A eleição de Trump prova: “Loucos somos nós”

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Foto: Luiz Alfredo/Museu da Loucura (1961)

Muitas pessoas mais conscientes estão chocadas, como alguém que assumiu abertamente sua misogenia, xenofobia e racismo possa ter se tornado comandante-em-chefe da maior potencia armada do mundo; não sem razão, portanto, muitas delas também estão com medo do ele possa fazer.

De fato se ele cumprir um décimo das promessas que fez, já será um desastre completo para o mundo. E observe que, sem nenhuma ironia, na qualidade de um presidente norte-americano tudo que ele precisa fazer para ser o vetor de um desastre é simplesmente não fazer nada, isto é, deixar que seu Estado-Nação apenas siga com a “normalidade” das suas políticas.

Contudo algumas pessoas já começam a tentar se conformar com a nova realidade e poder real. Começam a pensar nele como um político comum, afinal agora é oficial: ele é um político. E já dizem para si mesmas: “Não… ele não vai fazer nada disso… eram só promessas para ganhar a campanha, quem já viu algum político cumprir suas promessas?”

Talvez para se consolar e poder voltar a dormir tranquilas novamente, alienadas do problemas, repetem isso como um mantra para si mesmas: “Ele não é louco, deixa pra lá, ele não vai fazer nada disso.” Não, ele não é louco, louco somos nós que preferimos enterrar a cabeça cada vez mais fundo na nossa bunda a encarar uma realidade que não é mais silenciosa, mas gritante. Loucos (ou desonestos) somos nós, se preferirmos, agora só porque ele é o imperador, fazer como fez o chanceler brasileiro Serra, que está ficando meio senil, e portanto tendo aqueles arroubos de sinceridade que denunciam mais a ele mesmo que os outros: “ — Eu espero que não aconteça[que ele não faça o que prometeu]. De verdade. Nunca o treino é igual ao jogo.”

De fato a ideia de que os políticos são demagogos e nunca cumprem suas promessas é pela primeira vez reconfortante. Assim como dizem os norte-americanos o establishment não irá permitir que ninguém que adentre o sistema o transforme, pelo contrário, irá ser cooptado por ele. Só tem um problema com esse raciocínio: se você observar com cuidado verá que é muito mais fácil- não só aos agentes de Estado, mas a qualquer um- executar ações moralmente reprováveis e até criminosas, do que enfrentá-las e mais difícil ainda colocar em prática as ações moralmente esperadas e sonhadas mesmo quando se detém o poder.

Não, não estou sendo pessimista. O fato é que muito fácil destruir e sabotar do que produzir e criar. E embora possa haver ação construtiva que não dependa muito mais do que coragem; ou destrutivas que demanda um pouco mais de trabalho e até criatividade, em geral a grande maioria das ações que tememos precisa apenas de ignorância, obediência estupida e força bruta — e as vezes nem muita. Enquanto aquelas que queremos, ou precisamos, além de ousadia, exige uma quantidade de trabalho dedicado a inovação descomunal.

Tomem o exemplo da renda básica universal que Obama declarou que seria o assunto dos próximos 20 anos- pelo jeito não nos EUA, não nos próximos 4 ou 8 anos, ao menos no plano governamental. Imagine que ele tivesse assinado um decreto-lei (ao algo similar) instituindo uma renda básica para todos os americanos. Pronto? Ela estaria feita? Não. Primeiro porque a renda básica não é como fechar uma base em Cuba, ela demanda fora a sua formulação, a construção e sustentação do sistema que a colocará em prática de fato. E notem que mesmo o fechamento de uma base que supostamente dependeria apenas do cumprimento de uma ordem… por envolver tantos outros interesses também não é tão simples assim de ser executada.

O problema com os sonhos é que não basta deter o poder e decretar que se faça a luz. Alguém ainda vai ter que inventar a eletricidade, a lâmpada, os geradores e as redes de transmissão ou qualquer alternativa ou parecida, mas sobretudo o poder politico e econômico terá que estar verdadeiramente disposto a levar essa luz como rede para todos, senão ele, que quase nunca está, então a sociedade. E tanto um como o outro são ainda mais difíceis. Porque raras são as doenças fisiológicas ou psicopatológicas que nos tornam insensíveis ao dores e danos do nosso próprio organismo, mas muito comum e disseminadas sãos as afeções da nossa sensibilidade ao sofrimento alheio. Logo gente disposta a usar o poder público para seus interesses particulares nunca falta. Mas gente de fato preocupada com o mundo e sociedade com mais do que seus nariz e umbigo ou em fazer algo ao outro que não seja tomar-lhe o poder, isso é uma pessoa comum cada vez mais rara e difícil de se encontrar.

