3 coisas que aprendi (e que me atormentam) pedindo por Renda Básica como um mendigo institucional

Ou outra lições advindas da experiencia da Renda Básica mas não exatamente de Quatinga Velho

Um mendigo institucional é aquele que preside uma instituição mendicante, uma ONG que sem fundos ou capital tenta realizar seu trabalho social sem prostituir sua a razão social, seja se vendendo para limpar a imagem de empresas sujas, seja recebendo dinheiro sujo da política ou partidos. Ou seja, no Brasil, uma organização que vive salvo raríssimas exceções, senão da “doação” motivada por incentivos fiscais, da doação motivada por solidariedade ou responsabilidade ou afinidade com a causa social. A gigantesca maioria incluindo as informações sobrevive assim e quase sempre da doação de pessoas físicas, sendo que o grosso do montante é colocado por seus próprios membros que não recebem mas literalmente pagam para trabalhar voluntariamente.

Porém o fato de não ser uma associação comunitária de base, ou seja de pobre para pobre, mas pessoas oriundas da classe média que desertaram para a pobres, colocou a gente em situações absolutamente inusitadas, porque ao mesmo tempo que moravam numa comunidade onde os agentes públicos se achavam no direito de entrar nas casas das pessoas sem pedir autorização, no outro lado, as vezes no mesmo dia fazíamos reuniões na Paulista e Faria Lima com associações patronais e de investidores do mercado financeiro. Por óbvio que nenhum deles nos tomava por seus pares, mas também não eramos na visão deles os “pedintes”, os nem os “pobres” que moram na periferia a reclamar ou “mendigar” sua ajuda. Isso criou nos deu alguns dialógos insólitos.

Historinha 1: Porque a ração do Dória não me surpreende

O primeiro deles que nunca contei porque não era verossímil, ao menos não a quem não lida com esses tipos. Ou seja parece mentira, mas não é. Ou pelo menos ninguém acreditaria antes do Doria ter dado um exemplo claro de como funciona a cabeça deles. Essa conversa foi em uma entidade patronal não sei se era a FIESP ou outra, sinceramente não me lembro, nem do nome, de uma nem de outra porque fiz questão de apagar até a imagem do elemento da minha memória. Esse elemento depois de ouvir a ladainha básica sobre a renda básica e o projeto de Quatinga Velho. Disse para nós: uma única palavra. “Pombos”. Fizemos cara de intrigados. E ele repetiu, “sim pombos”. Com aquele ar de quem estava contando que já havia descoberto a America faz tempo. Eles sujavam tudo, traziam doenças. Em suma para encurtar a história, deveríamos não dar renda básica mas pombos para “essa gente” comer. Matava 2 coelhos com uma cajada só. Achei que ele estava tirando um sarro, da nossa cara, dizendo alguma coisa absurda porque a renda básica soava absurdo para ele, e entrei na “brincadeira”, e devolvi a ironia. Falei que pombo era até uma iguaria em alguns restaurantes caros na França, que melhor eram ratos que inclusive na Africa em algumas regiões pessoas desesperadas com a carestia já estavam comendo. E então ele se ofendeu. Ficou alterado. Chamou o infeliz do funcionário (um amigo) que tinha trazido aqueles moleques para tomar o precioso tempo dele. Enfim, resumo era sério, Pombos, ratos, comida estragada, lixo. Por isso não me surpreendi com a a lógica humanitária do sinhozinho Dória Jr.

