos co-soberanos do nosso mundo. Um problema para os autoritários a solução dos libertários.

Não. não é verdade portanto que a palavra e o dialogo sejam necessariamente mais fracos que a violência. A palavra também é ato, e todo ato carece de significado para fazer sentido. Mas a palavra, é signo, e enquanto ato destituído de sentido e significação não é só vazia, mas é o não-ato. O discurso vazio que não enseja complemente nem é em si nenhuma atitude, mas a representação da sua negação como falsificação até a nulidade da insignificância. Não é só palavra que precisa estar repleta de significado para poder disponibilizar transformações, é a todo ato que precisa ter a capacidade de dar sentido as coisas como os signos e palavras. O poder da palavra é o poder do signo, o poder dos atos que buscam dar sentido e significado a existência. Um poder que quando não se perde apenas no mundos dos sonhos, ideias e signos, mas se materializa em ações que dão o sentido de concretude e vontade de realização as palavras, fazem dessa simbiose entre ação e significação, o própria materialização da singularidade do ser como novo, como criação, o vir-a-ser.

Ademais palavras sustentadas pela prática e experiência, ajudam em outra a coisa: a não falar nem fazer merda. Uma coisa que qualquer monge ou atleta sabe, a bendita força do hábito.

Logo quem diz que Bolsonaro pagou pelo que disse, não inverte pápeis, pelo contrário comete exatamente o mesmo crime de que acusa Bolsonaro: faz apologia da violência. A palavra como ato. Nem ele pagou nada pelo que disse, nem o outro se defendeu de agressão ou fez justiça nenhuma. Pois se tivesse pagado estaria quite após o ato criminoso do agressor. E isso faria do agressor não um criminoso, mas um justiceiro. Típica mentalidade de quem defende esquadrão e esquadras da morte desde que atirem contra seus inimigos e desafetos. Típica mentalidade de quem quer empurrar o Brasil inteiro para um caos onde podem continuar se propagando graças a sua simbiose maldita, alternando-se entre as posições de vítimas e algozes, de opressores e oprimidos, monopolizando o debate e tragando o pais para o buraco negro das suas teses e anti-teses, que representam no final das contas apenas os polos extremistas de um mesma mentalidade de guerra e radicalismo que não existe uma sem a outra, não existe sem o império da discórdia.

Império da discórdia, que não só impede os entrincheirados de ver o horizonte como um todo, e a tempestade que se aproxima. Como mantem a sociedade dividida e desintegrada, do jeito que o diabo gosta. O diabo, ou qualquer estratego que use da discórdia, como meio para sua vitória e hegemonia. Dividindo para conquistar. Alimentando as divisões e distancias que separam a sociedade em classes para reinar. Furando os olhos para reinar em uma terra de cegos, incapazes de enxergar o ponto de vista uns dos outros e logo se entender, que dirá se solidarizar ou unir em torno de qualquer mínimo denominar em comum.

Se quem se considera de esquerda e apoia Lula, pudesse por um único instante, o suficiente para produzir um entendimento mínimo considerar as razões quem apoia Bolsonaro. E se quem se considera de direita e apoia Bolsonaro pudesse por um instante entender as razões de quem apoia Lula. Veria que eles só tem uma única coisa em comum. Ambos estão fora dessa eleições. Lula preso. Bolsonaro no hospital. Esqueça seus juízos e julgamentos de valor, por um instante e olhe para o cenário como o fazem os estadistas e estrategistas, sem se perderem nas causas e racionalizações, sem cair no discurso de que colhem ou pagam pelo que fizeram ou disseram. Olhe para o vê, sem ideológias, julgamentos não como um torcedor. Mas como um médico olha para o corpo de uma paciente, o qual ele, se é verdadeiro médico, atende sem querer saber o que pensa, fala, fez ou faz. Olhe para os seres e fatos como fenômenos e não como idéias.