Por isso, quando alertei no Forum Social Mundial no Canadá sobre como responsabilidade social não está apartada do enfrentamento de ameaças como essa.

Como nós que nos achamos tão sensíveis e conscientes precisamos fazer e agir muito mais frente ao que inimigos da humanidade e humanismo estão fazendo, digamos que minha mensagem não fui tão recebido por todos. Todo mundo sabe que não sou chegado, em um ministro supremo, mas a verdade seja dita e reconhecida mesmo que venha deles. E a verdade é que a jurista brasileira Carmem Lúcia tem razão quando diz “precisamos um pouco mais da ousadia dos canalhas”. Um pouco não, agora vamos precisar de muito mais ainda para enfrentá-los na resistência.

Porque não há nada mais estupido, como provou o ministro britânico que assistiu a ascensão do nazistas, que esperar juízo, prudência ou boas ações de quem já se declarou, inclusive nas práticas da sua campanha, abertamente contrário a tudo isso.

Populistas não são políticos comuns, não são meros demagogos ou ladrões, são protótipos de tiranos — e que viram tiranos se puderem! Eles não descumprem todas suas promessas em troca de vantagem, há algumas promessas que se nós deixarmos, se deixarmos eles livres e soltos, eles vão mesmo cumprir. E certamente irão, pela mesma razão que os motiva e permitiu chegar aonde estão: são egos insaciáveis capazes portanto de tudo por mais poder e atenção, se não forem impedidos.

Felizmente, muito coisa que Trump propôs de destrutiva exige trabalho e soluções criativas. Como por exemplo a construção do muro, ou deportar absolutamente todos muçulmanos, e refugiados etc…Mas se há duas coisas que não devemos fazer com Trump é subestimá-lo e interpretá-lo literalmente. O que pode significar que ele não vai construir o muro, ou deportar todo mundo, mas não quer dizer que isso é necessariamente bom, porque as medidas que ele tomará para cumprir “figuradamente” essas promessas pode ser a expressão de uma realpolitik ainda mais monstruosa.

Esperar pelo melhor é uma coisa, acreditar piamente que não é tão ruim quanto parece é completamente outra. Ademais se o proverbio chinês de diz para esperar pelo melhor e se preparar pelo pior. Eu de digo que se pretendem enfrentar de olhos abertos e bater mesmo de frente com esse poder total que vai precisar de mais: Espere pelo pior e trabalhe pelo melhor.

Pois é a a vontade das pessoas de acreditar que tudo continua a normalidade, essa normose que constituirá a condições ideais de disseminação cada vez maior dessa outra afecção muito maior da pisque coletiva de uma nação e porque não dizer novamente de toda a humanidade: o culto violento ao absoluto.

Isso não quer dizer que o pior vai necessariamente acontecer. Mas como a eleição dos EUA prova por A +B : “shit happens”. Especialmente quando resolvemos dormir em meios as tempestades para ver se elas passam sozinhas, para ver se tudo volta ao “normal”. Para ver se esquecem de novo que isso também pode acontecer com eles. Como bem disse o alemão radicado nos EUA que publicou a carta que viralizou na internet : “Quando viajava para fora da Alemanha, perguntavam-me muitas vezes como é que o povo alemão tinha apoiado Hitler nos anos 30 e 40. Já não me perguntam isso nos últimos tempo”.

Trump pode realmente não fazer nada. Mas o que será preciso acontecer para que acordemos que isso não depende da boa vontade dele, mas sim da nossa insubmissão, voluntarismo, solidariedade e resistência?

Mas quem ainda leva a sério eles? Midia, academia que pensa e publica sob ordem e encomenda. A credibilidade deles que já era baixa derreteu de vez- deles e dos seus institutos de previsão e manipulação de opinião das massas. Obsolência total. Até o macaco adivinhador chinês está com mais crédito. E não é nem por ter acertado, mas por usar métodos mais honestos de “cobertura” e menos imparciais de “previsão”.

