Ética

Obrigado, pelas palavras amáveis. Eu acho que você disse tudo sobre a questão. E disse tudo em uma única palavra: Ética. Sem ethos como logos toda potencia das pessoas incluso o saber se tornam forças patológicas completamente prisioneiras do seu próprio pathos. Não as governam, e logo não se governam, mas são por ele governadas e logo por quem quer que seja capaz de manipular tanto as paixões mais pessoais e particulares quanto os sentimentos e instintos gregários das pessoas como se fosse uma massa. Uma massa amorfa e servil de impotentes regida pela inconsciência coletiva desse pathos e não pela principio libertador da sua própria consciência que constitui esse singular fenômeno do livre pensamento e comportamento, da autodeterminação dos seres dotados de livre vontade, chamado ética.

Não é que a liberdade humana precise da ética como freio para ser exercida com responsabilidade. É mais. É justamente o contrário: a liberdade humana simplesmente não existe sem a sua ética pela mesmo fato e razão que sem mente não há possibilidade do fenômeno do pensamento. Sem ethos não há possibilidade do exercício da liberdade, porque liberdade sem ethos, não é liberdade é poder e violência.

A ética não é portanto freio, é o próprio corpo constituinte da liberdade que não delimita a sua extensão, mas a constitui concretamente a própria antítese da violência e poder. Liberdade reduzida e confundida como o mero exercício primitivo do poder, como o mero fazer o que eu faço simplesmente porque desejo e posso não é liberdade mas elo da corrente da prisão da ignorância que é o pai da alienação.

Liberdade como poder é uma noção — e condição — não só extremamente primitiva e miserável de liberdade, mas efêmera e vulnerável. É desnaturada e desumanizante. Degeneradora e desumanizante não só daquele que padece dessa condição patológica porque miseravelmente privado da possibilidade desenvolver sua vocação humana ao ethos, mas também daquele que padece desse mesmo mal da falta desse ethos e desenvolvimento humano por corrupção da liberdade como privilégio e poder, ou o que a mesma a falta e vulnerabilidade da sua própria liberdade enquanto ética.

A vontade é a força que dá forma e concretude a liberdade como realidade e propriedade, a começar do própria corpo e mente que são a manifestação física e biológica desse fenômeno que vai das formas existenciais mais simples as mais complexas, as vivas e inteligentes até chegar as conscientes. A condição ou mais precisamente a vocação que caracteriza aquilo que consideramos nossa essência e diferencial: a humanidade. Essa vontade de ser que se traduz e que evolui ao longo de gerações como capacidade inata para ser, a vocação humana para o ethos. Esse fenômeno do pensamento consciente é literalmente mais do que o produto do livre vontade é livre pensamento, é o produto do pensamento e vontade que ao tomar ciência da sua liberdade, passa a buscá-la como sentido concreto de sua existência e forma. De tal modo que a força elementar, a força de vontade e vocação que constitui o universo e o ser humano não é mais só a vontade por conhecer ou realizar suas vontades e paixões, mas a vontade, a paixão de constituir-se ainda mais como ser livre que não é governado pela suas vontades e paixões, mas as governa na medida que toma ciência e controle próprio sobre as mesmas.

Um grau de liberdade que não nasce nem se preserva sem o ethos gerado por essa consciência, e que inevitavelmente se degenera quando novamente a liberdade é reduzida a condição patológica do poder, e a ética a meros pesos e contrapesos do exercícios dessa mentalidade teratológica e humanamente degenerada em doutrinas, ideologias, mitos, ídolos mandamentos e leis baseadas em prêmios e punições, medos e promessas, regulação da sua carestia e satisfação dos prazeres. Uma condição desumanizante que serve a pessoas patologicamente frustradas e destituídas não só de consciência ou ética mas amputadas de seus instintos mais solidários e gregários mais simples sem os quais não somos capazes de conceber a liberdade como fenômeno vital e portanto direito natural igual de todos seres a ter a própria vida, mas meramente uma condição ou coisa a se ter ou ou não ter. Dar ou tomar como rei, juiz ou dono, quando de fato não lhe pertence sob nenhuma forma de concepção.