Lula está preso no xadrez. Bolsonaro preso a cama (e ainda com risco de morte). Esquerda e direita fora do pleito e prontas para se matarem. Olhe para quem permanece, livre, ileso, protegido incluso por privilégios jurídicos dos riscos, e como todos os meios para continuar se perpetuando impunemente seus privilégios no poder, enquanto a sociedade se desintegra e a população se mata. Olhe e entenda o que significa o conceito de sistema e o que é uma democracia fordista, e uma eleição eternamente falsificada. Onde a população vota em quem quiser, desde que os que eles predeterminam. Não existem outsider não existe espaço para candidato anti-sistema dentro nesse sistema, porque seja ele de esquerda ou direita, ou ele lambe a mão do financismo e coronelismo, ou ele se submete aos interesses oligárquicos internos ou externos, ou de um jeitos ou de outro está fora.

Sim o o poder mais ao centro prevalece no centro do poder. Não competitivamente, mas rigorosamente eliminado a competição, monopolizando o mercado político, apresentando marcas e mercadorias com embalagens diferentes, mas que não só são o mesmo produto como pertence as mesmas corporações.

Há portanto não 2 mais 3 forças atuando mais a esquerda e direita, ora tentando trazer o centro de poder mais próximo para sua posição de gravitação, ora orbitando mais próximo desse centro, mas esse centro de poder que não é meramente um resultado de soma zero do equilíbrio das forças polarizadoras, mas sim uma força e posição de poder com gravitação própria, o centro. Centro que não é apenas composto daqueles grupos políticos e econômicos que não importa quem ganhe são sempre governo e nunca oposição, o dito “centrão”- os parasitas que orbitam em torno e dentro da máquina estatal. Mas sim o centro como o verdadeiro status quo, como poder oligárquico que ora a esquerda e direita se alternam como meros satélites de centro-esquerda ou centro-direita, no papel de oposição e situação, mas que seja como força de esquerda ou direta jamais conseguiram vencer nem como projeto de poder ou de Brasil, sendo tragados ou destruídos, alguns antes mesmo de sequer chegar ao poder.

São portanto 3 forças distintas que atuam não apenas como atores racionais, mas como forças sistêmicas irracionais, tentando preservar sua posições e destruindo as dos demais. Onde sequer é preciso premeditar qualquer plano de ação ou reação para eliminar as forças concorrentes, dado que a mera hegemonia e disseminação generalizada da sua cultura já constitui no ambiente não só ideal para a proliferação e preservação da sua mentalidade e organizações, como também é, ao mesmo tempo, o ambiente tóxico a sobrevivência e seu arcabouço a forçar a cooptação ou eliminação dos demais.

Nunca houve no Brasil emancipação de coisa alguma. Nunca houve regimes nem liberais nem muito menos libertários. Houve sim autoritários e ditaduras. Das ditaduras nunca houve ditaduras de esquerda até porque esses projetos foram massacrados pelas ditaduras de direita. Houve sim governos de esquerda de viés autoritário, que quando se aproximaram seguindo esse viés do seu projetos foram derrubados tanto pela forças de direita quanto de centro. Porém, da mesma forma governos autoritários ou ditaduras de direita, embora jamais tenham sido derrubados não explicitamente, que o diga Castelo Branco, mas caíram ou derreteram. Caíram por mexer e enfrentar esses interesses oligárquicos, derreteram em descredibilidade e corrupção ao se prestar o serviço de administração desses interesses- exatamente como esquerda.

Sim, existe tanto um minimo denominador comum entre esquerda e direita, quanto existe um mesmo problema em comum, o sistema oligárquico, que não deve ser interpretado como um inimigo em comum, porque ele não é externo. E embora se configure ou melhor se aglutine como classe, ele não é a classe, mas o padrão, a mentalidade que pode ser emulado em qualquer outro organismo ou grupo ainda que como contradição e traição. E de fato o faz. Dai sua hegemonia. Seus vícios não estão presentes ou restritos apenas aos que mais se privilegiam desse sistema de compadrio, patrimonialismo, parasitismo, mas estão entranhados em toda a sociedade como hábitos e costumes, como padrões culturais, sobretudo de transferência de responsabilidade.