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http://istoe.com.br/macaco-chines-preve-que-trump-vencera-as-eleicoes/ (a única coisa divertida nessa eleição vai ser essa aristocracia repugnante que o rejeitou chupando o saco dele até cair porque agora ele é seu novo rei)

Por isso, não vou nem dar espaço aqui a esses argumentos reiteradamente falsos e desonestos, mas vou abrir um parênteses para um interessantíssima matéria de mea-culpa desse jornalismo:

(…) A eleição de Donald Trump foi um triunfo da democracia e uma derrota profunda dos meios de comunicação social.

Claro que Trump não é nenhum outsider. É um bilionário que sempre fez parte da ordem estabelecida, da elite que dá as ordens e manda na economia dos EUA. É um amigo de Hillary e Bill Clinton que só se tornou ex-amigo porque lhe deu na gana ser presidente dos EUA.

Agora é. Conseguiu o que queria. Há-de voltar as costas ao eleitorado que o elegeu logo que perceba que a única coisa que esse eleitorado tinha para lhe dar já foi dado: os votos de que ele precisava para ser eleito.

Já fez o elogio de Hillary Clinton. Já disse que vai representar todos os americanos. Vai-se tornar lentamente um republicano moderado e liberal. Os oportunistas têm sempre essa vantagem da metamorfose.

Trump ganhou contra grande parte do Partido Republicano mas foi graças a ele que o Partido Republicano manteve a maioria no Senado e no Congresso. Se Trump fosse o populista aventureiro que finge ser aproveitaria para minar o sistema político vigente, tirando partido do poder político pessoal que agora tem.

Mas não fará nada disso. O Partido Republicano tem agora tudo na mão.

Trump presidirá à complacência do poder político instalado, do poder recuperado das mãos de Obama. O velho sistema político será reforçado e os beneficiários serão os de sempre: os que menos precisam.

E os media? Que vamos nós fazer? Continuar em campanha? Continuar a enganarmo-nos e a enganar quem nos lê?

Mostrarmo-nos surpreendidos e atónitos não chega. Só revela o mau trabalho que fizemos. Dizer que foi um choque, que ninguém estava à espera só aponta para o mundo ilusório onde reside a nossa própria zona de conforto.

Não é Trump que tem de dar uma reviravolta. Somos nós. Trump ganhou porque foi eleito. Nós perdemos porque fomos derrotados pelos nossos próprios preconceitos e pelo excesso de zelo com que perseguimos a vitória de Hillary Clinton.

É um dia feliz para Donald Trump e para a maioria que o elegeu. Para nós é um dia triste e, do ponto de vista profissional, pelo menos para mim, vergonhoso. — matéria na integra abaixo.

Um raciocínio honesto, mas do qual eu discordo, pela mesma razão que eu discordo do nosso chanceler tão afeito ao lugar comum da política de descumprir suas promessas (até mesmo as assinadas por ele) com a população para poder lamber melhor o rabo dos seus donos: Diferente do eleitorado dele, o que Trump amealhou, ou pior despertou, não é do tipo que aceita muito bem traições. Não acha que vai lidar muito “civilizadamente” se ele proceder uma Clinton, principalmente agora que o proletariado branco e revoltado colocou tanto das suas expectativas algumas das mais violentas, nele.

É um faca de dois gumes. Trump tem o Senado, a câmara e a Casa Branca, mas também uma arma apontada contra sua cabeça, a mesma arma que ele usou para chegar ao poder: luta de classes, raças, credos e até de gênero. Ou melhor têm duas, porque o establishment que ele tanto criticou também não vai aceitar que ele não faça o que eles mandam. Como ele e os EUA vão sair dessa inteiros, sem inventar outra guerra como proporções suficientes para esconder e esquecer um problema deste tamanho… não sei e tenho quase certeza nem ele sabe.

Entretanto uma coisa é certa:

Quem tentou empurrar Hillary a todo custo risco e dano, mesmo o da (agora fato consumado) eleição de Trump, é tão psico e talvez até mais perigoso do que ele.