Muita gente compreende a ética como se fosse esse arcabouço da liberdade. essa doutrinação autoritária e fundamentalista que é na verdade a impostora e repressora da verdadeira ética que emerge naturalmente como vocação humana onde os instintos solidários e gregários não são mutilados ou manipulados patologicamente por quem já teve os seus há muito tempo destruídos ou perdidos. O ser humano ao contrário dos outros animais não consegue simplesmente viver simplesmente satisfazendo suas necessidades e paixões. E se observarmos com atenção veremos que em menor proporção nem mesmos os bichos. Quanto maior a complexidade da forma de vida, maior a necessidade inerente de dar sentido ou significado, motivação e razão outros além da mera preservação da sua vida ou forma. De modo que mesmo o sociopata ou estatopata, ele precisa dar sentido, precisa racionalizar os seus atos por mais monstruosos que sejam. De tal modo que mesmo aquele ser humano que é prisioneiro das suas manias e compulsões de ter e poder, inclusive outros seres vivos ou humanos a revelia da sua liberdade, mesmo os mais completamente insensíveis a seus sofrimentos e privações e condição alheia que mal conseguem ver o outro senão como o coisa ou de suas concepções e fantasias. Mesmo esses não conseguem se contentar em apenas fazer o querem porque querem e podem com outros, eles precisam construir um sistema de valores por mais corrupto adulterado e degenerado para aplacar o vazio existencial da sua própria condição. Uma antiética que não só justifique, mas que torne a sua incapacidade uma qualidade e permita não apenas perpetuar a ditadura doentia daqueles que governam os outros pelos pathos, mas manter e reproduzir sua cultura mutilando e amputando a sensibilidade de todos para que ninguém desenvolva sua própria visão e consequentemente qualquer comportamento ético, isto governado por seus valores voluntários e não impostos por impostores.

Os prisioneiros de suas vontades de ter e poder, não conseguem preenchem o vazio existencial da falta de autoafirmação, identidade e soberania só controlando a vida alheia, seu ego desgovernado precisa de mais. Não se satisfaz apenas realizando desejos e vontades ou controlando a vida alheia. Esse ego não consegue tolerar, coexistir como nada que não possa tomar controlar ou possuir. Simplesmente não consegue suportar do ethos que eles não tem nem podem expropriar dos outros. Precisam tapar a visão e furar os olhos -de preferencia desde de pequenos -para que ninguém veja o que eles por cegueira nas sombras e porões do poder- ou por ter tido também os olhos furados- já não conseguem mais ver nem sentir.