Na verdade essa cultura hoje, é um problema para as próprias oligarquias. Pois a cultura que manteve seu sistema de privilégio nos tempos de vacas gordas, é hoje a razão da instabilidade e crise que coloca em risco não só sua hegemonia, mas todo a preservação de todas suas instituições. É por isso que pensar numa luta de classes, mesmo que seja do povo unido contra as oligarquias e seus capachos políticos por emancipação; ou vice-versa, do povo contra essa essa aristocracia e burocracia de esquerda e direita, a união de plebe e pequena burguesia contra a alta burguesia e burocracia é inútil para os dois (verdadeiros) lados: o de cima e o de baixo. Os dos semeadores de discórdia e alienação e dos divididos e alienados.

A crise politica econômica é não é local, é internacional. A crise da democracia e economia liberal não é outra bolha ou outro ciclo, mas o produto de uma revolução industrial, a informacional. De modo que querendo ou não, a reorganização do sistemas políticos e econômicos dos velhas instituições falidas e obsoletas não é uma questão de disputa ideológica ou de poder, mas antes de enfrentamento da mudança do mundo, tanto da sua realidade quanto dos seus paradigmas.Eleger inimigos sejam eles generais ou anarquistas, sejam socialistas ou liberais é como brigar diante pela posse da casa, enquanto a casa queima, como o museu nacional.

O ódio, o desprezo são sentimentos tão naturais quanto o amor e solidariedade e jamais serão eliminados da natureza dos seres sencientes, não enquanto eles não forem lobotomizados para se tornarem laranjas mecânicas. Mas estamos em guerra. Não uma guerra de um contra os outros, mas uma guerra pela nossa sobrevivência enquanto seres humanos. Uma guerra pela preservação da nossa humanidade. Uma guerra onde a derrota não é a morte, nem a vitória o tempo em que prolongamos nossa vida, mas se conseguimos ou não manter até o final nossa dignidade e humanidade, ou se na luta por poderes e privilégios, ou vida e liberdades não nos tornamos monstros. Uma guerra onde o inimigo não é o outro, mas a nossa estupidez e falta de consciência e entendimento.

Não, não leiam isso como a sugestão paranoica de que esse atentado foi uma trama do establishment contra a vida de Bolsonaro. Não foi, porque não é preciso tramar, porque a trama se executa sozinha, e é por isso que se chama sistema. É como o incêndio do museu, não é preciso fabricar loucuras, nem loucos, nem fazer planos mirabolantes. A condição necessária está dada. O Brasil é inflamável. Não é preciso riscar o fósforo. Basta esperar e não fazer nada, porque mais hora menos hora ele explode, ou melhor se explode sozinho. Não é preciso causar, basta instigar, deixar rolar, porque onde se acredita que as pessoas não são responsáveis por seus ações e omissões, onde se acredita que tudo é uma grande cadeia de causas e consequências onde a pessoa humana não é um ator, mas um reator, basta sobreaquecer o sistema para que ele (se) exploda. Afinal sequer acreditamos que como sociedade somos capazes de regular e baixar essa temperatura sozinhos, e como répteis precisamos que o ambiente seja externamente regulado. Nos EUA teorias conspiratórias dizem as torres gêmeas foram derrubadas com a ajuda de bombas. Quem precisa de teorias conspiratórias quando empreiteiras a do ex-deputado Sergio Naiana constrói prédios com areia da praia, e fica-se tudo por isso mesmo? Conspirar para quê?

É por isso que dentro das hipóteses possíveis, eu fico com a mais estupida e infelizmente mais provável até que se prove o contrário: um louco, que a continuar a proliferar a histeria fanática e paranoide tenderá a aparecer em outros surtos entre as pessoas que estão psicologicamente mais vulneráveis, numa sociedade onde a pressão e falta de condições mínimas de paz e sanidade só vai fazer por aumentar as ocorrências e eventualmente sua gravidade. Como disse a responsabilidade continua a sendo de cada pessoa por seus atos na exata medida que tem consciência deles. Os loucos pelas coisas que falam e fazem, nós que nos achamos menos insanos pela irresponsabilidade em desenvolver nossa empatia, consciência e construir um mundo minimamente mais são e inteligente.