Que façamos justamente o oposto da velhas midias que julgando-se ainda onipotente como no século passado brincaram com o fogo e acabou completamente queimadas e mijadas. Que não sirvamos de massa de manobra, nem por causa da nossa presunção estupida; nem, pior, caímos por comodismo ou soberba nessa nova ordem, nessa nova ditadura da normalidade, ordem ainda mais absurda e banalizadora das mais monstruosas e desumanas ações. Não, não em troca da nosso comodo lugar comum nesse maldito status quo.

Que pelo contrário, que o choque de realidade sirva para revelar e despertar que Trump não encarnou um espirito que já não existia, nem pregou monstruosidades e atrocidades que já não estivessem sendo feitas de forma dissimulada e hipócrita pelo sistema que ele “prometeu” derrubar. Assim como não foram os nazistas a inventar o holocausto nem a eugenia, mas foram sim o ápice teratológico da construção desses estados-nações genocidas e totalitários ele pode não ter inventado, mas pode levar essa máquina destrutiva a fazer coisas que não queremos nem imaginar.

Devemos portanto estar alertas, muito alertas; e prontos para nos levantar imediatamente contra qualquer sinal que Trump não veio apenas com discursos, mas para completar esse ciclo do processo estadista que se diz civilizatório. Precisamos estar prontos para reagir e resistir se ele estiver mesmo em seus planos colocar em prática o que diz. Já o subestimaram uma vez e ele agora é presidente, não queiram nem ver o que será da estupidez de continuar persistindo neste erro. É preciso estar pronto caso ele tente levar novamente a outro nível de desumanidade esse nacionalismo mercantilista, colonialista e imperialista que segrega os povos e humanidades dentro e fora de seu território.

Talvez você esteja até pensando que se denuncias como essa tivesse sido publicada e disseminadas antes as coisas teriam sido diferentes. Até foram, mas mesmo que fossem mais ainda não teriam mudado as coisas. Não se esqueça da “lei de Godwin” que desqualifica qualquer pessoa que utilize os termos holocaustos, nazistas como se fosse um apelação contra o oponente e sempre um uso inapropriado da palavra. Como se algum povo tivesse o “monopólio” sobre os genocídios, ou jamais pudesse repetir o aparecimento dessa monstruosidade, apenas enfiando a cabeça no rabo para tapar olhos bocas e ouvidos. Se essa lei não foi pensada para proteger fascistas e nazistas enrustidos, serviu muito bem para que eles pudessem se proliferam sem correr o risco de serem identificados até que pudessem sair de novo dos seus armários. É preciso mudar esse ambiente toxico do pensamento e convivência que serve ao poder e não a liberdade. Do contrário será como podar a árvore para esperar que daqui a 50 anos ela volte a crescer de novo.

Por outro lado, é bom saber que muita gente que apoio Trump, não o fez por ele ser um supremacismo macho branco, cristão, mas sim porque ele soube cativar o espirito de descontentamento dos excluídos dessas maiorias, num pais que se tornou graças a desigualdade econômica promovida por uma elite financeira econômica. Mas até nisto o precedente histórico é alarmante! Inclusive entre simpatizantes do trumpismo fora dos EUA, é possível ver não só um crescimento alarmante da islamofobia mas do anti-semitismo. E não adianta fingir que não aconteceu nada demais: o fato é que a eleição de Trump deu um força perigosamente maior a todos os nacionalistas, racistas, xenófobos e extremistas… ocidentais.

Por isso como mais uma advertência em relação a Trump e principalmente a tudo que ele oficialmente agora pode representar encerrarei esse texto como uma narrativa que prova que o mal não tem chifres nem rabo, nem come criancinhas- ao menos não se não estiver escondido nas sacristias da vida. Esse mal, é educado, rico, bem informado, poderoso, comanda muitas pessoas, tem títulos e propriedades, é famoso, e acredita piamente que é uma pessoa melhor que as outras, um escolhido entre uma classe de escolhidos para governar os povos ignorantes e sempre que preciso for, isto é quando eles julgam que é, acabar com eles.

Ele não nada mais nada menos que uma pessoa “normal” dentro dessa maldita normalidade supremacista, racista segregacionista e escravagista. Por isso nunca devemos nos esquecer, nunca: as piores coisas feitas pela humanidade, desde a escravidão até os holocaustos não foram praticados por bandidinhos, mas pelas mais respeitadas e obedecidas autoridades máximas dessa nossa culturas de poder e culto a personalidades e autoridades , principalmente as da pátria e religião.