Há mais particularidades nesse processo de normalização e normatização dos comportamentos desumanos e antissociais como se fossem naturais e éticos. Mas você matou a questão da dominação das vítimas que já não mais reagem seja porque anestesiadas, seja porque impotentes, seja porque alienadas. A ética. Tanto a falta ou precariedade que nos torna presas e prisioneiros das vontades e desejos incluso os alheios. Quanto a presença de uma falsa ética no no lugar da verdadeira, que ao invés de estar natural e humanamente estabelecida a parir de valores baseados nossos instintivos gregários e solidários que nascem e crescem conosco porque são inatos são dependem da imposição de “fundamentos” que substituem esses valores. O fundamentalismo que não é propriamente uma ideologia, mas a caixa onde está preconcepções são guardadas. A mentalidade fundamentalista que tem por sagrado não os fenômenos, mas as abstrações das suas representações e mitos de autoridades. A mal dos males. O antiética do pathos por definição. Uma degeneração tão monstruosa da capacidade do ser humano de conceber princípios e códigos de comportamento e conduta que se o mandamento “não mataras” fosse escrito ou simplesmente lido por aquele que é responsável por traduzi-lo, copiá-lo ou interpretá-lo como o oposto como o “matarás quem deus mandar” o crente ou fiel fundamentalista obedeceria a ordem desse psicopata como obedece as demais, como se fosse um esquizofrênico comandado por vozes que não são as suas. Na verdade uma patologia que não está restrita ao pensamento religioso mas a qual todas as formas e campos de pensamento estão sujeitos. Pois sejam leis ou mandamentos, sejam escrituras sagradas ou cartas magnas de países, a bíblia ou a constituição, seja qual for a origem e procedência dos códigos de conduta e valores, derivados de profissão de ideologia ou credo religioso, estatal, ou mesmo filosófico ou científica, eles estão corrompidos e viciados se a verdade fidelidade e autoridade estiver no código, nas escrituras, na letra morta, e não na consciência, na palavra viva, do ethos e ética de quem tem como valor basilar não as concepções mandamentos e julgamentos em respeito a vida, mas sim na própria vida como o fenômeno e não nas abstrações e inferências feitas sobre ou a partir dela. De tal modo que aquele que não mata, não o faz porque está prescrito, mas sim porque tem o valor que dá a vida e não as prescrições como o valor basilar da suas condutas que não são independentes dos códigos de ética, são sua fonte tanto da conduto quanto desses códigos. Códigos portanto que sendo a ética verdadeira enquanto prática não produzem a conduta, mas sim as descrevem e conceitualizam, exatamente como o própria valorização da vida, que não advém da concepção ou adesão a ideias ou ideologias mas sim estes da sensibilidade e consequentemente noção que o ser possui da vida.

A ética, enquanto comportamento não é produto do código, mas tanto o código quanto o comportamento o produto dessa mentalidade que não toma o conceito, codificado ou não como verdade, mas sim a realidade, a qual esse conceito faz referência como fonte de veracidade ou não a sua própria consciência dessa realidade . Não sendo portanto o escrito nada além do que um intermediário um mapa que facilita e ajuda, mas que sem o qual também se poderia encontrar e chegar aos mesmos lugares, e chegando corrigi-los no que estiverem errados ou imprecisos.

O ser vazio ou esvaziado de fato ético na prática e consciência, na razão e sentimentos, o ser anestesiado mutilado no desenvolvimento da sua liberdade como responsabilidade, o desenvolvimento do seu ser ético, ou do simplesmente do seu ethos, não está só vulnerável ou propenso só a desenvolver comportamentos e condutas violentos e violadores egoístas e possessivos sem nenhum princípios ou respeito a vida liberdade ou propriedade que não lhe pertence ou não pertence só a ele. A ver tudo como seus direitos e obrigações alheias, e nada como responsabilidades suas ou direitos dos outros. Ele está vulnerável ou propenso a conceber e aderir a códigos de condutas que racionalizem e justifiquem sua forma de ser e pensar e ver o mundo e os outros. Se será um bandido comum ou um tirano isso vai depender da sua capacidade de manipular e violar que é diretamente proporcional aos demais de não serem manipulados e enfrentar as violações. Ou seja, será determinado pelo quão forte é este ethos em contraposição a mentalidade fundamentalista. Se o fundamentalismo é o que prevalece a ética sempre estará submetida ao poder da autoridade que a dita ou interpreta, de modo que ao invés de controlar e guiar as ações de quem detém a potencia a capacidade ou o poder, sempre será subvertida e submetida a ele. E não há como a antiética e corrupção não prevalecer nesse processo, porque a ética e a correção já foram derrubas e adulteradas no principio constituinte da desigualdade de poder e autoridades: a ethos a ética da liberdade já foi substituída pela antiética do pathos, a vontade de poder.

O homem já se autoproclamou e aceitou o homem como juiz não só dos outros homens, mas de todos os seres vivos, sob os quais não tem direito nem de posse, mando nem de julgamento. Tomou como valor primeiro não a ética, mas o seu credo no poder e suposto direito de supremacia sobre tudo o mais que também é vivo e livre a começar pelos outros homens. Quando diz que a vida e a liberdade devem ser respeitadas não o faz por reconhecer que não tem direitos de propriedade, jurisdição ou soberania sobre a vida e liberdades dos demais, o faz mesmo sem um trono como tirano ou deus decretando verdade ou falsidade sobre o que rigorosamente não lhe compete fazer juízo ou dispor!