Novamente. Basta analisar o atentado de Bolsonaro. Dizer que alguém se beneficia dele é sempre uma analise relativa de perdas para todos. E não de ganhos absolutos para ninguém.

A esquerda se ferrou, querendo ou não perdeu o monopólio do papel de vítima. Querendo ou não vai ser implicada como algoz. E se aumentar os ataques, vai produzir o mesma estratégia idiota da direita que restabeleceu Lula, como perseguido.

A direita ganhou janela de manobra, pode aumentar o discurso de guerra. Pode encapar o papel de vítima. E pode se tiver inteligência para isso encampar o discurso de perdão, descolando-se da propaganda de ódio e capitaneando o retórica da união. Problema: assim como a esquerda essa direita essa fundada no culto a personalidade, ao populismo, e como na esquerda sua figura de manobra de massas perdeu mobilidade.

O centro, que em condições normais, estaria com seu fantoche de plantão agora com os dois principais adversários presos, um a cama outro a cela, teria tudo para ganhar a corrida. Já que os outros adversários já foram sabotados nas alianças parlamentares e regionais e (falta de) tempos de palanque e TV. Teria em condições normais, ou melhor se os tempos fossem outros. E o sistema e seus esquemas não estivessem completamente expostos, comprometidos e desmopolizados. Teria se o jogo do nós contra eles, fosse realmente entre direita e esquerda, e não o povo revoltado e quem represente o anti-sistema, e o vilão da história, o sistema e seus representantes. Não pode nem continuar atacando Bolsonoro para tentar recolocar-se como o inimigo que pode derrotar a esquerda.

Quem sai ganhando desse ataque? A direita que perdeu o corpo-a-corpo do seu líder? A esquerda que passou de vítima a suspeita? O centro que reforçou ainda mais a seu caráter publico e notório de jogador sujo e sabotador? Não só todos os pleiteantes desse jogo de poder, mas como os próprios donos desse jogo de cartas marcadas perderam. E vão continuar perdendo por uma simples razão, porque o sistema é viciado, mas já não está mais completamente dentro do controle. Eventos que no passado seriam facilmente esquecidas sem produzir grandes danos colaterais dada anestesia da população, ajudando a manter tudo como está, em períodos de crise o efeito contrário. Não importa que a reação não seja consciente, mas fanática ou histérica. O fato é que há reação. E o que antes trabalhava para manter o sistema, hoje o consome.

De modo que a “festa da democracia”, a eleição que deveria ser o ponto programado para a contenção da temperatura, e diminuição do esgarçamento do tecido social. Ao invés de fazê-lo, irá produzir o fenômeno contrário não importa agora mais quem vença. E o argumento da ilegitimação da eleições é o mesmo: parcelas significativas da esquerda e da direita não vão aceitar a derrota nem a legitimidade do próximo governo, seja ele qual for, por um simples argumento: seus lideranças forem tirados de campo. Não importa que um foi no cartão vermelho. E outro na invasão de campo. Nenhum dos lados acreditam mais na honestidade do juiz nem do campeonato, salvo se eles ganharem. E isso dito com todas as palavras. Repito não haver eleições, esse ano, até porque o que está havendo não são eleições nem para os padrões considerados normais de tolerância do absurdo.

Não senhores, caiu o pano. O espetáculo acabou, o que nossa mentalidade alienada e comodismo está negociando com a realidade é como e quando seremos impactados por esse choque. E isso será apenas 1 eventos a compor a tempestade perfeita que se forma no horizonte.

E de tudo aqui colocado é essa tempestade perfeita o que mais deveria preocupar. E que no entanto parece um futuro distante e impossível a cada cada novo episódio de surto histérico e paranoide da sociedade.