Escravidão exploração e genocídio foram e são praticadas e autorizadas não pelos marginalizados, mas pelos membros mais respeitados das sociedades e seus governantes. Quem são os loucos? As vítimas? Os psicopatas que as exterminam, ou nós que assistimos como gado a espera de nunca seremos nós mas sempre o outro que será abatido?

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Foto rara de Hitler treinando caras e bocas em frente aos espelho: nem sempre qualquer semelhança é mera coincidência. Isto não quer dizer que Trump seja nazista ou um Hitler, Trump é Trump, mas pertence a estirpe de populistas que se valem dos mesmos expedientes. Não sei quanto a você mas eu não estou a fim de pagar para ver até onde vão todas essas meras coincidências. Prefiro gritar lobo,logo.

A transcrição é só o prefácio de um livro de Daniela Arbex que não deveria ser ignorado por ninguém, principalmente no Brasil, e que serve de evidência a várias dos argumentos que apresentei: do quão falsa e hipócrita é nossa historia e realidade de normalidade e civilidade; e quão fácil é romper essa bolha e dominar essa sociedade do espetáculo até mesmo rindo da cara dela, quando não se tem absolutamente nenhum limite ou escrúpulo para tomar o que se quer — o que na ideologia dos supremacistas chama-se vencer, mas que na verdade para as pessoas comuns tem muitos outros nomes e consequências, um deles chama-se: holocausto.

“Estive hoje num campo de concentração nazista. Em lugar nenhum do mundo, presenciei uma tragédia como esta”. — psiquiatra italiano após visitar o manicômio de Colonia no Brasil (trecho do livro o Holocausto Brasileiro de Daniela Arbex)

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Enfim, segue o trecho do livro para quem ainda acha que estou exagerando mesmo depois de tudo… e sempre tem gente que acha que os outros estão exagerando não importa o que aconteça ou quanto elas chorem depois. Porém se você acha isso, peço que ignore tudo o que eu falei, mas por favor, não deixem de ler abaixo o prefácio de Elaine Brum para este livro de Arbex. Leia. E tire você mesmo suas próprias conclusões:

Prefácio — Os Loucos Somos Nós

Repórter luta contra o esquecimento. Transforma em palavra o que era silêncio. Faz memória. Neste livro, Daniela Arbex devolve nome, história e identidade àqueles que, até então, eram registrados como “Ignorados de tal”. Eram um não ser. Pela narrativa, eles retornam, como Maria de Jesus, internada porque se sentia triste, Antônio da Silva, porque era epilético. Ou ainda Antônio Gomes da Silva, sem diagnóstico, que ficou vinte e um dos trinta e quatro anos de internação mudo porque ninguém se lembrou de perguntar se ele falava.São sobreviventes de um holocausto que atravessou a maior parte do século XX, vivido no Colônia, como é chamado o maior hospício do Brasil, na cidade mineira de Barbacena. Como pessoas, não mais como corpos sem palavras, eles, que foram chamados de “doidos”, denunciam a loucura dos “normais”.

As palavras sofrem com a banalização. Quando abusadas pelo nosso despudor, são roubadas de sentido. Holocausto é uma palavra assim. Em geral, soa como exagero quando aplicada a algo além do assassinato em massa dos judeus pelos nazistas na Segunda Guerra. Neste livro, porém, seu uso é preciso. Terrivelmente preciso. Pelo menos 60 mil pessoas morreram entre os muros do Colônia. Tinham sido, a maioria, enfiadas nos vagões de um trem, internadas à força. Quando elas chegaram ao Colônia, suas cabeças foram raspadas, e as roupas, arrancadas. Perderam o nome, foram rebatizadas pelos funcionários, começaram e terminaram ali.