Historinha 2: “Todo mundo sabia…” a grande questão é: como é que ficaram sabendo e porque é que não contaram

Numa outra reunião com Grande Investidores de uma butique de capitais. Também intermediada claro por um amigo tive uma reunião, que uma pessoa mais sincera e muito melhor resolvida inclusive consigo mesma. Ele também ouviu a ladainha, mas prestou mais atenção. No final, concordou e disse que não colocaria um centavo no projeto por 2 razões muito simples: A primeira que preferia doar para crianças com câncer — justo. A segunda, porque esse projeto não era de caridade, mas político e econômico e que estava mexendo com projeto de gente poderosa: o bolsa-família, a única coisa que iamos conseguir, era morrer cedo. Não não foi uma ameaça. Ele não pertencia ao “grupo” logo foi de fato um conselho. Mas mesmo não pertencendo ao grupo ele sabia perfeitamente como funcionava : o que a renda básica poderia fazer, o quanto ela poderia mudar as coisas, e exatamente o quanto ela incomodava. Causas e consequências. Hoje é bunda, mas naquele época, a não muito tempo atrás, nem todo mundo sabia disso, e quem sabia não falava até porque só aumentava ainda mais os riscos da previsão. O que ele não sabia é que nós também já sabíamos isso, e sabíamos porque havíamos descoberto da pior das formas… o que deixou com uma eterna dúvida que nunca mais sentei numa mesa com ele para poder perguntar: ele falava com a certeza daqueles que ou vivenciaram ou testemunham na própria pele, mas suponho pelo pragmatismo com que jogava o jogo não era assim que tinha adquirido tamanha certeza, como teria sido então?

Historinha 3: A força do hábito…

Essa não me lembro quem era, não era um amigo. Sei que estavamos de carona no carro de banco de couro de vidros devidamente blindados indo para uma reunião em outro banco ou escritório. Não importa. Lembro-me dele ter parado no sinal, talvez gostasse de guiar não sei, não tinha motorista, então mantinha um conversa sem pudores de como lidar com as classes subalternas dos empregados. Porque a renda básica era ruim para a disciplina e educação… porque empregados não podem comer com patrões e coisas do tipo… Confesso que já estava em off, só de como corpo presente como aprendi em 20 anos de escola. Era um farol longo e um adulto veio bater na janela e pedir uns trocados. Sei que ficava melhor para história uma daquelas crianças fazendo malabares, mas naquele periodo lá por 2012, verdade seja dita de bolsa-família e bolsa-escola, não haviam mais tantos como antes, e como voltei a ver já em 2015. Então se não me falha a memória era um homem adulto mesmo só mendigando. Foi nesse ponto que ele aproveitou a “circunstancia” para reforçar seu discurso:

Tá vendo? — disse ele, mas não tava vendo porra nenhuma, porque lembrando estava desligado. “Tá vendo é como eu disse…” acho que ele percebeu que eu estava cagando e andando para o que ele estava falando e resolveu enfatizar sua aula fazendo uma pergunta retórica: Sabe porque eu não dou nada, nem que mesmo um único centavo? É porque isso degenera não só quem recebe, mas quem dá! Ele não vai parar nunca de pedir. E eu — e aqui vem a moral da história dele- e eu se tivesse o habito de dar não teria o que tenho!!!

Sua lógica, era infalível e mortal. De fato, eu então a época como professor no Terceiro Setor estava familiarizado com os estudos que comprovam o que ele estava dizendo: quem mais doa proporcionalmente e por classes até absolutamente é quem menos tem. Isso eram dados. Mas não precisava deles para perceber. Isso era gritante no cotidiano que eu vivia. Lembrei-me imediatamente dos finais de semana em Paranapiacaba quando os turistas, em geral a “burguesia” do ABC paulista, vinham para aproveitar a vista dessa favela histórica e era então a minha casa, e aproveitam para abandonar seus filhotes sem raça e até de raça mas velhos, porque sabiam, como eu sabia porque via, que em casa de pobre sempre cabe mais um, mesmo quando eles já não tem nem para eles. Como diria o outro, 2 coelhos com uma pancada só.