A ética versa sobre responsabilidades voluntárias e não da intervenção a força na vida alheia, que sendo uma vez também governada por princípios éticos e não pelo culto ao monopólio ou supremacia da violência e poder estão restritas somente aos princípios jusnaturais da legítima defesa. Seus princípios não são determinados pela autoridade nem alheia que pretende impor, nem a nossa, mas sim por valores, deveres responsabilidades que se traduzem em atos comportamentos e posições que não derivam de juízos, concepções ou ideologias, mas justamente dessa condição humana que constitui o seu ethos através da consciência que vida, liberdade e natureza não são credos, valores ou ideais que estão acima de outros, são fenômenos reais sem os quais não há como sequer conceber quanto mais ter esses outros credos e valores. É como dizer que o que está sendo dito tem mais valor que a palavra, quando que sem ela, o que está sendo dito não tem nem sentido, é barulho feito com a boca, ou rabisco no chão.

Então concordo plenamente com você. Você matou a questão quando colocou nos termos devidos: ética. No dia que o ser humano não achar mais um deus ou super-homem e não for mais governado como massa por superegos e inconscientes coletivos, mas por sua consciência e “super-ética”. No dia em que a ética não for um produto da concepção ou adesão de ideologias política religiosa econômicas filosóficas ou cientificas, mas for um valor supra-ideológico independente de concepções ou preconcepções; no dia que o respeito a vida e liberdade for um valor inquestionável não porque se veta o questionamento, mas porque, finalmente, se questionou o próprio direito de quem se julga como autoridade para por em questão a vida e liberdade alheia; para qualificar ou desqualificar, dar ou tomar, dispor de seres e coisas que não pertencem senão a eles próprios. Nesse dia então teremos o ser humano e a humanidade que com tanta sinceridade e solidariedade você clamou por. Teremos homens que não se considera um ser supremo, todo poderoso, com direito sobrenaturais sobre a terra, os seres vivos, e outros homens, mas simplesmente um ser humano que reconhece direitos e assume deveres não pelos poderes que se atribui, mas pelos poderes que reconhecem que não tem, ou pelo menos não os tem senão em igualdade com os outros, ou em outras palavras, que não se impõe ou se omite pelos juízos e julgamentos e concepções que faz dos seres e pessoas, mas rege sua conduta pelo intrínseco a liberdades tanto como direitos como quanto seus deveres que possui.

Pode parecer que quando não nos achamos dono de tudo e todos nossos deveres para os outros desaparecem. Muito pelo contrário quando compreendemos o quanto tudo e todos também tem direitos a vida e liberdade independente do nosso juízo, mas na exata medida da demanda natural das suas necessidades vitais e ambientais, nossos deveres de respeito a esse direito a vida se torna muito mais proativos, na verdade nos tornamos tão mais ético na exata medida de não julgamos que temos o poder para impor omitir ou transferir essas responsabilidades, ou seus custos aos demais. Tão mais éticos quanto menos achamos que somos senhores para impor obrigações aos outros, ou impotentes para resistir a essas imposições conformados para não questioná-las. Tão mais éticos quanto mais livres e responsáveis somos e podemos ser para poder prover, proteger e defender vidas e liberdades não só as nossas mas dos demais. E querendo ou não, sempre colheremos os frutos seja das ações ou omissões.

Mais uma vez obrigado pelas considerações. E parabéns tanto pelas observações quanto pela abordagem, e sobretudo pela proposta de uma ética global. Espero que mais pessoas se interessem por refletir sobre esse proposta e temática.

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X-Textos: Não recomendado para menores de idade e adultos com baixa tolerância a contrariedade, críticas e decepções de expectativas. Contém spoilers da vida.

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