A capa da revista Alemã “Der Spiegel” e a dificuldade das pessoas de lerem atos e palavras

Em editorial também chamou Trump de “racista” e o acusou de estar a preparar um “golpe de cima” e desejar “minar o equilíbrio de poder”… de onde eles tiraram essas idéias absurdas?

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“O presidente dos EUA é um racista. Ele está tentando um golpe vindo de cima; ele deseja estabelecer uma democracia não-liberal, ou pior; ele deseja minar o equilíbrio de poder.” — trecho do editorial da revista, a primeira grande midia a denunciar sem meias-palavras o que Trump é e o que ele quer

As idiocracias são ditaduras sustentadas pela propaganda da iconolatria. O idiota contemporâneo não consegue conceber mais uma vida livre baseada na direito inalienável a autodeterminação e próprio-concepção, porque sua mente já não consegue mais ler e escrever o mundo senão intermediado pela imagem e representações de mundo.

Parafraseando Paulo Freire o idiota contemporâneo é acima de tudo um analfabeto do seu mundo. Um coitado que vive num mundo de fantasia aliadado de si mesmo e de seu próprio mundo pela sua incapacidade de construir uma narrativa própria, ou até mesmo de construir uma imagem de mundo que não seja a ele dada pronta já como representação e interpretação do outro.

O idiota contemporâneo não é meramente um ser alienado politico e econômica e culturalmente, ele é um ser alienado pré-conceitualmente. Um repetidor de dados processados incapaz de processar de forma independente seus sentimentos e informações. Não é um individuo, mas o membro de uma colmeia que responde por reflexo condicionada as imagem.

O choque provocado pela capa da revista alemã Der Spiegel prova isso.

O que incomoda na capa alemã é o que não incomoda na capa inglesa. A caricatura de Trump é muito mais realista. Trump não é um insurgente anti-sistema é um extremista autoritário com taras de ditador. E que só não há de se tornar um por vocação da contracultura americana e não dele ou de seus tropas e fanáticos.

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As pessoas se impressionam e chocam mais com as representações do que com a realidade. Não é a toa que obras e artistas satíricos sejam considerados mais ofensivos que os atos. E o povo a imagem e semelhança dos reis prefira contar a cabeça dos mensageiros do que receber a noticia de que estão decapitando as suas.

A representação iconográfica de Trump cortando a cabeça da liberdade como se fosse um terrorista, provocou mais choque e até protestos do que as próprias ações do terrorismo de estado de Trump. No editorial a revista não deixa por menos e afirma categoricamente que “Trump é um racista” com pretensões autocráticas e que pretende implementar uma democracia não-liberal. (Nota: Para quem não sabe o que isso quer dizer em palavras é uma “ditadura da maioria” e para quem não sabe como funciona é só olhar para Venezuela. Trocando em miúdos uma Venezuela de direita, com uma diferença singela: os EUA já é o maior império militar e econômico do Planeta, capaz portanto de “minar o equilíbrio [internacional] de poder”.

Não duvido da máxima de que uma imagem vale por mim palavras. Mas e um ato vale por quantos milhões de imagens? Como pode ser mais chocante ou até mesmo ofensiva a capa da revista do que os próprios atos de Trump? Como as pessoas podem se chocar mais com um desenho, do que com o próprio ato que ele alude? E o que é pior no caso, com precisão. Trump está literalmente contando as liberdades, o estado de direito na America pela cabeça. Como pode um editorial causar mais que seus atos? Aliás esse não é o maior absurdo que estado de letargia é esse que a maioria das pessoas precisa de choques de iconoclásticos para levemente despertar? Que mentalidade é esse que só reage a representação dos signos e símbolos sem capacidade mais de trabalhos, conectados por conta para processar de forma independente a realidade?

Imagem não é nada, sede é tudo, OBEDEÇA sua sede, BEBA SPRITE

É triste e patético a humanidade ficou analfabeta do mundo. Não conseguimos mas ler, e nem entender a realidade. Nem mesmo quando os próprios ilusionistas brincam descaradamente com palavras com a idiotia iconoclasta dos idiotas, o alienado consegue perceber o risco que corre.

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Trump cheira a merda, tem consistência de merda, parece com merda, fala merda e faz merda, mas as pessoas só sente o cheiro da merda, só entende que estão comendo merda que alguém faz um desenho para elas, de preferencia com um meme. Mas se o fluxo de imagem se interrompe, se o bombardeio da propaganda para imediatamente o idiota contemporâneo volta para seu estado de normalidade enfia o dedo de novo na bosta e experimenta com gosto, “mas será mesmo que não é chocolate?” É lógico que é merda, mas não fala nem mostra que eu perco o apetite.

O pessoal da comédia South Park mais consciente da realidade que a maioria das pessoas comuns (como geralmente é quase todos os comediantes) sabiamente sacaram intuitivamente a inversão de papeis que passariam a desempenhar fazendo humor num mundo onde o absurdo saiu das sombra e deixa deixando de ser uma ameaça fantasma para ser o prenuncio de monstruosidades que não tem graça nenhuma. Ou melhor tem mais o humor já não desempenharia mais o papel de denunciar o ridículo e absurdo e monstruoso, mas servia perversamente para fazer o oposto amenizar a perversidade e humanizar desumanidades.

Imagens, palavras e atos tudo está repleto significado e significância que pode ser aprendida e lida e conectada. Nossa capacidade para representar o mundo, aquilo que homem das caverna descobriu, o pensamento simbólico foi uma das mais importantes ferramentas da evolução da humanidade, que permitiu que ele compreende-se a existência de todos os fenômenos invisíveis a sensibilidade, ampliando sua compreensão não mais só as percepções imediatas, mas as já passadas e futuras projetadas.

O signo que outrora foi a invenção mais importante da humanidade, mais importante que o fogo. O instrumento da sua libertação, o verdadeiro fogo de prometeu, hoje é não passa da luz da projeção nas paredes do arcabouço da sua mente, transformada em caverna e prisão.

Hoje somos programados e controlados por signos e sinais. E o que fora o instrumento para a construção do nossos ideais se tornou o código matrix da nossa dominação imbecilizante.

Estamos sempre “perplexos”, “bestificados”, “surpresos”. A capa da Der Spiegel e a foto do menino nos causam mais choque que a dor do outro que morre todos os dias ao nosso lado. A monstruosidade do outro virou masturbação coletiva. E a arte perdeu o seu poder de libertação. Perdeu o seu poder de revelar quem alimenta o egregora do qual Trump é só a representação. A arte não é mais espelho, porque não conseguimos ver nem sentir nem mais a nossa condição humana apodrecendo junto com a natureza e a humanidade. Estamos desconectados de nós mesmos. Desligados do mundo. Estamos presos como Alice num labirinto de espelhos.

Perdemos a capacidade de significar e re-significar nossa própria essência para além das imagens e representações. Somos o simulacros de nós mesmos, incapazes de olhar para o abismo porque no intimo sabemos que o abismo sempre olha de volta para você.

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De qualquer forma, rindo ou sério, não é fácil olhar e não se calar…

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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