Uma tempestade perfeita que não é nenhum cisne negro, porque mais anunciada, só se registrada em cartório e publicada em diário oficial para ser considerada séria ou grave. Mas sobre ela não vou nem entrar na questão da crise geopolítica e humanitária europeia, ou na guerra comercial entre as potenciais mundiais China e Russia versus EUA. Vou só ficar nas Américas mesmo que já são mais do que suficiente para derrubar os fundamentos dos governos e regimes mais sólidos que dirá dos deficitários e historicamente instáveis. Além da crise político-econômica e humanitária da Venezuela via a estupidez do fundamentalismo de esquerda. Agora a Argentina periga entrar em uma crise igualmente sem precedentes, está por sua vez provocada pela estupidez do outro fundamentalismo irmão, o de direito. Não bastasse, Há de quebra um crise ainda mais grave e sem precedentes na história norte-americana desde sua guerra civil: o motim e conspiração de alto escalão dentro da Mad House. A palavra correta é golpe, o legal seria o impeachment ou a interdição psiquiátrica do presidente (que a constituição permite), mas entre o legal, como bem sabemos é só um piada de mal gosto quando estamos a falar das altas esferas do poder.

Agora some isso com a fragilidade e relutância e estupidez do obsoleto sistema político-econômico oligárquico brasileiro em evoluir e se adaptar para enfrentar uma realidade adversa que sua prepotência, “esperteza” e truculência não tem como manipular e adulterar. E bum. Temos Ingredientes de uma bomba relógio sincronizada para explodir na pior hora, até porque tudo que pode cair está pendurado um no outro, e ninguém está conseguindo mal conseguindo se segurar. E aí não há vontade que vença. Nem mesmo as manipuladas. Porque dependendo das circunstancias as condições podem matar, adulterar e até controlar, vontades, mas nem fabricam vontades suficientes nem muito menos podem recriar as chances e oportunidades perdidas. É até possível fazer o praticamente impossível e nada, sem condições nem tempo, mas ai já estamos falando de probabilidades próximas ao zero, estamos falando em milagres.

Ò tempo e as chances estão passando. Não é nem sequer mais uma questão de solidariedade e fraternidade para com quem caiu no buraco, é só instintos mais egoístas e primitivos de sobrevivência com um mínimo de inteligência, para saber que se não estamos ainda todos dentro do mesmo buraco, vamos todos estar em breve- salvo as exceções e privilégiados de sempre, que estão lá para isso mesmo: confirmar e garantir que a regra se confirme.

Sinceramente não creio que haja mais tempo. Mas não é porque não creio, que abandonarei a hipótese em contrário: posso e espero estar errado. De qualquer forma havendo ou não mais tempo, sentar e esperar , é certeza, não adianta. E no mais sempre haverá o necessário: sempre haverá um mínimo denominar comum. E Mesmo sabendo que não existe gente suficiente a acreditar nele, ele não deixa de ser o que é o denominador comum: somos todos seres humanos, e podemos viver em comunidade e paz com quem bem entendemos a começar em casa entre nós mesmos: brasileiros.

Não. Não é a democracia no que está em prova. É muito mais do que isso, no Brasil e no Mundo. É a liberdade, é e o humanismo. É um projeto de humanidade. Do animal político ao ser humano cosmopolita.

Há tempo de paz. E tempo de guerra. E nosso tempo é de guerra. Mas não de guerra uns contra os outros em nome de bandeiras e todo poderosos, mas de guerra contra as guerras uns pelos outros. Guerra contra a fome, doença, violência e estupidez. Foi-se o tempo da violência e da não-violência. Da ação, e não-ação. Das teses antíteses e sínteses. Hoje é tempo de superação, transposição, é tempo de transcendência dos velhos opostos e contrapostos e advento do do novo. É tempo de inovação, descoberta, revelações, invenções e revoluções. Revoluções cientificas, culturais, políticas econômicas, mas sobretudo epistemológicas. É tempo de despertar. O mundo mudou, ou mudamos com ele ou já era. Passou da hora. Passou da hora de aprendermos a assumir responsabilidades e andarmos com as próprias pernas, passou da hora de crescermos e virarmos adultos. Não há mais o que esperar. Já entramos na era da informação. Agora é hora de entramos na Idade da Consciência.

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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