Cerca de 70% não tinham diagnóstico de doença mental. Eram epiléticos, alcoolistas, homossexuais, prostitutas, gente que se rebelava, gente que se tornara incômoda para alguém com mais poder. Eram meninas grávidas, violentadas por seus patrões, eram esposas confinadas para que o marido pudesse morar com a amante, eram filhas de fazendeiros as quais perderam a virgindade antes do casamento. Eram homens e mulheres que haviam extraviado seus documentos. Alguns eram apenas tímidos. Pelo menos trinta e três eram crianças. Homens, mulheres e crianças, às vezes, comiam ratos, bebiam esgoto ou urina, dormiam sobre capim, eram espancados e violados. Nas noites geladas da serra da Mantiqueira, eram atirados ao relento, nus ou cobertos apenas por trapos. Instintivamente faziam um círculo compacto, alternando os que ficavam no lado de fora e no de dentro, na tentativa de sobreviver. Alguns não alcançavam as manhãs.

Os pacientes do Colônia morriam de frio, de fome, de doença. Morriam também de choque. Em alguns dias, os eletrochoques eram tantos e tão fortes, que a sobrecarga derrubava a rede do município. Nos períodos de maior lotação, dezesseis pessoas morriam a cada dia. Morriam de tudo — e também de invisibilidade. Ao morrer, davam lucro. Entre 1969 e 1980, 1.853 corpos de pacientes do manicômio foram vendidos para dezessete faculdades de medicina do país, sem que ninguém questionasse. Quando houve excesso de cadáveres e o mercado encolheu, os corpos foram decompostos em ácido, no pátio do Colônia, na frente dos pacientes, para que as ossadas pudessem ser comercializadas. Nada se perdia, exceto a vida.

Pelo menos trinta bebês foram roubados de suas mães. As pacientes conseguiam proteger sua gravidez passando fezes sobre a barriga para não serem tocadas. Mas, logo depois do parto, os bebês eram tirados de seus braços e doados. Este foi o destino de Débora Aparecida Soares, nascida em 23 de agosto de 1984. Dez dias depois, foi adotada por uma funcionária do hospício. A cada aniversário, sua mãe, Sueli Aparecida Resende, epilética, perguntava a médicos e funcionários pela menina. E repetia: “Uma mãe nunca se esquece da filha”. Só muito mais tarde, depois de adulta, Débora descobriria sua origem. Ao empreender uma jornada em busca da mãe, alcançou a insanidade da engrenagem que destruiu suas vidas.

Esta é a história que Daniela Arbex desvela, documenta e transforma em memória, neste livro-reportagem fundamental. Ao expor a anatomia do sistema, a repórter ilumina um genocídio cometido, sistematicamente, pelo Estado brasileiro, com a conivência de médicos, de funcionários e também da sociedade.

É preciso perceber que nenhuma violação dos direitos humanos mais básicos se sustenta por tanto tempo sem a nossa omissão, menos ainda uma bárbara como esta. Em 1979, o psiquiatra italiano Franco Basaglia, pioneiro da luta pelo fim dos manicômios, esteve no Brasil e conheceu o Colônia. Em seguida, chamou uma coletiva de imprensa, na qual afirmou: “Estive hoje num campo de concentração nazista. Em lugar nenhum do mundo, presenciei uma tragédia como esta”(…).

Elanie Brum em Prefácio para Holocausto Brasileiro de Daniela Arbex, 2013.

Em tempo, o livro virou filme mesmo, trazendo a tona uma temática infelizmente mais atual do que nunca no Brasil e no mundo.

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Foto: Luiz Alfredo/Museu da Loucura (1961)

Detalhe o hospital continua aberto. No Brasil genocídios, escravidão, fascistas, ditaduras não se punem, se maquiam, se anistiam, se velam, banalizam e enfim se esquecem… para depois voltar e se homenagear como elogio a loucura sejam eles os Vargas ou os Ustras e afins.

A grande sacada do dominador brasileiro foi o mito da paz, da união, da preguiça, do pais sem guerras, sem revoluções, sem luta em permanente festa… para gringo ver e comer.

Pois é… mas se você pensava que é só no Brasil tem muito coisa escondida, crimes contra a humanidade empurrados para debaixo do tapete, escondidos no armário, ou insanos que adoram loucos, e loucuras prontas para voltar com toda a força, que a eleição dos EUA faça você pensar de novo… sobre aqui e lá… e todos os lugar do mundo onde caras-pálidas que se acham e arrogam os mais cheios de progresso e civilidade, armados até os dentes, predominam.

Referências:

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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