Lembrei-me que uma das grandes dificuldades dos assistentes sociais para trazer moradores de rua, para abrigo ou tratamento era que eles teriam que abandonar o único animal que não os abandona e nem tratava como lixo, ou com lixo. Mas economicamente a lógica daquele homem era a constatação de um fato: os pobres se tornavam cada vez mais pobres, porque abriam suas portas e janelas, e os ricos cada vez mais ricos, porque as fechavam para não ter que ver, nem compartilhar nada. A única diferença é que aquele homem estava ciente embora não consciente das razões da pobreza e riqueza. Não fingia, nem se conformava, mas fazia apologia dela para todos os públicos. Hoje não sei afinal esse tipo de pudor desapareceu, e não foi crianças pedintes que voltamos a ver nas ruas.

Por isso, não me surpreendeu nem um pouco ao ver Bangladesh um dos países mais pobres e destruídos do mundo, um lugar onde em Daka vi favelas construídas em palafitas não as margens de rios tão poluídos como o Tiete, mas dentro desses rios… não me surpreende em ver Bangladesh- que não tem nenhum governo que seja exemplo de democracia, muito pelo contrário onde soldados do exército patrulham as ruas- não me surpreende em ver os bengalis a receber quase meio Milhão de refugiados, enquanto países mais ricos do mundo, fecham suas portas e fronteiras mesmo sabendo que isso é uma sentença de morte. Não. Não me surpreende nem a insolidariedade dos que tudo tem, nem a solidariedade dos que não tem quase nada.

Em Roma, depois de fugir do Brasil, por causa do projeto, iamos a uma Lan house, todos dias, buscando encontrar um lugar para ficar. Dinheiro contado, acabando. Já estamos magros e sujos. Foi então que o dono da Lan House, veio falar conosco, talvez uma desculpa para nos pagar um pão e um café. Conversamos um pouco e ele disse que podeira arrumar um quarto para nós ficarmos, numa casa de imigrante peruano, junto com bengalis, chineses e polonês, dentro daquele valores que podíamos pagar. No caminho ele explicara para nós, quase como se desculpando, que não tinha oferecido porque não imaginava que conhecerá outros brasileiros que vinham a sua Lan House, e que não imagina que havia nós (brasileiros) “suportassem” viver nas mesmas condições que eles (bengalis) ou (chineses), ou algo parecido. Sim ele era bengali. E coincidentemente trabalhado com microcrédito no Grammen Bank, uma das primeiras referencias para a construção do projeto de Renda Básica.

É dele que guardo a doação mais valiosa que recebi. Doação não, presente, porque não foi para o ReCivitas uma carteira, para que pudessemos encher e cumprir nossa missão. Não preciso dizer que a carteira estava vazia. Ou melhor vazia, aos olhos de um. E mais cheia de valores e importâncias do que qualquer outra que um dia já tive.

Então não surpreende noticias como essa:

Mas não é porque eu perdi a capacidade de me surpreender que vou perder junto a capacidade de me indignar. Porque todas as liberdades, mesmo as mais fundamentais que não deveriam podem ser roubadas e destruídas e o são sistematicamente. Todas menos uma, e apenas porque não está nem nunca estará ao alcance do assassino e ladrão. A dignidade, a liberdade fundamental que é a mãe de todas as outras libertadas e libertações dos homens. Ou numa linguagem teológica da “santíssima-trindade” é o “espirito santo”. O espirito de liberdade, que faz dos homens encarcerados, livres. E dos soltos prisioneiros dos desejos, e taras, suas e dos outros. Dignidade. A forma primordial que dá concretude a toda matéria com substancia propriedade e força de vontade em si. Que move a si e ao mundo e não é movido que distingue os seres vivos das pedras. Ou mais precisamente que fazem até de pedras se elas tivessem ou na medida que tem essa vontade própria seres vivos. Tão vivos a autônomos não quanto tem a sua disposição para poder se mover, mas quanto tem de disposição de se mover, ainda que não possam, ou que tenham que se enfrentar tudo e todos que as impedem. Em suma numa única palavra dignidade. Sem ela nem mesmo o mais rico e abençoada das pessoas ou países do mundo, deixa de ser pobre ainda que dormindo em berço esplendido.

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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